sexta-feira, 15 de abril de 2022

NEGRA CATARSE

"Medida Provisória" é catártico. É o "Bacurau" de 2022, que nos permite uma vingança na tela que ainda não chegou na vida real. Como aconteceu com o filme de Kleber Mendonca Filho três anos atrás, vai ter gente reclamando que é tudo meio exagerado. Todos brancos, claro, que não perceberam que "Medida Provisória" é uma alegoria política. Um Glauber Rocha misturado com "O Conto da Aia", que ousa enfiar o dedo na maior chaga brasileira, o racismo. Pior: um dedo negro, pois o ponto de vista é sempre o dos negros. O roteiro se dá ao deboche de colocar na boca dos vilões brancos refrões como "isto é mimimi" e "agora é tudo racismo!", tão frequentes nas bocas dos minions. Também dá a Taís Araújo a chance da melhor performance de sua carreira, que ela aproveita plenamente. E o que falar de Seu Jorge, que transforma um personagem trágico no alívio cômico? Já o anglo-brasileiro Alfred Enoch, da série "Getting Away with Murder",  surpreende quem nunca o viu falando um português perfeito, e pode abrir as portas do mercado internacional para o filme. "Medida Provisória" não é perfeito como cinema: tem algumas ceninhas sobrando, outras que poderiam ser aceleradas. Mas é perfeito para o momento em que a gente vive, os estertores do governo mais escancaradamente racista que o Brasil já teve desde a Abolição. A sessão a que eu fui estava cheio de pretos, e saí novamente com a sensação de que nenhuma mudança será para valer neste país se eles não a liderarem. Todo o resto é provisório.

25 comentários:

  1. Como sempre, texto coeso, inteligente. Uma páscoa abençoada para você e todo seu círculo de amor. Abraço fraterno.

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  2. A maioria da população brasileira, não é negra, mas parda ou como se ensinava na escola, branco com negro dá mulato! Nossa gênese é europeia. Tem um livro que explica isto. "O Cearense Revelado", aonde se explica nossas origens nórdicas. Tem também o do Ali Kamel "Não Somos Racistas"!

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    1. Origens nórdicas?? Pffff.

      Fogo nos racistas!

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    2. "Mulato?" Apaga que dá tempo

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    3. Aqui em casa somos todos descendentes de Vikings. Comemos arenque no café da manhã e nos cobrimos com peles de urso para aguentar o frio daqui.

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    4. 11:05-O robô só faltou escrever
      "Heil,Hitler" no final,pra
      completar teu texto fake.

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  3. É a verdade. 73% do DNA de brasileiros têm origem europeia. Ancestralidade europeia é disseminada em quatro regiões do Brasil. Vejam este estudo da FAPESP:

    https://revistapesquisa.fapesp.br/muitas-cores-um-povo/

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    1. Ok. A minha família veio toda da Espanha, a maioria da Andaluzia. Ao contrário do tipo predominante da região, aqui somos mais branquelos do que morenos. Só que a região foi dominada por séculos pelos mouros, que eram negros. Se fizerem aquele DNA que determina a origem, todos aqui devem ter um percentual alto de sangue negro apesar da aparência.
      Concluindo: foda-se.

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    2. Os mouros não eram todos negros, embora alguns fossem. A maioria tinha o aspecto das populações do Marrocos e da Argélia atuais.

      Os brasileiros têm uma alta percentagem de sangue europeu porque os senhores brancos estupravam as negras. Exames comprovam que esses genes europeus dos pretos e pardos brasileiros vieram quase todos dos ascendentes masculinos.

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    3. Miscigenação não significa que não haja racismo. Acho que essa pessoa mão entendeu essa parte da história.
      DNA europeu também é uma categoria bem aberta. Como dito acima, Portugal e Espanha ficaram séculos sob o domínio árabe. Mouro, como quiserem. Há árabes brancos. Mas nessa região não eram.

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    4. Também existe a dimensão cultural. Acho hilário brasileiro gaúcho ou paulista que chega na Europa e é tratado como lixo. Despite their European passport.

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    5. Fico admirado como João entende questões (tensões) raciais brasileiras mesmo sendo branco, o olhar dele é de quem vivencia e sente o problema.

      Parabéns, João! Muito além de um "descontruíde" da Internet, vc parece um cara bacana!

      Mas fiquei curioso, a que se deve esse olhar: familiares ou namorado negro, ou estudo e observação séria sobre o racismo?

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    6. João entende absolutamente tudo sobre tudo, anônimo das 16:33. E ainda nos brinda com sua sabedoria. Somos muito abençoados.

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    7. Anônimo, eu tô falando de branquitude. Tenho bastante posicionalidade para isso.
      É uma postura da branquitude achar que tem livre acesso a tudo. Achar que seu terceiromundismo não será considerado na Europa. Ou em outro lugar. Brasileiro tem um lugar especial nesse mundo.

