quinta-feira, 27 de abril de 2023

BLACKWASHING

Sou totalmente a favor do colour blind casting: a prática, muito comum na Inglaterra, de se escalar o melhor ator disponível para um dado papel, seja qual for a cor da pele desse ator. A série "Bridgerton" é o exemplo mais conhecido dessa tendência. Mas, quando se trata de documentário, quero o mais absoluto rigor histórico. O passado foi o que foi, não o que gostaríamos que tivesse sido. Esse rigor é o que falta à série documental  "Rainha Cleópatra", que estreia na Netflix em maio. Produzido por Jada Pinkett-Smith, o programa defende que Cleópatra era negra, o que vai contra todos os registros que temos da última faraó do Egito. As poucas estátuas e pinturas que temos dela, feitas quando ainda era viva, mostram uma mulher branca, de nariz retilíneo e cabelos ondulados, talvez ruivos. Cleópatra definia a si mesma como grega, e de fato era da dinastia ptolemaica, fundada tês séculos antes por um general macedônio de Alexandre, o Grande. Não, não conhecemos toda sua árvore genealógica, e alguns estudiosos apontam que ela poderia ter mulheres egípcias na ascendência. Mas convém lembrar que tampouco os egípcios eram negros como seus vizinhos númidas, e bastante parecidos com o povo que habita o Egito atual - o que significa que tampouco eram brancos. Também é bom saber que os ptolemaicos aderiram a um hábito pernicioso das dinastias egípcias, que era o casamento entre irmãos. Ou seja: as evidências de que Cleópatra era branca são enormes. Mas setores do movimento negro americano acham importante reivindicar que Cleópatra era negra, o que gera um ruído totalmente desnecessário. A gritaria nas redes sociais já é grande, e claro que não faltam comentários racistas. Um advogado egípcio está processando a Netflix, por que o país gosta de ostentar identidade própria, bem diferente da África subsaariana. Estamos, portanto, diante de um caso de blackwashing: o equivalente negro ao whitewashing, que consiste no apagamento da negritude de figuras como Machado de Assis. Um exemplo do exagero que os militantes das causas identitárias volta e meia cometem, transformando aliados em adversários.

26 comentários:

  1. Ficou confuso o post. Vc diz que ela não é negra, tampouco branca, talvez arábica; tudo bem, vc não é historiador.
    Uma coisa é certa, ela é uma figura histórica mais envolvida em lenda do que certezas, outro dia os historiadores estavam afirmando que sua lendária beleza, era só isso, lenda; ela seria uma mulher feia.
    O que parece incomodar mesmo é destruir na cultura popular sua ligação com a raça branca, cuja encarnação mais famosa é a sobre-humana Elizabeth Taylor.
    Pelo menos ela, de fato, é uma figura histórica, embora existam parcos registros sobre sua existência, pior são os racistas que lutam pela identidade branca da sereia Ariel.
    Ah, o final ficou puxado, aliado que se torna adversário por causa de uma discussão dessa, nunca foi aliado de nada, só é antirracista pq tem um amigo negro.

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    1. Perdão se me expressei mal. Cleópatra era branca, ou tinha aparência de branca. É o que mostram seus retratos e estátuas, que são poucos.

      E não, ela não é "envolvida em lendas". Na verdade, é uma das figuras da Antiguidade mais bem conhecidas. Sabemos inúmeros detalhes sobre ela que não sabemos sobre outros vultos. Mas Cleópatra foi vítima de fake news: foi alvo de uma campanha de difamação promovida por Otávio, o futuro Augusto, que queria que a opinião pública romana se voltasse contra ela e Marco Antonio, seu grande rival. Cleópatra foi pintada como uma devassa, coisa que nunca foi. Essa imagem de vamp depois foi amplificada por Hollywood, que sempre escalou atrizes brancas e sexy para o papel de Theda Bara a Elizabeth Taylor.

      O meu ponto, no final do texto, é que muitos ativistas enveredam por caminhos radicais demais, que afastam aliados - e toda minoria precisa de aliados na maioria, senão baubau. Esse episódio nem é grave, duvido que ninguém deixe de ser antirracista por causa dele, mas causa ruído e perda de tempo. Era isto o que eu queria dizer.

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  2. Não é documentário, é uma minissérie que se vende como documentário. Se eles quisessem podiam ter colocado Cleo com antena e pintada de azul. Mas óbvio que sempre vai ter um pseudo anti-racista gritando blackwashing, né?

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    1. É uma minissérie no formato "docudrama", que dramatiza cenas históricas e traz especialistas para corroborar com dados o que está sendo mostrado. Um formato muito comum nos canais Discovery e History,

      Se fosse uma minissérie dramática, podiam ter feito a Cleópatra que quisessem - a exemplo da série "Ana Bolena - a Rainha", disponível no Globoplay, em que Jodie Turner-Smith, uma atriz negra, interpreta a segunda mulher de Henrique 8o. Isso é colour blind casting, que eu disse ser totalmente a favor no início do texto.

