sábado, 30 de abril de 2022

PARIS LADO B

Os filmes de Jacques Audiard ganharam vários Césars, um festival de Cannes e uma indicação ao Oscar sem jamais pegar leve. São dramas sobre bandidos, imigrantes ilegais, treinadoras de baleia que têm a perna comida. Mas o diretor muda de tom com "Paris, 13o. Distrito", que é quase uma comédia. Talvez para manter a fama de mau, Audiard filma em preto-e-branco o bairro de Olympiades (o título original do filme), um amontoado de prédios feios e modernos no sul de Paris, onde nenhum turista vai. Não é uma região pobre, mas também não tem o glamour que se costuma associar à capital francesa. E os protagonistas são jovens que poderiam estar em qualquer grande cidade do mundo: a maluquete que não segura empregos nem relacionamentos, o professor em início de carreira que já se desencantou com a profissão, a moça do interior com um passado complicado. Eles ficam amigos, transam entre si, brigam, enfim, o esperado. Mas Audiard revela uma inesperada leveza de toque, que faz com que a primeira hora e meia passe voando. A última meia hora poderia ser enxugada, mas "Paris, 13o Distrito" é uma boa surpresa. Nem por isso quero visitar Les Olympiades quando eu for a Paris.

SOM NA CAIXA

Virei o ano em São Sebastião. Um dos programas daquela semaninha de férias foi passar um dia na Praia da Fome, no litoral norte da Ilhabela, que só tem acesso pelo mar. Chegamos cedo, quando ela ainda estava vazia. Mais barcos foram surgindo e, lá pelas tantas, uma família de farofeiros achou que tudo bem instalar uma caixa de som imensa na areia, transformando aquele paraíso num baile funk. Não foi só lá, evidentemente: as caixas de som invasivas se espalharam por todo o litoral do Brasil, incomodando mais que os borrachudos. Esta semana finalmente o prefeito Eduardo Paes resolveu proibi-las no Rio de Janeiro, mas a aprovação não foi unânime. Fiquei pasmo de ver na TV gente defendendo o sagrado direito de ouvir música no último volume num espaço público, e foda-se quem estiver por perto. Aliás, "espaço público" é um conceito que escapa à maioria dos brasileiros, que acham que podem fazer o que quiserem nesses lugares. Ainda teve quem problematizasse a proibição dessas trombetas do inferno, acusando o prefeito de racista e elitista. A que ponto chegamos? Desde quando a falta de educação, de civilidade, de cidadania, virou direito inalienável?

sexta-feira, 29 de abril de 2022

BOFETADA PARA O ALMOÇO

Hoje eu participei pela segunda vez do programa "Almoço com MyNews", apresentado pela Myrian Clark. Falamos de vários assuntos: as campanhas publicitárias de Lula e Biroliro, o tabefe que Ciro Gomes deu ontem num minion, o famigerado BBB 22. Ainda dei duas dicas de séries no streaming, porque minha vida é dar dicas de séries. Assista!

PICANHAGATE

"Lamentamos que a comunicação criada sobre os novos produtos possa ter gerado dúvida"", diz a nota oficial emitida pelo McDonald's. Ou seja, a empresa lamenta que os sanduíches da linha McPicanha tenham levado o consumidor a acreditar que eles continham picanha. É só o molho que tem "aroma natural de picanha". A maracutaia foi descoberta pelo blog Coma com os Olhos e rapidamente virou uma bola de neve, a ponto do Procon ter proibido a venda do McPicnaha no Distrito Federal. Esse escândalo é tudo o que o McDonald's não precisava, uma marca desde sempre associada às piores práticas capitalistas. Agora esse monstrengo vai ter mudar de nome, e talvez de preço - chega a custar 40 reais. Por outro lado, brasileiro é muito trouxa. Adora se gabar de ser bom churrasqueiro, mas não sabe que a picanha não é uma carne indicada para fazer hamburger, porque não tem gordura entremeada.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

A PIOR PESSOA DO MUNDO

Tdo pediatra é fofo e adora crianças. Além do mais, ele não se importa em ser acordado no meio da noite por uma mãe desesperada porque o bebê está com soluço: é a missão dele, é a vocação. Esses mitos em que a gente insiste em acreditar viram pó de traque nas páginas de "A Pediatra", o ótimo romance de Andréa Del Fuego sobre uma mulher que não presta. Cecília cursou medicina por inércia, porque os pais trabalhavam na área. Virou pediatra semdar a menor bola para qualquer criança. Isto não significa que seja uma médica ruim: sua falta de sentimentalismo faz com que ela saiba sempre qual o procedimento correto a seguir. Só não se envolve emocionalmente com seus pacientes. Mas se envolve com um homem casado, e o convence a convencer a mulher vir de Curitiba para ter o bebê em São Paulo. Também arrasta uma certa asa para o cunhado de sua empregada, que engravidou a moça e é presença constante em seu apartamento em Pinheiros. Escrito numa prosa ríspida, com frases longas cheias de vírgulas porém muito coloquiais, "A Pediatra" transmite a ansiedade de sua protagonista, que quer tudo e não quer nada ao mesmo tempo. Inescrupulosa, Cecília não hesita em roubar o homem alheio, e mesmo o filho - para seu preoprio espanto, ela se encanta pelo filhinho do amante, e o quer só para ela. Uma mulher movida a egoísmo.

