quarta-feira, 20 de abril de 2022

PISCA MAS NÃO BELISCA

Comecei minha vida de gay assumido tardiamente, com quase 24 anos. Tive a sorte disso acontecer em 1984, nos estertores da ditadura militar. A cultura brasileira fervia naquela época, especialmente em São Paulo. A cidade descobria sua vocação alternativa, underground, em contraste ao ensolarado Rio de Janeiro. Um dos aríetes desse movimento era a Folha de S. Paulo, que renascia sob a batuta do então jovem Otávio Frias Filho. Na Ilustrada, comandada por Matinas Suzuki Jr., uma nova geração de cartunistas despontava, traduzindo os anseios de uma nova geração de paulistanos. O que mais se destacava era Angeli, que melindrava sensibilidades com personagens icônicos como Bob Cuspe ou Rê Bordosa. Uma resposta que ele deu numa entrevista me marcou para sempre. Perguntado se achava graça em rapazes, uma questão frequente naqueles tempos libertários, Angeli não titubeou: "pisco, mas não belisco". Foi um dos primeiros héteros que eu vi não só aceitando a homossexualidade como algo normal, como até assumindo uma certa atração pelo mesmo sexo. Ontem Angeli anunciou sua aposentadoria, aos 65 anos de idade. Assim como Bruce Willis, ele também foi diagnosticado com afasia, uma doença degenerativa da qual eu mal tinha ouvido falar até duas semanas atrás. É uma tristeza imensa, mas também uma saída de cena gloriosa. Sem desenhar quadrinhos diários desde 2016, Angeli participava do rodízio do Quadrão, que o jornal publica aos domingos. Esta publicação durará até o fim do ano, com direito a algumas reprises. Mas o legado de Angeli continua. Sua obra merecerá mais uma compilação em forma de livro, a ser lançado em breve pela Companhia das Letras. E sua influência sobre os cartunistas brasileiros, tanto no traço como nos temas, ainda será sentida por anos.

15 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Poxa...morro de medo de em uma manhã qualquer acordar, estando entorno dessa idade e ter um diagnóstico...Porém que Glória termos vivido esse período.
    Tarso de Castro era um Show, só quem ouviu Gabeira no Pátio da Folha em sua volta do exílio, sabe o que foi aquilo tudo e Bob
    Cuspe, Skrotinhos,Meia Oito, Wood&Stock, como nós animavam.
    Uma pena tudo ter se encaretado como o que vemos hoje por aí. ser de Direita era uma vergonha e continua sendo.

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    1. Não conheci essa cena cultural dos anos 80,até porque nasci em 1991, mas queria ter vivido, a sensação de experimentar o fim da ditadura e a esperança por dias melhores deve ter sido uma delícia, recentemente li o livro "Ricardo e Vânia" do Chico Felitti, trabalho excelente do Chico, aborda muito do ambiente cultural da época,dando destaque para a cena LGBT.

      O Tarso de Castro que você citou é o pai do João Vicente do Porta dos Fundos né?Foi um dos fundadores do Pasquim.

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  2. Não gostava dos Skrotinhos,não...

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    1. Numa entrevista ele dizendo sobre os Skrotinhos confirmei a fita, eram mesmo dois esrotinhos desses que andam juntos rsrs

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  3. Imaginei o Tony começando a vida gay com quase 24 anos,saindo para as boates LGBT que começavam a surgir na época,com aquelas roupas coloridas que eram moda nos anos 80,cheio de vontade,com muito tesão acumulado,já que começou tardiamente a vida gay,antes se reprimia, família muito católica que não aceitava, uma pena eu nem ser nascido nos anos 80 e não ter tido a chance de esbarrar com o Tony na noite de São Paulo.

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    1. A confirmar a identidade que sinto com Tony. As coisas não aconteciam bem assim não. Também 'comecei a vida gay' por volta dos 24 anos. E felizmente os anos anteriores a esses foram de amor, família e 'amizades' e o surgimento de boates Gays...na verdade já haviam, porém estigmatizadas e não era quem estava chegando na cena que vinham com 'modelitos fortes' e sim aquelas que sempre ousaram. Nós vinhamos cheio de vontade e tesão porque nessa idade se é cheio de vontade e tesão. Como já disse aqui, o fato de não iniciar uma vida de boates e "baladas" novinho, favoreceu o fortalecimento de nossa formação e sejamos sinceros, uma menor exposição à doenças. Essa geração chegou com o acúmulo de Stonewall e estava mais para o 'Somos' do que para a Ipiranga. A noite paulista era anunciada entre debates com "Born to be alive".
      G-

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    2. Já existiam garndes boates gays em São Paulo desde o começo da década de 70, muito antes de eu começar a frequentar a night.

      Dei meu primeiro beijo num homem na Off, um clubinho do Celsinho Cury que marcou época. Mas só comecei a ir mais a boates lá por 1986, quando abriu o Malícia nos Jardins. Minha fase hard de clubber veio bem mais tarde, quando eu já tinha 44 anos e passei a ir na The Week todo sábado.

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    3. E Celso Cury processado por publicar a "Coluna do Meio" no UH.

      Chorava no Malícia, quando ouvia a versão disco de Jimmy Somerville para "Don't leave me This way" de Harold Melvin & Blue Notes...velhos tempos rs
      G-

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  4. Pesquisando sobre o Angeli agora, descobri que ele era o redator da TV Colosso e não só ele, mas a Laerte e o Glauco tbm, mostravam sua versatilidade, já que eram cartunistas com uma temática mais adulta e escreveram brilhantemente um dos meus programas infantis favoritos dos anos 1990, fiz o fundamental I a tarde, então tinha tempo de assistir e amava, uma pena que tenha se aposentado, espero que possa se recuperar da afasia, então minha lembrança do Angeli era a TV Colosso,bons tempos aqueles, assistia o Castelo-Ra-Tim-Bum na Cultura tbm

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  5. Fiquei chocado quando o Glauco,grande cartunista dos anos 80,amigo do Angeli,escreveu a TV Colosso com ele,foi assassinado por um esquizofrênico que participava da seita Santo Daime com ele,lembro da notícia na época.

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    1. Que bom encontrar uma pessoa como você aqui depois de uma fase de tantos rancores. Quando as Jrs. acreditavam que gay eram exclusivamente aquilo de suas páginas e tentaram chorar com a queda da Dilma, mas não conseguiram e chegou-se até Bolsonaro.
      Ainda temos dessa geração de Angeli, o fantástico 'Sonetista' Glauco Mattoso a quem Caetano diz gostar de roçar a "Língua".
      G-

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  6. 65 anos parece pouco. Porém, se olharmos a expectativa de vida do brasileiro, ~75, vemos que 65 é na verdade muito, muito próximo do fim. Que le consiga aproveitar bem o tempo que lhe resta!

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  7. Fiz um Google e Angeli era gatinho quando jovem. Um nenenzão.

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  8. Angeli, além de extremamente inteligente, sempre foi moooooooooito gato.

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  9. Tem uma coisa muito fofa que é a forma como ele trata a Laerte. Se jogar no Google, em quase foto deles ele está abraçando ela, e o clima de camaradagem e carinho fica bem evidente. Coisa de gente resolvida.

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