quinta-feira, 21 de julho de 2022

O CIRCO DA MULHER ABANDONADA

Ontem a Polícia Civil bateu na porta do número 1.111 da rua Piauí, no rico bairro paulistano de Higienópolis (onde, no entanto, não faltam barracos de sem-teto nas calçadas e craqueiros enrolados em cobertores vagando pelas ruas). A missão era nobre: averiguar se Margarida Bonetti, há 20 anos a única moradora da agora célebre mansão, vive em situação de abandono. A questão é pertinente, pois o imóvel está caindo aos pedaços, há lixo acumulado por todos os lados, nuvens de mosquitos e um cheiro insuportável que incomoda a vizinhança. Mari, como ela prefere ser chamada, mora assim há muito tempo, mas só agora o poder público revolveu tomar alguma providência. A causa, é claro, é o podcast "A Mulher da Casa Abandonada", o must do momento, criado e apresentado pelo jornalista Chico Felitti. Para quem ainda não sabe: intrigado com o estado lastimável da casa de Mari, que sempre aparece com o rosto coberto por uma pomada branca, Felitti acabou descobrindo que ela é uma fugitiva do FBI, acusada de ter mantido uma empregada doméstica brasileira em condições análogas à escravidão por quase duas décadas, nos Estados Unidos. O crime já prescreveu e ela não pode mais processada; seu ex-marido, que ainda mora nos EUA, passou seis anos na prisão. O sucesso avassalador do podcast transformou a reportagem num fenômeno pop, com influenciadores gravando dancinhas na frente da casa e os mais exaltados jogando pedras e gritando xingamentos contra Margarida (consta que até um tiro atingiu uma janela do segundo andar). A visita de ontem da polícia foi coberta pelo programa "Brasil Urgente", e o apresentador José Luiz Datena deu sobejas provas de que não tinha a mais puta ideia do que se tratava. Ainda teve Luisa Mell pagando um mico, pois ela ouviu dizer que havia um gato na casa e correu para lá para salvar o bichano. O tal do gato seria uma ligação elétrica ilegal, que não se confirmou, e Luisa saiu com um cachorrinho nas mãos, supostamente desnutrido (pelas fotos não parecia). A reação popular a "A Mulher da Casa Abandonada" traz à tona duas características do Brasil contemporâneo. A primeira é ótima: uma maior consciência do horror do racismo. Ninguém mais engole que uma mulher mantida em cativeiro, sem salário, com pouca comida e nenhum atendimento médico, é "quase um membro da família". A outra não é tão boa. Hoje muita gente se sente autorizada a fazer justiça com as próprias mãos, e Margarida sofre riscos em sua integridade física se continuar na casa. Aliás, cadê a família que ainda não a tirou de lá? Ela tem duas irmãs e um filho adulto. Não sou psiquiatra, mas parece óbvio que Margarida sofre de algum distúrbio mental - ela é, no mínimo, uma acumuladora, presa numa bolha do passado. Mas é curioso que nenhum parente a queira por perto. Há também uma justiça poética nesse bafafá: a mulher da casa abandonada está finalmente pagando, com toda essa execração, pelo crime hediondo de cuja punição conseguiu escapar.

11 comentários:

  1. Que roteiro! Pronto! Roteiristas em 3, 2, 1! Todos os ingredientes dramaticamente falando são incríveis…
    A parte humana (?!) é chocante…

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  2. Sobre a mentalidade escravocrata naturalizada na sociedade brasileira que gerou tudo isto: há casos extremos como empregadas domésticas que sofrem nas mãos das inúmeras Margaridas. Mas há, muito mais, empregadas domésticas objetificadas, zoomorfizadas, manipuladas por patrões, sofrendo abusos de toda a ordem por pessoas que são vistas como " gente boa", famílias boas, gente justa, e a maldita e eterna balela perversa, o mantra escravorata: "ela é da família, é uma amiga". Hipocrisia, racismo e aporofobia convenientes para a manutenção de privilégios. Tudo de carteira assinada. Que nada muda...

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  3. Não estou muito certo quanto ao primeiro ponto.

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    1. Pois é... e o segundo ponto tb tem uma complexidade não muito clara: Margarida é uma vítima? Se ela fosse negra teríamos esse olhar?
      Não concordo com o sensacionalismo que os brasileiros estão dando ao caso, justamente por estarem banalizando a história de racismo e escravidão narrada, mas Margarida é tudo, menos vítima.
      Se este país fosse sério, todos estariam questionando sobre as possibilidades legais dela responder pelo crime que ela cometeu, e não tratando a história de horror que ela protagonizou, como se fosse a trama de Stranger Things.
      Não há diferença entre Margarida Bonetti e Gustavo Quintella Bezerra, só que o crime que ela cometeu durante 20 anos, ao contrário do que Tony pontuou, é sobretudo banalizado, afinal, foi o crime que forjou este país.

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  4. O Mio Babbino Caro
    Quem chegou a viajar pela Varig e usufruiu de refeições com seus 'talheres de prata' lembram que não raro em uma volta de Salvador encontravam alguma bacana trazendo uma 'negrinha' para 'trabalhar' em São Paulo, os anos se passaram...

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  5. Lembra “Grey Gardens”

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    1. Exato, pensei o mesmo. Até a touca na cabeça lembra tanto a Little Edie, que parece até proposital.

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    2. Blza meninos, mas as primas de Jackie Kennedy não eram criminosas, só fizeram mal a elas mesmas, cuidado com essa romantização!

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  6. Todas as pessoas envelhecem. Inclusive pessoas más também envelhecem. Isso não retira os direitos delas como idosas.
    Não chegou a virar podcast, nem teve o twist da empregada escravizada e FBI, mas esse era o nosso trabalho no MP do Idoso do Rio. E sim, a gente mandava médico e assistente social junto, além de ir atrás dos filhos.
    https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2010/08/operacao-descobre-casa-de-idosa-com-mais-de-oito-toneladas-de-lixo.html

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  7. Queremos post sobre a série da HBO sobe Guilherme de Pádua, o assassino!!

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    1. Não tem post, mas tem coluna minha no F5: https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2022/07/serie-sobre-o-assassinato-de-daniella-perez-e-o-melhor-true-crime-ja-feito.shtml

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