domingo, 31 de julho de 2022

BODY HORROR

Nem precisava aparecer o nome de David Cronenberg nos créditos de "Crimes do Futuro". Apesar do "body horror" estar na moda, nenhum outro cineasta vai tão longe nas imagens de mutilações, cortes profundos e cicatrizes em geral. Seu primeiro longa em oito anos fala de um artista performático que sua cirurgias plásticas para se expressar. Em uma de suas próximas apresentações, ele deve fazer a autópsia ao vivo de um garoto que foi sufocado pela própria mãe, com um travesseiro. Cronenberg cria um mundo delirante em torno dessa premissa, mas bastante coerente até. Porque ele está falando, na verdade, da nossa fascinação pelo escabroso e pelo sofrimento alheio. Filmado na Grécia, "Crimes do Futuro" passou no último Festival de Cannes, mas não levou nada - o júri deve ter achado que estaria repetindo o prêmio de 2021 para "Titane", nitidamente influenciado por Cronenberg. Mas é um filme que deve ser visto, pois levanta uma discussão atual. Só que tem que ter estômago.

REBOTALHOS CARIOCAS

Nunca foi segredo que, no Brasil, só os pobres vão para a cadeia. Se alguém da elite vai em cana, logo seus advogados dão um jeito de soltar. Se for um político corrupto, então, nunca demora para aparecer um juiz compreensivo, disposto a devolver ao ladrão os direitos perdidos. No Distrito Federal, José Roberto Arruda poderá concorrer novamente a governador, apesar de ter sido flagrado com a mão na massa. São Paulo corre o risco de ter ninguém menos que Eduardo Cunha, o mais vilanesco presidente da Câmara de todos os tempos, como candidato a deputado federal. Cunha esteve ontem na convenção dos Republicanos declarando apoio a Tarcísio e Biroliro - que, se tivessem algum miolo, rechaçariam esse bandido comprovado. Ele não é o único rebotalho carioca que mudou seu domicílio eleitoral para SP: a abjeta Cristiane Brasil, filha do ainda mais abjeto Roberto Jefferson, também quer se candidatar por aqui. Votando nesses criminosos, paulista nenhum tem o direito de dizer que nordestino não sabe votar.

sábado, 30 de julho de 2022

FABÍOLA DOS MACACOS

Nunca imaginei que, além da AIDS, eu viveria para testemunhar o surgimento de uma segunda peste gay. É o que a varíola dos macacos está se tornando na cabeça de muita gente. Afinal, já tem muita biba infectada, e um médico de São Paulo se recusou a atender um paciente homossexual. O pior é que não adianta usar camisinha. A nova doença se espalha pelo simples contato com a pele. Na imensa maioria dos casos, não costuma ser grave, mas já temos um morto. Um paciente oncológico, que estava fazendo quimioterapia e, portanto, andava com a imunidade baixa. Eu, que sigo invicto quanto à Covid graças a quatro doses de vacina e dez de paranoia, tenho mais um motivo para ficar assustado. Aliás, temos todos: o medo costuma ser um bom profilático.

EMMA GEME

Emma Thomspon é um ano e meio mais velha do que eu. Sua personagem em "Boa Sorte, Leo Grande", é sete anos mais nova. Somos todos da mesma geração, que era criança nos primeiros anos da revolução sexual e pré-adolescente quando o movimento hippie atingiu seu auge. Por isto, não faz muito sentido que Nancy Stokes, a protagonista vivida por Emma no filme "Boa Sorte, Leo Grande", chegue a essa idade tendo transado com apenas um homem em toda sua vida, seu finado marido. Seria mais crível se ela fosse da geração anterior, das nossas mães, e a história da viúva que contrata um garoto de programa se passasse uns 20 anos atrás. O objetivo dela é finalmente ter um orgasmo. Fico me perguntando que tipo de educação a coitada teve, pois jamais tocou em si mesma. Dito isto, "Boa Sorte, Leo Grande" é um filme simpático, que talvez funcionasse melhor como peça de teatro. Toda a ação se passa entre quatro paredes, durante os quatro encontros entre o profissional do sexo e sua cliente. Ela morre de medo e vergonha, e ele é tão perfeito que não pode ser real (e não é). Os diálogos deixam claro que este é um longa escrito e dirigido por mulheres, tendo a mulherada de meia idade como público-alvo. Também é para elas que Emma Thompson exibe um glorioso nu frontal, assumindo seu corpo do jeito que ele é.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

CATARATAS DE VÔMITO

Mais um personagem sinistro passou a frequentar o noticiário nos últimos dias. Trata-se de Rodrigo Martins de Mello, vulgo Rodrigo Cataratas - um nome digno de bandido de novela do Aguinaldo Silva. Pois o sujeito é mesmo bandido: o auto-intitulado empresário na verdade comanda um grande esquema de garimpo ilegal em Roraima, invandido terras dos yanomâmi e atentando contra helicópteros da Polícia Federal. Mas posa de paladino da pátria, sempre enrolado na bandeira nacional. Claro que ele não está defendendo o país, e sim invocando a proteção do bandido-mor, o Miliciano. Essa bandeira nas costas dele é a mesma em que Bebel Gilberto sambou, não o símbolo de todos os brasileiros. É uma bandeira que merece ser pisoteada, esfaqueada e vomitada em cima.

RENASCER DE NOVO

Tenho um pouco de bode de artista que diz que está "renascendo". Jennifer Lopez lançou um álbum chamado "Rebirth" em 2005, quando seu sucesso começou a diminuir, e de nada adiantou. Madonna excursionou em 2003 com a "Re-Invention Tour" para promover seu trabalho mais fraco, "American Life". Agora me vem Beyoncé, atual rainha da porra toda, com um disco chamado "Renaissance". Suspirei aliviado quando li uma entrevista em que ela diz que o título se refere a este momento de retomada pós-pandemia. Gostei ainda mais quando ouvi as 16 faixas novas. Muito já foi dito sobre "Break My Soul", que sampleia "Show Me Love" da Robin S. para garantir o clima de house dos anos 90. É de fato a música mais forte, com uma letra que fez com que muita gente chutasse o emprego e um lyric video que pode causar convulsão nos epiléticos. Aliás, B. parece estar de ressaca depois da overdose visual de "Black Is King" de dois anos atrás. Até agora, nenhuma música de "Renaissance" ganhou um clipe propriamente dito. Talvez ela queria que a gente se concentre no áudio, que é realmente excepcional. Pois trata-se de um álbum concebido para ser ouvido como um todo, apesar de não ser exatamente conceitual. Ao invés de ser um monte de canções aleatórias, "Renaissance" faz com que elas dialoguem e até inferiram umas nas outras. A produção traz o crème de la crème da black music (um termo só usado no Brasil; nos EUA eles preferem R&B) e eu só posso reclamar que minha musa Grace Jones aparece pouco em "Move". Minha queridinha no momento é "Cuff It", mas posso mudar à medida em que for me entranhando nesse álbum fenomenal. Ninguém é rainha à toa, e Beyoncé se mantém no trono.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

LOOK AROUND, EVERYWHERE YOU TURN IS HEARTACHE

Tem um lado meu que acha bárbaro que Olena Zelenska, primeira-dama da Ucrânia, pose para um ensaio na Vogue enquanto a guerra assola seu país. Hay que endurecerse, pero sin perder el glamour jamás., já dizia Che Quervara. Por outro, me horrorizo com a falta de noção. Os Zelesnki vieram do showbiz e acharam que esse era um bom monento para se promover. Essa edição da revista só sai em meados de setembro, mas a mera publicação de algumas fotos no Instagram já mostrou que a humanidade está tão dividida quanto eu. Tem gente (inclusive muito ucraniano) que aplaude, tem gente que joga pedra. E você, de que lado está?

