quinta-feira, 23 de junho de 2022

A LEOA

Acho que nenhuma mulher brasileira nascida no século 20 teve uma vida mais interessante do que Danuza Leão, morta na noite de ontem aos 88 anos de idade. Ao longo de nove décadas pra lá de movimentadas, ela foi modelo internacional, rainha da noite carioca, mulher de três jornalistas importantes, mãe de três filhos bem-criados, atriz bissexta, jurada do programa Flávio Cavalcanti e, acima de tudo, no terceiro ato de sua vida, uma cronista ferina e inteligente que brilhou nas páginas da Folha, do Globo e do JB, três dos mais importantes jornais do país.

Danuza conheceu pessoalmente Mao Tsé-Tung e conviveu de perto com inúmeros poderosos, sem nunca ter virado amante de político. Preferia os jornalistas: "chegam tarde, têm algum acesso ao poder, não se deslumbram e sabem de tudo antes dos outros". Não por acaso, casou primeiro com Samuel Wainer, que abalou a república com seu jornal "Última Hora" nas décadas de 50 e 60, e partiu com ele para o exílio pós-64, mesmo já estando separados. Alguns anos antes, ela havia o deixado pelo cronista e compositor Antonio Maria: gordo, feio, alcóolatra, mas de um charme irresistível. O caso durou três anos, e Antonio Maria morreu poucos meses depois, de infarto (ou de amor?). Mais tarde, no início dos anos 70, Danuza foi casada com Renato Machado, que recém saiu da Globo. De lá para cá, transou com quem bem quis e bem a quis, exercendo uma liberdade que faria corar os carolas pós-modernos.

Várias de suas frases merecem ser emolduradas e penduradas na parede ao lado das de Oscar Wilde. "Ao usar o banheiro da casa de um amigo, ou o de avião, apague todos os rastros de sua presença. Deixe o lugar tão limpo como se você se tivesse cometido um assassinato". Dizia que a melhor cantada que recebeu foi "você entrou na minha vida feito o Salgueiro entrando na avenida"- tem glória maior do que ser comparada a uma escola de samba, no auge de seu esplendor?

Muitas dessas frases foram publicadas em seus livros. O primeiro, lançado em 1992 em parceira com o jornalista Eduardo Logullo, era um manual contemporâneo de etiqueta, recheado de casos vividos pela própria Danuza, e logo se tornou um best-seller. Ah, que saudades de um Brasil onde manual de etiqueta vendia bem... O livro abriu-lhe as portas dos jornais, deslanchando uma bem-sucedida carreira nas letras. 

Vários outros se seguiram, como a autobiografia "Quase Tudo", de 2007. Nunca conheci Danuza pessoalmente, mas sua filha Pinky Wainer me garantiu, num jantar em casa de um amigo em comum, que o título fazia jus ao conteúdo: algumas coisas que estavam lá não eram verdade...

Infelizmente, essa figura luminar da cultura e da sociedade brasileiras vem sendo atacada na internet por causa uma coluna infeliz, publicada na Folha em 2012. Lá ela diz que viajar para o exterior perdeu a graça, já que qualquer porteiro também poderia ir. Sim, Danuza era democrática e elitista ao mesmo tempo: como toda grande cabeça, era cheia das contradições. E o texto, se lido até o fim, revela o descontentamento da autora de encontrar hordas de brasileiros mal-lavados e barulhentos causando tumulto em lugares outrora tranquilos. Pra que fugir do pior do Brasil, se o pior do Brasil vai atrás?

Mas Danuza reconheceu o erro e publicou uma nova coluna na semana seguinte, pedindo desculpas e esclarecendo melhor o que queria dizer. Pouca gente leu. O que interessa para os surfistas politicamente corretos da internet são só as manchetes e trechos tirados de contexto, senão a narrativa maniqueísta não para em pé.

Não duvido que esse bafafá tenha contribuído para a saída de Danuza da Folha, no ano seguinte. Nas últimas colunas, ela se mostrava algo ressentida, como numa sobre o Country Club do Rio de Janeiro, que mereceu postagem no meu blog. Semi-aposentada, viveu seus últimos anos com discrição.

Ela era maior que tudo isso, e agora talvez ganhe a biografia que Ruy Castro vem ameaçando há anos, com tudo mesmo. Depois, um filme, uma minissérie, dancinhas no Tik Tok... Leoas têm muitas sobrevidas.

36 comentários:

  1. Ih Tony, quase todas minhas amigas bolsonaristas, tipo a conja, leram e adoram o "Na sala com Danuza".
    Creio eu que é porque acham horrosoro um pobre "advogado" de camiseta regata num aeroporto.

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    1. Regata é tricky. Se você não for muito it boy, muito descolado ou muito bonito (pessoas às quais as regras normais não se aplicam), regata em adultos é pra academia, praia etc. Aeroporto é forçar a barra. Ninguém quer passar horas preso num avião tendo mais intimidade que o necessário o suvaco do outro.

