sábado, 5 de novembro de 2022

NAS ALTURAS

Assisti à primeira montagem brasileira de "Três Mulheres Altas" em 1995, com direção do José Possie Beatriz Segall, Natália Thimberg e Marisa Orth no elenco. Lembro de ter gostado muito, e não muito mais. Ontem fui à estreia paulistana da nova montagem, com Suely Franco, Deborah Evelyn e Nathalia Dill, e adorei. Acho que amadureci nesses 27 anos, porque agora eu capto minúcias do texto de Edward Albee que antes me passavam batidas. O casting também ajuda: as mulheres do título são de três gerações diferentes, mas Beatriz e Natália tinham quase a mesma idade. Ainda tem o fato de hoje em dia eu morar com uma idosa que precisa de cuidados, minha mãe, e uma das personagens é exatamente isto. A boa tradução de Gustavo Pinheiro é valorizada pela direção limpa de Fernando Philbert, que faz algo raro entre os diretores brasileiros: não quer ser maior que o texto. Albee é coloquial e pede montagens realistas (embora nem sempre a ação corresponda à realidade), e não cenários que remetam ao espaço sideral (como eu vi numa "Virginia Woolf" da década de 90). O primeiro ato de "Três Mulheres Altas" estabelece quem são elas, apesar de nenhuma ter nome. A mais velha é milionária, tem problemas de mobilidade e contenção urinária e trata todo mundo mal. A de meia-idade parece ser sua cuidadora, e serve de anteparo entre sua cliente e o resto do mundo. A mais jovem é uma funcionária de um escritório de advocacia, que veio pegar assinaturas para um monte de papéis - afinal, a véia pode estar nas últimas. No segundo ato, uma surpresinha: agora elas são todas a mesma mulher, em diferentes idades, e as mais jovens se espantam com o que lhes acontece depois. O texto de Albee é generoso - todas as personagens têm pelo menos um grande momento solo - e as atrizes estão fantásticas. Nathalia Dill, a quem eu nunca tinha visto no palco, me surpreendeu. Deborah Evelyn nunca esteve tão bem. E a imparável Suely Franco prova mais uma vez que é uma diva, com timing perfeito e muito carisma. "Três Mulheres Altas" fica em cartaz no TUCA até o fim de janeiro, mas vá ver o quanto antes. É a melhor peça deste ano.

4 comentários:

  1. É o segundo texto elogioso a esta peça que leio, deve ser boa mesmo.
    Gosto da Deborah, pena ela sempre interpretar o mesmo tipo de papel na TV.

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    1. E daí?A Regina Casé faz a mesma coisa-
      mas a Deborah eu desmaio diante da
      beleza dela-tanto por dentro quanto por
      fora-que inveja tenho de SP.

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    2. 19:54 Deixa de bobagem, " a vida não é só aqui".
      G-

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  2. Fui sabado, e concordo em quase tudo contigo - fiquei surpreso com a ótima.atuacao de Débora Evelyn. Apenas Suely Franco me desapontou um pouco, com uma dicção estranha e lapsos do texto no dia em que fui.

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