domingo, 15 de maio de 2022

SEM BOLSONARRÔ, ESPERRÔ

Esta é a 12a. vez que eu venho a Paris na vida, e até ontem eu nunca tinha visto um espetáculo do Théatre du Soleil. Porque também não é fácil: a lendária companhia teatral da diretora Ariane Mnouckkine está alojada na Cartoucherie, um conjunto de galpões no Bois de Vincennes, um parque no extremo leste da cidade. Mas dessa vez criei vergonha na cara e encarei com a minha amiga a longa viagem de metrô, seguida por um ônibus que nos deixou a três pontos da estação. O esforço valeu a pena. "L'Île d'Or", que saiu de cartaz neste domingo, é uma espécie de continuação do espetáculo anterior da trupe, "Un Chambre en Inde", com a mesma protagonista, Cornelia - uma espécie de avatar da diretora. Não há exatamente uma trama, mas uma colagem de cenas de altíssimo impacto visual, muito inspiradas na arte japonesa, mas não só. Cornelia, que está internada num hospital, sonha em fugir para Kanemu Jima, uma ilha no Japão que serve de refúgio para artistas do mundo inteiro. Mas este é só um pretexto para Mnouchkine atacar a ditadura chinesa, o conflito no Oriente Médio e até mesmo o agronegócio brasileiro, que termina com um amigo do "presidente Jaïr" matando sua amante a garrafadas. A própria Ariane fica na porta, recolhendo as entradas e recebendo o público. Não resisti e perguntei: "Madame Mnouchkine, esta montagem irá ao Brasil?" "Não fomos convidados", ela respondeu, "e só quero ir quando seu paísí já estiver sem Bosonarrô. No ano que vem, esperrô!" Ela última palavra ela disse em português, que aprendeu com sua mulher brasileira, a atriz Juliana Carneiro da Cunha, que participa em vídeo de uma cena.
 
Hoje fomos ver uma peça mais convencional, a comédia "Edmond", no deslumbrante Théatre du Palais Royal. Em ritmo acelerado, é contada a história da criação de "Cyrano de Bergerac" pelo dramaturgo Edmond de Ronstand, o maior sucesso do teatro francês de todos os tempos. Quase não há cenários, só cadeiras, lustres e adereços em cena, mas os atores são tão bons que o espectador mal percebe que a brincadeira dura duas horas seguidas, sem intervalo. Esta deve seguir temporada por muito tempo: estreou há cinco anos, e o público ainda não deixou que termine.

26 comentários:

  1. pq o Oscar não foi com vc pra Paris ??

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    1. Porque minha amiga só me convidou a mim. E também porque ele tem trabalho no Brasil.

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  2. Tony,chegou a falar com a Juliana?E sabia
    que ela é prima do Mateus Solano?

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    1. Sim, sabia. Ela não estava lá (ou, pelo menos, não a vi).

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  3. sobre o agronegocio: reforma agraria já! estatização de toda terra produtiva

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  4. Nome a deixar registrado: Alexis Michalik, o produtor-diretor de Edmond. Além de ser MUITO gato (alto, sorriso incrível, PQP os olhos de um azul absurdamente profundo), o cara já ganhou 5 Molières por suas peças e uma menção do Renaudot por um livro que eles escreveu alguns anos atrás. Looks and brains. :D Ele deve ter quatro ou cinco peças simultaneamente em cartaz em Paris nesse momento. Le Cercle des Illusionnistes e Intramuros também são excelentes... mas Edmond é genial.

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  5. Se quiser variar um pouco a programação cultural, no bosque de Vincennes aí na área rola uma pegação forte...#ficadica

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    1. Danny enigmático e chegado numa pegação forte...me add vai

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    2. Se eu te add, vou deixar de ser enigmático...Ali pertinho do Bois de Vincennes tbem tem uma sauna, discretíssima, frequentada majoritariamente por homens casados, adeptos do amor que não ousa dizer seu nome...#ficadica...

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  6. Tony os gays franceses são bons de cama?

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  7. Quem não fala francês consegue curtir alguma das peças?Obrigado

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    1. "L'Île d'Or" até que é bastante visual. Mas... não, quem não fala francês não vai curtir nada.

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    2. "Edmond", por ser no Théatre du Palais Royal, já vale a entrada somente pelo teatro que coloca fácil muita Opéra de capital do velho continente no chão. Mas é francês nível hard.

      Tem um site chamado Theatre in Paris (https://www.theatreinparis.com/) no qual eles listam as peças que tem legendas em inglês e vendem ingressos nas cadeiras onde dá para acompanhar o espetaculo sem problemas. O Théâtre Édouard VII (também deslumbrante) quase sempre tem legendas.

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  8. Não conheço uma pessoa que não fale francês e ame Paris. Acho que são duas coisas incompatíveis. Para mim continha sendo uma capital europeia overrated.

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    1. mas quem não fala frances, celina ? kkkk

      overrated é a tua própria opinião sobre o interesse das pessoas em escutar tuas always unasked-for, always meaningless pérolas de sabedoria, joaozinho 🤣

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    2. Pois eu acho Paris UNDERrated. Nenhuma outra cidade do mundo, nem Londres, nem Nova York, oferece tanta coisa ao mesmo tempo: museus, monumentos, restaurantes, lojas, teatros, cinemas, joie de vivre. Fora a facilidade de movimento: vai-se de metrô a literalmente qualquer lugar, e tem sempre uma estação a menos de 500m de você. Fora a beleza estonteante... E não precisa ser fluente em francês para usufruir disso tudo. O básico, para pedir comida, por exemplo, já basta.