CAPITALISMO DOMESTICADO

O mundo inteiro esperava que a Espanha escolhesse "Mães Paralelas" como seu representante no último Oscar. Mas, volta e meia, Pedro Almodóvar é esnobado em prol de algum diretor menos conhecido no exterior. Foi o que aconteceu: os espanhóis inscreveram "El Buen Patrón", de Fernando de León Aranoa, que acabou ficando entre os 15 semifinalistas. Também recebeu espantosas 20 indicações ao Goya e venceu em cinco categorias, inclusive melhor filme, melhor diretor e melhor ator para Javier Bardem. O sr. Penélope Cruz de fato está ótimo como um empresário provinciano, dono de uma fábrica de balanças, que gosta de ser amiguinho de seus funcionários e bancar o capitalista com consciência social. Suas boas intenções são postas à prova ao longo de uma única semana em que, tendo que aparentar tranquilidade para concorrer a um prêmio regional, ele enfrenta uma miríade de problemas simultâneos. Um funcionário demitido acampa na porta da fábrica, a jovem estagiária que se engraça com ele é filha de um amigo e por aí vai. Minha expectativa era grande, mas não gostei tanto assim. Devo ter perdido algumas coisas, pois o Star+ não oferece versão legendada, só dublada, e eu preferi assistir com som original. Valeu pelo Bardem, cada vez mais parecido com Anthony Quinn.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

VOLVERÉ Y SERÉ MILLONES

Li "Santa Evita" no réveillon de 1996 a 1997, na Samambaia, a fazenda da família dos meus irmãos mais velhos em Petrópolis (irmãos por parte de pai - eu nunca os chamei de meio-irmãos). O livro de Tomás Eloy Martínez conta as aventuras do cadáver de Evita, que passou por mil peripécias antes de ser finalamente sepultado no cemitério da Recoleta em Buenos Aires. É uma história hipnotizante, que me deixou ainda mais fascinado pela ex-primeira-dama argentina, e serviu de esquenta para o filme com Madonna que estreou no Brasil meses depois. Imagine então a minha trepidação quando minha irmã me chamou para dar uma espiada no livro de visitas da Samambaia. Lá estavam elas, todas pimponas: as assinaturas de Juan Domingo e sua mulher Eva Maria Duarte de Perón, em algum momento do final dos anos 40 (o avô dos meus irmãos era um rico armador que, a pedido do governo, recebia muitos convidados internacionais). La señora continua voltando, de milhões de maneiras diferentes. Ontem, o dia em que se completaram 70 anos de sua morte, a plataforma Star+ lançou a minissérie "Santa Evita", que é mais do que uma adaptação do livro. Ela também conta a incrível trajetória da garota bastarda que se tornou a mulher mais poderosa da América Latina. Eu gosto muito da Natalia Oreiro, uma das melhores atrizes da Argentina, mas acho que ela tem um porte aristocrático demais para o papel. Evita era uma mulher do povão, de cara gorducha e meio vulgar, mas toda produção dos nossos hermanos sobre ela escala atrizes hiper glamurosas para encarnar essa personagem lendária. Isto não impede que "Santa Evita" seja uma óitma série, dessas que a gente liquida em três dias no máximo. Hoje cheguei ao episódio que eu mais esperava: o da poupée. Quem leu o livro sabe do que eu estou falando. Mais não conto, para não dar spoiler.

EPPUR SI MUOVE

E, no entanto, ela se mexe. Ela, no caso, é a sociedade civil brasileira, que finalmente começa a reagir às falas golpistas do Biroliro. A famosa frase de Galileu Galilei se aplica desde que inúmeras organizações manifestaram apoio à democracia, depois do desastroso "brienfing" da semana passada a dezenas de diplomatas estrangeiros. A mais vistosa dessas manifestações é a Carta aos Brasileiros e Brasileiras em Defesa do Estado de Direito, que conseguiu a adesão de vários banqueiros e empresários importantes - um sinal inequívoco de que o grande capital desistiu do Boçalnaro. Também há alguns ex-ministros do STF entre os signatários, entre os quais se destaca Celso de Mello, que definiu o Bozo como "um político menor e medíocre". A Carta já conta com mais de 60 mil assinaturas, inclusive a minha, e continua aberta a novos apoiadores. Corra lá, e assine você também.

terça-feira, 26 de julho de 2022

OS HÚNGAROS SÃO EUROPEUS?

Viktor Orbán, o repugnante primeiro-ministro neofascista da Hungria, disse num evento na vizinha Romênia que os húngaros não querem se misturar com povos não-europeus. Pois até parece que os húngaros são europeus... Orbán finge se esquecer da história de seu país, onde há gente que se gaba de descender de Átila, o Huno. O fato é que os húngaros são um povo fino-úgrico originário do lado de lá dos montes Urais - ou seja, na Ásia. Falam uma língua não-europeia e só chegaram à região da Panônia em 895, onde se estabeleceram. No caminho, foram se misturando com tribos turcas, eslavas e germânicas - ou seja, não têm xongas de raça pura. Eu estudei no Santo Américo, um colégio de padres húngaros, e um dos professores adorava contar como sua avó tinha os olhinhos puxados feito uma mongol. Como lembrou Ruy Castro em sua coluna de ontem na Folha, Millôr Fernandes já dizia: "racista é um cara que nunca mandou examinar sua árvore genealógica."

