quinta-feira, 30 de junho de 2022

TUTUS EM POLVOROSA

O Festival Varilux deste ano trouxe, além de vários filmes, séries francesas em sua programação. Vi todos os trailers e me interessei por "L'Opéra", mas não quis ir ao cinema para ver série, né? Tem limite. Felizmente, "L'Opéra" chegou esta semana ao Globoplay, com o subtítulo "Nos Bastidores do Balé". Porque, na verdade, não é sobre ópera, e sim sobre o Balé Nacional da Ópera de Paris, sediado no suntuoso Palais Garnier (que, antes da construção da Opéra Bastille, era conhecido apenas como Opéra). Como em qualquer companhia de dança top, a competição interna é feroz, e é daí que surgem os problemas. Os três protagonistas estão em diferentes estágios da carreira. Zoé é uma "étoile", uma prima ballerina, que enfrenta um fim de carreira precoce. Por causa de várias lesões, ela não rende mais o esperado. E ainda dá vários tiros no pé ao levar uma vida desregrada, enchendo a cara na balada quase todo dia. A iniciante Flora é a única negra em um mar de branquitude, e leva porrada do racismo o tempo todo. Já Sébastien é um ex-bailarino, hoje coreógrafo e diretor da porra toda. Ele tem que lidar com os cortes no orçamento, as birras das estrelas e uma chefona implacável. Não há vilões declarados: os conflitos são todos legítimos e orgânicos, e muitas vezes o maior inimigo do personagem é ele mesmo. Assisti aos oito episódios em três dias, e estou radiante em saber que a segunda temporada já foi filmada.

O BRASIL TÁ F*****

Eu cresci durante a ditadura militar, quando até mesmo a palavra "bunda" era considerada obscena e não podia ser dita na TV de jeito nenhum. Sentimos que sopravam ventos de liberdade quando Chico Buarque conseguiu, em 1980, enfiar um "tesão" na canção-tema do filme "Bye Bye Brasil". De lá para cá, muitos palavrões perderam a aura de proibidos. Outro dia vi dois personagens de "Pantanal" comentando que fulana havia sido puta, e ninguém reclamou. Mas agora eu vou reclamar: a campanha pela reeleição de Arthur Lira à Câmara por Alagoas é, sim, obscena. E não só por causa do ignóbil deputado, protagonista de mil maracutaias e avalista do desgoverno Biroliro. O slogan "Arthur Lira é foda" é só mais um sintoma de que não há mais diferença entre a esgotosfera e o resto do Brasil. E depois essa corja ainda tem o acinte de falar em Deus, família e valores tradicionais. Vão tomar no c*, vão?

quarta-feira, 29 de junho de 2022

UM FURO NO DESPREPARADO

Incomodado com as reportagens sobre seu esquema de fake news, Biroliro disse no cercadinho que a jornalista Patrícia Campos Mello estava disposta a "dar o furo" em troca de informações. Ela então o processou por danos morais, e ganhou na primeira instância. Ao invés de pagar logo a indenização devida e deixar o caso morrer  por ali, o Bozo preferiu recorrer. Resultado: perdeu também na segunda instância, por quatro votos a um, e ainda teve a indenização aumentada para 35 mil reais. O pior é que o veredito saiu bem no dia em que o presidente da Caixa Econômica caiu, atingido por inúmeras acusações de assédio moral e sexual. Ou seja: o sonho de atrair o voto das mulheres, uma das parcelas da população que mais rejeita o Despreparado, ganhou mais um furo. Ou melhor, um rombo.

JÁ ESTÁ MAIS QUE NA HORA

Uma das vantagens de ser gordo é poder se fantasiar de bola espelhada de maneira convincente. Foi o que Lizzo fez para cantar "It's About Damn Time" na entrega dos BET Awards no domingo passado (o Black Entertainment Television é um canal de TV voltado ao público negro). Ela não é grande coisa nas coreôs, mas para isto existe sua trupe de bailarinos plus size. Divas rechonchudas sempre existiram na ópera e no jazz, mas já passava da hora de haver uma na música pop. E negra, ainda por cima. Pertencer a uma única minoria é para os fracos.

terça-feira, 28 de junho de 2022

DESASTRE FORA DAS PISTAS

Eu usava muito a palavra "neguinho", no sentido de "alguém" ou "fulano". Tipo, "neguinho é folgado, para o carro em cima da faixa", sem estar me referindo a ninguém especificamente. Aí um amigo negro me pediu para parar e eu parei. Quem recebe o pisão no pé é quem sabe se doeu, não quem pisa, mesmo sem querer. A mesma lição deveria ser aprendida pelo Nelson Piquet. Eu já não ia com a cara dele desde os anos 80, quando dava para cortar com faca o ciúme que ele sentia do Ayrton Senna. Quando o ex-campeão da Fórmula 1 se declarou gado e virou chofer do Despreparado, aí fodeu de vez. Portanto não é surpresa que Nelsinho continue preso no passado, e se ache no direito de ofender Lewis Hamilton, um piloto muito melhor - em vários sentidos - do que ele jamais foi. A fala caiu mal no mundo da Fórmula Um e também no Brasil, um país que descobriu há pouco que tem maioria negra. Menos entre a minionzada, é claro. Hoje eles foram mugir nas redes sociais que, pelas novas regras, então o nome artístico do Neguinho da Beija-Flor também era racista, ignorando que o apelido foi dado por outros negros há mais de 50 anos. Os tempos mudam.

ORGULHO INTACTO

Hoje é o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Também é o 53o. aniversário da Revolta de Stonewall, que deu origem à data (se você não sabe do que se trata, dá um search no meu blog ou uma googlada aê). É incrível pensar que, poucas décadas atrás, você podia ser demitido por justa causa só por ser gay, e que atos homossexuais davam cadeia até nos países mais civilizados. Mas o fato é que nenhum movimento por direitos andou tão rápido quanto o gay. Nem o feminismo, nem a luta dos negros por igualdade, nem nenhuma outra minoria oprimida conseguiu tantas conquistas em tão pouco tempo. Não sei explicar por quê: talvez seja uma questão de timing, pois todos os ativismos ganharam muita coisa no último meio século, a ponto de suscitar a onda de extrema-direita que enfrentamos hoje. E é justamente essa onda que pode por tudo a perder. A Suprema Corte americana acabou com o direito constitucional ao aborto alegando que o artigo da Constituição que garante a privacidade, escrito no século 18, não tocava no assunto. Esse mesmo artigo foi usado para que o tribunal legalizasse o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país - portanto, gueis e afins podem ser as próximas vítimas dos juízes reacionários. Aqui no Brasil tampouco existe uma lei federal a respeito, e a unanimidade que o STF alcançou ao decidir a matéria em 2011 não se repetirá enquanto figuras abjetas como Kássio Nunes e André Mendonça estiverem por lá. Biroliro deve ser derrotado em outubro, mas seus asseclas continuarão por aí em postos-chave. Não podemos baixar a guarda. Temos mil razões para nos orgulharmos de quem somos e do que conquistamos no dia de hoje, e um milhão de outras para continuarmos lutando por esse orgulho.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

CORRA, JULIE, CORRA

Todo mundo já viveu uma fase em que tudo dá errado e o universo parece conspirar contra nós. Julie Roy passa por esse inferno astral no ótimo filme "Contratempos", em cartaz no Festival Varilux. Mãe de dois filhos, ela mora numa pequena cidade nos arredores de Paris e precisa ir todo dia à capital, onde trabalha como chefe das camareiras em um hotel de luxo. Um emprego muito aquém de sua formação, mas foi o que ela conseguiu - além do mais, o ex-marido não paga a pensão com pontualidade, e a coitada vive atrasando as prestações da casa própria. Até que pinta uma chance: uma entrevista para um ótimo posto, numa grande empresa do outro lado da cidade. O problema é que ela vai precisar dar uma fugidinha do hotel para conseguir comparecer, e é claro que justamente neste dia estoura uma grande greve de transportes públicos. A ação de "Contratempos" se passa ao longo de uma semana e, a cada dia que passa, Julie precisa correr mais, mentir mais para seus chefes, se afundar mais em dívidas. O ritmo frenético de sua epopeia é acentuado por uma trilha eletrônica co-assinada por Thomas Bangalter, ex-Daft Punk, e o resultado é um thriller da vida real. Uma mulher lutando desesperadamente pela sobrevivência, fugindo de assassinos implacáveis: o capitalismo, o sistema disfuncional, o machismo estrutural, o egoísmo generalizado. Laure Calamy, a secretária da série "Dix pour Cent", mais que mereceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado, e está em todas as cenas dessa montanha-russa. Cheia de momentos que desafiam o espectador que só queria se distrair um pouco, mas profundamente humana. Vá ver correndo.

