segunda-feira, 8 de maio de 2023

BONJOUR MONSIEUR GAUGUIN

Quem morar em São Paulo, ou passar pela cidade até o dia 6 de agosto, não pode perder a mostra "Paul Gauguin: O Outro e Eu", com curadoria 100% brasileira. Trata-se de uma retrospectiva de fôlego de toda a obra de um dos mais renomados impressionistas franceses, com várias telas importantes que jamais haviam vindo ao Brasil. Entre elas está "Bonjour Monsieur Gauguin", que ele pintou no começo de sua carreira como artista full time, depois de abandonar seu emprego na Bolsa de Valores de Paris (e que hoje, por justiça poética, é um museu) e se instalar na Bretanha. O quadro é um autorretrato em plano aberto, em que Gauguin se mostra conversando com uma camponesa bretã. As cores quase berrantes sugerem um dia de verão, mas é inverno: repare na árvore sem folhas e no sobretudo do pintor.

"Paul Gauguin: O Outro e Eu" se propõe a ser uma "mostra crítica". Esse neologismo significa que a obra do pintor está sendo submetida à sensibilidade contemporânea, que o acusa de ser um branco heterossexual machista colonizador pedófilo explorador de mulheres. A acusação ignora que Gauguin era um homem de seu tempo, o final do 19, ou até mesmo à frente dele: existem cartas em que o artista defende a emnacipação feminina, algo raro entre seus pares. O fato é que ele não difere muito de hippies que fogem para Lumiar para escapar da sociedade capitalista. Gauguin se deslumbrou quando chegou ao Tahiti, e até se decepcionou um pouco quando percebeu que a ilha já estava "contaminada" pelo cristianismo e não era mais o paraíso que ele idealizava. A vida mansa, com frutas colhidas no pé e moçoilas fogosas, seduziu o sujeito, que produziu algumas das telas e gravuras mais lindas de todos os tempos. Sim, algumas delas mostram mulheres nuas meio que se oferecendo, mas reduzir Gauguin a um tarado é passar recibo de tapado. Sua obra demonstra respeito pela cultura da Polinésia, mesmo ele sendo um europeu não-woke. Ignore a chorumela politicamente correta e historicamente equivocada, e mergulhe numa mostra digna dos melhores museus do mundo.

8 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Aquele artista que tanto nos relaxa, nas salas de espera dos consultórios, com suas imagens de morenas relaxadas espalhadas nos tatamis...Não seria melhor fugir pra Sana?

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    1. Ô Babbino, que visão reducionista e estereotipada do Gauguin, Ele foi muito, mas muito mais mesmo, do que um pintor de "morenas relaxadas". Recomendo demais que você vá à exposição do MASP.

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    2. Não Tony, de jeito algum sua pátina sempre me inspirou ao ser em vida e nesse recorte não houve por menor juízo em diminuir o artista que sempre me encantou desde a infância e aquele imaginário todo de suas relações com Van Gogh. Vou sim ver a Exposição do MASP.

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  2. Hahaha tony adorar provocar a militância



    Ignorância do dia: o que é Woke? ( já pesquisei, mas não tendi)

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    1. Acho que o termo usado atualmente na nossa língua que melhor traduz "woke" é "desconstruído".

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    2. Acho que "desconstruindo" é a pior palavra para traduzir "woke".

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    3. Então l, qual seria melhor? (Dúvida sincera)

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