SAMBANDO NA BANDEIRA

Nunca senti tanta vergonha de ser brasileiro e tamanho desânimo com o futuro do país. Se eu tivesse 20 anos de idade, estaria pensando seriamente em me mandar daqui. Estou apavorado com a quantidade de gente escrota que saiu da toca nos últimos anos. É inconcebível que 30% dos brasileiros ainda apoiem o Biroliro, mesmo com tantas mortes, tanta miséria e tanta incompetência. É um apoio totalmente emocional e irracional, que não sobrevive à luz do sol - mas essa turma vive nas sombras. Por tudo isso, entendo perfeitamente o rompante da Bebel Gilberto durante um show nos Estados Unidos. Na verdade, ela não sambou na bandeira, mas no desgoverno do Bozo e na apropriação espúria que ele faz dos símbolos pátrios. A cantora se arrependeu na hora e pediu desculpas à plateia, mas já era tarde: forneceu sem querer matéria-prima para a extrema-direita, que editou o vídeo e só postou a parte comprometedora nas redes sociais. Pois eu piso na bandeira também, no sentido figurado. Esse país de gente escrota não é o meu.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

ENCONTRO COM FÁTIMA BERNARDES

Hoje eu participei do meu terceiro "Roda Viva", o primeiro sob o comando da Vera Magalhães. A convidada era Fátima Bernardes, que está passando por mais uma virada na carreira. Depois de deixar a bancada do "Jornal Nacional" dez anos atrás para assumir seu próprio programa, ela agora deixa esse programa para apresentar o "The Voice Brasil" e ter mais tempo para si mesma. Fátima em pessoa é tudo aquilo que a gente vê na TV. Simpática, acessível, sem embromação e com um timing preciso nas respostas. Vai ao ar daqui a pouco, às 22h, pela TV Cultura e pelo YouTube da emissora, onde o episódio também fica disponível depois.

ATUALIZAÇÃO: para quem não viu, aqui está o programa completo.

domingo, 24 de julho de 2022

A DAMA NA TORRE

Já passa da hora do Brasil admitir que Ana Lúcia Torre é uma grande dama do nosso teatro. Conhecida por papéis coadjuvantes na TV, ela é simplesmente uma das nossas melhores atrizes. E confirma seu talento espetacular em "Longa Jornada Noite Adentro", em cartaz em São Paulo. A peça autobiográfica de Eugene O'Neill é uma porrada atrás da outra: mãe drogada, pai alcoólatra, filho tuberculoso. O diretor Sérgio Módena consegue dar uma certa leveza explorando o palco circular do Tucarena e carregando no branco, tanto no cenário como nos figurinos. Mas texto e atuação nos arrastam sempre para as profundezas. Todo o elenco está bem, mas Ana Lúcia se impõe. Ela combina autoridade, doçura e desespero como uma mulher sofrida, que se recusa a encarar a realidade à sua volta. Uma intérprete à altura do texto. Uma dama.

sábado, 23 de julho de 2022

CINEMA TRANSCENDENTAL

Algumas plataformas de streaming sofrem de um mesmo problema. Divulgam o nome do filme ou da série em inglês, e aí você vai procurar e a porra está em português, ou vice-versa. O Star+ acaba de fazer isto com "Competição Oficial", que algum estagiário idiota traduziu para "Concorrência Oficial". Sim, "competencia" em espanhol também quer dizer "concorrência", mas o título também se refere à competição oficial dos grandes festivais de cinema. Ou seja, algo com que o estagiário de uma plataforma de streaming deveria estar familiarizado. Para piorar, quem procurar pelo longa no Star+ só irá encontrá-lo com seu nome original. Dito isto, vá lá, procure, assista. É um dos melhores filmes do ano. A dupla de diretores argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn é especialista em tirar sarro do mundo das artes. Avacalharam com a arquitetura em "O Homem do Lado" e com a literatura em "O Cidadão Ilustre"; Duprat ainda avacalhou sozinho com a pintura em "Minha Obra-Prima". Agora chegou a vez do cinema, e o resultado é uma obra-prima. Penélope Cruz faz uma diretora metida a gênia, que submete os atores a provas absurdas para arrancar deles uma suposta verdade (dizem que a personagem é calcada na cineasta argentina Lucrecia Martel). Contratada por um bilionário vaidoso para adaptar um romance premiado para as telas, ela escala para os papéis principais dois atores celebrados, mas por razões opostas. Um deles é um astro global mimadinho e cheio de vontades, feito por Antonio Banderas. O outro se leva demasiadamente a sério, vem do teatro e dá um curso de interpretação muito disputado. O choque dessas três personalidades é divertidíssimo. Nunca vemos as filmagens em si, mas apenas os ensaios, que acontecem no que seria a sede da fundação do tal bilionário. Captados com a câmera parada, esses amplos espaços minimalistas geram um frame mais lindo do que o outro. "Competição Oficial" vai agradar mais a quem não for leigo no métier da atuação, mas o contraste de egos e fragilidades que o filme mostra é universal.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

AS PANTERAS DETONANDO

Acaba de sair "Panteras do Lula 2", a continuação daquele vídeo épico que abalou o Brasil há cerca de quatro meses. Como em todos os trabalhos do Zel Júnior, aqui o pau também come solto e o sangue jorra aos borbotões. Mas confesso que dessa vez fiquei apreensivo: com tantas mortes já causadas pela violência dos birolistas, será que estava na hora de responder na mesma moeda? Ainda que seja de brincadeira, porque a turma do lado de lá não sabe o que é humor. Só que há um plot twist que salva o dia. O autodidata Zel Junior mais uma vez prova seu enorme talento, e ainda aproveita para passar o chapéu no final. Vamos colaborar aí, galère: esse garoto já foi longe, e ainda irá muito mais.

BRIDGERTON + BRIDGET JONES

O título deste post não é ideia minha. É a definição de um crítico do New York Times para o filme "Persuasão", que chegou à Netflix na semana passada. Trata-se de mais uma refilmagem de um romance de Jane Austen, dessa vez com elenco color blind e a americana Dakota Johnson no papel principal. Aliás, ela está ótima: são poucas as atrizes que conseguiriam quebrar a quarta parede como ela faz, piscar para o espectador e voltar à história como se nada. A trama, como em qualquer obra de Austen, gira em torno de uma moça de classe alta mas nem tanto, em busca do verdadeiro amor. Aqui esse amor aparece cedo para a protagonista, que segue os conselhos da família e dispensa o rapaz porque ele é pobre. Claro que o sujeito reaparece anos depois, agora rico, e a coitada treme na base. Pronto, mais nada. "Persuasão" é só isto. Mas é bonitinho de se ver, e Dakota Johnson dá mais um passo interessante em sua carreira.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

