segunda-feira, 27 de junho de 2022

E SE NÃO FOSSE ESTUPRO?

"O que chegou até a mim (sic) não foi o que você escreveu na sua carta", disse a execrável Antonia Fontenelle em seu vídeo de contrição divulgado ontem, dirigindo-se a Klara Castanho. A viúva de Marcos Paulo, assustada com a reação negativa da maior parte do público depois que expôs o drama da  atriz, não chegou a pedir desculpas pelo ato abominável que praticou. Mas tentou se justificar, alegando que desconhecia a violência sexual sofrida pela jovem. Só que é mentira: num vídeo postado no dia anterior, antes de Klara vir a público, a falsa lady já citava o estupro. Então, simplesmente não cola ela vir agora dizer que não sabia de tudo, e que quer ajudar a prender o estuprador.

A suposta influenciadora Dri Paz também afinou o discurso depois que "ficou sabendo" (ahã) do estupro. Até então, Klara Castanho era um monstro de maldade, capaz de jogar numa caçamba o bebê que acabara de ter - aliás, como aconteceu com sua personagem quando recém-nascida na novela "Amor da Vida". Aí, a própria Klara postou uma carta aberta detalhando seu inacreditável calvário, e agora nenhum desses abutres quer ser associado à violência física e moral sofrida pela atriz.

Mas, e se não fosse estupro? A lei brasileira não reserva às violentadas o direito de entregar o bebê à adoção. Qualquer mulher que não se sinta em condições de ser mãe pode fazer isto (as casadas precisam que o marido esteja de acordo). Klara poderia muito bem ter transado à vontade e até mesmo participado de uma suruba; poderia saber da gravidez desde o começo, e não apenas na reta final, como ela conta. Mesmo que tivesse acontecido tudo isso, ela ainda teria o direito legal de não querer ficar com o filho. É importante lembrarmos que ela não descartou o bebê no lixo, mas seguiu todos os trâmites obrigatórios para que ele encontre uma família que realmente o queira e o ame.

Quis o destino que esse lamentável episódio eclodisse na mesma semana em que veio à tona o caso da menina de 11 anos grávida de quase sete meses. A galera que queria que a garota tivesse o filho, com enormes riscos para sua saúde, e depois o entregasse para a adoção, é a mesma que atacou Klara Castanho por não querer ficar com o bebê. 

Ou seja: quem se diz "pró-vida" não é a favor de vida nenhuma (até porque também costuma ser pró-armas, uma contradição insolúvel). Não é a favor da mãe, não é a favor do bebê, não está nem aí para nenhum deles. O que realmente importa é o sacrossanto direito dos homens saíram por aí engravidando quem quiserem, e depois darem no pé. É o machismo estrutural que obriga todas as mulheres a serem mães, mesmo as que não querem ser, e que não reconhece a sexualidade nem a autonomia delas. Estamos, mais uma vez, assistindo à reação do patriarcado aos avanços do feminismo e dos direitos das minorias. Os reaças querem andar para trás e voltar à época em que só eles têm privilégios. Como todo sistema de opressão, cooptam alguns oprimidos para defendê-los. Só que o tempo corre numa única direção: pra frente.

18 comentários:

  1. Tony, não lembro de ter visto tanto horror explícito neste país quanto nos últimos tempos. Aquele esgoto que está no poder abriu portas difíceis de fechar. O Brasil não é apenas machista. É pior. É misógino. Somos odiadas. Vejo muitas mulheres misóginas.Terra doente. Sem rumo. Alguém tem que assustar esses lixos para valer. Eles contam com a impunidade que reina sempre. É aviltante.

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  2. Como disseram nas próprias redes sociais, a história dessa atriz é a coisa mais triste que já li na Internet. Uma violência sucedendo a outra de forma assustadora, um verdadeiro calvário, e ela só tem 21 anos!

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  3. E o Léo Dias também criticou a Klara Castanho por abandono de incapaz,vergonha um gay ter um comportamento machista e insensível

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  4. O Mio Babbino Caro
    Será que em algum momento será enterrada a escrotice, a ignorância a maldade humana. Isso tudo parece não ter fim.

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  5. É importante ressaltar que a turma que queria que ela tivesse o filho e depois entregasse para a adoção o fizesse entregando para um casal heterossexual casado no papel e na igreja, jamais para um pai solo, para uma mãe solo ou para um casal homoafetivo.

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  6. E o Léo Dias, Tony? É pelo corporativismo não tocar no nome dele?

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    1. De jeito nenhum. Eu toco no nome dele (e o critico bastante) na minha coluna de hoje no F5, que tem um alcance muito maior que o blog.

      https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2022/06/nao-da-para-perdoar-a-covardia-de-quem-expos-klara-castanho.shtml

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    2. Pior é o filósofo Paulo Ghiraldelli-ou
      Burraldelli ser a favor daquela juiza
      de SC contra o aborto daquela menor,Tony.

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    3. Obrigado por responder, você nunca nos decepciona.

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  7. A enfermeira não é a única profissional de saúde que precisa ser investigada. A conduta e identidade do médico que primeiro percebeu a gravidez dela e a obrigou a ouvir o coração do bebê a responsabilizando também precisa ser apurada.

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  8. Fico até sem jeito de elogiar um texto cujo tema seja tão repugnante, mas sua análise está absolutamente precisa e lúcida. Perfeita.

    E a frase que fecha tudo com chave de ouro (ou, no caso dessa gente, chave de lixo), é:

    "Quem se diz "pró-vida" não é a favor de vida nenhuma."

    É extamente isso. Estou batendo palmas de frente para a tela do computador.

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  9. O que realmente importa é obter likes e visualizações. E se eleger. Incitando o ódio, claro. Mas 2022 não será igual a 2018.

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  10. AF psicopata: sim ou com certeza?

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  11. E os homens também podem doar para adoção os filhos? Não querer se caso engravidem sem querer sem a mulher os brigar eles a serem pais e até a pagarem pensão? Engraçado, muitos da sociedade são favor do aborto, mas não do aborto masculino, a sociedade força os homens, querer criar filhos que não querem mais as mulheres podem abortar e até colocar para adoção.

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    1. 19:10-Homem TEM QUE CRIAR FILHOS,
      SIM,seu bozonazista desgraçado.Idiota!

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  12. Ela chegou a comentar depois: Estou vendendo mais que antes. Quer dizer, deixa claro que essa é a sua ética: faturar em cima da exposição, do ódio e do sofrimento alheio (ainda que de uma colega de profissão, ou justamente por isso).

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  13. Eu só acho que ela já sabia da gravidez desde o começo e não só no final como contou. Essa história de continuar menstruando durante a gravidez não cola. Situação horrível, carregar uma gravidez até o final depois de um estupro deve ser ainda muito mais traumático do que fazer um aborto.

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    1. A chamada "gravidez silenciosa" é mais comum do que você imagina. Dá uma googlada aí.

      A ex-mulher do meu marido descobriu que estava grávida só aos três meses de gestação, pois continuava menstruando. E deu à luz seis meses depois: a filha deles nasceu prematura. Media "um bife". Hoje é um mulherão de 42 anos.

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