E SE NÃO FOSSE ESTUPRO?

"O que chegou até a mim (sic) não foi o que você escreveu na sua carta", disse a execrável Antonia Fontenelle em seu vídeo de contrição divulgado ontem, dirigindo-se a Klara Castanho. A viúva de Marcos Paulo, assustada com a reação negativa da maior parte do público depois que expôs o drama da  atriz, não chegou a pedir desculpas pelo ato abominável que praticou. Mas tentou se justificar, alegando que desconhecia a violência sexual sofrida pela jovem. Só que é mentira: num vídeo postado no dia anterior, antes de Klara vir a público, a falsa lady já citava o estupro. Então, simplesmente não cola ela vir agora dizer que não sabia de tudo, e que quer ajudar a prender o estuprador.

A suposta influenciadora Dri Paz também afinou o discurso depois que "ficou sabendo" (ahã) do estupro. Até então, Klara Castanho era um monstro de maldade, capaz de jogar numa caçamba o bebê que acabara de ter - aliás, como aconteceu com sua personagem quando recém-nascida na novela "Amor da Vida". Aí, a própria Klara postou uma carta aberta detalhando seu inacreditável calvário, e agora nenhum desses abutres quer ser associado à violência física e moral sofrida pela atriz.

Mas, e se não fosse estupro? A lei brasileira não reserva às violentadas o direito de entregar o bebê à adoção. Qualquer mulher que não se sinta em condições de ser mãe pode fazer isto (as casadas precisam que o marido esteja de acordo). Klara poderia muito bem ter transado à vontade e até mesmo participado de uma suruba; poderia saber da gravidez desde o começo, e não apenas na reta final, como ela conta. Mesmo que tivesse acontecido tudo isso, ela ainda teria o direito legal de não querer ficar com o filho. É importante lembrarmos que ela não descartou o bebê no lixo, mas seguiu todos os trâmites obrigatórios para que ele encontre uma família que realmente o queira e o ame.

Quis o destino que esse lamentável episódio eclodisse na mesma semana em que veio à tona o caso da menina de 11 anos grávida de quase sete meses. A galera que queria que a garota tivesse o filho, com enormes riscos para sua saúde, e depois o entregasse para a adoção, é a mesma que atacou Klara Castanho por não querer ficar com o bebê. 

Ou seja: quem se diz "pró-vida" não é a favor de vida nenhuma (até porque também costuma ser pró-armas, uma contradição insolúvel). Não é a favor da mãe, não é a favor do bebê, não está nem aí para nenhum deles. O que realmente importa é o sacrossanto direito dos homens saíram por aí engravidando quem quiserem, e depois darem no pé. É o machismo estrutural que obriga todas as mulheres a serem mães, mesmo as que não querem ser, e que não reconhece a sexualidade nem a autonomia delas. Estamos, mais uma vez, assistindo à reação do patriarcado aos avanços do feminismo e dos direitos das minorias. Os reaças querem andar para trás e voltar à época em que só eles têm privilégios. Como todo sistema de opressão, cooptam alguns oprimidos para defendê-los. Só que o tempo corre numa única direção: pra frente.

domingo, 26 de junho de 2022

O NOME DELA É JENNIFER

Depois de alguns anos dançando em programas de TV e clipes de artistas como Janet Jackson, Jennifer Lopez começou a chamar atenção como atriz no final dos anos 90. Fez vários filmes com diretores de prestígio, colecionou elogios e foi indicado ao Globo de Ouro por "Selena". Mas ela queria mais e se lançou como cantora, apesar de ter pouca voz. Foi um estouro, por causa do repertório bem escolhido e da produção de primeira. Mas J. Lo perdeu o lustro de atriz séria, e sua imagem foi prejudicada ainda mais por sua agitada vida amorosa. Ela passou mais de uma década fazendo basicamente comédias românticas bobinhas, e os hits foram minguando com o tempo. Até que, em 2019, ganhou o melhor papel de sua carreira em "As Golpistas". Aos 50 anos de idade, esmerilhou no pole dance, ostentou timing cômico e foi até considerada para o Oscar de coadjuvante. A indicação não veio, mas um prêmio ainda maior a esperava: o triunfo no SuperBowl de 2020, cujo show do intervalo ela dividiu com Shakira. Todo esse processo é contado no documentário "Halftime", disponível na Netflix. Sim, trata-se de um filme chapa-branca, e dá até para desconfiar que algumas cenas não são lá muito autênticas. Mas Jennifer, que sempre impressionou pela disciplina e determinação, baixa a guarda e revela suas inseguranças. Agora, se ela vai recuperar o momentum de três anos atrás, ainda é uma incógnita. Seu mais recente longa, "Case Comigo", é só mais uma comédia romântica bobinha.

sábado, 25 de junho de 2022

BOLA DENTRO

Richarlyson era visto com uma certa frequência em boates e saunas gays de São Paulo uma década atrás. O ex-jogador nunca manteve sua sexualidade trancada entre quatro paredes, e isto acabou prejudicando-o. A fama de gay se espalhou, e torcedores do Palmeiras fizeram uma bem-sucedida campanha para que ele não fosse contratado pelo clube em 2011. Prestes a se tornar comentarista na Globo, Richarlyson deu ontem um grande passo, se declarando bissexual no primeiro episódio do podcast "Nos Armários dos Vestiários". Até onde eu sei, é o primeiro futebolista brasileiro a se assumir não-hétero - e precisou estar aposentado dos campos para fazer isto. É uma vergonha: enquanto que na Europa tem até jogadores gays que são ídolos da torcida, aqui o povo ainda prefere um perna-de-pau machão do que um craque aviadado. Richarlyson agora deu uma bola dentro, e que ela siga rolando até nós ganharmos de goleada.

PRESSENTIMENTOS

Estamos assistindo a uma briga entre duas alas da Polícia Federal. O pessoal que não foi cooptado pelo Bozo mandou prender Milton Ribeiro esta semana, pois os indícios de corrupção do ex-ministro da Educação são sólidos. Apavorada com o que o pastor presbiteriano poderia dizer se fosse transferido para Brasília, a banda podre da PF conseguiu soltá-lo no dia seguinte. Ontem os delegados anti-Bozo soltaram áudios devastadores, que deixam evidente que Ribeiro foi avisado pelo próprio Despreparado de que a polícia estava em seus calcanhares. Pressinto até mesmo que o ex-ministro não era um bandido antes de assumir o ministério - "apenas" um reacionário criacionista, capacitista e homofóbico. Mas seu novo chefe ordenou que ele facilitasse as maracutaias de outros pastores, e deu no que deu. Também é interessante a teoria que um amigo meu levantou: está rolando uma grande conspiração para tirar o Biroliro da eleição. Sua candidatura seria cassada, abrindo caminho para Simone Tebet chegar ao segundo turno. E não é que esse pressentimento faz sentido?