O CIRCO DA MULHER ABANDONADA

Ontem a Polícia Civil bateu na porta do número 1.111 da rua Piauí, no rico bairro paulistano de Higienópolis (onde, no entanto, não faltam barracos de sem-teto nas calçadas e craqueiros enrolados em cobertores vagando pelas ruas). A missão era nobre: averiguar se Margarida Bonetti, há 20 anos a única moradora da agora célebre mansão, vive em situação de abandono. A questão é pertinente, pois o imóvel está caindo aos pedaços, há lixo acumulado por todos os lados, nuvens de mosquitos e um cheiro insuportável que incomoda a vizinhança. Mari, como ela prefere ser chamada, mora assim há muito tempo, mas só agora o poder público revolveu tomar alguma providência. A causa, é claro, é o podcast "A Mulher da Casa Abandonada", o must do momento, criado e apresentado pelo jornalista Chico Felitti. Para quem ainda não sabe: intrigado com o estado lastimável da casa de Mari, que sempre aparece com o rosto coberto por uma pomada branca, Felitti acabou descobrindo que ela é uma fugitiva do FBI, acusada de ter mantido uma empregada doméstica brasileira em condições análogas à escravidão por quase duas décadas, nos Estados Unidos. O crime já prescreveu e ela não pode mais processada; seu ex-marido, que ainda mora nos EUA, passou seis anos na prisão. O sucesso avassalador do podcast transformou a reportagem num fenômeno pop, com influenciadores gravando dancinhas na frente da casa e os mais exaltados jogando pedras e gritando xingamentos contra Margarida (consta que até um tiro atingiu uma janela do segundo andar). A visita de ontem da polícia foi coberta pelo programa "Brasil Urgente", e o apresentador José Luiz Datena deu sobejas provas de que não tinha a mais puta ideia do que se tratava. Ainda teve Luisa Mell pagando um mico, pois ela ouviu dizer que havia um gato na casa e correu para lá para salvar o bichano. O tal do gato seria uma ligação elétrica ilegal, que não se confirmou, e Luisa saiu com um cachorrinho nas mãos, supostamente desnutrido (pelas fotos não parecia). A reação popular a "A Mulher da Casa Abandonada" traz à tona duas características do Brasil contemporâneo. A primeira é ótima: uma maior consciência do horror do racismo. Ninguém mais engole que uma mulher mantida em cativeiro, sem salário, com pouca comida e nenhum atendimento médico, é "quase um membro da família". A outra não é tão boa. Hoje muita gente se sente autorizada a fazer justiça com as próprias mãos, e Margarida sofre riscos em sua integridade física se continuar na casa. Aliás, cadê a família que ainda não a tirou de lá? Ela tem duas irmãs e um filho adulto. Não sou psiquiatra, mas parece óbvio que Margarida sofre de algum distúrbio mental - ela é, no mínimo, uma acumuladora, presa numa bolha do passado. Mas é curioso que nenhum parente a queira por perto. Há também uma justiça poética nesse bafafá: a mulher da casa abandonada está finalmente pagando, com toda essa execração, pelo crime hediondo de cuja punição conseguiu escapar.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

O DRAGÃO NO AR REAPARECEU

Falta um mês para "Game of Thrones" recomeçar. De um ponto muito anterior a onde terminou a sétima temporada: "A Casa do Dragão", na verdade, é uma prequel, que se passa uns 300 anos antes de Daenarys, Jon Snow e companhia bela. Mesmo tendo sido fanático por "GoT", confesso que não estava muito assanhado com esta nova série. Até ver o trailer que saiu hoje: os personagens parecem interessantes, e personagens sempre foram o forte do universo criado por George R. R. Martin. Agora conto os dias para ser chamuscado de novo. Dracarys!

AGORA É QUE SÃO ELAS

Andréa Beltrão não para de me surpreender. É incrível pensar que a mesma atriz que encarnou a esfuziante Hebe Camargo agora faz uma mulher recém-saída de um longo coma no filme "Ela e Eu", que entra em cartaz nesta quinta. O título pode se referir às duas fases da vida da protagonista Bia, intercaladas por uma lacuna de mais de 20 anos: a pessoa que ela era até sofrer complicações durante um parto, e a que acorda décadas depois, num ambiente familiar que lhe é estranho. Pois seu marido está com outra, e sua filha já uma jovem adulta. Todos morando na mesma casa, ela inclusive. Por isto, "Ela e Eu" também pode se referir à relação entre Bia e a atual mulher de seu marido, ou àquela entre Bia e a filha que chama a outra de mãe. No meio dessa barafunda. Andréa Beltrão constrói uma personagem delicadamente atordoada, de gestos curtos, que reaprende aos poucos como se mover pelo mundo. Uma das grandes atuações do ano.

terça-feira, 19 de julho de 2022

GARANTA JÁ O SEU INGRESSO

Em 2020, um bando de moleques americanos se organizou via Tik Tok para retirar ingressos online para comícios de Donald Trump e não ir. Conseguiram esvaziar os eventos, o que enfureceu o Bebê Laranja. A ideia está sendo copiada hoje no Brasil: basta entrar na plataforma Sympla e garantir seu ingresso gratuito para a convenção do Partido Liberal, que irá oficializar a candidatura do Edaír e acontece neste domingo no Rio de Janeiro. Enfrentei até mesmo uma fila de espera virtual, mas já garanti o meu. Corre lá, antes que se esgotem todos!

BRIENFING

Biroliro vai mesmo tentar o golpe. Ele não tem outra alternativa. Se deixar as eleições acontecerem normalmente e aceitar que Lula ganhou, será preso no ano que vem. Só que o golpe não vai dar certo, e o Edaír vai acabar na cadeia de qualquer jeito. Sabe por que eu tenho tanta certeza? Porque ele é um tremendo dum incompetente, cercado por assessores tão incompetentes quanto. Para começar, ninguém passa anos anunciando que vai dar golpe. Na verdade, o Bozo só quer que as pessoas tenham medo dele, que não passa de um fracote covarde. E as ideias que ele tem só funcionam no cercadinho. Essa de chamar os embaixadores para uma "palestra" sobre a segurança das urnas eletrônicas já está se revelando um vexame histórico. Mais um tiro no pé. Só os diplomatas da Hungria devem ter saído convencidos. E ainda teve o inesquecível slide do "brienfing"- OK, pode ter sido um mero erro de digitação, mas o fato de ninguém ter reparado e deixado o troço ser exposto é uma prova da incompetência geral desses patetas.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

VIREI O BROTO PRA LÁ

Cely Campello fez muito sucesso no comecinho dos anos 60, em pleno império da bossa nova e alguns anos antes da Jovem Guarda. Musicalmente, não trouxe grandes contribuições para a MPB, pois quase todos os seus sucessos eram versões de músicas estrangeiras. Teve mais importância como fenômeno pop, já que foi a primeira cantora brasileira voltada para o público jovem. Mas sua suposta rebeldia não foi muito longe, já que abandonou a carreira com apenas 20 anos de idade para se casar. Foi uma decisão sofrida? Que forças opostas lutaram dentro da pequena paulista de Taubaté? Jamais saberemos, a depender do filme "Um Broto Legal". A história de Cely e seu irmão Tony é contada sem tensão nenhuma, ou seja: não é uma história. O roteiro mambembe é prejudicado pela produção pobrezinha, e o resultado é um filme em que atuações, cenários e enquadramentos lembram uma novela não-bíblica da Record. Salvam-se os protagonistas Marianna Alexandre e Murilo Armacollo, que cantam bem e captam o espírito ingênuo da época. Mas foi duro ver esse longa caretinha depois da explosão de "Elvis".