PONTO MORTO

Quando uma lenda morre de repente, é comum que surja um folclore a seu respeito. Até hoje Elvis Presley e Michael Jackson são vistos vivos por aí. A morte de Marilyn Monroe, aos 36 anos de idade, gerou um fenômeno curioso. Ela não teria se suicidado, apesar da personalidade frágil e do histórico familiår de instabilidade mental. Na verdade, o governo americano decidira eliminá-la, pois seu caso com o presidente John Kennedy, ou com o irmão deste, o então procurador-geral Robert Kennedy, estaria colocando em risco a segurança nacional. Sempre achei essa teoria estapafúrdia, porque presidentes americanos sempre tiveram amantes e não há notícia de que alguma delas tenha sido morta pela CIA ou pelo FBI. Mas muita gente ainda acredita nisto, e o documentário "O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas" tenta tirar tudo a limpo. O filme traça um breve perfil da estrela, mas seu filé mignon são as entrevistas gravadas pelo pesquisador Anthony Summers com pessoas próximas a ela, incluindo o psicanalista e a empregada. O resultado é semelhante ao de muitas séries e filmes do gênero true crime: uma abundância de provas, que não levam a lugar nenhum. A conclusão? Senta que lá vem spoiler. Alguém esteve na casa de Marilyn na noite em que ela se matou, mas esta visita foi ocultada da imprensa. Muito provavelmente, Bobby Kennedy foi lá em pessoa dar o fora na atriz, que tomou uma dose excessiva de remédios para dormir logo em seguida. Fim do mistério, se é que havia algum. Ponto. Morto, aliás.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

TIREM SUAS PATAS DOS IANOMÂMI

Um dos pilares da ideologia retrógrada das nossas Forças Armadas é uma suposta proteção da Amazônia contra supostos interesses estrangeiros. Foi por isto que a ditadura militar construiu a rodovia Transamazônica, que teve trechos engolidos pela floresta logo depois. O bicho-papão atual são as ONGs, que para os milicos servem de fachada para entidades malignas como o Leonardo Di Caprio. Muito melhor, pelo jeito, é apoiar um desgoverno que deixa garimpeiros ilegais fazerem o que quiserem por lá: destruir a mata, poluir os rios, invadir terras indígenas, estuprar e matar crianças ianomâmi. Isto já seria gravíssimo se esses meliantes fossem freelancers, como o próprio Biroliro foi um dia. Mas o garimpo clandestino, assim como muitas madeireiras ilegais, são hoje braços armados do crime organizado. Cada vez mais, está ficando difícil diferenciar as FFA brasileiras de uma reles milícia.

LAROYÊ

Esqueça o Arthur Aguiar. O maior vencedor desta semana é Exu, o orixá-mensageiro. Aquele que, quando a gente chega a uma encruzilhada, aponta o caminho a seguir. A bordo do enredo "Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu", o tranca-ruas não só deu a vitória à escola de samba Grande Rio, como ainda o troféu Estandarte de Ouro, do jornal O Globo (os dois resultados quase nunca coincidem). Este triunfo também é um presságio do que está para acontecer no Brasil. Exu é faminto, é alegre, é sábio é irreverente. Sob sua orientação, chegaremos a 2023 como ele. Laroyê, Exu, laroyê.

terça-feira, 26 de abril de 2022

JE SUIS TOUTES LES DRAGS

Já existiam drag queens muito antes de Dalida se lançar como cantora, no final dos anos 50. Naquela época elas eram chamadas aqui no Brasil de bonecas, transformistas ou travestis, no masculino mesmo. E não eram caricatas como muitas de hoje em dia: buscavam na verdade, reproduzir uma mulher idealizada e glamurosa que vinha sendo ultrapassada pelos movimentos feministas. Vai ver que foram elas que influenciaram a linguagem corporal de Dalida, que tinha a maior cara e jeito de drag quando pisava num palco. Basta conferir o vídeo acima, lançado esta semana a partir de uma complicação de números diferentes da diva. Dalida, por sua vez, influenciou Rogéria, que dublava o hit "Je Suis Toutes les Femmes". Mas, verdade seja dita, sem metade da viadagem explícita que a deusa ítalo-egípcia esbanjava em cena.

PEDRADA NO PASSARINHO

Um dia o Twitter vai acabar, assim como já acabou o Orkut e pode estar acabando o Facebook. As pessoas simplesmente seguem adiante, deixando pelo caminho as redes sociais que não lhes servem mais. Mas, por enquanto, o Twitter serve: não é a maior rede, longe disso, mas talvez seja a mais importante. Porque virou um fórum de discussão que reúne os políticos, cientistas e celebridades mais relevantes do mundo. Também virou um inferno para jornalistas e colunistas, que têm que lidar com um exército de haters todos os dias. Elon Musk promete acabar com isto, ao verificar a identidade de todos os usuários. No entanto, mesmo sem robôs, duvido que o Twitter se torne um ambiente salutar. A melhor arma contra os babacas continua sendo o bloqueio. Elon Musk se diz um "absolutista da liberdade de expressão", o que é fácil de ser quando também se é um quaquilionário protegido por um mega esquema de segurança. Ontem o gado saudou sua aquisição da plataforma e teve até minion acreditando que Musk é um deles, mas o fato é que as ideias políticas do dono da Tesla são meio turvas. Se ele melhorar a experiência de uso, ótimo; se piorar, tchau e benção. Ninguém vai morrer por falta de Twitter.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

#WETOO

Até o final do quarto episódio, a minissérie "Anatomia de um Escândalo" não diz muito a que veio. Até ali, a trama é beyond déjà vu: a esposa recatada de um político conservador vê seu casamento estremecer, depois que ele é acusado de estupro pela ex-amante. Quantos filmes e séries parecidos você já não viu? Aí há um plot twist, e os dois episódios finais são bem mais interessantes. Mas aí a história acaba, de um jeito que beira a militância ensandecida: todas as mulheres são incríveis, nenhum homem presta. Claro que foi escrita por uma mulher, por isto o desfecho é até previsível. Se em termos dramatúrgicos essa "Anatomia" não é grande coisa, pelo menos traz duas atrizes de temperaturas muito diferentes se saindo bem, Sienna Miller e Michelle Dockery. Uma minissérie que dá para o gasto, mas não traz nada de novo ao debate.