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O ABORTO DE UM DIREITO

Donald Trump deixou a Casa Branca há quase um ano e meio, mas seu legado destrutivo ainda pode durar um bom tempo. Em apenas um mandato, o Bebê Laranja conseguiu emplacar três juízes ultraconservadores na Suprema Corte. O resultado está aí: hoje a histórica decisão do caso Roe vs. Wade, de 1972, foi revertida por seis votos a três. O aborto, no entender dos reacionários, não é um direito garantido pela constituição americana. A interrupção da gravidez vai se tornar ilegal em cerca de 18 estados, e é claro que as mulheres pobres, que não têm dinheiro para viajar, serão as mais prejudicadas. Esse revertério só acabará quando o Congresso aprovar uma lei federal permitindo o aborto, mas esse dia ainda parece longe. Aqui no Brasil, onde o debate não avança, Damares e sua gangue comemoraram, mas não enganam ninguém com esse papinho pró-vida. Como ficou claríssimo no caso da garota catarinense, quem é contra o aborto em qualquer caso é, na verdade, a favor do direito ilimitado de reprodução dos homens. As mulheres são obrgadas a carregar e criar os filhos deles, mesmo que muitos jamais tomem conhecimento da prole. Quem é contra o aborto legal, na verdade, é a favor do aborto clandestino e perigoso. Ponto.

SORRINDO ENTRE LÁGRIMAS

Querer muito ver um filme sempre embute o risco de sair do cinema profundamente decepcionado. Ainda bem que não foi isto que me aconteceu com "Peter Von Kant". Eu estava doido para conferir a primeira parceria entre François Ozon e Isabelle Adjani, desde que o longa foi anunciado no final de 2021. Consegui assistir ontem no Festival Varilux, duas semanas antes da estreia oficial na França. Ozon é fascinado por Rainer W. Fassbinder, e chegou a dirigir um roteiro inédito do finado cineasta alemão, "Gotas d'Água em Pedras Ardentes". Mas agora ele se arrisca ainda mais, ao refazer "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant", uma das obras-primas do falecido. Eu nunca vi o orginal, então não posso dizer se ficou melhor - mas vi a peça, numa montagem estrelada por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah em 1982. Ozon inverte o sexo das protagonistas, e a estilista obcecada por uma modelo agora é um diretor que se apaixona por um jovem ator. O roteiro segue a história original, mas altera vários detalhes. Além disso, é curto: "Peter Von Kant" dura apenas uma hora e meia, nem um segundo a mais do que o necessário. Se fosse mais comprido, sairíamos com bode do personagem-título, um egocêntrico muito bem interpretado por Denis Ménochet. Mas claro que quem brilha mesmo é Adjani, em sua melhor atuação nos últimos 20 anos. Ela finalmente acertou as plásticas no rosto, e está tão deslumbrante como era na juventude. Segura da própria beleza, a musa já não se esconde mais atrás do cabelo, e voltou a sorrir em cena. Enquanto isto, François Ozon não tira férias e  já tem outro filme em pós-produção, "Madeleine". Esse é com a outra Isabelle - a Huppert.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

WANDA MAXIMOFF NO MULTIVERSO ALHEIO

Uma ds vantagens de ter Disney+ é não precisar torrar uma grana para assistir no cinema às bobajadas do Universo Cinematográfico Marvel. Consigo ver no conforto de meu lar, aliviado por não ter saído de casa por causa dessas besteiras. A mais recente delas é "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", que chega à plataforma um mês e meio depois de ter estreado nas salas. O filme tem sequências espetaculares,  elenco incrível e montagem elaboradíssima, que me impactou ainda mais que os efeitos visuais. E no entanto, mesmo assim, é perfeitamente dispensável. O argumento é semelhante ao do infinitamente superior "Tudo em Todo o Lugar no Mesmo Tempo": alguém está colocando em perigo a existência de todos os multiversos. No caso, este alguém é Wanda Maximoff, a Bruxa Escarlate, que só quer ir para um lugar onde ela seja a mãe de seus filhos imaginários. Wanda é, de longe, o personagem mais interessante do panteão da Marvel. É a mais humana de todos, apesar de seus poderes quase infinitos. O maior deles é algo que tentamos fazer todos os dias: criar uma realidade própria, só com a força do nosso pensamento. E, assim como nós, às vezes Wanda consegue, noutras, não. Ela merecia um filme exclusivo, e não ser a vilã do segundo longa estrelado pelo insosso Doutor Estranho. Eu simplesmente não consigo torcer contra a protagonista de uma melhores séries do ano passado, a alucinante "WandaVision".

A LEOA

Acho que nenhuma mulher brasileira nascida no século 20 teve uma vida mais interessante do que Danuza Leão, morta na noite de ontem aos 88 anos de idade. Ao longo de nove décadas pra lá de movimentadas, ela foi modelo internacional, rainha da noite carioca, mulher de três jornalistas importantes, mãe de três filhos bem-criados, atriz bissexta, jurada do programa Flávio Cavalcanti e, acima de tudo, no terceiro ato de sua vida, uma cronista ferina e inteligente que brilhou nas páginas da Folha, do Globo e do JB, três dos mais importantes jornais do país.

Danuza conheceu pessoalmente Mao Tsé-Tung e conviveu de perto com inúmeros poderosos, sem nunca ter virado amante de político. Preferia os jornalistas: "chegam tarde, têm algum acesso ao poder, não se deslumbram e sabem de tudo antes dos outros". Não por acaso, casou primeiro com Samuel Wainer, que abalou a república com seu jornal "Última Hora" nas décadas de 50 e 60, e partiu com ele para o exílio pós-64, mesmo já estando separados. Alguns anos antes, ela havia o deixado pelo cronista e compositor Antonio Maria: gordo, feio, alcóolatra, mas de um charme irresistível. O caso durou três anos, e Antonio Maria morreu poucos meses depois, de infarto (ou de amor?). Mais tarde, no início dos anos 70, Danuza foi casada com Renato Machado, que recém saiu da Globo. De lá para cá, transou com quem bem quis e bem a quis, exercendo uma liberdade que faria corar os carolas pós-modernos.

Várias de suas frases merecem ser emolduradas e penduradas na parede ao lado das de Oscar Wilde. "Ao usar o banheiro da casa de um amigo, ou o de avião, apague todos os rastros de sua presença. Deixe o lugar tão limpo como se você se tivesse cometido um assassinato". Dizia que a melhor cantada que recebeu foi "você entrou na minha vida feito o Salgueiro entrando na avenida"- tem glória maior do que ser comparada a uma escola de samba, no auge de seu esplendor?

Muitas dessas frases foram publicadas em seus livros. O primeiro, lançado em 1992 em parceira com o jornalista Eduardo Logullo, era um manual contemporâneo de etiqueta, recheado de casos vividos pela própria Danuza, e logo se tornou um best-seller. Ah, que saudades de um Brasil onde manual de etiqueta vendia bem... O livro abriu-lhe as portas dos jornais, deslanchando uma bem-sucedida carreira nas letras. 

Vários outros se seguiram, como a autobiografia "Quase Tudo", de 2007. Nunca conheci Danuza pessoalmente, mas sua filha Pinky Wainer me garantiu, num jantar em casa de um amigo em comum, que o título fazia jus ao conteúdo: algumas coisas que estavam lá não eram verdade...

Infelizmente, essa figura luminar da cultura e da sociedade brasileiras vem sendo atacada na internet por causa uma coluna infeliz, publicada na Folha em 2012. Lá ela diz que viajar para o exterior perdeu a graça, já que qualquer porteiro também poderia ir. Sim, Danuza era democrática e elitista ao mesmo tempo: como toda grande cabeça, era cheia das contradições. E o texto, se lido até o fim, revela o descontentamento da autora de encontrar hordas de brasileiros mal-lavados e barulhentos causando tumulto em lugares outrora tranquilos. Pra que fugir do pior do Brasil, se o pior do Brasil vai atrás?

