quarta-feira, 19 de abril de 2023

SEM MEDO DE SER INFELIZ

De vez em quando a gente sai de um filme sem saber se gostou ou detestou. Ainda não cheguei a um veredicto sobre "Beau Tem Medo", que entra em cartaz amanhã. Fui à cabine para a imprensa com uma certa má vontade: o terceiro longa de Ari Aster é longo mesmo, com uma duração de três horas. Mas também é inesperadamente entertaining, sem barriga. Só a do Joaquin Phoenix, que vive um personagem anda mais complexo que o Coringa: um cara deprimido que tem medo de tudo. De aranha, de sair de casa, de ser assaltado e, acima de tudo, medo da própria mãe. Ele está para visitá-la depois de muitos anos de ausência, mas não param de acontecer coisas, todas horríveis, que o impedem de viajar. O bairro em que ele vive chega a ser engraçado de tão barra pesada, e a sucessão de absurdos é tão grande que não demora para percebermos que tudo se passa dentro da cabeça dele. Se fosse um filminho independente de orçamento pequeno, "Beau Tem Medo" seria aclamado como uma obra-prima, mas é uma superprodução de Hollywood com efeitos caros e elenco famoso, que jamais irá recuperar seus custos na bilheteria. Beau é atropelado e acolhido na casa de seus atropeladores, mas o tom delirante prossegue neste e em mais dois atos bem marcados. Não há propriamente uma história, muito menos um arco dramático, e tampouco um desfecho catártico. A mãe do sujeito finalmente aparece na reta final, feita pela formidável Patti LuPone, mas ela não parece mais temível que a minha, a sua ou a mãe de qualquer outra pessoa. "Beau Tem Medo" vai irritar muita gente, e este é um de seus méritos: o filme não abre a menor concessão à plateia, e se deixa afundar com seu protagonista. Quem se animar, pode afundar junto.

4 comentários:

  1. Você conseguiu passar esse seu sentimento misto para mim. Seu texto me deu vontade de ver, mas também me deixou com medo.

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  2. Se eu fosse irmão do maior engenheiro civil do país minha casa seria perfeita.
    Caso meu irmão fosse o mais renomado cirurgião plástico eu teria os melhores tratamentos estéticos.
    Ou ainda se meu irmão fosse o melhor chef do país eu ia comer todos os pratos que ele desenvolvesse em primeira mão.


    Por que o Zico Góes não te chama? É inadmissível o seu irmão deixar passar o roteiro da série do Silvio Santos sem você fazer uma revisão nele e corrigir tudo que precisa!

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  3. O Mio Babbino Caro
    Issumemo senti isso com o filme, 'A Esposa de Tchaikovisky'.

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