terça-feira, 31 de maio de 2022

HAMLET ANTES DE SHAKESPEARE

Muitas das histórias das peças de William Shakespeare já circulavam antes do bardo transformá-las em teatro. Um exemplo conhecido é "Hamlet", que provavelmente deriva de alguma escaramuça na Escandinávia medieval - naquele tempo, irmão que matava irmão para usurpar o trono era feijão-com-arroz. Para "O Homem do Norte", seu terceiro e mais ambicioso filme, o cineasta Robert Eggers faz de seu protagonista Amleth uma fera obcecada por vingar o pai morto pelo tio, sem as inseguranças nem a transcendência do personagem teatral. As sequências violentas, com muitas decapitações e vísceras à mostra, sugerem que esses vikings viviam na sociedade mais brutal do mundo. Eggers insistiu que seus atores falassem inglês com um vago sotaque nórdico. Quem se sai pior na tarefa é o sueco Alexander Skårsgard, obrigado a recitar frases grandiloquentes  e a ostentar um corpanzil cinzelado. A peruca da Nicole Kidman também causa medo, mas couberam a ela as melhores cenas. E ainda tem Björk como uma feiticeira cega que tudo vê, no primeiro filme da cantora desde o horrendo "Dançando no Escuro" de mais de 20 anos atrás. Locações na Islândia, aldeias incendiadas, criancinhas trucidadas: o diretor meio que esgota o catálogo do que pode ser feito num longa ambientado nessa época e local. Aqui não tem essa de ser ou não ser. "O Homem do Norte" é, e quem não gostar terá seus olhos arrancados.

10 comentários:

  1. Estou fora. Para ver violência e atrocidades basta ir assistir qualquer jornal.

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    1. exato vivemos numa epoca muito mais sombria e indigna o capitalismo é mais cruel e muito mais boçal que os vikings

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  2. Gosto muito dos outros dois filmes dele, em especial da quase obra-prima que é “O farol”, mas por algum motivo que transcende minha compreensão estou com certo receio com relação a esse. De qualquer forma tenho procurado não ler nada além de descrições mais superficiais, quero ir como fui pros outros dois, sem fazer muita idéia do que me esperava.

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    1. O farol? Bicha vc entendeu alguma coisa? Me explica então?

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    2. CONTEM SPOILER DO FILME O FAROL!!!

      O filme inteiro é uma metáfora do poema do mito Prometheus, sobre o fogo que Prometheus quis roubar para dar aos mortais e que na vdd, não tinha nada la (no farol do filme), era um simples tipo de simbolismo. E que, assim como a punição de Prometheus, que foi ter o fígado devorado por águias, Ephraim/Thomas tbm teve o mesmo triste fim

      Pra quem quiser entender o mito Prometheus, aqui segue o poema e a explicação:

      Poema

      Prometheus (1774)
      Wolfgang von Goethe (1749-1832)

      Encobre o teu céu, ó Zeus,
      Com vapores de nuvens,
      E, qual menino que decepa
      A flor dos cardos,
      Exercita-te em robles e cristas de montes;
      Mas a minha Terra
      Hás-de-ma deixar,
      E a minha cabana, que não construíste,
      E o meu lar,
      Cujo braseiro
      Me invejas.

      Nada mais pobre conheço
      Sob o sol do que vós, ó Deuses!
      Mesquinhamente nutris
      De tributos de sacrifícios
      E hálitos de preces
      A vossa majestade;
      E morreríeis de fome, se não fossem
      Crianças e mendigos
      Loucos cheios de esperança.

      Quando era menino e não sabia
      Pra onde havia de virar-me,
      Voltava os olhos desgarrados
      Para o sol, como se lá houvesse
      Ouvido pra o meu queixume,
      Coração como o meu
      Que se compadecesse da minha angústia.

      Quem me ajudou
      Contra a insolência dos Titãs?
      Quem me livrou da morte,
      Da escravidão?
      Pois não foste tu que tudo acabaste,
      Meu coração em fogo sagrado?
      E jovem e bom — enganado —
      Ardias ao Deus que lá no céu dormia
      Tuas graças de salvação?!

      Eu venerar-te? E por quê?
      Suavizaste tu jamais as dores
      Do oprimido?
      Enxugaste jamais as lágrimas
      Do angustiado?
      Pois não me forjaram Homem
      O Tempo todo-poderoso
      E o Destino eterno,
      Meus senhores e teus?

      Pensavas tu talvez
      Que eu havia de odiar a Vida
      E fugir para os desertos,
      Lá porque nem todos
      Os sonhos em flor frutificaram?

      Pois aqui estou! Formo Homens
      À minha imagem,
      Uma estirpe que a mim se assemelhe:
      Para sofrer, para chorar,
      Para gozar e se alegrar,
      E pra não te respeitar,
      Como eu!

      Explicação:

      O poema trata da relação entre o homem e figuras do poder, baseado no mito grego de Prometeu. Shelley era grande conhecedor dos gregos. Apenas entre 1814 e 1815, sabemos graças a registros feitos por Mary, sabe-se que ele leu, em grego, Homero, Hesíodo, Teócrito e os textos históricos de Tucídides, Heródoto e Diógenes Laércio, como conta Adriano Scandolara na “Introdução” ao volume. Em 1816, leu Prometeu acorrentado, de Ésquilo, as obras de Luciano e várias das Vidas de Plutarco.

      Conta o tradutor que, segundo a mitologia grega, “Prometeu foi o titã punido por Zeus por ter roubado o fogo para dá-lo aos mortais, frustrando os planos de Zeus, que planejava mantê-los domesticados como gado. Seu castigo é ser acorrentado ao Cáucaso, onde ficaria exposto aos elementos e teria seu fígado devorado por um abutre (ou por uma águia; as versões variam), até que fosse feito um acordo com Zeus. Nesse pacto, Prometeu revelaria informações importantes sobre o futuro do deus olímpico, no que dizia respeito a uma profecia sobre sua queda (lembrando que, no grego, Prometeu […] significa algo como ‘pré-vidente’), uma vez que, segundo uma das versões do mito, que é atualizada por Ésquilo, o filho de Zeus com Tétis seria quem estaria destinado a derrubá-lo. Assim, ao ceder enfim às torturas infligidas, Prometeu revelaria a profecia, que poderia, portanto, ser evitada por zeus ao dar Tétis em casamento a peleu, que, por sua vez, com ela geraria Aquiles, uma das principais figuras da Guerra de Troia e da Ilíada – mantendo a ordem na hierarquia celestial”.

      Bj na alma

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    3. Obrigado! bicha inteligente é outra coisa, mesmo o filme tendo otimos atores e uma premissa legal, achei cansativo.

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  3. A melhor definição para "O Homem do Norte" é "brutal". É extremamente violento, mas a fotografia é deslumbrante, a narrativa é direta. E você percebe a assinatura do diretor baseado nos filmes anteriores ("O Farol" e "A Bruxa") que ainda não sei como descrever. É um dos melhores do ano. Violento e sanguinolento e ainda assim uma excelente obra de arte.

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  4. Gosto da música de Bjork e Thomas Yorke em Dançando no Escuro, que bom que me lembrou... vou escutar novamente!

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  5. Eu não acho “Dançando no escuro” ruim, embora não curta os musicais, por não gostar de filmes musicais (gosto no teatro). [SPOILER] Acho ele agoniante, nunca mais consegui assistir de novo, a pobre da Selma ficando totalmente cega e sendo enganada, perdendo as economias dela, que desespero…

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