quarta-feira, 30 de novembro de 2022

PINÓQUIO NO PAÍS DOS FASCISTAS

Pinóquio voltou à moda. Em menos de dois anos, já tivemos três novas versões para o cinema da história de Carlo Collodi. A de Matteo Garrone, com atores, é fiel ao livro original e visualmente deslumbrante. A de Robert Zemeckis, disponível no Disney+, é uma variante com atores do longa em animação de 1940, com Tom Hanks fazendo Gepetto. Agora chega a de Guillermo Del Toro, que leva no título o nome do diretor mexicano. "Pinóquio por Guillermo Del Toro" este em cartaz em alguns cinemas, e chega à Netflix na sexta da semana que vem, 9 de dezembro. O roteiro traz, de cara, uma ideia excelente: agora a ação se passa nas décadas de 10 e 20 do século passado, no contexto que permitiu a ascensão do fascismo na Itália. Há até mesmo uma cena em que Pinóquio se apresenta, no teatro de marionetes, a Benito Mussolini, il Duce em pessoa. Os fascistas cultuam a morte, e o tema central da história deixou de ser o amadurecimento, ou a passagem da primeira infância à pré-adolescência - era disso que se tratava o livro original, com o selvagem boneco de madeira tomando um banho de cilvização e se tornando um menino "de verdade", i. e., bem educado e respeitador das regras. Este novo "Pinóquio" é, na verdade, uma meditação sobre a vida e a morte. Também é creepy pra cacete, e totalmente inapropriado para crianças pequenas. Algumas sequências são dignas de um filme de terror. A paleta de cores também foge do Technicolor disneyano, carregando nos tons de sépia e marrom. Todos os personagens parecem feitos de madeira, não só protagonista, e o Grilo Falante está mais para uma barata de comercial de inseticida. A Fada Azul agora tem uma irmã que lembra a Esfinge grega, e ambas são assustadoras. A Ilha dos Prazeres, minha sequência favorita, foi trocada por um centro de treinamento de soldados fascistas. A dublagem original conta com astros como Ewan MacGregor, Tilda Swinton e Cate Blanchett, no papel mais desafiador de sua carreira: Spazzatura, um macaco que não fala, só grunhe. As músicas podiam ser melhores... A crítica internacional está caindo de quatro pelo filme, mas eu me incomodei muitas vezes com a violência e a desesperança de várias sequências, mesmo admirando a qualidade técnica e artística. Este é um "Pinóquio" cult, em linha com os tempos sombrios que vivemos. Lindo, tocante e provocador, mas ainda prefiro a versão do Matteo Garrone.

3 comentários:

  1. Te juro que eu levei um tempão para entender que "crepe" estava com um erro de digitação. Achei que você estava usando crepe com algum significado que eu não conhecia. Rsrsrsrs.

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    1. Não foi bem um erro de digitação. Eu escrevi "creepy", meu corretor monoglota mudou para "crepe" e eu não percebi. Obrigado por avisar! Já corrigi.

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  2. It’s Guillermo del Toro after all

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