SEGUNDA-FEIRA DE CINZAS

O desgoverno Biroliro foi tão sombrio que teve só três carnavais, um deles fora de época. Este, se a Deusa quiser, foi a última vez em que as escolas de samba precisaram tirar sarro do Despreparado na avenida: ano que vem ele não estará mais entre nós. Foi também um carnaval de resistência cultural. A falta de patrocínio de grandes empresas evitou enredos esdrúxulos como o cabelo, financiado por uma marca de shampoo em 2011, ou barbaridades ainda maiores, como a Vila Isabel cantando as maravilhas da PDVSA, a estatal petroleira venezuelana, ou a Beija-Flor desfilando todo o encanto e a magia da Guiné Equatorial, uma das mais sanguinárias ditaduras da África. Sem dinheiro no bolso mas muita raiva no coração, as escolas se voltaram para as raízes negras, para a ancestralidade africana, e não faltaram orixás como Omulu ou Oxóssi para irritar os teocráticos. Também sobrou piada com o Edaír. Na mais icônica delas, ele vira jacaré depois de ser "vacinado" por uma trans. O Quinta-Série ainda passou recibo, tuitando que o desfile da Rosas de Ouro foi ruim. Faltou dizer também que foi feio, bobo e mau.

domingo, 24 de abril de 2022

A FRANÇA INSUBMISSA

A extrema-direita perdeu mais uma. A França não se submeteu. Por mais que a imprensa diga por aí que Marine Le Pen bateu na trave, as projeções apontam quase 17 pontos de diferença entre ela e Emmanuel Macron. É bem menos que os 33% de cinco anos atrás, mas ainda um gap colossal para qualquer escolha entre dois candidatos. Ainda faltam as eleições legislativas de 12 de junho, mas duvido que os reacionários consigam um resultado expressivo. Os neofascistas estão em decadência desde a derrota de Trump em 2020, e duvido que cheguem ao poder em qualquer democracia importante. Não é um processo linear, haja vista a vitória de Orbán na Hungria no mês passado, mas sinto que é irreversível. Por isto, desconfio que não se deu a devida atenção à verdadeira novidade dessa votação francesa: a ascensão de Jean-Luc Mélenchon. O candidato do partido de extrema esquerda La France Insoumise não passou ao segundo turno por coisa de um ponto percentual, e ele é muito popular entre os jovens - que vão estar vivos daqui a cinco anos, ao contrário de muitos eleitores de Le Pen. O próprio Mélenchon não deverá mais concorrer por causa da idade, mas o sentimento anticapitalista da garotada não deverá amainar. É uma grande mudança generacional, e seus efeitos ainda estão por vir.

DISCRIMINAÇÃO À VENDA

Bruce Weber começou a fazer sucesso nos anos 80, com fotos num preto-e-branco ultracool de Chet Baker ou de jovens bonitos em trajes sumários. A brasileira Luiza Brunet costumava estar entre eles. A estética weberiana se materializou na década seguinte, com o sucesso da grife Abercrombie & Fitch. Tratava-se de uma marca centenária de artigos de caça e outros breguetes masculinos que estava indo à matroca. Foi comprada por um megainvestidor e reinventada como algo intermediário entre o apelo sexual da Calvin Klein e o esnobismo da Ralph Lauren, mas com preços acessíveis à garotada. As roupas em si eram o básico do básico: o que as diferenciava eram as variações do logo Abercrombie & Fitch, sempre muito visíveis. Tudo isto é contado no documentário "Abercrombie & Fitch: Ascensão e Queda", que chegou nesta semana à Netflix. A A&F fez um sucesso avassalador na virada do milênio, inclusive entre as gueis. Mas uma entrevista infeliz do CEO Mike Jeffries dada em 2006, onde ele assumia que vendia "exclusividade", viralizou seis anos depois, gerou uma petição online e arranhou a imagem da grife para sempre. A A&F não só usava apenas modelos brancos, magros e lindos em seus anúncios (muitos fotografados pelo próprio Bruce Weber), como contratava gente parecida para ser vendedor em suas lojas, com um ou outro negro e olhe lá. Também surgiram denúncias contra Weber, acusado de assediar os modelos - quem não topasse "jantar" com ele, era sumariamente dispensado. O filme é uma aula de marketing. Mostra como uma marca que se ergueu sobre conceitos tidos como "aspiracionais" simplesmente perdeu o bonde da história. Depois de 2010, ela passou a ser vista não só como ultrapassada, mas também como criminosa. Mesmo fazendo mudanças, nunca mais se recuperou. Percebo em mim mesmo essa nova mentalidade. Em 2006, meu marido e eu visitamos a flagship da Abercrombie na 5a. Avenida em Nova York, que tinha vários andares, música altíssima, iluminação baixa e dois rapazes seminus na porta. Fuçamos tudo e não compramos nada, pois bateu o senso do ridículo: nada daquilo era para a nossa idade. Mas não me toquei, na época, que as peças publicitárias da A&F não tinham um negro sequer (ou um oriental, um árabe, um gordo, etc,). Nada como um dia depois do outro.

sábado, 23 de abril de 2022

MUITO A TEMER

Não contente em entrar para a história como o vice que insuflou um golpe branco contra a presidente a quem devia lealdade, Michel Temer agora declara apoio ao Biroliro num eventual segundo turno contra Lula. Os motivos são dois. O primeiro é a manutenção da reforma trabalhista aprovada em seu governo, aquela que gerou milhões de empregos e um nível de bem-estar comparável ao da Escandinávia. O outro é a mágoa que esse ladrão contumaz tem dos petistas, que até hoje o chamam de golpista. Aliás, não só os petistas: agora eu também chamo. Com isto, Temer prova que de democrata não tem nada, pois a eleição que vem por aí não é ente Lula e o Genocida - é entre a democracia e a ditadura. Mas isto não é surpresa. No ano passado, Edaír teve um momento de fragilidade, depois que o golpe que ele tentou dar no 7 de setembro flopou vergonhosamente. E quem foi que correu para ajudá-lo? Quem foi que escreveu uma carta cheia de salamaleques pedindo perdão a Alexandre de Moraes, que foi prontamente jogada no lixo depois de aplacar aquela crise? Pois é.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

