quarta-feira, 12 de outubro de 2022

GRILHÕES INQUEBRANTÁVEIS

Terminei o terceiro e último volume da trilogia "Escravidão", talvez a mais importante obra brasileira de não-ficção dos últimos 10 anos. Exaustivamente pesquisada e escrita em linguagem acessível, a opus magna de Laurentino Gomes é fundamental para entender o Brasil de hoje. Porque a escravidão acabou, mas nem tanto. Seus efeitos nefastos são sentidos até hoje, prendendo o país no atraso material e mental. É de cortar o coração ler anúncios de jornal anunciando a venda de crianças de um ano e meio, que serão arrancadas da mãe sem choro nem vela. É estarrecedor ler os argumentos dos escravocratas, que invocam o sagrado direito à propriedade para manter seres humanos na mais degradante servidão. Lembram os discursos dos atuais políticos de extrema-direita, seus descendentes diretos no campo das ideias. "Escravidão" também não pinta um retrato lisonjeiro da família imperial. D. Pedro II e a princesa Isabel eram abolicionistas sinceros, mas não tinham o culhão de libertar os escravizados, por medo de perder o trono. Nisto, tinham razão: foi só a Lei Áurea ser assinada para o movimento republicano receber a adesão imediata de centenas de fazendeiros revoltadinhos, o que levou à queda do Império apenas um ano e meio depois. A lei, além do mais, só fez isso: aboliu a escravatura, mas não previu como essa imensa massa humana seria absorvida pela sociedade. O resultado são as favelas, o racismo estrutural e a estupidez generalizada da elite brasileira, que ainda não acordou para o fato de que o racismo é ruim para todo mundo, não só para os pretos e pardos.

3 comentários:

  1. Perfeito.
    Eu tb acho os anúncios de jornal da época que tratam sobre o comércio de escravos, uma das coisas mais monstruosas, pois é a prova cabal que um escravo não é visto como humano, um animal de estimação teria mais dignidade.
    A grande ironia é que em dias de discussão sobre se devemos falar "todes" e lugar de fala, um homem branco tenha entregado esse libelo histórico pela população negra brasileira.
    Obrigado, Laurentino Gomes!!! Vc fez muito, vc foi foda!!!

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  2. O Mio Babbino Caro
    Essas histórias sempre puderam ser lidas, nas ladeiras de "Ouro Preto", na Gamboa, no Cais da Bahia, em todo Vale do Paraíba, do Pq. D. Pedro até o Glicério.
    Em qualquer lugar desse país você terá informação a céu aberto, sobre o que foi a Escravidão.
    Escrevo isso aqui pela boa vontade entre os homens que em alguns momentos demonstras.
    Eu proponho seguirmos essa estrada e termos grandeza todas as vezes que for necessário cortar na própria carne.

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  3. A propaganda monarquista doura muito a pílula do tal abolicionismo de Pedro II e Isabel. O fato é que a monarquia brasileira foi por 70 anos alicerçada da escravidão, e ambos sabiam disso. O Brasil só se tornou o ÚLTIMO país do continente a abolir a escravidão para que a monarquia sobrevivesse ao máximo de tempo possível. Bastou a abolição para a monarquia ser instantaneamente extinta. A propaganda de que a Princesa Isabel queria indenizar os escravos e fazer a reforma agrária é pura mitomania. Não tem absolutamente nenhuma base documental. Outra mitomania é a de que a Abolição foi uma bondade da Princesa, quando na realidade foi aprovada no Parlamento do Império após muito trabalho de dúzias de abolicionistas como Nabuco entre outros, cabendo a Princesa Isabel apenas a obrigação de sancionar.

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