terça-feira, 11 de abril de 2023

PARIS À MOSTRA

Em meio à maratona de comilanças e arrasta-pés que está sendo essa semana em Paris, de alguma maneira conseguimos ir a muitas exposições. A oferta cultural na capital francesa é tão monumental que nunca há tempo para ver tudo, por mais longa que seja a estadia. Fomos vendo o que dava para ver, o que estava perto de onde estávamos e o que não estava lotado. Começamos pianinho, com a mostra gratuita "Louis VVI, Marie Antoinette et la Révolution", em cartaz no imenso prédio dos Archives Nationales, no bairro do Marais. É, basicamente, papelada sobre os processos que culminaram na decapitação dos monarcas, mas sempre há objetos curiosos e esclarecedores sobre um dos períodos mais tumultuados da história.

Antes de virar museu, o Louvre era um palácio real. Seu último inquilino foi justamente o último rei da França, Napoleão III, deposto em 1879 depois de perder um aguerra contra a Prússia. Os faustosos apartamentos ocupados por sua majestade foram conservados na ala Richelieu do museu, a menis visitada (a turistada quer ir logo à ala Denon, onde está a Mona Lisa). Eu mesmo já tinha ido ao Louvre várias vezes e nunca havia visitado esse acinte de luxo e brilho. Depois ainda fomos à Gallerie d'Apollon, um hall of fame do século 17, também de encher os olhos.

Não se passa um ano sem que Paris ganhe pelo menos um novo museu espetacular. Um dos mais recentes é o Hôtel de la Marine, instalado no antigo prédio do ministério da Marinha, em plena Place de la Concorde. Já existe desde 2021, mas só fui conhecê-lo agora. O museu exibe, um pouquinho de cada vez, a fabulosa coleção do Sheikh al-Thani, o emir do Qatar, que vai da pré-história aos dias de hoje. O recorte atual é focado em Veneza, com obras de cair o queixo. E o lugar é lindo.

Fui à Bourse no ano passado, mas precisei voltar porque mudou a mostra em cartaz. A atual se chama "Antes da Tempestade", título genérico o bastante para abrigar qualquer coisa da inesgotável coleção Pinault. Um dos destaques é o brasileiro Lucas Arruda, cujos preços dispararam no exterior depois que teve telas compradas pelo sogro da Salma Hayek.

A galera com quem eu estava quis ir ao Palais de Tokyo para uma visita guiada, e eu, maria-vai-com-as-outras, fui junto. Resultado: achei feias as obras da suíça Miriam Cahn. Às vezes a gente erra.

Foi só nesta minha 12a. visita a Paris que eu fui ao Musée Carnavalet, dedicado à história da cidade desde o tempo das cavernas. É um pouco maior do que eu esperava, mas oferece uma jornada fascinante pela capital francesa. As salas sobre a Revolução e a Belle Époque são as mais interessantes.

O museu Jacquemart-André era a residência particular de um casal riquíssimo. Ficaram sem herdeiros depois da morte do filho único e doaram o hôtel particulier ao Estado, com tudo o que tinha dentro: salões decorados no estilo mais luxuoso do século 19. Também há espaço para exposições temporárias: a atual revisita a obra de Bellini, o mais importante pintor veneziano do século 15.

A mostra Basquiat Soundtracks está em cartaz no prédio vanguardista da Philarmonie de Paris, na distante La Villette, mas vale demais a pena. Além de reunir alguns dos quadros e desenhos mais lindos de Jean-Michel Basquiat, a curadoria dá um novo sentido à obra e vida do falecido, destacando a importância que a música tinha para ele. Jazz, hip-hop, pop oitentista, ópera, new wave e até MPB fazem parte da tilha sonora da exposição, que tem até playlist própria nas boas plataformas do ramo. Já baixei para mim.
O museu Nissim Camondo também fica numa mansão doada ao estado francês, e abriga uma riquíssima coleção de móveis e objets d'art do século 19. Uma coleção, aliás, que só deu azar a seus proprietários. O dono original ia se casar com sua amante, uma mulher casada; quando ela informou o marido que queria o divórcio, ele a matou. Desgostoso, o proprietário vendeu suas peças para o banqueiro judeu de origem turca Nissim Camondo, que tinha dois filhos. O mais velho morreu aos 25 anos, quando teve seu avião abatido na Primeira Guerra Mundial. A segunda sobreviveu ao pai, mas não à ocupação nazista da Franca: foi deportada para Auschwitz com marido e filhos, onde morreram todos.

