quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

THE RAIN IN SPAIN STAYS MAINLY IN THE PLAIN

Vi "My Fair Lady" uma única vez, no cinema, há mais de 50 anos (não sei o ano exato). Mas lembrava bem do filme, e foi com ele que aprendi que dá para identificar a classe social de uma pessoa pelo sotaque. "Minha Bela Dama", o canhestro título em português, entrou ontem para o catálogo do Telecine e eu aproveitei para reencontrar Eliza Doolittle e o professor Higgins. Aí, adivinha  oque aconteceu? Gostei bem menos do que eu esperava, embora os figurinos de Cecil Beaton continuem deslumbrantes. Os vestidos usados pelas aristocratas inglesas em três sequências grandiosas - a saída da ópera de Covent Graden, a corrida de cavalos no hipódromo de Ascot e a recepção à rainha da Transilvânia, que infelizmente não é uma vampira - são, cada um deles, uma obra de arte que põe para correr qualquer modelito do Met Gala. Chega a ser exasperante que alguns não mereçam mais do que alguns segundos na tela. Valia terem sido registrados num coffee table book, será que existe? Mas eu tergiverso. Meu ponto é que o filme envelheceu mal. Para começar, é fiel demais ao musical de teatro em que é baseado, e uns 70% da ação se passam entre quatro paredes, na casa do prof. Higgins. Fora que hoje em dia seria tudo cancelado no primeiro dia, pois a premissa é a de que um homem pode "esculpir" uma mulher - assim como no mito grego de Pigmalião e Galateia, que inspirou a peça de George Bernard Shaw do começo do século 20. Eliza, pelo menos, é uma proto-feminista, orgulhosa de sua independência e disposta a não baixar a cabeça para ninguém. Também é pró-ativa: é ela quem pede ao professor que lhe dê aulas de prosódia, para perder o vulgar sotaque cockney e conseguir emprego numa floricultura, ao invés de vender flores nas ruas de Londres. Mas a última fala do longa põe quase tudo a perder: depois de muitas brigas e uma DR, os dois decidem que se amam e que ficarão juntos. O que diz então o professor à sua amada, refestelado em sua poltrona? "Vá buscar meus chinelos". Fim. OK, outros tempos, outros modos. Mas o mundo mudou, e eu também. Durante décadas, tive o maior preconceito com quem se afastava da famigerada "norma culta" do português. O R puxado do interior de São Paulo, influenciado pelos tupi-guaranis, era para mim um atestado em três vias da irremediável ignorância da pessoa. Mas aí fui percebendo a existência de cientistas e intelectuais com várias faculdades a mais do que eu puxando o R, e me dei conta de que um sotaque é só isto mesmo: um sotaque. Não existe um melhor que o outro, muito menos um "puro". Mas que eles são úteis para identificar a origem geográfica de uma pessoa, ah, isso são.

14 comentários:

  1. O sotaque do interior de São Paulo, com o "r" acentuado , é muito mais forte em cidades próximas à capital, como Piracicaba e Tatuí, por exemplo. Estou morando no extremo oeste do estado e a desgraça é o português falado mesmo, tipo nóis vai, nóis vorta, como se fosse um orgulhoso código local de linguagem, mesmo entre pessoas com ensino superior. Plural então...

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    1. O filme citado acima é 1 Zilhão de vezes
      melhor que as novelas lacradoras da
      Globo,as novelas evanjegues da Record
      e os filmes de gibi da Marvel e da DC.

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  2. Deveriamos todos ainda estar a falar vossa mercê!

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  3. Sotaque é uma coisa, falar errado é totalmente diferente.

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  4. Desde quando um ser humano pode ser julgado e ou categorizado pelo seu sotaque? Deve ser coisa de pessoas nascidas no seculo 20 ...

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    1. Depende-se for o sotaque do interior
      de SP,é sinal que é SUPER-MINION.

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  5. Só para eu ter o que comentar mesmo,Tony: o /r/ puxado do interior chama-se "r retroflexo".

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  6. Chéri, eu nessa longa jornada de prazeres-e-sofrimento em terras gálicas cheguei em um ponto onde uso os brasileiros uma referência em tolerância de sotaque. Sabe o que acontece por aqui? Das classes médias provinciais para cima é "esperado" que o sotaque falado seja o de Paris. Qualquer traço de sotaque é eliminado nos preparatorios para as universidades sob ameaça de "com esse sotaque vai ser complicado de encontrar emprego ou ser admitido em uma grande école". Portanto, de Marselha à Lille, da Savoie à Bretanha todo mundo "educado e instruido" fala exatamente da mesma forma.

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    1. Muito interessante saber disso!
      Na Inglaterra o sotaque informa principalmente a classe social que vc pertence (quanto mais quente a batata estiver na boca mais high class vc eh), nao sei na France ma's no UK eh prato cheio pros comediantes!
      Enfim, que tal celebrarmos os sotaques e os nois vai?

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    2. Paris é sempre mais cosmopolita que o
      interior francês-onde a direita reaça tem
      muuuuuuuuuuitos vassalos.

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    3. Paris é Paris-o interior da França é
      Santa Catarina,politicamente falando.

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    4. Sim, Fernando! Eu tinha esquecido desse detalhe! Eu sou quarentão e sou DALF C2 desde os meus 18 anos de idade... quando mudei para França, eu tive muita dificuldade de arrumar emprego na minha área. Meu sotaque era "à couper au couteau", apesar ser ser fluente e ter domínio da língua... que nada. Mas acabei tendo a sorte de arranjar um emprego que foi me levando a outro e por assim foi. Em tempo: até hoje meu sotaque "pas ENArque" é bem forte.

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  7. Quando os clássicos envelhecem mal é dureza. Na memória afetiva, eu tinha o seriado A Feiticeira da minha infância. Revendo hoje, há momentos constrangedores de tão machistas, não necessariamente misóginos, mas de um machismo que é assustador. Isto é retratado na genial série "Mad Men", quando mostra mulheres em ambientes de trabalho terríveis nos anos 60.

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    1. 16:02-Teu texto é de uma lacração tão
      militonta....a atriz que fez a Feiticeira
      fez muitas campanhas pros Democratas.
      Pegue esta época que foi feita a série-
      e compare com hoje-música,cinema,
      moda,literatura e até a política eram
      melhores que estes tempos lacradores.

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