Vi meu primeiro filme do diretor italiano Nanni Moretti numa Mostra no final dos anos 80. "A Missa Acabou" contava a história de um padre que tenta fazer sempre a coisa certa em sua paróquia em Roma, mas não consegue. A premissa me pareceu original: não era um planfleto contra a Igreja Católica, era quase a favor. Desde então assisti a todos os longas de Moretti que chegaram ao Brasil, mas nenhum me impressionou tanto. Talvez seu estilo seja sóbrio demais para o meu gosto, chegado num excesso. Ele mantém o melodrama de "Tre Piani" em rédea curta, talvez até demais. O título original, mantido no Brasil, se refere aos três andares de um mesmo prédio onde moram os personagens. É aquele manjado esquema das tramas que se cruzam. Tem o rapaz bêbado que atropela e mata uma senhora; a mulher que vai sozinha para a maternidade, porque o marido está sempre viajando; e o casal cuja filha pequena some por algumas horas com um vizinho idoso, levantando as piores suspeitas. Tudo se passa ao longo de 10 anos, com as crianças crescendo e os mais velhos morrendo. Atores como Riccardo Scamarcio e Alba Rorwacher, da elite do cinema da Itália, têm atuações contidas, e Moretti realmente não precisava ser tão econômico com a trilha sonora, que irrompe raramente. Um pouco mais azeitado, este semi-folhetim de duas horas não daria a impressão de durar quatro.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

SEM GRAÇA NENHUMA

Até ontem, eu concordava com quem dizia que Daniel Silveira valia mais preso do que solto para o Biroliro. Um suposto mártir, perseguido pelos inimigos da liberdade de expressão, serviria bem para energizar o gado. Mas a vacaria mugiu forte depois que o STF condenou o brutamontes, por 10 votos a 1. A ponto de André Mendonça cair no ridículo de justificar seu voto nas redes sociais, como se um juiz do Supremo devesse satisfações a alguém. Na tarde de hoje, o Bozo mostrou mais uma vez que está disposto a qualquer coisa para tumultuar o Brasil e minar a democracia. O Despreparado jogou gasolina no fogo ao conceder graça ao ex-PM que rasgou a placa da Marielle. Criou um novo conflito com o STF e também uma barafunda jurídica, já que não há precedente para este ato destrambelhado. Silveira provavelmente não irá em cana, mas sua inelegibilidade deve se manter. Mas tem um lado meu que até gostaria de vê-lo concorrer ao Senado pelo Rio de Janeiro, só para perder nas urnas. Aliás, temo pelas urnas em outubro.

A RAINHA DAS BONECAS

Elizabeth II, aquela que irá nos enterrar a todos, completa hoje 96 anos de idade (e, em breve, 70 anos de reinado, um recorde). Dotada com uma ótima genética e o melhor atendimento médico do mundo, disponível 24/7,  a rainha tem tudo para superar sua mãe, que chegou aos 104 anos. Mas como homenagear uma pessoa que passou a vida recebendo presentes de todos os cantos do mundo? A Mattel teve uma ideia soberana: lançou uma Barbie caracterizada como Lilibeth. A tiragem limitada se esgotou em horas, e a boneca já deve estar valendo milhões no eBay. Que ódio, fiquei sabendo tarde da existência dela. Queria ter comprado duas. Uma para revender na internet e garantir minha aposentadoria. A outra para guardar, é óbvio.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

OS HOMENS QUE NÃO GOSTAVAM DE BUSCETTA

Nem a pandemia explica os três anos que "O Traidor" levou para estrear no Brasil. O filme de Marco Bellocchio, que tem dinheiro da Ancine na produção e locações no Rio de Janeiro, concorreu no Festival de Cannes de 2019, representou a Itália no Oscar e ainda tem Maria Fernanda Cândido no principal papel feminino. A história é algo familiar ao pessoal da minha idade. Eu lembro bem do tempo em que o mafioso italiano Tommaso Buschetta viveu entre nós, principalmente porque os telejornais de então chamavam-no de "Busqueta". A pronúncia era errada de propósito, para evitar trocadilhos da quarta série como o que dá nome a este post. Buscetta foi deportado de volta para a Itália e, chegando á, fez delação premiada. Por casua dele, mais de 300 integrantes da Cosa Nostra siciliana foram julgados e condenados. Pierfrancesco Favino, no papel principal, justifica o fato de ser o ator mais requisitado do cinema italiano atual. Sua performance cheia de nuances traz humanidade para um sujeito que, na prática, era um brutamontes. Com duas horas e meia de duração e longas sequências de tribunal, "O Traidor" podia ser mais enxuto. Mas é um bom retrato de um gângster de verdade e de um momento em que a Itália tentou se passar a limpo. Como aqui no Brasil, é claro que não deu certo.

PISCA MAS NÃO BELISCA

Comecei minha vida de gay assumido tardiamente, com quase 24 anos. Tive a sorte disso acontecer em 1984, nos estertores da ditadura militar. A cultura brasileira fervia naquela época, especialmente em São Paulo. A cidade descobria sua vocação alternativa, underground, em contraste ao ensolarado Rio de Janeiro. Um dos aríetes desse movimento era a Folha de S. Paulo, que renascia sob a batuta do então jovem Otávio Frias Filho. Na Ilustrada, comandada por Matinas Suzuki Jr., uma nova geração de cartunistas despontava, traduzindo os anseios de uma nova geração de paulistanos. O que mais se destacava era Angeli, que melindrava sensibilidades com personagens icônicos como Bob Cuspe ou Rê Bordosa. Uma resposta que ele deu numa entrevista me marcou para sempre. Perguntado se achava graça em rapazes, uma questão frequente naqueles tempos libertários, Angeli não titubeou: "pisco, mas não belisco". Foi um dos primeiros héteros que eu vi não só aceitando a homossexualidade como algo normal, como até assumindo uma certa atração pelo mesmo sexo. Ontem Angeli anunciou sua aposentadoria, aos 65 anos de idade. Assim como Bruce Willis, ele também foi diagnosticado com afasia, uma doença degenerativa da qual eu mal tinha ouvido falar até duas semanas atrás. É uma tristeza imensa, mas também uma saída de cena gloriosa. Sem desenhar quadrinhos diários desde 2016, Angeli participava do rodízio do Quadrão, que o jornal publica aos domingos. Esta publicação durará até o fim do ano, com direito a algumas reprises. Mas o legado de Angeli continua. Sua obra merecerá mais uma compilação em forma de livro, a ser lançado em breve pela Companhia das Letras. E sua influência sobre os cartunistas brasileiros, tanto no traço como nos temas, ainda será sentida por anos.

terça-feira, 19 de abril de 2022

A TORTURA INTERMINÁVEL

Os milicos brasileiros não estão satisfeitos com a fama de impotentes, incompetentes e mamadores das tetas estatais. Querem deixar bem claro para todo mundo que continuam sendo os mesmos brucutus que assassinaram, torturaram e censuraram durante a ditadura, além de deixar um legado de hiperinflação e desigualdade. As reações do general Mourão às gravações reveladas por Miriam Leitão comprovam que ele é tão asqueroso quanto o Biroliro, apesar do trato um teco mais civilizado. O general Luís Carlos Mattos, o cicioso presidente do Superior Tribunal Militar, não fica atrás. São todos uns bostas, uns vermes cuja atitude criminosa já deveria ter sido esmagada pela história. É inconcebível que, em 2022, o Brasil seja governado por sacripantas que passam pano para a tortura, para dizer o mínimo. Estamos pagando o preço por não tê-los punido lá atrás. Tortura nunca, nunca, nunca mais. Nem de brincadeira.