Mas Danuza reconheceu o erro e publicou uma nova coluna na semana seguinte, pedindo desculpas e esclarecendo melhor o que queria dizer. Pouca gente leu. O que interessa para os surfistas politicamente corretos da internet são só as manchetes e trechos tirados de contexto, senão a narrativa maniqueísta não para em pé.

Não duvido que esse bafafá tenha contribuído para a saída de Danuza da Folha, no ano seguinte. Nas últimas colunas, ela se mostrava algo ressentida, como numa sobre o Country Club do Rio de Janeiro, que mereceu postagem no meu blog. Semi-aposentada, viveu seus últimos anos com discrição.

Ela era maior que tudo isso, e agora talvez ganhe a biografia que Ruy Castro vem ameaçando há anos, com tudo mesmo. Depois, um filme, uma minissérie, dancinhas no Tik Tok... Leoas têm muitas sobrevidas.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O TERRORISTA ALARANJADO

Donald Trump perdeu feio a eleição americana de 2020, e ainda tentou dar um golpe de estado para se manter na Casa Branca. Ele deveria ter sido preso imediatamente, mas continua a assombrar a mais antiga democracia do planeta. Nos estados governados por republicanos, juízes e funcionários públicos trumpistas estão se preparando para minar as eleições de novembro. Se o GOP conseguir maioria folgada nas duas casas do Congresso, Biden e Kamala podem até sofrer impeachment no ano que vem, e a presidência do país iria para o "speaker" da Câmara - provavelmente, um gângster de carteirinha. Mas este cenário de pesadelo pode ser evitado se o Bebê Laranja for condenado depois que os parlamentares ouvirem todos os envolvidos no putsch mal-sucedido de 6 de janeiro de 2021. É mais do que óbvio que Trump insuflou a violência depois de tentar roubar a eleição "por bem". Só com ele fora do páreo é que poderemos dizer que a onda neofascista está em remissão.

EDAÍR EM CHAMAS

"Eu boto a cara no fogo por ele", bradou o Despreparado quando surgiram as primeiras acusações de corrupção contra o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro. Dois dias depois, o pastor homofóbico saiu do MEC "a pedido" - e não demitido, como alega agora o Pau Fino. Desde então, Ribeiro quase matou inocentes quando a arma que ele não tem preparo para carregar disparou acidentalmente em pleno aeroporto de Congonhas. Hoje esse biltre, que foi indicado ao cargo pela Micheque, finalmente foi preso pela PF. E aí, Biroliro, podemos acender a fogueira? Vai ter coragem de enfiar a fuça nas labaredas? Claro que não, porque coragem nunca foi seu ponto forte. Mas as chamas já atingiram sua campanha de reeleição. Sem poder levantar a bandeira contra a corrupção, o que sobra agora ao Bozo são as ameaças imaginárias, como o avanço do comunismo e a mamadeira de piroca.

terça-feira, 21 de junho de 2022

PISCINÃO, AMOR, PISCINÃO

Talvez eu seja cancelado por causa disso, mas acho que a Federação Internacional de Natação fez bem em tirar as mulheres trans das competições contra as mulheres cis. Esta é uma discussão que vem rolando em quase todas as modalidades esportivas, e está na hora de se chegar a uma conclusão. Não adianta dizer que as mulheres trans são mulheres como qualquer outra, sem tirar nem por. A gente sabe que isto não é verdade, ainda mais agora que as cirurgias caíram em desuso. Não, não estou negando a feminilidade de ninguém: as trans são 100% mulheres na cabeça. Mas no corpo, que na maioria das vezes foi regado a testosterona na adolescência, não. Isso dá às atletas trans uma vantagem sobre as cis, e tira a graça das competições. Ressalto que todo esse debate tem que ser levado à luz da ciência, e não de conceitos e preconceitos ideológicos. Nas piscinas cabe todo mundo.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

VOCÊ SUPORTARIA FICAR MAIS UM POUQUINHO?

Cada semana vivida no Brasil traz um horror novo, mas nós não podemos nos acostumar. Não dá para normalizar que uma menina grávida de 11 anos esteja internada contra sua vontade num abrigo, para impedir que ela vá para outro estado em busca de um aborto legal. É o que este acontecendo em Santa Catarina segundo reportagem publicada no site The Intercept: no começo de maio, a garota, já na 22a. semana de gestação, procurou com a mãe o SUS, mas não conseguiu fazer valer seus direitos por causa do ativismo judicial Joana Zimmer e da promotora Mirela Alberton. As monstras ainda tiveram o desplante de perguntar à garota se ela "suportaria ficar mais um pouquinho", e qual o nome que ela gostaria de dar ao bebê. Resultado: a coitadinha já está na 29a semana de gestação, correndo o sério risco de morrer no parto, porque duas fanáticas reacionárias agiram contra o que diz a lei brasileira, que sequer estimula o número de semanas para que um aborto em caso de estupro seja realizado. A maldade dessa gente é infinita, mas a minha paciência, não. Só suporto esse desgoverno, que incentiva essas barbaridades, até o final do ano.

LA NUEVA ORDEN

Quando você agradece a um colombiano por qualquer coisa, ele costuma responder com "a la orden" (às ordens). No outro sentido da palavra, a ordem na Colômbia mudou neste domingo. A vitória de Gustavo Petro e Francia Márquez nas eleições presidenciais são um marco na história do país, que nunca teve um governo de esquerda, e na de toda a América Latina. A Colômbia é um país grande, rico, populoso e profundamente desigual. O que acontece lá repercute em toda a região, inclusive por aqui. O Edaír ficou ainda mais nervoso, e com razão.

Ainda bem que não houve tumulto por causa do resultado, coisa que muitos temiam. O palhaço do Rodolfo Hernández me surpreendeu ao admitir a derrota com elegância, sem questionar o sistema eleitoral nem convocar seus apoiadores às ruas. Já pensou se a moda pega?

O voto da garotada teve um papel crucial, assim como terá por aqui. Desconfio também que, tal como Boric no Chile, Petro ganhou uma forcinha do Biroliro. Chilenos e colombianos não querem mais um aventureiro no poder, querem soluções viáveis para problemas reais. O desgoverno brasileiro assustou nossos vizinhos. Quem diria, hein? O patife do Bozo se tornou o grande cabo eleitoral da esquerda. Bem feito.

domingo, 19 de junho de 2022

A PARADA (RE)EXISTE

Vai ser muito, mas muito difícil, que o golpe anunciado pelo Edaír dê certo. Para começar, ele já tem a maioria absoluta da população brasileira contra si. Mas ainda vai encontrar uma oposição ainda mais encarniçada entre as minorias que persegue, e que não admitem perder mais um único direito: mulheres, negros, indígenas e, claro, as guei. Hoje tive esta certeza nos dois momentos em que fui à Paulista. Lá pelas 11 da manhã, caminhei com o Lalo até o MASP e me espantei com a quantidade de pessoas que já aguardavam pela 26a. Parada do Orgulho LGBTQIA+, que só deslancha para valer por volta das duas da tarde. Depois, por volta das 15h30, fui com meus sobrinhos espiar o trio elétrico em que se apresentava o Tiago Abravanel. A vibe positiva era palpável. Veterano de paradas que sou, achei que tinha até mais diversidade do que em outros anos: mais velhos, mais crianças, até mesmo mais héteros. O povo pulava, cantava, se abraçava e gritava contra o Golpista. Acima de tudo, celebrava sua própria existência. Sua sobrevivência. Vi um cartaz do Museu da Diversidade, alvo da sanha homofóbica, avisando que a instituição (re)existe, e acho que isto também vale para a parada. Depois de anos de chochas edições online, a maior festa LGBTQIA+ do mundo voltou para as ruas, e não vai ter milico nem evanja que consiga nos tirar de lá. Pode desistir, Biroliro.

