sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

WEDNESDAY DE CINZAS

Eu adorava "A Família Monstro" quando eu era pequeno. Nem o fato de meu pai me apelidar de Herman Monstro quando eu fiquei muito alto e desengonçado me traumatizou. Só descobri que a série era chupada de "A Família Addams" quando esta chegou no Brasil na década de 1970. Morticia Addams e Lily Monstro são praticamente a mesma personagem, mas a criação de Charles Addams, surgida nas HQs, tinha algo insuperável: Mãozinha, o Mr. Thing, que na TV jamais saía de sua caixinha. "A Família Addams" ressuscitou no cinema no começo dos anos 90, com dois longas, uma animação, um telefilme e milhares de produtos relacionados. Virou musical da Broadway e agora reencarna em "Wandinha", a série da Netflix focada na filha adolescente do clã. A direção-geral é de Tim Burton, o que me levou a uma supresa retroativa - como assim, não foi ele quem dirigiu os filmes? Mas Tim honra aqueles trabalhos ao chamar Christina Ricci, que interpretou Wandinha quando tinha apenas 12 anos. Hoje, aos 42, ela faz a única pessoa professora 100% humana da escola Nunca Mais, especializada em sereias, lobisomens e monstrengos em geral. É para lá que Wandinha vai depois de solar piranhas num jogo de pólo aquático em seu colégio "normal". Aí já surge um primeiro furo: seus pais Gomez e Morticia estudaram na Nunca Mais, então por que Wandinha não foi matriculada lá logo de cara? Infelizmente, Catherine Zeta-Jones e Luís Guzmán, que vivem os genitores, aparecem em apenas dois episódios, e Fred Armisen, como o Tio Chico, em apenas um. Não é só nisso que a série se afasta da franquia original. Na "Família Addams", apesar do clima de terror, não havia mortes, sangue ou violência. Eles só eram esquisitões, e o programa acabava pregando a tolerância e o respeito às diferenças. "Wandinha", por sua vez, envereda pela senda batida pela espanhola "Elite", com alunos mimados às voltas com uma série de crimes brutais. A protagonista, mais chata do que nunca, parece acumular em si todos os defeitos possíveis de uma garota adolescente: eternamente emburrada, ela se sente superior a qualquer um e julga que ninguém é digno de seu amor ou amizade. E vamos combinar que resolver crimes tendo visões paranormais é um pouco fácil demais, né não? Acho legal modernizar franquias antigas, como anda muito na moda. É bacana inverter o gênero ou trocar a etnia de protagonistas, CONTANTO que o espírito original não seja traído. E "Wandinha" jogou no lixo o legado dos Addams. É uma sombria quarta-feira de cinzas, depois do carnaval macabro promovido por sua família.

13 comentários:

  1. Wandinha se tornou a série mais assistida da Netflix superando Stranger Things.

    ResponderExcluir
  2. Ainda bem que Tim Burton ficou de fora dos filmes. Tirando Batman, não gostei de nenhuma outra adaptação que ele dirigiu.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E daí,tio?Ele é especialista em
      fazer filmes deste gênero.

      Excluir
  3. Fiquei esperando seu post sobre a morte a Christine, do fleetwood macs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Parece que poucos no Brasil se lembram do Fleetwood Mac ou valorizam Christine e Stevie. Stevie Nicks é uma obsessão minha. Mas Christine era grande. Já era A Christine Perfect na Inglaterra antes de entrar no Fleet e antes do John Mcvie.

      Excluir
    2. Eu acho "Rumours" um dos melhores discos pop de todos os tempos. Mas eu nunca fui obcecado o suficiente pelo Fleetwood Mac para soltar um post sobre a Christine McVie. Ela era ótima, "You Make Loving Fun" também é ótima e é triste que ela tenha se ido tão cedo. Mas também gosto mais da Stevie Nicks (mais cafoninha, adoro).

      Excluir
    3. Stevie é uma boa compositora. Tom Petty a incentivava a produzir material próprio quando ela estava insegura, saindo de rehab. Ela é mais doida do que aparenta.

      Excluir
    4. É interessante ver artistas que são fãs de Stevie Nicks: Harry Styles a introduziu no Rock and Roll Hall of Fame, David Grohl a adora (ela já cantou com o Foo Fighters várias vezes), assim como Ryan Murphy ( Stevie fez uma participação no American Horror Story) , as irmãs do grupo Haim, Courtney Love e a lista continua.

      Excluir
    5. Anônimo 4 de dezembro de 2022 às 22:24 - Courtney Love gosta tanto que regravou Gold Dust Woman em 1996 com sua então banda Hole.

      Excluir
  4. Tim Burton também não dirigiu “ The Nightmare Before Christmas”

    ResponderExcluir
  5. Eu achei super divertido e engraçado, o Brasil já anda muito chato.

    ResponderExcluir