O MORCEGO INTERMINÁVEL

Parei de ver filme do Batman quando acabou a trilogia do Christopher Nolan. Acompanho as aventuras do homem-morcego desde a série de TV dos anos 60, que eu adorava. Vi o primeiro filme dele por Tim Burton em Nova York, na semana em que estreou. Cumpri a minha cota. Não me interessei em ver Ben Affleck no papel, e muito menos Robert Pattinson. Mas, graças à HBO Max, o longa estrelado por este último já pode ser visto em casa. Foi o que fizemos ontem. "The Batman" tem muitas coisas interessantes. Para começar, quase que a história inteira se passa à noite, então a tela está sempre escura. Pattinson está péssimo como sempre, mas seus coadjuvantes brilham - especialmente Colin Farrell, irreconhecível como o Pinguim. Há referências óbvias a clássicos como "O Poderoso Chefão" e "O Destino do Poseidon", além de uma boa trilha eletrônica e sequências de cair o queixo. E no entanto... o filme é longo demais. São três horas de duração! Quem que "The Batman" pensa que é? "Drive My Car"? Não entendo porque esses blockbusters de franquia se sentem na obrigação de serem intermináveis. A produção fica ainda mais cara, e  os cinemas não conseguem programar muitas sessões. Fora que não tem assunto para tantas horas... Outra coisa que já deu é esse eterno "lado sombrio" do Batman. "Ainda, mas o cara viu os pais serem assassinados". Sem dúvida, um trauma colossal, mas o que ninguém tem coragem de dizer é que ele sofre de depressão e precisa de ajuda profissional. Por mim, no próximo filme, Batman voltava a ser galhofeiro.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

SISSI ACHANDO

A duquesa alemã Elisabeth da Baviera, depois imperatriz da Áustria-Hungria, entrou para o imaginário popular como Sissi, protagonista de um conto de fadas da vida real. A culpa é, principalmente, dos três filmes estrelados por Romy Schneider nos anos 50, que têm até final feliz. A realidade, claro, foi muito diferente: Sissi perdeu vários filhos, passou por mil vicissitudes e ainda foi assassinada a facadas por um anarquista quando passeava pela margem do Lago de Genebra. Também se pode jogar na conta dela a origem da obsessão ocidental pela magreza: numa época em que mulheres roliças ditavam o padrão de beleza, Sissi era obcecada por ginástica e cuidados com a pele, na vã esperança de manter-se jovem para sempre. Sua história mirabolante merecia um tratamento contemporâneo, mas a minissérie alemã "Sissi" vai além. A primeira temporada, disponível no Globoplay, inventa tramas paralelas absolutamente desnecessárias, que chegam a trair a história e a personagem. Na mais acintosa delas, Sissi entra no mais luxuoso bordel de Viena com apenas 17 anos, prestes a se casar, para contratar uma prostituta que lhe ensine todos os segredos do sexo. O registro história é bem mais prosaico: a jovem imperatriz levou uma cabeleireira do teatro para trabalhar no palácio, e as duas acharam se tornando amigas e confidentes. Exageros assim me irritam profundamente, pois o que aconteceu para valer é suficientemente dramático e interessante para sustentar várias temporadas. Além do mais, os atores foram mal escolhidos. Dominique Davenport tem a cara rechonchuda demais para o papel principal, e carece da allure necessária. Jannik Schümann, que faz o imperador Francisco José, não impõe respeito: é baixinho e magricela. Mesmo assim, aqui em casa devoramos rapidamente os seis episódios, porque somos chegados numa viadagem monarquista.

O BORRÃO FANTÁSTICO E ONDE HABITA

Não fosse pela presença da Maria Fernanda Cândido, eu teria ignorado "Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore". Os dois primeiros filmes da franquia se transformaram num borrão na minha memória. Não me importo com esses personagens, não dou a mínima por Hogwarts, me deixa! Mas nossa conterrânea está dando os primeiros passos numa carreira internacional, ainda que tardiamente, e eu quis conferir. Já tinha lido que a participação dela é mínima e que sua personagem, a bruxa brasileira Vicência Santos, tem poucas falas. Pelo menos ela aparece em cena: o outro concorrente a líder dos magos, o chinês Liu, só é visto de longe. E aparece bem, com segurança e desenvoltura, falando um inglês impecável (aliás, se as falas são todas em inglês, porque precisaram de uma atriz brasileira? para ninguém reclamar de apropriação cultural?). De resto, esse terceiro "Animais Fantásticos" não vai além dos anteriores. É lindo, tem efeitos incríveis e um fiapo de história, alongado até não poder mais. Daqui a pouco se junta ao borrão na minha cabeça.

domingo, 17 de abril de 2022

O PREGO NO CAIXÃO DA DITADURA

Em 1984, a ditadura militar estava nos estertores. Todo mundo era contra o regime, inclusive quem tinha apoiado o golpe de duas décadas antes. Nada como uma inflação de 200% ao ano para fazer as pessoas mudarem de ideia, não é mesmo? Naquele ano eclodiu o movimento pelas Diretas-Já, e quem foi que os milicos colocaram para conter a turba? O general Newton Cruz, o sinistro chefe do SNI. Naquela época nem havia ainda o conceito de media training, mas era disto que Nini precisava. A maneira truculenta como ele tratava a imprensa funcionava como uma propaganda às avessas para o regime militar. Ele virou a cara da ditadura e foi vencido pela história em 1985, quando o último Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves. Nos anos seguintes, emergiram detalhes dos muitos crimes que o meganha cometeu: a cumplicidade no atentado do Riocentro, as mortes do jornalista Alexandre Baumgarten e sua mulher, a destruição de milhares de papéis comprometedores para a milicada. Newton Cruz era um exemplo puro-sangue do que de pior existe no Exército brasileiro, e infelizmente deixou muitos seguidores. Mas finalmente morreu ontem, aos 97 anos mal vividos, sem jamais ter sido punido pelas barbaridades que praticou. Esse foi o grande erro da Nova República: passar pano para os militares, ao contrário do que aconteceu na Argentina, que julgou todos. Pergunta se por lá eles estão com medo de um novo golpe.

