domingo, 13 de agosto de 2023

VOCÊ NÃO PODE ACORDAR SE NÃO ADORMECER

Agora é oficial: Wes Anderson se entranhou tão fundo no universo que criou para si mesmo que virou só forma, sem conteúdo. "Asteroid City" tem todos os maneirismos que aprendemos a esperar do direitor: elenco enorme, direção de arte cheia de simetrias e idiossincrasias, atuações contidas e carregadas de ironia. Só falta uma história, ou mesmo um arremedo de história. O que temos é um cenário e uma situação: uma cidade no meio do deserto, construída pelo governo americano para experimentos atômicos ou observação de alienígenas ou sabe-se lá o quê. Meio parecida com a que aparece em "Oppenheimer", com a diferença de que, aqui, só as crianças parecem interessadas em ciência. O resto é um fotógrafo com quatro filhos e as cinzas de sua falecida mulher, uma atriz de Hollywood e por aí vai. Todos presos no lugar por causa de uma quarentena mal explicada. E tudo isso, na verdade, não passa de ficção: todos fazem parte de uma peça de teatro, encenada em Nova York. Nesses dois universos paralelos, onde a mentira é colorida e a verdade é em preto-e-branco, todo mundo repete o mantra "você não pode acordar se não adormecer". Wes Anderson parece estar ressaltando a importância dos sonhos, mas vai saber. Seus filmes estão cada vez mais lindos, e cada vez mais vazios.

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