      Pelo trailer, parece que o "whole point" de "Rainha Cleópatra" é inculcar a ideia de que Cleópatra era negra, uma tese que não tem muito fundamento histórico. No trailer ela aparece inclusive treinando para ser guerreira, outra bobagem, mas que vai ao encontro da mentalidade atual, "fight like a girl". Cleópatra era culta, falava várias línguas e era uma política astuta, mas não consta de que tenha sido preparada para lutar em batalhas.

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  3. O Mio Babbino Caro
    Que falta não fez uma discussão dessa quando em 1963, muito além de coulor blind, foi forjado no inconsciente das pessoas a imagem de Cleópatra. Uma civilização com mais de 3.000 anos com uma Rainha mãe Tiye em torno de 1300 a. C. Que não deixa dúvida ser negra, não vejo absurdo algum retratar essa personagem como não branca ou 'negra', depois do tal letramento racial dá para voltar a dormir sem sobressaltos.

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    1. apenas pra provar que o matriarcado tão reprimido ha 5 mil anos sempre foi uma melhor ideia

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    2. 3 mil? tá mais pra 5 ou alguns já cogitam 10 mil anos

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  4. Tony como rainha deposta as imagens de Cleopatra foram apagadas mas existem muitos retratos de suas irmãs e todas eram negras a não ser que ela fosse albina sim ela era negra a dinastia ptolomeu estava no egito há 400 anos e desde o inicio casaram com mulheres locais, no meu exame de DNA tem quase todas as etnias isso não significa enfim vc entendeu, sim ela era negra desculpa

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    1. Sim, imagens e estátuas de Cleópatra foram apagadas, mas não para esconder o fato de ela ser negra - o que ela não era.

      Cleópatra não sofreu whitewashing, porque o racismo da Antiguidade era diferente do atual. Escravos eram prisioneiros de guerra, qualquer que fossem suas raças, cores ou etnias.

      De certa forma, todos os povos antigos desprezavam seus vizinhos e seus inimigos. Os gregos diziam que as línguas não-gregas soavam como grunhidos de animais, 'bar-bar", o que deu origem à palavra "bárbaro".

      Mas ser negra não era considerado algo pejorativo na Roma Antiga. Se fosse, teríamos visto o contrário: Cleópatra caraterizada como negra na iconografia romana, como parte da campanha de fake news para voltar a opinião pública contra ela. Não foi o que aconteceu. Otávio preferiu pintá-la como uma devassa, uma devoradora de homens, e essa imagem hipersexualizada da rainha colou durante milênios.

      As irmãs de Cleópatra tinham o mesmo pai mas, possivelmente, mães diferentes. Não conseguimos estabelecer com certeza quem era filha de quem, mas sabemos que seu pai teve várias mulheres e amantes, de distintas etnias. E não há múmias que possam ser analisadas. O próprio túmulo de Cleópatra jamais foi encontrado.

      Portanto, com base dos dados de que dispomos hoje, o mais seguro é afirmar que Cleópatra era branca, com traços helênicos. Dizer que ela é negra é uma mensagem política, com poucos indícios confiáveis na realidade.



      Se ter pele negra fosse algo visto como pejorativo no Império Romano, não tenha dúvida: Cleópatra teria sido retratada como negra, como parta da campanha de fake news movida por Otávio para voltar a opinião pública romana contra a rainha e seu amante Marco Antonio, rival do futuro Augusto. Mas não foi isto o que aconteceu.

      A defesa da negritude de Cleópatra faz parte de um movimento mais amplo, que promove o resgate de figuras históricas negras ou pardas que entraram como brancas para a história, como os escritores Alexandre Dumas e Machado de Assis. Mas não há, repito, registros consistentes de que a rainha fosse negra, muito ao contrário. O que há são conjecturas, possíveis pelas lacunas da história, mas sem provas cabais.

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    2. A palavra escravo deriva de eslavo, que são essencialmente brancos. A aversão era muito mais cultural e econômica. Depois de conquistado o território, a pilhagem e a escravidão dos derrotados. P.S.Não consigo me acostumar com "povos escravizados" e "indígenas ".

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    3. o tumulo da irmã já foi encontrado e guess what? negra. não viaja Tony não existiam brancos no egito! o verdadeiro nome do egito khemet significa terra dos negros. O proprio general ptolomeu não devia ser tão branco assim, menas....

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    4. Esse túmulo a que você se refere seria o de Arsione, meia-irmã de Cleópatra. Pa começar, o cadáver encontrado é de uma menina com menos idade do que Arsione teria quando morreu. Especialistas disseram que não é possível determinar a etnia desse esqueleto só pelos ossos. Além do mais, como eu já disse, o pai de Cleópatra tinha várias esposas e concubinas, então é provável que Arsinoe e Cleópatra fossem de mães diferentes. Ah, e o general Ptololomeu era branco, sim, originário da Macedônia, no norte da Grécia. Não vamos viajar nem distorcer o registro histórico.