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    2. *com o suvaco

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    3. Menino,
      E quando a pessoa tem 90 quilos ou mais? As pessoas já te olham com pânico nos assentos perto do portão de embarque, porque sabem que se cairem na loteria de se sentar do seu lado, vai ser mais do que o suvaco que vão compartilhar. Que não seja um Guarulhos-Manaus.

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    4. 09:59-Só se for a pessoa que tenha
      horror a pobre,como o Caco Antibes.

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    5. Anônimo 09:59, a Danuza representa aquele Brasil que se foi com os talheres de prata da VARIG. O mesmo Brasil que nunca pisou em uma capital do Norte. Só fazia ponte-aéfea de electra. Nunca iria xazer um GRU-MAO do lado de um gordo... simplesmente porque a Amazônia seria alco exótico demais. E, se fosse hoje, compraria duas poltronas (até eu, de vez em quando, compro).

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    6. (13:06) Essas porras não sabem nem de Varig, quem dirá de talheres de prata.

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    7. Fora este preconceito contra gordo,
      13:06-Quem viajava de avião,tempos
      atrás lia Caras e assistia Ataide
      Patreze,Jorge Horácio By Night e o
      Amaury Jr-o original,não o do Pânico.


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  2. Anônimo, nesse ponto elas têm razão. O livro é ótimo e muito engraçado e bem escrito. Leia, aprenda com ele e tenha mais sucesso na sua carreira de advogado. Aí você vai ter dinheiro para se vestir melhor.

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    1. Porque vc precisa de dinheiro pra se vestir bem ? A elite brasileira é uma cafonalha o pobre tem muito mais estilo O PIOR DO BRASIL é gente como ela

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    2. Kkkkk adorei👏👏

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    3. Oi Tony, não sou advogada.
      Só estava me referindo a um caso que ficou famoso (vide link abaixo).
      Para mim, esse foi o início da revolta da elite brasileira contra a ascensão dos pobres causada na era do PT, o que resultou na merda em que vivemos hoje.

      https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/02/advogado-ironizado-por-professora-no-rio-pensou-que-fosse-gozacao.html

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    4. 11:19 Mata a cobra e mostra o pau.
      Parabéns!!!

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  3. A atriz Marilu Bueno também se foi na mesma data.

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  4. O que mais me impressionou nela é a forma que escrevia, como se tivesse conversando com um amigo e tomando um drink. Sem ser rebuscada, sem ser vulgar.
    Eu descobri ela quando li sua biografia, nunca tive uma relação de afeto tão grande com um livro como com este. Lembro de gargalhar em determinadas passagens (um diretor da globo que negou carona a ela) e ficar comovido em outras (a morte do filho dela).
    Se não me engano, no livro ela aponta como melhor cantada esta:
    - Vamos a praia amanhã?
    - Vamos.
    - Então te ligo ou te cutuco?

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    1. Uau,que piadinha mais A Praça é Nossa.
      Tá pior que aquele livro do Brilhante Ustra.

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  5. Ela fez cirurgias horríveis que a deixaram com o sorriso do coringa que a Madonna também tem antes dos preenchimentos

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    1. 15:39-A Madonna não ficou assim,
      seu palerma!!!!

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  6. Realmente, na Sala com Danuza é bem divertido, ao mesmo tempo em que se propõe a ensinar não só normas de etiqueta, mas, educação e civilidade.

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  7. Eu tenho o livro Na sala com Danuza. Ganhei de uma amiga na época da escola (12 anos atrás).
    Livro engraçadíssimo!

    Odeio elitismo! Mereceu a demissão, hein?!

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    1. É um problema estritamente brasileiro convivi com a elite inglesa e eles tem 0 disso, comemoram em conhecer alguém de outra classe social não veem a pessoa como inferior eles sim sabem seu lugar

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  8. Olha essa que li dela agora:
    "Quando você receber uma cantada gay, reaja da mesma maneira que reagiria a qualquer cantada. Dê corda, se estiver a fim. Corte, se não estiver. Se ficar muito nervoso, atenção: isso costuma ser uma grande bandeira."
    😂😂😂 Maravilhosa!!!

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  9. O Mio Babbino Caro
    Socialite. ..só de longe. Puro Brasil, adora o Salgueiro detesta o Porteiro (fora da Portaria). Muito do Brasil ser essa merda vem sim desse tipo glamouroso...que não contribui em nada se distinguindo "naturalmente" dos seus. Sem interesse, natural, em conhecer quem conhece esses seres mesmo sendo sua filha. Tá sua vida lá, partiu, descanse em paz, quem sabe de outra consiga fazer um pouco diferente e melhor. Brasileiros não precisam mais se afastar de pessoas assim no Rockefeller Center
    Descanse em Paz!

