sábado, 16 de setembro de 2023

VIVA OS GORDOS

No fundo de um corredor estreito e escuro, há uma enorme tela cobrindo quase toda a parede. De longe dá para perceber que se trata de uma pera. Só chegando mais perto é que vemos uma minhoquinha saindo da fruta e sorrindo para o espectador. Foi graças a este quadro, que eu não lembro como se chama nem encontrei na internet, que eu me encantei por Fernando Botero. Era a primeira das minhas três visitas a Bogotá, e eu estava no Museu Nacional da Colômbia, uma antiga penitenciária, que tem muitas obras de Botero. Não foram só as formas arredondadas que me seduziram, mas também o clima de tranquilidade que o artista transmitia em tudo o que fazia. Fosse uma família rechonchuda onde até o gato é gordo, um cardeal passeando de sombrinha à beira do lago ou mesmo um ladrão saltando telhados com um saco nas costas, todos no universo boteriano me remetiam a um passado idílico, sem grande conflitos nem gordofobia.

Essa fase paz e amor durou até o final dos anos 90. Aí Botero parece ter acordado para a violência que grassava em seu país e no mundo, e começou a pintar massacres, assaltos, crimes passionais e até mesmo cenas de tortura cometida por americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib. Todo mundo continuava bem fornido como sempre, mas a placidez anterior foi substituída por sangue e desespero. Essa guinada só mostrou que o talento de Botero era ainda maior do que eu pensava, e minha admiração por ele cresceu. Para não dizer que engordou.

5 comentários:

  1. Grassava, placidez…

    Tony você fala com esse vocabulário na vida real ou é só na escrita? Tem um caderninho de palavras?

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    1. O caderninho está dentro da minha cabeça. Na vida real, eu só me comunico por monossílabos e palavrões.

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    2. Graças a Deus, por isso é que te continuo a ler com prazer passados estes anos todos deste lado de cá do atlântico. Beijao meu amigo

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  2. Obrigado pelo post de alta cultura sugerido por mim 💋

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  3. Acredito que o quadro a que você se refere no início do teto se chama "Pera" e foi pintado em 1976.
    Você pode ver uma foto da pêra com a minhoquinha no link abaixo.
    https://usaartnews.com/wp-content/uploads/123-11.jpg

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