MEU ARQUITETO FAVORITO

Ontem me bateu um arrependimento. Sete anos atrás, quando procurei apartamento para comprar, concentrei minhas buscas na região da Paulista. Não me ocorreu conferir se havia algo disponível no edifício mais bacana de São Paulo, o Bretagne, na avenida Higienópolis. O lugar em questão, que tem um bar de uso exclusivo dos moradores, é minha obra favorita do meu arquiteto favorito, J. Artacho Jurado, que abalou o mercado imobiliário paulistano nas décadas de 1950 e 1960 com seus prédios coloridos. O establishment da época lhe torcia o nariz: Jurado não só não era formado em arquitetura, como seu estilo não seguia o cânone em voga, de construções sem nenhum adorno. Era, de certa forma, o anti-Niemeyer, que sempre se preocupou mais com a beleza da obra no papel do que com o conforto e a praticidade de seus usuários na vida real. Os prédios de J. Artacho Jurado eram criados sob medida para o ser humano: têm piscinas, terraços, vistas panorâmicas e caixas d'água que parecem saídas de um episódio dos Jetsons. A crítica não gostava, mas o público, sim: seus lançamentos se esgotavam na planta. Hoje finalmente valorizado, esse gênio é o tema de uma boa exposição, "Artacho Jurado, Arquiteto?", em cartaz na Chácara Lane aqui em SP. A mostra, que deveria ter fechado em abril, fica em cartaz até domingo que vem, 24 de julho. Vá lá se você puder, e se arrependa você também.

domingo, 17 de julho de 2022

TILDA'S HONOR

É muito estranho ver Tilda Swinton interpretando uma pessoa normal, sem maneirismos peculiares nem toneladas de maquiagem. Nas duas partes de "The Souvenir", ela aparece como uma senhorinha de suéter, e seus cabelos parecem naturais - mas com ela nunca se sabe, vai ver que é peruca. Tilda interpreta a mãe da personagem de sua própria filha, que ostenta o nome formidável de Honor Swinton Byrne (o pai é o dramaturgo John Byrne). Os filmes, saudados por parte da crítica internacional como a melhor coisa desde que inventaram o pão com manteiga, não estrearam no Brasil, mas podem ser alugados nas boas plataformas do ramo. São, na verdade, trabalhos autobiográficos da diretora Joanna Hogg. Seu alter ego Julie é uma estudante de cinema nos anos 80, que no primeiro longa se envolve com um sujeito um pouco mais velho e bastante problemático. No segundo, essa relação já acabou, e a vida segue seu rumo. Há mais plot na primeira parte, mas a segunda flui melhor. Honor tem aquela qualidade de ser feia e bonita ao mesmo tempo, que rendeu a Meryl Streep uma carreira longa e variada. E Tilda é Tilda: uma atriz fabulosa, que brilha mesmo quando interpreta uma pessoa sem graça.

sábado, 16 de julho de 2022

TÁ LÁ O CORPO CAÍDO NO CHÃO

Olha só que conveniente: justo na semana em que o Minto está sendo acusado de espalhar uma ideologia assassina, seu gado consegue imagens de um filme em que um personagem parecido com ele é morto durante uma motociata. Carla Zambelli e Mario Frias acusaram a Globo por essa imensa maldade; o ministro Anderson Torres vai mandar apurar, como se alguém tivesse cometido um crime; e até Sergio Moro, que a essa altura deveria se manter distante dos minions, manifestou seu desagrado. Dizem que o longa em questão é "A Fúria", de Ruy Guerra, mas o cineasta não diz nem que sim nem que não - ou seja, é mesmo. Como as filmagens ainda não acabaram, vai levar pelo menos um ano para vermos essas imagens em movimento no escurinho do cinema. Até lá, o desgoverno será fumaça, e o Edaír vai estar enrolado na Justiça, Que ele pague aqui mesmo por seus crimes.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

O ÓBVIO LULANTE

É óbvio que o assassinato de Marcelo Arruda por Jorge Guaranho foi um crime político. É mais do que óbvio. O birolista Guaranho sequer conhecia o petista Arruda, portanto não tinha nenhum outro motivo para matá-lo. E vamos combinar que alguém que sai de carro à noite para fazer "ronda", fora do horário de trabalho, está procurando encrenca. Guaranho ficou sabendo da festa temática de Arruda e foi lá provocá-lo; levou terra de vaso na cara e, segundo a defesa, isto bastou para que ele se sentisse humilhadíssimo, a ponto de querer lavar a honra com sangue. Também é óbvio que a polícia do Paraná apressou o inquérito e foi logo descartando a óbvia motivação política, para livrar a cara do Bozo e de sua ideologia violenta. Guaranho fazia arminha até debaixo d'água. Um boçal. Mais óbvio que isso, só a vitória do Lula em outubro.

PERIGO À VISTA

Não basta a Gol punir seus passageiros com as lendárias barrinhas de cereal e assentos que quase não reclinam. A companhia aérea terminou de enterrar o que sobrava de sua imagem ao abrir as pernas para a familícia. Um minion postou nas redes um vídeo que mostrava a distribuição gratuita de exemplares antigos da Veja no balcão da aerolinha. A capa do número da semana passada mostra as urnas eletrônicas refletidas no olhar insano do Mijaír, com a chamada "Perigo à Vista" (a matéria pode ser lida de graça aqui, no site da revista). Em mais uma tentativa de distrair a mídia de assuntos como a inflação e o assassinato político do petista de Foz do Iguaçu, figuras como o Zero-Um e Mario Frias cobraram publicamente uma retratação da Gol. E não é que a empresa topou? Não só parou imediatamente de distribuir a Veja, como ainda rompeu o contrato de parceria com a editora Abril. Só faltou ajoelhar no milho e se auto-açoitar. É óbvio que a Gol deve estar renegociando dívidas ou tem algum outro interesse com o desgoverno, mas nem isso justifica uma atitude tão subserviente. É aí que mora o perigo. Daqui a pouco esses bandidos vão exigir submissão de qualquer veículo que criticar o Biroliro.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