sábado, 16 de abril de 2022

DEZ FACADAS

Super normal alguém levar 10 facadas de assaltantes que só queriam roubar uma carteira e um celular. Inclusive, todos os meus amigos que já tiveram seus celulares levados em assaltos, e são muitos, foram esfaqueados dezenas de vezes. Por isto, a minionzada tem razão: beira a irresponsabilidade querer associar o atentado, ops, assalto ao repórter Gabriel Luiz da Globo de Brasília à matéria que ele fez dois dias antes, que levou ao fechamento de um clube de tiro. O lugar, frequentado por birolistas, não garantia a segurança dos arredores, veja só. De vez em quando uma bala escapava de lá e chegava à comunidade vizinha. Mas o que é uma balinha perdida para esse pessoal que já vive na miséria e no crime o dia todo? Quanto mimimi, credo. Pena que o gado contratou dois sujeitos mais incompetentes que o Adélio. Gabriel Luiz não só sobreviveu como está lúcido, e em breve dará mais detalhes do atentado bárbaro que sofreu. Ops, falei atentado.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

NEGRA CATARSE

"Medida Provisória" é catártico. É o "Bacurau" de 2022, que nos permite uma vingança na tela que ainda não chegou na vida real. Como aconteceu com o filme de Kleber Mendonca Filho três anos atrás, vai ter gente reclamando que é tudo meio exagerado. Todos brancos, claro, que não perceberam que "Medida Provisória" é uma alegoria política. Um Glauber Rocha misturado com "O Conto da Aia", que ousa enfiar o dedo na maior chaga brasileira, o racismo. Pior: um dedo negro, pois o ponto de vista é sempre o dos negros. O roteiro se dá ao deboche de colocar na boca dos vilões brancos refrões como "isto é mimimi" e "agora é tudo racismo!", tão frequentes nas bocas dos minions. Também dá a Taís Araújo a chance da melhor performance de sua carreira, que ela aproveita plenamente. E o que falar de Seu Jorge, que transforma um personagem trágico no alívio cômico? Já o anglo-brasileiro Alfred Enoch, da série "Getting Away with Murder",  surpreende quem nunca o viu falando um português perfeito, e pode abrir as portas do mercado internacional para o filme. "Medida Provisória" não é perfeito como cinema: tem algumas ceninhas sobrando, outras que poderiam ser aceleradas. Mas é perfeito para o momento em que a gente vive, os estertores do governo mais escancaradamente racista que o Brasil já teve desde a Abolição. A sessão a que eu fui estava cheio de pretos, e saí novamente com a sensação de que nenhuma mudança será para valer neste país se eles não a liderarem. Todo o resto é provisório.

A FERNANDONA PORTUGUESA

Em dezembro de 1991, na nossa primeiríssima noite em Lisboa, meu marido e eu demos de cara com o Teatro D. Maria II. Sem nem ligar para o que estava em cartaz, compramos ingressos e entramos. Demos sorte: o espetáculo era o musical "Passa por Mim no Rossio" de Filipe La Féria, que contava a história do teatro de revista português. Lá pelas tantas, surge no palco uma senhora fazendo um papel masculino. Meu marido, que também é ator, me chamou a atenção para ela: essa aí é das grandes. No intervalo fomos perguntar a um porteiro de quem se tratava, e ele respondeu: Eunice Muñoz, a maior atriz do teatro português. Depois fui me inteirar melhor e descobri que ela era, de fato, o equivalente luso da nossa Fernanda Montenegro. Dois anos depois eu morava no Rio e tive a sorte de rever Eunice, fazendo uma peça austera chamada "Zerlina". Ainda tivemos um terceiro encontro em 2000, em São Paulo, quando ela e Eva Wilma estrelaram "Madame". A ideia original era ter Eunice e Fernandona atuando juntas, mas, não sei porque, a brasileira acabou pulando fora. Eunice Muñoz morreu na madrugada de hoje, aos 93 anos, de uma parada respiratória. Em 2021 ela não só comemorou 80 anos de carreira, como ainda voltou aos palcos para mais uma peça. Sim, ela estreou profissionalmente aos 13, pois era filha e neta de atores - na verdade, pisou no palco ainda mais cedo, aos cinco. Sua longa carreira foi repleta de triunfos no teatro, no cinema e na TV. É uma pena não ter sido mais famosa no Brasil, graças ao preconceito que ainda temos contra tudo que venha de Portugal. Uma bobagem, que nos priva de conhecer gigantes como Eunice Muñoz.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

MALANDRA PANAMERICANA

Quem é o público-alvo da Anitta? Quem é que entende todas as três línguas em que ela canta? Acho admirável essa carioca de Honório Gurgel ter aprendido inglês e espanhol depois de grande e partido para conquistar o planeta. Mas "Versions of Me" levanta uma dúvida pertinente: será que Anitta está perdendo os últimos vestígios de personalidade própria? O ritmo mais ouvido em seu novo álbum é o reggaetón, que surgiu em Porto Rico e se espalhou pelas Américas. Batidas de funk e samba temperam essa receita, ainda que só uma das faixas seja cantada em português. Mesmo cantando "Girl from Rio", lançada há um ano e incluída aqui, Anitta às vezes parece querer que esqueçam que ela é brasileira. Por isto, mesmo que se torne uma superstar internacional, não será exatamente uma conquista para a MPB. Para meu paladar refinado, algumas músicas só estão lá para preencher espaço, e mesmo o hit "Envolver" não me soa sensacional. Pareço meio ranzinza, mas a verdade é que eu gosto de Anitta e desejo a ela todo o sucesso do mundo. Só que, no meio de tanto tiro disparado para tudo quanto é lado, ainda falta aquele que vai me acertar na mosca.