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  10. Ela contava eventos que participava. Certo almoço na Quinta da Boa Vista, estava Sua Alteza a Princesa Ragnhild da Noruega que morava no Rio, já que era casada com o dono da Aracruz Celulose. De repente o céu desabou em chuva tropical. E ninguém se levantou da mesa, porque pelo protocolo a Princesa é quem tem que ter a iniciativa. Pois ela continuou sua refeição na chuva, obrigando todos os convidados ficarem ensopados.. Danusa disse que as lagostas começaram a boiar nas travessas. Parecia uma cena de Bunuel? Todos só se levantaram depois que Princesa se levantou. 😂😂😂

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    1. O pessoal aqui da favela adorou esta
      historinha.....SQN!!!!!!

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  11. Acho que ela mandou muito mal. Na verdade, brasileiros uós só são encontrados em lugares uós: Times Square, embaixo da Torre Eiffel, lugares similares. Brasileiros que têm algum apreço por cultura - e isso vai além de classe social ou pós-classe social (para quem ascendeu e agora pode viajar) - são encontrados, sim, em outros lugares, são queridos e se comportam bem. Não surpreendentemente muitos museus têm catálogos em português. Português do Brasil.

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    1. João,você tem que vir aqui e comentar
      mais-que post ótimo o seu,caramba....

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    2. João, Torre Eiffel não chega a ser uó não. Até os BoBos gostam. Falando nisso, e sabendo que eles não chegam a personificar uma elige francêsa, eu nunca vi tanto burguês boêmio reunido quanto no dia da inauguração do Burger King em Paris... um Burger King, veja só!

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    3. 12:53-Os tais bobos gostam mesmo
      é da Marine Le Pen e do pai dela.

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  12. Se existe uma elegância brasileira que não é americana, francesa, e muito menos inglesa, a Danuza personifica esta.
    Ela tinha um humor, uma safadeza, uma esperteza que é comum em nós brasileiros; a quem diga tb que estas mesmas características acarretam em nossos defeitos, não duvido.
    Mas o fato é, quer ser um orgulhoso brasileiro elegante, mire na Danuza!

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    1. Deus me livre!!!!!!!!!!!

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    2. Não é por que é bicha velha que tem que ser essa caretagem.
      Deus me livre 2 !!!!!!!!

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  13. Não dá para condenar a Danuza por elitismo egoísta e excludente porque o Brasil é, integralmente, aporofóbico. É uma terra tão sem rumo que nem pobre gosta e respeita pobre...!!??

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    1. O Caco Antibes é primo distante dela....

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  14. Poxa, acabei de saber disso fazendo a minha leitura semanal do teu blog. :( Engraçado que semana passada eu mencionei duas vezes para amigos franceses uma das minhas frases favoritas dela, do Na Sala com Danuza. “Na dúvida se deve viajar ou não? Viaje. Viajar sempre é a melhor decisão. A gente volta renovado, mais culto, com mais energia para enfrentar o quotidiano."

    Danuza era um puro-produto do high society de um Brasil de demi-siécle, da nossa era de ouro cultural em um país de desdentados, famintos e miseráveis. De uma época em que construímos uma capital construída com o melhor do modernismo enquanto 40% da população ainda era analfabeta. Um puro-produto tanto no sentido de "appartenance"/pertencer à com sua incapacidade de compreender a real dimensão de seu privilégio por ter crescido tão dentro dele como no sentido de contestação, com seus casamentos, afirmações e atitudes. O mais triste da crônica do porteiro é que UMA frase acabou caracterizando uma pessoa que passou toda uma carreira literária defendendo a loucura e a falta de sentido de convenções sociais pretensiosas e arrogantes tão prevalentes em terras tupiniquins.

    Mas enfim, mediocridade resulta em maniqueísmo por preguiça ou mesmo incapacidade de entender tudo que vá além do óbvio. Lacrou ou tem que ser cancelada. Fada sensata ou merece morrer. Tellement boring. Ao mesmo tempo, compreensível dada a violência da desigualdade brasileira. Apesar de que... com tantos outros nomes tão abertamente retrógados para fazer de judas... O objetivo é malhar as pessoas por uma frase mal placée ou tentar estimular alguma capacidade de mudar de posição? Je ne sais plus...

    Para mim, o que fica é a forma de escrever fluida, natural, que conseguia transportar o leitor para o lado dela, dentro das festas do high, desse mundo de deslumbre com algumas pessoas interessantes e tantas outras nem tanto. Uma coisa meio Edith Wharton/Marcel Proust (guardadas as proporções, eu sei, porra) de registrar essa "gilded age" mostrando o glamour e todas as incoerências e jequices. E as lições de vida de uma pessoa que viveu para um caralho, errando e acertando para um caralho. Acho que boa parte da inspiração do meu finado blog foi dela, de viajar em busca do além do óbvio, do must-see, do top 10. Me ajudou a perceber, moi um neto de uma faxineira nordestina crescido no subúrbio do Rio de Janeiro, que eu tinha que buscar a minha percepção do mundo. E fodam-se as análises tem que ir/odeio/amo/underrated/overrated Londres/Paris/NYC/Maldivas.

    E sabe o mais louco? A rua onde eu cresci, em Santíssimo, se chamava Samuel Wainer. :)

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