quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

COMEI-VOS UNS AOS OUTROS

Se tivesse sido feito nos anos 60, "Até os Ossos" hoje seria um marco da história do cinema, um divisor de águas. Mas hoje em dia as histórias de canibalismo são cada vez mais banais, nas telas e na vida real. Normalizamos o ato de comer carne humana. Até o Bozo admitiu que comeria, "com banana", para chocar um repórter. Tudo isto para dizer que não sei bem qual é o propósito de "Até os Ossos", o novo filme de Luca Guadagnino. Talvez o diretor italiano almejasse apenas juntar suas novas obsessões, os filmes de terror e Timothé Chalamet. Seu ator-fetiche está ótimo, com um ar emaciado bem distante da baby fat do Elio de "Me Chame pelo Seu Nome". Ele nem é o protagonista: esta hora cabe à novata Taylor Russell, premiada em Veneza pelo papel de uma adolescente que, desde pequena, gosta de devorar suas amiguinhas. Esses vampiros sem glamour erram pelos EUA, hospedando-se em motéis de quinta e arranjando dinheiro ninguém sabe como. Carne fresca é mais fácil de arranjar: numa das melhores sequências. Timothée liga o modo gay e vai à caça num parque de diversões. O filme é menos sangrento do que eu imaginava, e portanto mais suportável. Não estou na fase de ver vísceras, tanto que evitei a série "Dahmer". Mas Guadagnino é um mestre, e se "Até os Ossos" não me deslumbrou, pelo menos não me deu ânsias nem fome.

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