terça-feira, 13 de setembro de 2022

O ÚLTIMO SUSPIRO DO GORDO

Além de seus diversos outros talentos, Jô Soares também era um bom diretor de teatro. Mas não era lá muito inovador: suas montagens seguiam a ortodoxia à risca, sem grandes arroubos ou quebras de paradigma. E é chato dizer que seu derradeiro trabalho, a peça "Gaslight", não está no mesmo nível de suas obras anteriores. Os problemas começam no próprio texto, que ficou datado. A nova tradução brasileira ainda enfiou um termo em voga no título, "uma relação tóxica", mas isto não esconde o fato da mocinha da peça ser massacrada por um homem e salva por outro homem. Ainda tentaram dar um pouco de protagonismo feminino no final, mas o resultado é meio postiço - afinal, estamos falando de um texto com mais de 80 anos, que conta uma história que se passa no século 19. Além do mais, o mistério é resolvido logo na segunda cena, e eu fiquei esperando por uma reviravolta que nunca veio. Fui a uma sessão para convidados e quem se destacou no elenco foi Miriam Palma, que substituiu às pressas Neusa Maria Faro, começou a ensaiar às 5 da tarde e deu uma excelente performance às 9 da noite. Em suma: "Gaslight" não é ruim, mas tem teias de aranha como as que compõem o cenário. Talvez Jô Soares não tenha tido tempo ou saúde para se envolver o suficiente.

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