quinta-feira, 29 de setembro de 2022

SEM CORTES, SÓ NO CORAÇÃO

Os planos-sequência intermináveis estão na moda. Com o avanço da tecnologia, filmes inteiros são feitos sem cortes aparentes, como "Birdman", "1917" e o recente "O Chef". Atenção para os "aparentes": em todos eles há pontos de corte sim, disfarçados por computação gráfica. Todos esses longas me deixaram boquiaberto, mas nada comparável à cena de abertura de "Athena". Disponível na Netflix, o filme de Romain Gavras (filho do Costa-Gavras) começa com uma entrevista coletiva numa delegacia sobre a morte de um rapaz de origem argelina e desemboca, 11 minutos depois, no alto de uma passarela sob a qual ardem carros. É o início de uma rebelião dos moradores do conjunto habitacional Athena, nos arredores de Paris, contra a polícia que eles supõem ter matado o garoto. Um tour de force técnico e emocional, com câmera entrando e saindo de um furgão, voando pelos ares e dando close em personagem. Foram cinco semanas de preparação, com milhares de pessoas envolvidas, e o resultado já entrou para a história do cinema. Depois desse começo descaralhante, "Athena" não perde o ritmo, com mais alguns longos planos-sequência. Os protagonistas, irmãos do assassinado, estão em lados opostos: um é tira, o outro é o líder da revolta. Ajuda o fato de nenhum dos excelentes atores ser conhecido, então a sensação seria a de um documentário ou um telejornal, não fosse a direção prodigiosa de Gavras. Violento e trágico, "Athena" não é a diversão escapista de que mais precisávamos nas vésperas de uma eleição em que pode dar merda. Mas é um dos grande filmes do ano.

Um comentário:

  1. O Mio Babbino Caro
    Pobre de nós sem plano algum diante de 28 assassinatos no Jacarezinho comprovadamente executado pela polícia.

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