BIBA EM FUGA

Estamos tão anestesiados com as imagens de refugiados na TV que de vez em quando é bom conhecer uma história individual, para ter noção da barra por que eles passam. O filme dinamarquês "Flee - Nenhum Lugar para chamar de Lar" foca em Amin Rawabi, que escapou do Afeganistão com a família ainda nos anos 80 e passou por mil e uma até chegar sozinho à Dinamarca, muitos anos depois. Além de ter sido indicado ao Oscar de melhor filme internacional, "Flee" ainda concorreu como melhor longa em animação e melhor documentário. O que eu até acho discutível: como que uma animação também pode ser um documentário? Enfim, essas filigranas não comprometem o resultado, que é excelente. "Flee" tem ritmo, emoção e uma beleza austera. Para a bibalhada, um plus a mais: Amin é gay, o que faz com que uma eventual deportação para sua terra natal equivalha à pena de morte. Estreia semana que vem nos cinemas brasileiros.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

UM EXÉRCITO DE BROCHAS

Cresci durante a ditadura militar, por isto não tenho o menor respeito pelo Exército brasileiro. Vi com meus próprios olhos o que esses milicos de merda são capazes de fazer - ou melhor, algumas coisas eu não vi, porquera na época. Mais de 30 anos depois, é desolador ver como eles continuam se achando superiores aos civis e muito mais preparados para governar. Essa cambada voltou ao poder a bordo do desgoverno de um energúmeno que eles mesmos haviam expulsado, mostrando a fibra podre de que são feitos. Agora refestelados na mamata, os escândalos se acumulam. O mais recente é a compra de 35 mil comprimidos de Viagra e de 60 próteses penianas com dinheiro público. A desculpa para o comprimido azulzinho é que ele combate a hipertensão. Gostaria de saber qual a desculpa para as próteses: talvez possam ser usadas como pincéis, para pintar de branco o meio-fio? Aliás, pincelada é o que não falta num exército com tantos brochas. Que vergonha que eles são para o Brasil.

É MELHOR JAIR EMBORA

Pelé tem câncer. Celso Portiolli tem câncer. Ana Beatriz Nogueira tem câncer. Desde que eu descobri que tinha um tumor no meu intestino, em julho do ano passado, parece que o mundo inteiro tem câncer. Ninguém fala de outro assunto. É só abrir a internet e pá: mais um famoso com câncer. Rita Lee já havia sido diagnosticada antes de mim, e eu confesso que estava assustado por ela. Mas ontem veio a boa notícia: Jair foi embora. Jair, para quem não sabe, foi como ela apelidou o tumor que havia em seu pulmão esquerdo, e agora eu me arrependo de não ter apelidado o meu. A cura de Rita Lee é mais do que alvissareira. Além de me dar uma bela animada, também soa como um teaser do que vai rolar em outubro, quando um outro Jair também se for. É melhor já ir se acostumando.

NAVALHA NA ÓPERA

Como que ninguém havia transformado em ópera uma peça de Plínio Marcos? O universo do dramaturgo é povoado por marginais e prostitutas, figuras que também aparecem em clássicos como "Tosca" e "La Bohème". O Theatro Municipal de São Paulo finalmente teve essa ideia, e fez sua primeira encomenda depois de 111 anos. O resultado é o "double bill" composto por "Navalha na Carne" e "Homens de Papel", que fica em cartaz até amanhã. Fui ver ontem e gostei. As duas peças viraram óperas curtas, de um único ato com cerca de uma hora de duração. "Navalha" ganhou música atonal de Leonardo Martinelli, que não é exatamente agradável de se ouvir - mas é bom sair de vez em quando da nossa zona de conforto. "Homens de Papel", um texto que eu não conhecia, ficou um pouco mais melodiosa, composta por Élodie Bouny. Levar essas duas navalhadas seguidas é de deixar qualquer um tonto, até porque a realidade nelas retratada só piorou nos últimos 50 anos (as pecas são de 1967 e 1968). E ainda tem a estranheza de se escutar coisas como "viadagem" e "pau na bunda dele", típicas de Plínio Marcos, bradadas no palco do glorioso Municipal.

terça-feira, 12 de abril de 2022

MAMÃE VOU SER CASSADO

Hoje o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do estado de São Paulo aprovou por unanimidade a cassação do Mamãe Falei. Agora o caso vai o plenário, e o deputado bobalhão só não perderá o mandato (e os direitos políticos por oito anos) se renunciar antes. No Rio de Janeiro, a cassação do execrável vereador Gabriel Monteiro também é certa. Eu nunca tinha ouvido falar do sujeito, até surgirem as denúnicias de sexo com menores e variadas fraudes. Viste a mansão que esse ex-PM tem na Barra? Esses dois palermas são fruto da internet. Ambos despontaram no YouTube, arrebanharam milhares de seguidores e se elegeram em 2018 prometendo arrebentar. Só fizeram merda. Um é no mínimo despreparado, o outro é um criminoso que deveria estar atrás das grades. Já vão tarde. Agora falta os eleitores dos dois irem também.

