domingo, 24 de abril de 2022

DISCRIMINAÇÃO À VENDA

Bruce Weber começou a fazer sucesso nos anos 80, com fotos num preto-e-branco ultracool de Chet Baker ou de jovens bonitos em trajes sumários. A brasileira Luiza Brunet costumava estar entre eles. A estética weberiana se materializou na década seguinte, com o sucesso da grife Abercrombie & Fitch. Tratava-se de uma marca centenária de artigos de caça e outros breguetes masculinos que estava indo à matroca. Foi comprada por um megainvestidor e reinventada como algo intermediário entre o apelo sexual da Calvin Klein e o esnobismo da Ralph Lauren, mas com preços acessíveis à garotada. As roupas em si eram o básico do básico: o que as diferenciava eram as variações do logo Abercrombie & Fitch, sempre muito visíveis. Tudo isto é contado no documentário "Abercrombie & Fitch: Ascensão e Queda", que chegou nesta semana à Netflix. A A&F fez um sucesso avassalador na virada do milênio, inclusive entre as gueis. Mas uma entrevista infeliz do CEO Mike Jeffries dada em 2006, onde ele assumia que vendia "exclusividade", viralizou seis anos depois, gerou uma petição online e arranhou a imagem da grife para sempre. A A&F não só usava apenas modelos brancos, magros e lindos em seus anúncios (muitos fotografados pelo próprio Bruce Weber), como contratava gente parecida para ser vendedor em suas lojas, com um ou outro negro e olhe lá. Também surgiram denúncias contra Weber, acusado de assediar os modelos - quem não topasse "jantar" com ele, era sumariamente dispensado. O filme é uma aula de marketing. Mostra como uma marca que se ergueu sobre conceitos tidos como "aspiracionais" simplesmente perdeu o bonde da história. Depois de 2010, ela passou a ser vista não só como ultrapassada, mas também como criminosa. Mesmo fazendo mudanças, nunca mais se recuperou. Percebo em mim mesmo essa nova mentalidade. Em 2006, meu marido e eu visitamos a flagship da Abercrombie na 5a. Avenida em Nova York, que tinha vários andares, música altíssima, iluminação baixa e dois rapazes seminus na porta. Fuçamos tudo e não compramos nada, pois bateu o senso do ridículo: nada daquilo era para a nossa idade. Mas não me toquei, na época, que as peças publicitárias da A&F não tinham um negro sequer (ou um oriental, um árabe, um gordo, etc,). Nada como um dia depois do outro.

13 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Volta do mundo, camará
    Mundo dá volta, camará

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  2. Quando comecei a ler e vi o nome do fotógrafo, imediatamente lembrei das fotos da Brunet, pq são fotos lindas! Curioso como essa gente que trabalha com pessoas bonitas como subordinadas, termina caindo no crime de assédio...

    Mais curioso ainda é uma marca que se reinventou nos anos 90, ter sido tão racista, quando Yves Saint Laurent já em seus primórdios colocava modelos de diversas etnias sem tratá-las como exóticas, é lendária sua imposição para que a deusa Naomi Campbell fosse capa da Vogue Paris.

    Que delícia as voltas que o mundo dá!

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  3. Dúvida sincera: Calvin Klein, Ralph Lauren e companhia bela já faziam comerciais com negros em 2010?

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    1. Não era só a questão dos comerciais, mas também as práticas dentro do ambiente de trabalho. Não recrutavam vendedores não brancos via de regra. Quando o faziam, demitiam logo ou colocavam em funções tipo limpeza/estoque. Veja o documentário.

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    2. Inclusive, acho que é da Ralph Lauren uma campanha com Naomi Campbell e Tyson Beckford, um dos homens mais lindos do mundo. Um casal negro protagonista de uma campanha estelar antes de 2010.

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  4. Eu curti o documentário, apesar da mensagem meio "vanilla" de que marcas podem mudar...

    Acho que, infelizmente, muita gente branca no Brasil ainda acha super natural não ter uma foto com um negro no Instagram, não ter amigos negros, não trabalhar com negros, frequentar lugares que não tem negros. Às vezes precisamos de um documentário discutindo o óbvio e com uma investigação regular (convenhamos que não é tudo isso) para educar o público geral...

    Gostei mais do "Palhaço Assassino" (péssimo título, aliás).

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    1. Palhaço Assassino é o nosso
      querido Presidente do Braziu,
      Joãozinho.

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  5. Alguém lembra daquele site "Made in Brazil" que só mostrava modelos brancos com textos em inglês? Parece coisa de outro século, mas foi tipo há uns 11 anos...kkkk...
    Aliás, tem uma parte do documentário em que um dos modelos da A&F fala sobre um trabalho fotográfico no Brasil...

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  6. Isso. O que mais me assusta é o tempo... É um passado muito recente. Hoje eles colocam foto de negro, mas não consigo mais acompanhar pelo ranço que sinto, devido ao racismo tão naturalizado pelo site.
    John, tô me apaixonando por vc. Rsrsrs

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  7. Aquela loja da quinta avenida era nojenta!

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  8. Eu tinha um livro do Bruce Weber - lindo, claro, mas que se perdeu com o tempo.......... A beleza dos modelos era um pouco frustrante, na verdade, porque era aquela beleza inacessível de estátuas gregas num pedestal...

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  9. Há um documentário sobre as Spice Girls disponível no Canal Bis ou no GNT que mostra muito racismo, machismo e misoginia por parte da TV britânica e da imprensa em relação às garotas. Historicamente foi ontem. Um horror.

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