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    5. veio de familia de militares que sempre viajam muito é possivel que o proprio ptolomeu fosse mixed. era negra Tony aceita que é mais facil.

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    6. Tony a tumba não é unica evidencia das várias irmas de Cleopatra, existem retratos daqueles pintados sabe? todas retratadas com a tinta marrom. a não ser que tivesse acabado a tinta ou ele arrumou uma concubina na escandinavia porque o pai também era negro.... ela era negra para com isso cara!! alem do que naquela epoca a Grecia ja era um estado decadente dominados pelos romanos e a Cleopatra se considerava egipcia e não grega.

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    7. Cleópatra foi a primeira monarca ptolomaica, depois de 300 anos de dinastia, a se dar ao trabalho de aprender a língua egípcia. Por aí você já tem uma ideia do apreço desses invasores pelo país que governavam.

      O que a Grécia ser uma colônia romana (e não "um estado decadente") tem a ver com essa história? Mesmo então, os gregos eram tidos como o suprassumo da cultura e da sofisticação. Família ricas romanas sempre tinham escravos gregos para dar aulas a seus filhos.

      O fato de irmãs de Cleópatra aparentarem ser negras ou mestiças nã prova nada. Eram meio-irmãs, e não sabemos as etnias das mães delas.

      As provas mais eloquentes são os retratos e estátuas de Cleópatra. Não é uma mulher negra que aparece ali, e não haveria razão para não aparecer se acaso fosse. Não havia whitewashing na Antiguidade. O racismo dos antigos era bem diferente do nosso.

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    8. Ai Tony … na boa vc já foi pro Egito? Hipocrates foi ESTUDAR MEDICINA NO EGITO com certeza os gregos tinham muito apreço pelos egípcios nós somos colônia americana e até o pai do golpe Thomas Shanon fala português

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    9. Ih,o que o Egito perseguiu os judeus
      só perde pra Itália e Alemanha
      fascistas-nazistas.

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  5. Ih essa discussão toda tá igual aquela de que Jesus não era um cara branco de olhos azuis...

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    1. Não há indício algum de que Jesus fosse caucasiano e de olhos azuis. Ele era um judeu de seu tempo, de cabelos e olhos negros e pele morena.

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    2. No passado,branquearam a egípcia
      e nos venderam que ela era branca
      como uma européia.Mas,a verdade
      veio a tona no século 21,felizmente.

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  6. Novo colonialismo americano é isso aí: imposicão das pautas deles para o resto do mundo, reescrevendo a narrativa conforme o melhor interesse deles no momento.

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    1. 11:51-Ela era negra,sim-como Machado
      de Assis que sofreu um branqueamento
      brasileiro forçado pela nossa elite branca.
      Não é narrativa coisa nenhuma.

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    2. Sorry, não há indícios críveis de que ela fosse mesmo negra. Simplesmente não há. O que está acontecendo com Cleópatra é o oposto do que se passou com Machado: estão tentando inculcar a narrativa de que um personagem histórico branco era, na verdade, negro, por razões políticas. Por isto o termo blackwashing.

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    3. Anônimo, Pierre Bourdieu e Wacquant falaram isso décadas atrás, reclamando no modo francês. Mas é um grande equívoco pensar assim. A despeito da crítica do Tony, acho que tanto eu quanto ele concordamos que houve uma grande mudança no Brasil a partir da década de 2000 e mais ainda nos últimos anos da década de 2010. Estamos falando de raça como nunca falamos. Não é normal termos visto tantas novelas e outras produções apenas com brancos, num país onde há tantos negros. Acho péssimo esse tipo de comentário. Conheça os EUA, um país maravilhoso, muito diferente do que se diz na televisão.

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    4. Deixando aqui a leitura para quem quiser ver o argumento (texto de 2002). Eu não tenho paciência com essa argumentação, mas existe um debate antigo sobre o que o anônimo das 11:51 fala...nada de novo.
      https://www.scielo.br/j/eaa/a/zqDTC6cBFBJ4KqdYTXgcNJy/?lang=pt

      Fato é que os EUA são o país mais inclusivo do mundo, ponto. Têm milhões de contradições, mas só aqui você vê professores do mundo todo - impensável na academia francesa, com raras exceções (e tem que fazer pacto com a franquitude) -, filho de imigrante sem documentos chegar à universidade (super comum - gente que cruzou o deserto e hoje tá num mestrado), dentre várias outras coisas que qualquer burocracia no Brasil ou na Europa impediria. Na CPFlândia que é o Brasil, então...

      Beijos, gente...debates assim, educados e polidos, são ótimos!

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