sábado, 18 de junho de 2022

GIVE ME MY CHA CHA

Um personagem incontornável do cinema independente americano é o rapaz sensível, tão inteligente que não sabe o que fazer na vida. Os filmes que ele protagoniza costumam ser autobiográficos, escritos, dirigido e estrelados por alguém que se acha tão bacana quanto. A mais recente encarnação desse arquétipo é o animador de festas - sim, esta profissão existe - de "Cha Cha Real Smooth: O Próximo Passo", que venceu o prêmio do público  no último Festival de Sundance e estreou ontem no Apple TV+. O diretor, ator e roteirista Cooper Raiff diz que escreveu o filme inspirado em sua irmã deficiente, e de fato a filha da mulher por quem seu alter ego se apaixona é autista (feita por uma atriz autista, como manda o figurino atual). Mas "Cha Cha", na verdade, é sobre esse sujeito incrível. Bonito, simpático, bom ouvinte, defensor das vítimas de bullying e ainda por cima ótimo dançarino, capaz de tacar fogo no mais caído bar mitzvah. Como que alguém tão sensacional não tem um emprego decente, ou nem mesmo uma namorada? Não ajuda em nada o fato de sua amada, vivida por Dakota Johnson, ser 10 anos mais velha e ter um noivo. Mas por baixo de tanto açúcar há momentos realmente tocantes. Na verdade, "Cha Cha Real Smooth" é uma história de amadurecimento. E eu tenho lugar de fala para dizer: esse processo não acaba nunca.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

BURRA KARLA

Bruna Karla está levando um merecido pau de celebridades como Anitta, Ludmilla e Gil do Vigor. A cantora gospel, de quem eu nunca tinha ouvido falar até este lamentável episódio, declarou no podcast "Positivamente", da neoevanja Karina Bacchi, que não iria ao casamento gay de um amigo, porque aquele seria o caminho da "morte eterna". A fala pegou tão mal que Bruna mandou mensagens para o tal amigo, o youtuber Bruno de Simone, explicando que sempre o amará e que nunca foi homofóbica. Bruno imediatamente divulgou os áudios, expondo a burrice de sua agora ex-amiga em todo o esplendor. Imbecis como Bruna Karla caem no conto de que só é homofóbico quem pratica violência física contra os LGBTQIA+. Se você não fizer isto, então tudo bem discriminar, execrar, dizer que vai pro inferno. O que esses burraldos não percebem é que basta você ser contrário ao casamento homoafetivo, à adoção de crianças por gays ou a qualquer outro direito que os héteros têm sem ninguém piscar, para que o ferro em brasa da homofobia marque a sua testa. Sim, Bruna Karla, você é homofóbica. Além de burra pra caralho.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

ANTIPATIA TERMINAL

Um filme sobre um paciente terminal de câncer talvez não seja o entretenimento mais recomendado para mim neste momento. Mas "Enquanto Vivo" ganhou o César de melhor ator, para Benoît Magimel, e ainda tem Catherine Deneuve, de quem eu estava com saudades, então encasquetei que queria ver. Mesmo assim, fui para o cinema com medo de sair deprimido. Só que não: o protagonista nega sua doença até ser desenganado,  e só então é que aceita fazer quimioterapia. Eu me identifiquei ainda menos quando surge um filho adolescente, que ele se recusa a conhecer. O entorno deste personagem antipático é mais interessante. O destaque vai para o dr. Gabriel Sara, médico na vida real, que estreia como ator fazendo alguém parecido com ele mesmo. Longo demais e sem nunca atingir a catarse prometida, "Enquanto Vivo" até que tem seus momentos, mas passa longe de ser indispensável. Ah, sim, e eu saí muito bem do cinema.

OS NOVOS MARIELLES

Quando Marielle Franco foi assassinada em 2018, a extrema direita imediatamente começou a difamá-la nas redes sociais. A vereadora carioca seria a namorada de um traficante, ou estaria envolvida em negociatas. Tudo balela: Marielle, na verdade, era uma das vozes mais ativas contra as milícias que dominam boa parte do Rio de Janeiro. As mesmas que contam, no mínimo, com o beneplácito do clã Biroliro. Não é por outra razão que esse crime hediondo não foi totalmente esclarecido até hoje. Agora, a menos de quatro meses do primeiro turno, surgem dois cadáveres ainda mais incômodos ao desgoverno do Edaír. A minionzada já está em campo, espalhando mentiras sobre Dom Phillips e Bruno Pereira - até mandaram comentários aqui para o blog, o que não deixa de me ser lisonjeiro. Recusei tudo, claro, e me espanta a fragilidade dos argumentos. Pior ainda é o gado que reclama que desaparecem mais de 60 mil pessoas no Brasil todos os anos, então porque essa gritaria por causa de apenas dois? Ora, ora, ora, porque o caso de Dom e Bruno vai muito além deles próprios. É a prova cabal do descaso com que o Bozo e seus asseclas - incluindo as Forças Armadas e o agronegócio - tratam a Amazônia. Esses trogloditas, que falam tanto em soberania nacional e em proteger a floresta das potências estrangeiras, estão entregando tudo de mão beijada para narcotraficantes, grileiros, garimpeiros, madeireiros e pescadores ilegais. É verdade que os problemas na região existem há muito tempo e que nenhum governo anterior fez um bom trabalho, mas pelo menos tentaram. O Genocida faz exatamente o contrário: quer destruir tudo, em troca do apoio do crime organizado a seu projeto ditatorial. Mas, assim como Marielle Franco não foi embora, Bruno Pereira e Dom Phillips estão maiores agora do que quando eram vivos, e vão assombrar para sempre esses facínoras incompetentes.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

CHUVA MARROM

Um drone despejou fezes e urina humanas sobre pessoas que aguardavam por um comício de Lula e Khalil em Uberlândia. Ninguém se machucou, e a polícia prendeu em flagrante três suspeitos. Mas este episódio, por mais engraçado que seja, também é um teaser do que vem por aí. O gado está ficando desesperado, pois a cada pesquisa o Edaír se aproxima mais do matadouro das urnas. E se alguém abrir fogo contra a fila de uma seção eleitoral? Quantas pessoas irão morrer até que o neofascismo reconheça a derrota? A chuva marrom se avermelhará?

EXPLICITAMENTE DESCONFORTÁVEL

Não conheço um único homem, seja hétero ou gay, que não goste de pornografia. O que nos esquecemos com frequência, ou fingimos não saber, é que a produção de filmes de sexo explícito muitas vezes envolve exploração sexual, abusos psicológicos e até violência física. Basta conferir o número de astros do pornô gay que morrem cedo, por overdose ou suicídio. Entre as mulheres, a situação é ainda pior. Essa realidade duríssima é desnudada (desculpe, não resisti) em "Pleasure", da diretora sueca Nijna Thyberg. O filme acompanha Linnéa, uma garota que sai das profundezas da Suécia rural para perseguir o sonho de se tornar a maior estrela do chamado cinema adulto. Ela desembarca em Los Angeles, adota o pseudônimo de Bella Cherry e imediatamente começa a trabalhar. Sua desenvoltura em frente às câmeras logo lhe consegue muitos fãs e mais contratos, mas ela não demora a perceber que, para subir na carreira, vai ter que participar de cenas cada vez mais extremas. Dupla penetração, triplo anal, sadomasoquismo, porradas - verdadeiros estupros filmados, que nem a ultraliberal Bella é capaz de suportar. A estreante Sofia Kappel dá um tour de force como a protagonista, sem jamais participar de sequências verdadeiramente explícitas. O curioso é que a amiga, a rival, o mentor e quase todo o elenco coadjuvante é interpretado por atores pornôs de verdade. Para mim, isso acaba turvando um pouco a mensagem do longa: se a indústria é tão ruim assim, como que eles parecem tão ajustados e à vontade? "Pleasure" entra no catálogo do MUBI nesta sexta, e seu roteiro bem construído faz com que mereça ser visto. Mas já vou avisando: muitas cenas são pra lá de desconfortáveis, dessas que a gente tapa os olhos com as mãos.

terça-feira, 14 de junho de 2022

RATANABÁ!