A décima e última exposição que visitamos foi Léon Monet, no Musée du Luxembourg bem atrás do nosso hotal, dedicada à vida do irmão de Claude - que não era pintor, mas colecionador, industrial do ramo de tintas e enturmado com todo o pessoal do impressionismo. É uma mostra curtinha, mas envolvente: curioso ter sua trajetória contada através de quadros de Monet, Renoir e Pissarro. E assim terminamos nosso périplo pelo mundo das artes, mas ainda faltou muita coisa. Bobeei e deixei para comprar na última hora os ingressos para a Fondation Louis Vuitton: tudo esgotado. O mesmo acontece com a mostra Manet/Degas, recém-aberta no Musée d'Orsay. Ainda queria ter levado meu marido ao Quai Branly, que até hoje ele não conhece, e ao Musée Picasso, onde tem uma mostra de quadros do espanhol com curadoria do Paul Smith. Paris é assim mesmo. Não acaba nunca, não dá para ver tudo por mais tempo que se fique na cidade, e é por assim que se tem sempre que voltar para cá.

12 comentários:

  1. Após ler seu texto uma única pergunta persiste na minha mente: Quando a senhora dorme?

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    1. Dormi bem pouco nesta viagem, é verdade. Acordava cedo para mandar colunas para o Brasil, pois não parei de trabalhar. Ah, as delícias de ser PJ.

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  2. Fugindo do assunto das artes… como você consegue contabilizar quantas vezes já foi a cada país/cidade?

    “Já fui 12x a Paris, já fui 18x no México”… eu me pego em dúvida se já fui 2 ou 3 vezes a Paris.

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    1. Eu anoto todas as viagens internacionais que já fiz na vida. Sou anal retentivo?

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  3. Após ler o seu texto uma única pergunta persiste na minha mente: Quanto a senhora ganha?

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    1. Ganha uma coisa que não tem preço: leitores.

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    2. A resposta clássica: ganho menos do que mereço.

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  4. Quais museus vc indicaria conhecer pra quem vai pela primeira pra Paris?

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    1. O Fernando aí embaixo já deu uma ótima resposta. Mas eu reitero: os três inescapáveis para uma primeira viagem são o Louvre (reserve ao menos um dia inteiro e mesmo assim você não verá nem metade), o d'Orsay, dedicado à arte do século 19, e o Beaubourg, de arte moderna.

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  5. Seleção perfeita. ;) O que adicionaria é o Hotel de Sully, um dos "hotel particuliers" mais esplêndidos de Paris que abriu para acesso publico gratuito, no meio do Marais e do lado da Place des Vosges. Não vale o détour, com tanta coisa para ver em Paris, mas é magnifico.

    Ah, tua seleção me remotiva. ;) Paris é um moinho e frequentemente a gente esquece as infindaveis possibilidades dessa cidade. Eu acho que curadoria de exposições é a verdadeira arte suprema parisiense. Em nenhum outro lugar do mundo eu vejo essa capacidade assombrosa de montar exposições interessantes, sempre inovadoras. Uma mistura de, claro, muitos recursos, e interesse publico.

    @Anonimo que pergunta sobre os museus da primeira vez em Paris: Louvre + Orsay é a obrigação de quem vai pela primeira vez - por uma razão, pode-se passar uma vida explorando os dois. Um terceiro museu sobre algo que te interesse. Eu acho que o Pompidou é uma master class em arte moderna e contemporanea. Recomendo fortemente participar das visitas guiadas gratuitas, a gente aprende tanto emprestando o olhar de gente mais treinada que a gente. Eu adoro o Musee Europeen de la Photographie, por adorar fotografia. (E além disso, na primeira vez em Paris, middle finger para Ladurée e vai direito no Pierre Hermée). E aproveita a tua primeira vez em Paris: a segunda sempre é diferente, mas nunca melhor que a primeira. ;)

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