ELVIS IS IN THE BUILDING

"Ele é branco, mas tem voz de negro. E é isto o que o público quer". Foi assim que o produtor de Rick Astley definiu o cantor de "Never Gonna Give You Up", em 1988. A mesma descrição caberia em Elvis Presley, três décadas antes, e eu me pergunto se o público de hoje ainda quer a mesma coisa. "Elvis", o filme, estressa várias vezes esse ponto, e faz do maior nome do rock'n'roll um anjo do antirracismo. Uma espécie de embaixador, que descia ao subterrâneo dos negros para trazer ritmos e danças pecaminosas à superfície dos brancos. Consta que o verdadeiro Elvis não era tão bonzinho atrás, mas no longa de Baz Luhrmann ele praticamente não tem defeitos. A não ser uma ingenuidade colossal, que o faz ser tapeado por seu empresário, o asqueroso Coronel Parker, durante quase toda sua carreira. O roteiro de "Elvis" não mergulha na psiquê do personagem, e eu saí do cinema sem saber o que levou o astro a comer tanto e a se drogar tanto nos últimos anos de sua curta vida. Mas talvez não houvesse mesmo no que mergulhar. O Elvis histórico talvez fosse só voz e corpo, sem muita coisa na cabeça. Mesmo sem chegar a uma conclusão, "Elvis" é espetacular. A montagem é de tirar o fôlego cheia de letreiros e efeitinhos, e me manteve grudado na tela por quase duas horas e meia. Há muita ênfase no especial de TV de 1968, que deu um reboot na carreira de Elvis Presley, e pouca nos filmes bobos que ele estrelou no começo dos anos 60. Mas as músicas estão todas lá, e as atuações são soberbas. Tom Hanks vem sendo malhado pelos tom ligeiramente over que deu ao Coronel Parker, mas eu achei que combinou com o estilo esfuziante de Luhrmann. E Austin Butler, no papel principal, é uma supernova explodindo à nossa frente. Lindo, com um certo ar de Travolta aos 20 anos de idade, ele recebe de frente o espírito do biografado e se torna seu cavalo. Um cavalo belíssimo, arisco, com todos os gritos e rebolados que tornaram o original uma ameaça à civilização ocidental. Que não teme nada mais do que o desejo feminino, liberado por "The Pelvis" aos borbotões.

JOÃOZINHO SERÁ QUEM ELE QUISER

É extraordinariamente cansativo postar quase todo dia sobre as barbaridades do Biroliro. Tem dias em que eu me forço a mudar de assunto, sob o risco de ajudar a normalização deste boçal que finge que nos governa. Ontem o Edaír esteve em Imperatriz, reduto evangélico no sul do Maranhão e uma das raras cidades nordestinas onde ele venceu em 2018. Para agradar à plateia ignorante, ele defendeu que "Joãozinho seja Joãozinho a vida toda, e Mariazinha seja Mariazinha". Jogou a culpa na imaginária ideologia de gênero, que convenceria crianças perfeitamente heterossexuais a mudar de sexo. E ainda lembrou um dos maiores perigos de sua reeleição: a indicação de mais dois capachos para o STF, capazes de dificultar o avanço dos direitos LGBTQIA+ no Brasil. Mas essas palavras horrorosas não conseguem inverter o curso da história. Joâozinho e Mariazinha continuarão sendo o que eles quiserem ser. Não vai ter estado nem igreja nem miliciano para obrigá-los a nada, porque Joãozinho e Mariazinha não estão mais sozinhos.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

COVARDE, NANICO E MAU-CARÁTER

Muito se fala da total falta de empatia do Biroliro com qualquer um que não faça parte da sua familícia. O Despreparado foi incapaz de demonstrar um pingo de solidariedade pelos quase 700 mil mortos pela Covid, por Genivaldo, por Dom Phillips e Bruno Pereira. Mas a imprensa e as redes sociais dão pouca atenção a uma característica ainda mais infame da cavalgadura que chegou à Presidência: a covardia. Edaír age como o típico bully da quinta série, que só é corajoso quando anda em grupo. Ao ser confrontado, joga sempre a culpa nos outros, um atestado de mau-caráter registrado em cartório. Ontem ele deu mais uma prova do medo que o corrói por dentro. Ao invés de procurar a viúva de Marcelo de Arruda para lhe dar os pêsames, o Genocida preferiu telefonar para os irmãos do militante petista morto em Foz do Iguaçu, que são bolsominions. Ainda teve o desplante de convidar a dupla para participar de uma coletiva em Brasília em que seria dada uma nova versão para o assassinato que chocou o Brasil. Vamos ver se o fanatismo desses caras vai ao ponto de chutar a cova do irmão com o cadáver ainda quente. Ao acusar a esquerda dos crimes que ele mesmo comete, Bostonazi se desnuda em toda sua pequenez. E quem ainda o apoia, depois de tanto horror, tem o mesmo tamanho desse nanico.

terça-feira, 12 de julho de 2022

COREIA SE ESCREVE COM EMMY

Quem diria que um pequeno país asiático, espremido entre dois gigantes e com uma língua que ninguém mais fala, é a mais nova potência cultural? Nos últimos anos, a Coreia do Sul emplacou nada menos que a banda mais popular (BTS), o filme mais premiado ( "Parasita") e o reality show mais vendido ("The Masked Singer") do mundo. Agora ela consegue a façanha de ter a primeira série em língua não-inglesa indicada às principais categorias do Emmy. Não o Emmy Internacional, voltado à produção do resto do mundo, mas o Emmy "normal", onde competem os pesos-pesados da indústria americana e uma ou outra série britânica. Essa conquista deveria calar a boca dos babacas que ainda gritam "acabou a mamata!", pois foram os mecanismos de incentivo à cultura que deram essa pujança toda à Coreia do Sul. Lá, o soft power é levado a sério e reverte em divisas para o país; aqui, o gado seguidor do Genocida acha que tudo se resolve à bala, como se ainda estivéssemos no século 17. Não sei se "Round 6" tem grandes chances, mas torço por ela contra "Sucession", cuja terceira temporada foi um marasmo, ou "Ruptura", da qual eu só vi o primeiro episódio (OK, vou dar mais uma chance). Mas não vou ficar triste se a vitória couber à sexta e última safra de "Better Call Saul". Dá para acreditar que o spin-off da premiadíssima "Breaking Bad" nunca levou um único Emmy, nem nas categorias técnicas?

ELA SE ENVOLVEU

Anitta vem expondo nas redes sociais algo muito mais interessante do que sua tatuagem "no toba". Desde 2018, quando ainda se dizia isentona, a cantora passa por um notável processo de amadurecimento político. Pressionada pelos fãs, Anitta aderiu à campanha do #EleNão, pouco antes da eleição do Despreparado. Depois, admitindo que não sabia o que fazia um deputado, teve aulas de política com Gabriela Priolli, que transformou em lives assistidas por milhares de pessoas (ou seja, compartilhou seu, aprendizado). Este ano ela se dispôs a pagar as multas que algum fã recebesse por apoiar Lula durante algum show, o que foi derrubado pelo STF. Ontem, finalmente, Anitta declarou apoio a Lula no primeiro turno. Eu assino embaixo, pois me identifico com ela. Não sou petista e nunca fui, mas este ano estou com Lula. A volta do ex-presidente é a única saída para a democracia brasileira, depois desse atoleiro em que nos enfiamos. Não é o candidato dos meus sonho e não, não esqueci do mensalão e do petrolão, mas a ditadura que a familícia quer implantar é mil vezes pior.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

