sexta-feira, 21 de abril de 2023

MINISSÉRIE AO VIVO

A cada quarto de século, o teatro americano produz uma peça que define os gays daquela geração e os empurra para o futuro. "The Boys int Band" estreou em 1968, um ano antes do levante de Stonewall, e revolucionou ao mostrar, de maneira realista, um bando de viados que se reúne para uma festinha. Os dramas enfrentados por eles são, basicamente, de aceitação e autoaceitação. Naquela época o armário era quase uma imposição legal, os homossexuais não tinham nenhum direito garantido e a sigla LGBT sequer existia. "Angels in America" é de 1991 e mostrava, ao longo de duas noites, o impacto devastador da AIDS sobre um grupo de bichas novaiorquinas. Agora temos "A Herança", montada pela primeira vez em 2018 e atualmente em cartaz em São Paulo. É um espetáculo longuíssimo, com sete horas de duração, e também muito ambicioso. Não tem um tema específico como suas antecessoras tiveram, respectivamente, o armário e a AIDS. Mas incorpora esses e todos os assuntos que afetaram as bibas cisgênero no último meio século. Casamento gay, pegação, drogas, michês, solidão, polarização política, está tudo lá. É o maior evento teatral do ano.
"A Herança" ganhou quatro prêmio Tony, incluusive o de melhor peça, mas sua temporada na Broadway foi mal de público e durou pouco. Não é o que está acontecendo em SP. Mesmo dividido em duas noites por causa da longuíssima duração, o espetáculo dirigido por Zé Henrique de Paula e produzido por Bruno Fagundes lotou o Teatro Vivo durante quase dois meses, e começa nova temporada em junho no Teatro Raul Cortez. O sucesso é merecido. O espectador tem a sensação de estar maratonando uma ótima minissérie, só que ao vivo. O texto de Matthew Lopez é ágil e coloquial, e se baseia vagamente no romance "Howard's End" de E. M Foster, que inclusive é um personagem da peça. A única derrapada vem no final, quando a plateia está exausta e a história parece não acabar nunca. O elenco conta com nada menos que 12 atores, além de 10 figurantes no primeiro dia e uma aparição fulgurante de Miriam Mehler no último ato. Bruno deu para si mesmo o papel de Eric, o centro emocional da trama, e Reynaldo Gianecchini faz Henry, um abominável bilionário gay que apoia Trump. Mas quem mais se destaca são Rafael Primot, que transmite a intensidade desequilibrada do escritor Toby mesmo estando de perna quebrada e usando muletas, e André Torquato, que já brilhou em vários musicais e agora se desdobra em dois papéis, além de nos brindar com um nu frontal. A herança do título pode ser tanto a propriedade rural que serviu de refúgio para muitos desenganados por causa do HIV e acaba caindo nas mãos de Eric, como a própria história recente dos gays americanos, repleta de triunfos e tragédias, e hoje meio que ignorada pelas novas gerações. Emocionante, divertida, muitas vezes profunda e outras tantas incômoda, "A Herança" precisa ser vista e discutida. Bichas cultas e finas como as que leem este blog não podem perder de jeito nenhum.

17 comentários:

  1. Tony amo seus posts ! Aprendo ou relembro muita coisa! Angels in América, a peça de teatro é parecida com a série da Hbo Max ? Essa peça de sete horas é dívida em duas partes? Tem intervalo de quanto tempo? E os outros atores compensam a falta de talento do geanecchini e Bruno Fagundes? Vale a pena?

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    1. Duas partes. Cada uma custa R$ 100,00.

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    2. Se ela não consegue nem ler que são dois dias, imagina sua cabecinha no final do segundo dia de espetáculo rs

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    3. O Mio Babbino Caro
      Quanta coisa não passa na minha cabeça. O público é variado ou só de bicha padrão... já obtive a resposta. É no Brasil, mais exatamente em São Paulo, portanto.

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    4. Bambino,pra quê ver peça de teatro
      cheio de homem.....já basta a
      motociata gay do Mijair.kkkkkkkkkkk

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  2. SETE horas!? Tô fora!

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    1. Tem o Morumbi e o Market Place do lado, dá para comer um McDonald's e assistir a segunda parte.

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    2. Tony seus leitores estão ruim de leitura hein, explica de novo pra eles que a partir de junho será no Teatro Raul Cortez
      G-

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  3. A divulgação que começou péssima com o Nepobaby Fagundes do lado do "outro" que disse que não frequentava boîte gay... como se ele não fosse sinônimo da Massivo nos anos 2000...

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  4. Isso é uma crítica! Contextualiza ficção e fatos, com algum bom humor. Só o senhor e a Isabela Boscov conseguem fazer isso no Brasil.
    Daqui a pouco é adaptada na HBO... rs
    Tomara que eles viajem com a peça, se vierem a Ssa, assisto!

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    1. Tomara que viajem mesmo, apesar de eu achar difícil. O preço do ingresso está muito barato para a duração da peça e a quantidade de atores. Quem sabe se sustente mesmo por causa de patrocínio.

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    2. Tb achei o preço barato diante das especificidades da peça.

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    3. 10:30-Esquece,tio.É mais fácil passar
      isso aí na Record ou na TV Rá Tim Bum.
      Rs............

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    4. 10:30-Peças da Broadway só ficam
      em Nova York-não é um show de
      MPB ou de música sertanoja,sabia?

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  5. Eu vi outra peça. Muita interpretação carregada e caricata. A direção parece ter abandonado os atores da metade para frente da primeira parte. Na segunda parte, muitas poltronas vazias. Giane está forçado. Realmente outros se destacam mais. Daria nota 6. Esperava mais.

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    1. Geane é bonito. Ator é outra coisa!

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    2. 12:32-O nome da peça deveria ser
      Motociata ou Quartel do Exército.
      kkkkkkkkkkkkkk

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