      Sobre racismo, sim, é uma observação séria. Não preciso ter namorado negro para afirmar que existe racismo no Brasil, nem para estudar racismo no Brasil, nem para entender história do Brasil que é fundada em racismo. Respondendo alguém que diz que somos "europeus". Acho que seu comentário é inconveniente (e talvez maldoso, vindo de alguém que é branco e quer zoar a conversa). Desvia o foco da conversa para mim em vez do supremacista branco que apareceu acima.

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    8. "olhar dele é de quem vivencia e sente o problema."

      Não, meu amor, meu olhar é de quem se beneficia do problema e tem noção e consciência disso. Ou tenta ter. É de quem trabalhou em ambiente branco e ouviu "não teria um babá homem negro, imagina uma criança com um negão" ou "fui a trabalho para Angola e achei nojentos os negros do meu lado". Em um almoço de trabalho em uma empresa que foi adquirida pela Shell. Comentários racistas o tempo todo, que eu, como branco, ouvi de pessoas que achariam que eu concordaria com elas.

      E não é só isso, é entender história do capitalismo como história da escravidão. Vários autores tradicionais da própria esquerda branca achavam que escravidão era algo "pré moderno". Um acidente de percurso. Uma coisa antiquada que continuou bombando mesmo nos EUA do século XIX (com seu liberalismo) e no Brasil agrário que alimentava o mundo (país do futuro para muitos). Saber dessa história e tentar educar o público é o que eu posso ajudar a fazer enquanto pessoa branca. História de racismo e raça perpassa qualquer história.

      Não tô tomando o espaço de ninguém. Tô contribuindo para o debate. E na real não preciso concordar com pessoas negras que acham que branco não pode participar do debate na qualidade de conscientes do seu privilégio. Isso é identitarismo superficial, que pensa na identidade em si mesma, como categoria de identidade e não como forma de contestação. Boa sorte com isso. Quem quer muito isso, meu amor, é a Avon. Para vender para você e não para resolver problema algum.

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    9. Mas voltando ao assunto, perceberam como a bicha paulista/sulista fica ofendida quando falamos que ela não é branca europeia para os europeus?
      Hahahaha...

      É, meus amigos...
      O buraco é mais embaixo.

      Essa ideologia da imigração como uma benção, de todo mundo comendo macarronada como se fosse prato italiano, dá em muito problema. Seus ancestrais eram pobres, desdentados. Vieram para o Brasil por desespero. Não tem nada chic nisso. E pior: conseguiram benefícios (inclusive em alguns casos doação de terras) e se beneficiaram do racismo enquanto as pessoas negras, em um país que aboliu a escravidão em 1888, se fodiam. E não tiveram nenhum tipo de reparação enquanto os Capeletti da vida ascendiam. Aí gerações mais tarde a família Ravioli do alto da sua propriedade nos Jardins vem reclamar de cota. Me poupe.

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    10. Só um último comentário: eu li o comentário do 16:33 como uma ironia. Mas se for de coração e de verdade, agradeço. E fico feliz em reproduzir Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Abdias do Nascimento e tantos outros que deveriam ser parte do currículo escolar.

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    11. Fui eu que escrevi o comentário das 16:33, tentei escrever num tom pessoal para justamente não soar irônico, pelo visto não consegui.

      Acho sua perspectiva interessante, pq imagino que a maioria do leitores do blog são brancos, e vc não tem meias palavras, um branco que age assim entre os seus, geralmente tem em seu círculo de afeto pessoas negras, e conseguem chegar nesse lugar de enfrentamento tão importante para luta antirracista, é como os heteros que tem em seus círculos sociais pessoas gays, e compraram a briga contra homofobia.

      Pelo visto sua perspectiva vem com base no estudo, maravilha!

      Dessa forma, não foi irônico, foi de coração! Parabéns, cara! Nem o reizinho do Tony chega nesse lugar antirracista, mas sei que ele está do nosso lado. Sou fã desse sacaninha e do blog dele!

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    12. João , parabéns pela consciência de privilégio branco. Como gaucho, negro e ex morador dos Jordins só li verdades em seus argumentos. Falar de descendência racial para filhos de imigrantes europeus é derrubar café quente nas calças dessa gente "brasileira", precisa coragem.

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  4. O ser humano teve origem na África,11:22.
    Até os skinheads sabem disso.

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    1. O ser humano (espécie) tem origem na África, mas o povo brasileiro tem origem europeia. Procure se informar melhor.

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    2. É verdade. Os povos que já estavam aqui, aos quais chamamos de indígenas, vieram todos da Europa. Assim como os negros escravizados, que vieram da Áustria e da Alemanha.

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    3. Hahahahah essa bicha não sabe que 50% dos negros escravizados na África vieram para o Brasil (aproximadamente 5 milhões de pessoas).
      Sai de Pomerode e vem para o Rio, gata.

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  5. O Mio Babbino Caro
    Eita!!!

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  6. Acabe de ver o filme e me emocionei muito. Racismo é muito feio. E aconteceu uma situação impar e desconfortável. Ao sair do cinema em um shopping classe A aqui em BH, por alguns minutos eu não via nenhum preto. Foi literalmente a vida imitando a ficção. Fiquei assustado e triste. OBRIGADO LÁZARO!!!

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