A Coreia do Sul leva a sério o investimento estatal na cultura. Resultado: nos últimos anos o país teve o primeiro filme em línga não-inglesa a levar o Oscar de melhor do ano, a série mais assistida do mundo, o reality show vendido para mais países e a banda mais popular. Aqui no Brasil, um celeiro de talentos, acontece exatamente o contrário: o desgoverno Biroliro faz de tudo para matar qualquer manifestação cultural que não seja show de sertanejo pago por prefeituras carentes com verbas do orçamento secreto. Para cumprir esta missão, gente desqualificada foi indicada para o cargo de Secretário da Cultura, do neonazista Roberto Amorim a Regina "pum do palhaço" Duarte. Mas o mais bisonho de todos é mesmo o Mario Frias, que renunciou ao cargo na esperança de se eleger deputado federal. O que o ex-"Malhação" tem para mostrar? Bom, há alguns dias ele se gabou no Twitter de que recebeu em seu gabinete, quando ainda estava no cargo, o CEO da Dakila Pesquisas, Urandir Fernandes de Oliveira, que lhe garantiu a existência na Amazônia da cidade perdida de Ratanabá, capital do mundo há 450 milhões de anos. Engraçado que nessa época, o período Ordoviciano, foi quando surgiram os primeiros vertebrados, e a América do Sul sequer existia. Ratanabá (sério, de onde eles tiram esses nomes?) viralizou na hora, e já é mais um vexame na conta de Frias. Só no Brasil do Edaír que um Secretário da Cultura recebe alguém que, além de antivaxx e terraplanista, também era o "porta-voz" do ET Bilú.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

JOGA PRO UNIVERSO

O multiverso é uma possibilidade cunhada por cientistas há alfgumas décadas, e entrou na cultura pop através das HQs de super-heróis. Foi a saída que os roteiristas encontraram para eliminar personagens que seguiam vivos em outras tramas. Mas esses universos múltiplos nunca estiveram tão na moda quanto agora, graças ao Homem-Aranha, ao Dr. Estranho e ao próprio metaverso, que não deixa de ser um multiverso virtual. Só que ninguém até agora foi tão fundo nesse tema quanto o filme "Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo" (eu teria traduzido para "Tudo ao Mesmo Tempo Agora"), que finalmente entra em cartaz no Brasil na semana que vem. A dupla de diretores que se assina como The Daniels deu a Michelle Yeoh o melhor papel de sua carreira, e já se fala numa indicação ao Oscar de melhor atriz. Ela faz a amargurada dona de uma lavanderia em Los Angeles, com problemas com o marido, a filha, o sogro e o negócio. De repente, sem maiores explicações, descobre que existem milhares de outras versões dela mesma, quase todas mais bem-sucedidas: uma atriz de cinema, uma cantora de ópera chinesa, uma chef e por aí vai. Só que todas essas estão levando um pau de uma misteriosa figura feminina, que agora ameaça o mundo em que vivemos. Deu para entender? Mais não vou contar, porque o filme traz várias surpresas, gags impagáveis, montagem frenética e duas mensagens que deveriam ser óbvias: podemos ser o que quisermos, mas mais importante do que ser é nos conectarmos aos outros. Achei um tiquinho longo, para variar, mas é inegável: "Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo" é um dos filmes mais originais de 2022, e um dos melhores.

MORTOS, É ÓBVIO

Alguém aí tem dúvidas de que Dom Philips e Bruno Pereira estão mesmo mortos? A confusão em torno dos corpos que teriam ou não sido encontrados é típica dessa barafunda que é o desgoverno Biroliro, em que campeiam a incompetência e a covardia. Mas está cada vez mais óbvio que o jornalista inglês e o indigenista, como já estava desde que ficamos sabendo do desaparecimento, foram assassinados, como todos nós temíamos. É incrível os assassinos terem achado que ficaria por isto mesmo - se bem que, na verdade, quase ficou. O Bozo e suas Forças Armerdas demoraram para se mexer, como se dessem o aval para que figuras incômodas fossem suprimidas na Amazônia. Dezenas de crimes semelhantes aconteceram na região antes do Edaír, mas é patente como ele cria um clima propício para que os bandidos da floresta façam o que bem entenderem, sem medo de punição. Já as Forças Mamatas, que adoram gritar "selva!", precisam parar de fingir que querem proteger a Amazônia de potências estrangeiras. Querem mesmo é continuar mamando nas tetas do Estado, nem que para isso tenham que entregar nossas fronteiras a narcotraficantes, grileiros, pescadores ilegais e milicianos em geral.

domingo, 12 de junho de 2022

DE QUEM EU GOSTO É DA MINHA NAMORADA

Depois de vários singles, finalmente o Fado Bicha lançou seu primeiro álbum, "Ocupação", pelo qual eu esperava desde 2019. E saiu melhor do que a encomenda: além de devolver o fado à marginalidade de onde ele surgiu, a dupla formada por Lila Fadista e João Caçador vai muito além, incorporando elementos do rock, da música eletrônica e do pasodoble espanhol, com uma produção complexa e sofisticada. Há momentos muito engraçados, como "Crónica do Maxo Discreto", e outros de um total desconsolo, evocando vítimas da homofobia como o bailarino Valentim de Barros, perseguido pela ditadura de Salazar, ou a trans brasileira Gisberta, morta por moleques no Porto. A voz de Lila não fica nada a dever à de nomes lendários do gênero, e a ousadia das letras faz uma ponte direta com António Variações, o pioneiro da música quer em Portugal. O Fado Bicha estreia sua turnê internacional em São Paulo, no dia 7 de julho, apresentando-se com Davi Sabbagh. Vou deixar minha namorada em casa para ir.

sábado, 11 de junho de 2022

UM PAÍS DE OUTRO PLANETA

Dez anos depois do que parecia ser a terceira e última temporada, "Borgen" está de volta. Esta quarta safra temporã tem o subtítulo "O Poder e a Glória", e Brigitte Nyborg está de volta ao governo da Dinamarca. Mas não mais como primeira-ministra: agora ela é a titular da pasta das Relações Exteriores, no gabinete de uma outra PM. Todos os oito episódios giram em torno da descoberta de petróleo na Groenlândia, disputado por Rússia, China e Estados Unidos. É um interessante xadrez geopolítico, temperado pelo desejo de independência dos groenlandeses. Mais interessante ainda é o fato de Birgitte não ser mais um anjo de candura. Ela chega a mentir e a trair suas posições pró-clima para se manter no poder, e ainda enfrenta problemas com o filho ativista. Ninguém é santo, aliás, mas quase todos os conflitos são legítimos. O que mais me choca, como espectador brasileiro, é ausência total de corrupção nos meandros do palácio. Não tem rachadinha, orçamento secreto ou bolsolão. Não faço ideia do que seja viver num país assim.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