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    3. A experiência de quem fala francês sempre é melhor, Tony...te garanto...

      @Anônimo, amo meus fãs...

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    4. Tony,

      Gosto é particular (ou como dizem, que nem c*). Mas acho que essa aura de luxo, tradição e sofisticação que a França exporta leva a uma boa parte da galera (principalmente latinos americanos e asiáticos) a desembarcar em Paris esperando uma caixinha de música linda, perfeita e imaculada. E já se desesperar na saída do RER B na Gare du Nord.

      Paris até chega perto dessa imagem idealizada em algumas partes - 7éme arrondissement, Triangle d'Or na Champs Elysées, Madeleine-Place Vendôme. Mas esses são lugares tão ultra-explorados por décadas de turismo de massa onde tudo é pasteurizado, overpriced e/ou com um péssimo serviço. E como esse é eixo onde a galera que visita Paris pela primeira vez circula, é a imagem de merda definitiva que muita gente fica da cidade. Uma imagem passé, boring, de cartão postal da cidade.

      Os atentados de 2015 consolidaram uma mudança nítida na cidade. O eixo "cool" migrou das margens elegantes, chiques but so boring do Sena para o Norte-Leste antigo-bairro-operário-novo-gentrificado e começa a ultrapassar a mitica fronteira da Périphérique. Os bares e restaurantes começaram a diversificar da estrutura clássica e rigida da cozinha francesa e explorar a riqueza multicultural que a imigração traz. Os DJs começaram a entender o que Berlim faz de certo e organizar festas com musica decente e BEM interessantes if you know what I mean. Falar inglês virou algo normal, com todo mundo de menos 40 anos tendo obrigatoriamente feito intercâmbio pelo Erasmus. Paris virou um dos centros tech do velho continente, com o Brexit abrindo um mundo de oportunidade de negócios. Parece que quando as parisienses trocaram os saltos altos pelos Stan Smiths, finalmente todo mundo entendeu que dá para ser informal e ao mesmo tempo elegante e cool.

      Paris é overcrowded, com uma densidade populacional maior do que Nova York em uma cidade onde morar acima do 6o andar é raríssimo e ao mesmo tempo recebendo um dos maiores fluxos de turistas do mundo. Habitada por gente morando em média em 30m2 e desesperada por um pouco mais de espaço pessoal. Suja para um caralho. Com uma estrutura funcional-mas-obsoleta (ah, chegar em Paris com malas e ter que trocar de estação no metrô :D). Paris não é a opulência de Viena, Paris não é riqueza de Zurique, Paris não é a modernidade de Berlim, Paris não é nem a organização e limpeza de Madrid ou Lisboa.

      Mas Paris é Paris. Paris são séculos de uma história caótica e contraditória que reúne o melhor atingido pelo génie humano mas que são os frutos vergonhosos de uma colonização a nível global em parceria com os ingleses. Paris é ver uma foto de 1910 e conseguir imediatamente ver onde ela foi tirada. Paris é ver a Torre Eiffel de um angulo novo e ficar embasbacado, mesmo depois de 10 anos. Paris é uma exposição do caralho a cada 2 meses porque um dos talentos desse povo chato para um caralho é uma curadoria fodástica e nenhuma outra cidade tem o acervo que os museus dessa cidade permite. Paris é discutir sobre essa exposição com os seus amigos bebendo um rosé com cubo de gelo (rosé piscine, bien sur, afinal faz um calor nível Bangú quando não chove sem parar nessa cidade), olhando para a rua e pensando "Puta que pariu, que cidade linda".

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    5. Ahazou, Fernandah...Melhor definição de Paris evah...

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    6. Arrasou, Fernando! Faltou só falar do Haiti da exploração colonial da França que produziu isso tudo. Inclusive essa sua visão "colorblind" da França, que desconsidera seus privilégios como alguém que passa por europeu na rua... Quando você conhecer os EUA talvez entenda do que estou falando (mas por enquanto vive dos estereótipos). Aliás, usar o termo "asiáticos" é bastante problemático.

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    7. João, a gente não se conhece desde ontem. Sempre te achei um cara muito inteligente, articulado, sem medo de dizer "não concordo" e gentil. Por respeito a tudo isso, desde a nossa ultima discussão sobre exatamente esse tema, eu me prometi de não entrar mais em qualquer discussão contigo.

      Discussão é troca de ideias e ponto de vistas. Você mudou. Você se colocou numa posição de monopólio de todo conhecimento. Você não escuta mas somente lista porque o teu ponto de vista é o único relevante. Não dá para ter mais discussão contigo. :/

      Eu te falei como eu fiquei feliz para um caralho por você entrado no teu curso foda nos EUA, um enorme mérito teu. Mas você mudou. E eu mudei, sem tempo nem vontade de entrar em discussão com gente que não consegue ou quer escutar.

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    8. Ok, Fe...eu gosto de ouvir. Adorei sua descrição de Paris, que é, sim, uma grande cidade (apesar de ser overrated para quem não está mergulhado na cultura linguística francesa)...mas essa parte dos asiáticos doeu, monamú.

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  9. *continua
    Ai, vcs me deixam nervosa e eu cometo erros de português!

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