MESMO PROIBIDO, ACONTECE

Mesmo com o avanço do feminismo, as mulheres são oprimidas até hoje. Dois exemplos recentes são a reversão da histórica decisão Roe vs. Wade pela Suprema Corte dos Estados Unidos, que "desreconheceu" o direito constitucional ao aborto, e o caso inacreditável do médico carioca que enfiou o pau na boca de uma mulher que havia acabado de passar por uma cesariana. Se isto acontece agora, imagine 60 anos atrás, quando o aborto não era legalizado em quase nenhum país da Europa. É nessa época que se passa "O Acontecimento", vencedor do Festival de Veneza do ano passado. O filme de Audrey Diwan é baseado num livro autobiográfico da escritora Annie Ernaux, hoje com quase 82 anos. Ela conta como, aos 20 e poucos, se descobriu grávida. Sem namorado fixo e com planos de continuar os estudos, ela queria abortar, mas não encontrava apoio entre médicos, familiares ou amigos. Seu périplo durou agonizantes 12 semanas, e por pouco não acabou muito mal. Tanto sofrimento faz com que o longa não seja exatamente divertido, mas sem dúvida que é educativo. Vivemos um momento em que a mulherada pode perder de uma hora para a outra as conquistas das últimas décadas. E é bom lembrar que os gays perderemos as nossas antes.

BOLO DE CHUMBO

Biroliro não quer ser associado ao crime de Foz do Iguaçu, apesar do assassino do militante petista ter gritado seu nome enquanto disparava tiros. No mesmo dia, o Bananinha celebrou seus 38 anos com... um 38? Como que alguém chama uma criança para soprar velinhas de um bolo em forma de revólver? Depois o pai dele ainda diz que a esquerda tem histórico de violência, quando a história prova que é a extrema-direita que sempre reage a bala quando é apeada do poder. O fato desse bandido ainda ter 30% de apoio entre os brasileiros é algo que me enche de nojo e vontade de sair do país. O Brasil foi infectado pelo vírus do ódio irracional, e não será só a eleição de Lula em outubro que irá nos curar. Essa boçalidade está entranhada na alma nacional, desde o século 16. A familícia só é sua cara atual.

domingo, 10 de julho de 2022

ALÉM DO HORIZONTE EXISTE UM LUGAR

Muitos anos atrás, eu li um ótimo livro chamado "Maluco", do espanhol Napoleón Baccino Ponce de León. Trata-se de um relato em primeira pessoa de um fictício marinheiro da esquadra de Fernão de Magalhães, que completou a primeiríssima circunavegação do globo em 1522. O título se refere às ilhas Molucas, hoje o arquipélago indonésio de Maluku. Os europeus eram tão obcecados por conseguir as especiarias de lá que foram apelidados de "malucos" que tal? A história dessa expedição é tão fabulosa que, se envolvesse ingleses, já teria sido adaptada para dezenas de filmes, peças, séries e games. Mas a Espanha finalmente está se tornando um grande pólo de produção. A mais recente novidade vinda de lá é a minissérie "Sem Limites", recém-chegada à Amazon Prime Video, uma reconstituição minuciosa de uma viagem que mudou o mundo. O tom épico resvala no colonialismo, e os figurantes da República Dominicana, onde foram rodadas as cenas de praia, mal convencem comi indígenas brasileiros ou ilhéus do Pacífico. Mas Rodrigo Santoro nunca esteve tão bem como no papel de Magalhães. Ele consegue passar uma intensidade que, se fosse um ator mais fraco, facilmente viraria canastrice. Como o piloto Sebastián Elcano está Álvaro Morte, o Professor de "La Casa de Papel". Quando participei de uma coletiva com ele, uns dois anos atrás, tudo o que me ocorreu perguntar era se o ator sabia o que o sobrenome dele signfica em português...

Ó MUNDO TÃO DESIGUAL

As duas postagens recentes aqui no meu blog com mais audiência e mais comentários foram ambas sobre membros da elite brasileira ostentando privilégios em textos de jornal. Tanto os delírios de Danuza Leão como os de Washington Olivetto revoltaram boa parte dos meus leitores, sem falar do fuzuê que causaram nas redes sociais. O que era encarado como gracinha alguns anos atrás agora é execrado, porque o Brasil finalmente está se dando conta de sua profunda desigualdade social. Esse mesmo sentimento explica o sucesso avassalador do podcast "A Mulher da Casa Abandonada", do jornalista Chico Felitti, lançado pela Folha de S. Paulo. Apesar de parecer que é uma vítima, a personagem-título na verdade é uma vilã: Margarida Bonetti, dita Mari, que se refugiou no casarão da família em Higienópolis depois de fugir dos Estados Unidos, acusada de manter uma empregada em regime análogo à escravidão. Apesar de habitada, a casa em questão está caindo aos pedaços, cheia de lixo e focos de mosquitos, exalando um mau cheiro que atazana a vizinhança. Chico é um tremendo "storyteller", que sabe envolver o ouvinte ao longo de sete episódios com cerca de 40 minutos cada (cinco já estão disponíveis). Comecei a ouvir ontem e já estou viciado. O podcast virou um fenômeno e, como diz o ombudsman da Folha em sua coluna de hoje, saiu do controle do jornal. Com curiosos e canais de TV cercando a casa, Margarida se escafedeu, e a ONG de Luisa Mell precisou salvar os cachorros de lá na semana passada. O perigo, claro, é alguém se dispor a fazer justiça com as próprias mãos, e agredir Margarida fisicamente ou depredar a casa. Mas precisamos todos ter a consciência de que o trabalho escravo ainda existe em pleno século 21, bem nas nossas barbas. Desigualdade nesse nível não pode ser mais tolerada.

sábado, 9 de julho de 2022

TROVEJA MAS NÃO CHOVE

Já faz alguns que eu desisti de ver filmes de super-herói no cinema. Atualmente eu espero chegar no Disney+ e olhe lá. Mas hoje eu abri exceção: quis assistir a "Thor: Amor e Trovão" na tela grande, depois de ter me esbaldado à pampa com "Ragnarok", que eu vi num avião. Ainda mais porque direção e roteiro são de Taika Waititi, o neozelandês maluco que também fez "Jojo Rabbit". Percebi muitos puristas reclamando na internet, e me animei ainda mais. Se adultos que levam a sério o Universo Cinematográfico Marvel estão se queixando que tem piada demais, então eu vou gostar. Só que não. A única sequência que realmente me divertiu foi uma megarreunião de quase todos os deuses, liderada por Zeus - um Russell Crowe bem gorducho, falando com sotaque grego fake e rindo por dentro o tempo todo. Ah, sim, também tem a bunda do Chris Hemsworth, sensacional O resto, apesar da galhofa generalizada, é muito trovão para pouca chuva. Tem Christian Bale caracterizado como Voldemort com nariz, fazendo um pai desesperado que quer matar todos as divindades que não salvaram sua filha (perfeitamente compreensível, aliás). E tem Natalie Portman interpretando a namorada com câncer. Porra, multiverso, que tal me dar uma folga quando eu vou ao cinema?