NARIZ GRANDE É PARA OS FRACOS

"Cyrano de Bergerac" já foi tantas vezes montado no teatro e adaptado para o cinema que parecia difícil dar um novo twist ao herói romântico de Edmond de Ronstand. Mas o diretor Joe Wright deu, ao escalar Peter Dinklage para o papel. Afinal, quem precisa de um nariz gigantesco quando se tem menos de um metro e meio de altura? Além de ser ótimo ator, o Tyrion de "Game of Thrones" ainda canta surpreendentemente bem - sim, esta nova versão, ainda por cima, é um musical. Rodado em Siracusa, na Sicília, e ambientado no século 18, o filme tampouco é fiel a vários detalhes do texto original. Mas a essência está lá: Cyrano, hábil na espada e nas palavras, empresta sua verve romântica para o belo porém oco soldado Christian escrever cartas que irão enlouquecer a bela Roxanne, amada por ambos. A primeira meia hora é fantástica, cheia de rompantes e coreografias empolgantes. Mas aí o triângulo amoroso cai num certo ramerrão, e o ritmo só se recupera na reta final. Peter Dinklage concorreu ao Globo de Ouro e perdeu a indicação ao Oscar para Javier Bardem. Merecia ganhar: além de fazer história, ainda traria a vantagem de que não conseguir estapear ninguém que o ofendesse durante a cerimônia.
Procurando por mais Cyranos nas plataformas, dei de cara com um filme que eu até sabia qe existia, mas não tinha me dado conta do que era. "Cyrano, Mon Amour", disponível na Amazon Prime Video, é a versão para o cinema de "Edmond", uma das peças que eu vi em Paris. O diretor é o mesmo Alexis Michalik que escreveu e dirigiu o espetáculo no teatro. No longa ele também interpreta Georges Feydeau, amygo e ryval de Edmond de Rostand. O cara é uma espécie de Miguel Falabella francês, com vários sucessos simultâneos nos palcos parisienses.

DEVOLVA O AMOR

Eu me apaixonei pelo Benjamin Biolay assim que o conheci, quando ele lançou seu primeiro álbum em 2002. Carinha de bad boy, músicas maravilhosas, voz envolvente, eu não resisti. Propus casamento e ele aceitou, mesmo sem saber até hoje da minha existência. Desde então, meu marido imaginário casou e descasou na vida real com Chiara Mastroianni e Vanessa Paradis, mas eu o perdoei porque continuou me encantando com seus discos. O próximo, "Saint-Clair", só sai em setembro, mas o single "Rends l'Amour" já está disponível desde ontem. No clipe, percebo que BB está envelhecendo muito bem - ele faz 50 em 2023 - mas também anda ficando cada vez mais parecido com meu marido de verdade. O que põe por terra a minha suposta bigamia: de que adianta um marido imaginário, se ele é quase igual ao verdadeiro? Biolay, faça o que você diz na nova canção e devolva logo o meu amor.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

CENSO E FALTA DE SENSIBILIDADE

Em 2010, respondi com o maior orgulho quando a recenseadora me perguntou sobre a minha orientação sexual. É fundamental que todos os LGBTQIA+ não se escondam, para que o Brasil saiba que somos muitos e que o governo não possa nos ignorar. Mas o censo que deve acontecer este ano - que vem sendo adiado sucessivamente desde 2020 - não há nenhuma questão sobre a sexualidade dos pesquisados. O desgoverno Biroliro quer fingir que não existimos. Na verdade, Edaír preferia não fazer recenseamento nenhum. Afinal, para quê saber quantos milhões de pobres existem no país, ou confirmar que pretos e pardos são mesmo a maioria? Só que a pressão da sociedade obrigou o IBGE a marcar um censo meia-boca, com questionário enxuto e poucos pesquisadores na rua. Aí a Justiça do Acre exigiu que se pergunte sobre orientação sexual e identidade de gênero, e o IBGE retrucou que não há mais tempo hábil - caso contrário, o censo será adiado novamente. Ah, quer saber? Que seja, para 2023, quando Lula estiver de volta ao Planalto e a familícia atrás das grades.

BECKETT CHEGOU

Tenho uma imensa lacuna no meu currículo de espectador de teatro. Nunca vi "Esperando Godot", a peça mais famosa de Samuel Beckett. Não foi por falta de oportunidade, porque já houve montagens a que eu poderia ter assistido. Talvez seja por aflição mesmo: que agonia, dois personagens esperando por alguém que nunca chega. Mas Beckett chegou, pela segunda vez na minha vida. A primeira foi em 1986, com "Catastrophé", que reunia três textos curtos do autor e tinha a grande Maria Alice Vergueiro no elenco. Um desses textos, "Play", também está entre as quatro obras que a diretora Mika Lins incluiu em "Play Beckett". Com ótimos atores, iluminação precisa de Caetano Vilela e um cenário impactante, ela extrai toda a tensão inerente a esses "dramatículos". Quem ainda não viu, tem até o dia 26 de junho: este ótimo espetáculo está em cartaz no Teatro Aliança Francesa, aqui em São Paulo.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

A XP DA CUESTÃO

Faço minhas as palavras do Pedro Doria no Twitter: "uma empresa que está num ramo no qual informação de qualidade sobre o futuro deveria se prioridade se permitiu tornar refém de um pequeno grupo de clientes que prefere viver no seu mundo de fantasias reacionárias". Não sei definir melhor o vexame por que a XP Investimentos está passando. A empresa abriu mão de sua credibilidade e as pernas para os bolsominions, que reclamaram das pesquisas eleitorais patrocinadas por ela. Aproveito para rouubar também o que escreveu o Salvador Nogueira: "véios da Havan que investem com a XP questionam lisura das pesquisas e exigem versão impressa, auditável e com resultado que preferirem". Eis aí o que esses golpistas de merda querem. Um Brasil onde imperem as fake news e as fake pesquisas, dessas que apontam uma vitória esmagadora do Biroliro antes mesmo do primeiro turno.

terça-feira, 7 de junho de 2022

AVENTURA NÃO RECOMENDÁVEL

O Brasil está perdido no meio do mato, talvez ferido de morte. O país não ouviu as recomendações e embarcou, em 2018, num aventura irresponsável, elegendo para o cargo máximo um deputado incompetente e preguiçoso, cuja única façanha foi seguir impune depois de inúmeras declarações machistas, racistas e homofóbicas. Um sujeito desqualificado,  que protege descaradamente garimpeiros e pescadores ilegais, agrotrogloditas que invadem terras indígenas e até narcotraficantes, que impõem na selva o mesmo terror que as milícias tocam no Rio de Janeiro. Ninguém virá resgatar o Brasil: somos nós mesmos que temos que encontrar um jeito de sair dessa barafunda. Nossos votos em outubro precisam virar zarabatanas.

ORGULHO E PRECONCEITO E VIADAGEM

É significativo que uma versão de "Orgulho e Preconceito" com zumbis tnha vindo à luz mais de uma década antes de uma variante gay do romance de Jane Austen. Se bem que eu não identifiquei muitos elementos do livro no filme "Fire Island - Orgulho e Sedução", que acaba de chegar à plataforma Star +. A trama se finge de apimentada, mas seu núcleo é fofo e doce feito um merengue recheado de chantilly. Um grupo de gays fervidas vai passar uma semana de férias em Fire Island, um balneário popular entre a viadagem desde os anos 70, pertinho de Nova York. O objetivo principal é trepar, claro, mas essa turma é extraordinariamente sem traquejo, apesar de estarem todos beirando os 30 anos. Até rola um pouco de sexo,  mas no fundo o que importa mesmo é o amor, que dois deles irão encontrar depois de muita pirraça. Escrito por seu ator principal, Joel Kim Booster, o roteiro de "Fire Island" inclui drogas e até uma sequência num dark room, mas não esconde seu lado de menina-moça sonhadora. O elenco multirracial é um ponto forte, mas não dá para acreditar que um marmanjo trintão que frequenta festas do circuito nunca transou na vida.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

SANDUÍCHE DE MARMALADE

Os festejos pelo Jubileu de Platina de Elizabeth 2a. terminaram ontem, com uma aparição-surpresa da monarca no balcão do Palácio de Buckingham. No dia anterior, Sua Majestade deu o ar da graça num vídeo exibido pela TV britânica logo antes da transmissão do show que reuniu vários astros da música pop. Duas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas é constatar que, por lá, a monarquia também é encarada como entretenimento. A rainha até exibe um certo talento como atriz, depois de uma vida inteira em frente às câmeras. A outra coisa é como a indústria cultural é levada a sério. Música, cinema, TV, tudo isso contribui para o PIB do Reino Unido de forma significativa, além de aumentar o soft power do país - um conceito que o Biroliro não tem bestunto para entender. Digo isso por causa da cena final do vídeo, com Paddington e Lilibeth batucando "We Will Rock You" nas xícaras de chá. depois de trocarem confidências sobre os esconderijos secretos de seus sanduíches. Isso é cultura, isso é entretenimento, isso é po-lí-ti-ca.