sexta-feira, 8 de julho de 2022

AS PIORES IMPRESSÕES

Para conseguir uma arma de fogo no Japão, só mesmo sendo membro da Yakuza. O país tem uma das legislações mais rígidas de controle de armas do mundo, e o resultado é uma taxa baixíssima de mortes por tiros. Os massacres diários como acontecem nos EUA, então, são desconhecidos por lá. Mas lobos solitários aparecem em qualquer cultura, e este parece ser o caso de Tetsuya Yamagami, o assassino do ex-premiê Shinzo Abe. A arma com que ele cometeu o crime era de fabricação caseira, e há que especule que pelo menos parte dela teria sido feita com uma impressora 3D. Já pensou se a moda pega? Os CACs brasileiros imprimindo em casa suas próprias arminhas?

quinta-feira, 7 de julho de 2022

AO VIADEIRO DO FADO

Meu, como eu estava com saudade de ir num lugar onde só tem viado. Dois anos e tanto de pandemia, mais o tratamento que me diminuiu a imunidade, me afstaram do meu habitat natural. Hoje matei parte dessa saudade, porque fui ao show do Fado Bicha na Casa Natura Musical. Sim, havia algumas mulheres na plateia, inclusive umas héteras que falavam alto e não prestavam atenção no palco, as sacrílegas. Mas 95% eram rapazes, nenhum com menos de 30 anos - o fado dá uma selecionada. O show em si foi curto, simples e potente. Sem nenhum cenário, mas com uma iluminação precisa, o vocalista Lila Fadista e o guitarrista João Caçador tocaram quase todas as músicas do ótimo album "Ocupação", além de singles mais antigos como "A Mulher do Fim do Mundo" e "O Namorico do André". Mais politizados do que quase toda a cena queer da música brasileira (a exceção é Linn da Quebrada), os tugas fizeram uma estreia digna em terras brasileiras, com sua mistura ousada de fados tradicionais, rock, eletrônica e letras arreganhadamente ativistas. Este ano concorreram no Festival da Canção, que escolhe o representante português no Eurovisão (como se diz por lá). Não venceram, mas é só questão de tempo. O maior viadeiro do mundo é o habitat natural deles.

QUER SER CHATA, MAS É SÓ PATÉTICA

É inacreditável que, nessa reta final do pior governo da história da República, ainda haja mulheres, negros e gays que apoiam o Despreparado. Uma delas é Pietra Bertolazzi, que se define como DJ, influenciadora e chata em geral. Como eu não frequento a esgotosfera, não conhecia bem a moça, mas ela já teve alguns momentos no noticiário. Participou com seu então noivo, o cantor negacionista Mario Velloso, do "Power Couple" de 2017; teve uma escaramuça pública com Bia Doria; e liderou uma campanha contra um colégio de São Paulo que deu uma versão em HQ de "O Diário de Anne Frank" para os alunos lerem, gritando "erotização!". Detalhe: a HQ seguia o texto original, sem inventar nada. Agora a moça publica na Folha desta quinta uma réplica a uma coluna de Marcelo Coelho, que se perguntou quem eram as mulheres bolsonaristas? Onde vivem? Pietra perde qualquer resquício de credibilidade logo nas primeiras linhas, ao chamar Marcelo de "colunista-comunista". É o mesmo erro bobo dos lulistas, que chamam de extrema-direita qualquer que um que não ache Lula uma divindade. No resto do texto, Pietra refuta a gracinha feita por Marcelo, que imagina as bolsonaristas, em sua maioria, vindas de lugares periféricos sem acesso a uma boa educação. Mas os argumentos são mais ridículos do que o texto do Washington Olivetto louvando o Rio de Janeiro, veja só. Muito fácil ser anti-feminista quando se nasce branca, bonita e num meio privilegiado. A chatice de Pietra Bertolazzi é só auto-marketing: ela não passa de mais uma figura patética, que ainda apoia o Bozo apesar das rachadinhas, dos escândalos no MEC, da CPI da Covid, da destruição da Amazônia, da mansão do Zero Um, das falas machistas, racistas e homofóbicas...

quarta-feira, 6 de julho de 2022

MEMÓRIAS GUSTATIVAS

Minha amiga Marta Matui, do saudoso blog, me mandou um livro de presente: "Sabor - Minha Vida Através da Comida". É uma espécie de autobiografia de Stanley Tucci, um dos melhores character actors da atualidade. Nascido em uma família italiana, ele fala dos pratos que marcaram sua infância em Nova Jersey, e aos poucos vai se gourmetizando. Um ano passado na Itália no começo da adolescência afinou seu paladar, e diversas locações de filmagem pela Europa terminaram por refiná-lo. O livro é cheio de receitas de pratos e drinks. Algumas são bem difíceis - alguém aí já ferveu um pedaço de queijo envolto num saco de musselina? Mais interessante para mim são os jantares com Meryl Streep e Marcello Mastroianni. Pena que parte do humor texto se dilua com a tradução. Mas nem tudo é engraçado: Tucci fala da morte de sua primeira mulher, de câncer de mama, e também de sua própria luta contra a doença, que o atingiu justamente na língua. Mas nada disso lhe tirou o gosto de viver.

CHORES, BORIS

Trinta e oito membros do governo britânico já pediram demissão, depois que o primeiro-ministro Boris Johnson admitiu que sabia que um indicado seu ao ministério era acusado de assédio sexual (contra dois homens, veja só). Esse novo escândalo pode ser o golpe de misericórdia na carreira política do bufão, que fez campanha pelo Brexit por puro oportunismo. País civilizado funciona assim: ninguém quer proximidade com assediadores. Enquanto isto, no Brasil, Pedro Guimarães só saiu da presidência da Caixa Econômica depois que quase uma dezena de mulheres veio a público para denunciá-lo, e o Biroliro se recusa a tocar no assunto. Renunciar ao cargo por causa disto, então, não passa pela cabeça de nenhum ministro. Mas esperar o quê dos nossos políticos e da nossa cultura, machista e antiquada?

terça-feira, 5 de julho de 2022

CAÍA O VETO FEITO UM VIADUTO

Há um certo simbolismo no fato de o Congresso ter derrubado os vetos do Bozo às leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2 no mesmo dia em que Mario Frias foi internado depois de sofrer um infarto. Antes que me entendam mal: não desejo a morte do ex-"Malhação". Apenas que ele nunca mais tenha um cargo público. O cara quer simplesmente destruir a cultura brasileira. Mas nesta terça ele foi derrotado, pelos mesmos parlamentares que estão prestes a lançar o Brasil num buraco sem fundo com a PEC Kamikaze. Não faz mal. As duas leis ressuscitaram, enquanto esse desgoverno de merda agoniza. E Mario Frias dá chilique no hospital ao descobrir que não tem banheiro privativo na UTI.,,