PÃO SUECO

"Síndrome de Estocolmo" é o nome dado a um fenômeno curioso, que eclode em situações prolongadas com reféns: os sequestrados tomam o partido de seus sequestradores. O caso que deu origem à expressão foi um assalto a banco na capital sueca em 1973. A pedido do então premiê Olof Palme, o mais famoso bandido do país, Clark Olofsson, entrou na cena do crime para apaziguar o criminoso, que ele conhecia da prisão. Este é apenas um episódio da ótima minissérie "Clark", lançada pela Netflix no final de maio. O protagonista é feito pelo incrível Bill Skarsgård, irmão do Alexander e filho do Stellan, e de longe o mais bonito e sedutor de sua família de artistas. Com uma autoconfiança à prova de bala, Clark derretia corações por onde passava e quase sempre conseguia o que queria. Mas também era um sociopata egocêntrico e inconsequente, que nunca se preocupou com ninguém além de si mesmo. Jonas Aklund, mais conhecido como diretor de videoclipes, imprime um ritmo frenético e um tom irônico que tornam "Clark" muito mais divertida do que esses documentários sombrios do gênero true crime. Fora que figurinos e músicas da década de 1970 sempre deixam a gente contente.

domingo, 5 de junho de 2022

DE VOLTA À RODA

Depois de mais de três meses na moita, finalmente o Pedro HMC reapareceu, dando uma entrevista ao Leo Dias. É um relato longo e corajoso, em que o dono do canal Põe na Roda explica como um vídeo íntimo seu foi parar na internet - e sim, os ataques cruéis que ele e o Popó receberam serviram de gatilho para o suicídio deste último. Veja bem: os ataques, não o vídeo em si, porque a relação dos dois era aberta. Como o próprio Pedro diz, é inacreditável que essa tsunami de transfobia venha dos próprios gays, e não de algum bolsominion enrustido. Assim como os brancos não temos ideia do que os negros sofrem com o racismo, os cis também ignoramos a barra que é ser trans. Ainda mais nesse inferno que virou o Brasil, para o qual você, hater, tem contribuído muito. Por isto, vá cagar no mato, que você ganha mais do que mandando comentários violentos que eu nem vou ler até o fim.

sábado, 4 de junho de 2022

CREPOLÊMIKA

Podem me chamar de antiquado, mas acho de uma vulgaridade sem par que uma loja se chame La Putaria. Mesmo que os produtos que ela venda tenham conotação erótica, como é o caso da creperie portuguesa que abriu filiais no Rio e em Belo Horizonte. Mas nada contra as crepikas e crepepekas que tanto furor vêm causando. A moda, que deveria durar menos tempo que a das paletas mexicanas, vai ganhar sobrevida por causa da implicância dos políticos de extrema-direita. Teve a vereadora sapatã que tentou evitar que essas delícias do demo chegassem a Londrina; agora o Ministério da Justiça quer simplesmente proibir qualquer confeito em forma de órgão genital. Enquanto isto, aumenta o número de vítimas dos temporais em Recife, a violência explode na cracolândia paulistana e o Brasil volta para o mapa da fome... Do jeito que a coisa vai, crepikas e crepepekas serão o doce oficial da comemoração da vitória de Lula.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

HELLO TÜRKIYE

Recep Erdogan acha que está dando uma demonstração de força ao obrigar o mundo inteiro a chamar seu país de "Türkiye", o nome em turco, mas na verdade está passando recibo de paiseco. Só nações relativamente insignificantes batem o pezinho exigindo serem tratadas por seus nomes originais, como Sri Lanka (ex-Ceilão) ou Myanmar (ex-Birmânia). Alguém já viu a China querendo ser chamada de Zhongguo, ou o Japão de Nihon? O engraçado é que para nós, brasileiros, a pronúncia de Türkyie é praticamente idêntica à de Turquia. Ou seja, vou continuar chamando o país do mesmo jeito que eu sempre chamei.

AO BARULHO DE SUA MAJESTADE

Já fui bem mais monarquista do que eu sou hoje. Sempre gostei da pompa e circunstância, e também da ilusão de estabilidade que um monarca proporciona. Mas escândalos como o do rei Juan Carlos da Espanha - como que um cara cercado pelo luxo também é corrupto? - me fizeram mudar de ideia. A própria série "The Crown", que dramatiza os bastidores da Casa de Windsor, mostrou que são todos mafiosos. Mas ando gostando de ver os festejos pelos 70 anos do reinado de Elizabeth II. Estou no meu sexto papa e no 14o. presidente brasileiro, mas até hoje só vi uma única pessoa no trono britânico. Não por muito tempo mais: aos 96 anos, a rainha finalmente começou a ratear, e hoje não foi à missa em sua homenagem na catedral de St. Paul. Essa festança barulhenta também tem sabor de despedida.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

BONECA COBIÇADA

O maior problema que aflige o Brasil neste momento não é a inflação galopante, nem a violência policial que faz "danos colateriais" todos os dias. Nada disso. A mais grave ameaça ao nosso país é a Barbie da Laverne Cox, uma edição para colecionadores que nem começou a ser vendida por aqui. Pelo menos é o que pensa o deputado bolsominion Otoni de Paula (MDB-RJ), que apresentou um requerimento para a Câmara discutir esse perigo iminente. Segundo o parlamentar, a boneca tem pau, o que absolutamente não é verdade. Nenhum boneco da Mattel, de qualquer sexo ou gênero, tem órgãos genitais. Como toda criança sabe, para seu profundo desapontamento, são todos lisinhos lá em baixo. Mas esta é a tática mais manjada da extrema direita: ignorar os problemas verdadeiros e atacar problemas imaginários, como a infame mamadeira de piroca. Que a Câmara de Deputados gaste tempo e dinheiro do contribuinte discutindo esta asneira, ainda mais no Mês do Orgulho LGBTQI+, é só mais um absurdo desse país cada vez mais obcecado pelo pau alheio.

CORRAM PARA AS COLINAS

Coisas estranhas acontecem. Uma das canções mais tocadas nas plataformas de áudio esta semana foi lançada há 37 anos: a formidável "Running Up That Hill", carro-chefe do que talvez seja o melhor álbum de Kate Bush, "Hounds of Love". Tudo porque esse clássico da música pop, perfeito para uma aula de spinning ou uma noite de sexo atlético, entrou para a trilha sonora da quarta temporada de "Stranger Things", conseguindo assim alcançar toda uma nova geração. O curioso é que tem fãs xiitas que não gostaram, e foram às redes sociais reclamar. Eu discordo frontalmente. Sou louco por Kate Bush desde que ela surgiu em 1978 com "Wuthering Heights", e acho maravilhoso que a garotada esteja descobrindo a melhor cantora britânica de todos os tempos. Fora que eu mesmo já conheci muita coisa boa através das trilhas de séries.