SE AGATHA CHRISTIE FOSSE VIVA

A maior escritora de romances policiais de todos os tempos sempre incluiu as novidades de sua época em suas histórias. O rádio, os aviões e até mesmo crimes inspirados no noticiário aparecem em muitos dos livros de Agatha Christie. Portanto, é batata concluir que, se ela estivesse viva em 2022, a internet já estaria incorporada ao seu imaginário. Digo tudo isto porque o filme francês "Os Tradutores" tem uma estrutura totalmente agathachristiana, com todos os supeitos trancafiados no mesmo local. O longa esteve em cartaz no final do ano passado e ainda não está disponível no streaming, mas ontem eu consegui vê-lo na sessão de segunda-feira que o crítico Miguel Barbieri vem promovendo no Reserva Cultural, aqui em São Paulo. Fui pelo elenco, que reúne Sidse Babett Knudsen, a primeira-ministra de "Borgen", e meu amado Eduardo Noriega, e acabei me divertindo muito. O roteiro gira em torno do terceiro e último volume de uma série best-seller. Para evitar vazamentos online, o editor do livro reúne nove tradutores num bunker secreto - tem até uma portuguesa entre eles. A ideia é que, com muitos mimos mas sem acesso à internet, eles terminem o trabalho em dois meses, para o livro ter um retumbante lançamento mundial e simultâneo. Só que, mal começa a faina, um hacker ameaça liberar as 100 primeiras páginas se não receber logo cinco milhões de euros. O editor conclui que esse hacker só pode ser um dos tradutores, mas qual? Lá pelas tantas, graças a um flash forward, fica claro quem matou, mas não quem morreu, nem como, nem por quê. Com edição ágil e algumas pistas falsas, "Os Tradutores" não chega a ser um enigma para quem foi criado a leite de Poirot (eu matei a charada bem antes do final). Mas é um bom filme, com bons atores e boa direção. Agatha Christie se orgulharia de assinar o argumento.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

A MAMATA PELA CULATRA

Até outubro vai ser assim: para cada artista que se manifestar contra o Bozo, a cada filme feito com  dinheiro público que desagrade ao gado, Mario Frias e Sergio Camargo irão gritar "acabou a mamata!". Essas duas figuras nocivas - o ex-secretário da Cultura que é contra a cultura e o ex-presidente da Fundação Palmares que é contra os negros - querem se eleger deputados federais. Como só promoveram a destruição durante suas passagens por cargos públicos, eles não têm outra plataforma eleitoral além de "acabou a mamata!". Mas, com quase todos os tiros que essa gangue dá, este também saiu pela culatra. "Medida Provisória", o filme de Lázaro Ramos que estreia nesta quinta depois de superar mil obstáculos, pode agradecer pela propaganda gratuita: está nos trending topics do Twitter, e um monte de gente que nem sabia de sua existência agora está louca para ver. Tomem, jegues.

DE VOLTA PARA O FUTURO

Entre 2015 e 2018, eu devorei os quatro primeiros volumes de "O Árabe do Futuro", à medida em que ia sendo publicados. Aí baixou o George R. R. Martin no autor Riad Sattouf: ele se envolveu em trocentos outros projetos, e foi deixando para as calendas a continuação de seu opus magnum. O quinto volume finalmente veio à luz no final do ano passado, chegou às minhas mãos em fevereiro, entrou na fila e finalmente foi lido, em menos de uma semana. Como seus antecessores, é uma beleza. O protagonista, o próprio Riad, agora vive sua adolescência em Rennes, na Bretanha, terra natal de sua mãe, depois de uma infância agitada no Oriente Médio. Enquanto isto, seu pai está de volta à Síria, tendo se separado da mãe e levado com ele o filho caçula, à revelia de todos os demais. O jovem Riad vive uma adolescência igual à de muita gente, com paixonites no colégio ao som do rock, e também muito diferente, com a família materna movendo céus e terras para recuperar seu irmão mais novo. Curioso ler este livro no momento em que Marine Le Pen ameaça ser eleita e tornar impossível a vida dos imigrantes na França. Se a madame fascista estivesse no poder há mais tempo, os pais de Riad não teriam se conhecido e o mundo seria privado desta magnífica série de histórias em bande dessinée.

domingo, 10 de abril de 2022

LA FISSURE

De vez em quando, a França resolve dar um susto no resto do mundo. O segundo turno das eleições presidenciais já foi disputado duas vezes por um candidato democrático, seja de direita ou de esquerda, e outro da extrema-direita. Aliás, sempre um Le Pen: antes o negacionista do Holocausto Jean-Marie, depois sua filha Marine. Este script se repetiu hoje, com ela alcançando 23 pontos no primeiro turno, contra 28 do presidente Emmanuel Macron. Fiu: meu medo era que Le Pen chegasse em primeiro lugar. Mesmo assim, apenas cinco pontos de vantagem é pouco, mesmo levando em conta que o páreo foi disputado por uma dezena de postulantes. Daqui a duas semanas rola a segunda rodada, e as pesquisas ainda apontam uma vitória de Macron, de 53 x 47% - bem longe dos 66% x 34% de 2017. Bom, é normal que um presidente se reeleja com um percentual menor do que da primeira vez, mas assusta o crescimento da neofascista. Ainda mais agora, quando todo mundo já sabe o que acontece quando um neofascista chega ao poder. E mais ainda quando Vladimir Putin, o chefe deles todos, está arrasando a Ucrânia. Que a esquerda deixe de frescura e apoie Macron sem titubear, por que não é só a França que está em jogo. Se Marine Le Pen vencer no dia 24 de abril, c'est foutu.

sábado, 9 de abril de 2022

CHIFRA ELES, MARRUÁ

Fiquei radiante quando soube que um touro pulou a grade que separava a arena do público e feriu 16 pessoas num rodeio em Patrocínio, interior de Minas Gerais (o vídeo acima já está desatualizado). Não desejo que ninguém tenha se machucado gravemente, mas torço para que este episódio sirva para que mais gente se conscientize de que não devemos fazer números de circo com animais. Já basta comermos as vacas e os bois: não precisamos humilhá-los ainda mais. Só fico pensando no medo e na confusão que o pobre bovino sofreu, e me tranquilizo em saber que ele passa bem. Por isto, chega de rodeio, chega de tourada, chega de show com orcas e golfinhos. Não precisamos mais mostrar nossa supremacia sobre os bichos. Se bem que ela é pra lá de duvidosa.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

TEMPERATURA NEM FRIA NEM QUENTE

Ando com tanta saudade de Buenos Aires que até um filme meia-boca como "Granïzo" já serve para aliviá-la. O roteiro parte duas premissas absurdas. A primeira é a que a de um homem do tempo da TV pode virar um ídolo nacional, com direito a um programa com banda e ao assédio dos fãs na rua. A segunda é a de que essa popularidade toda desmorona no momento em que ele faz uma previsão errada, a primeira de sua carreira. Transformado m inimigo público número 1, ele foge para Córdoba, sua cidade natal, e se reconecta com suas raízes antes de uma volta triunfal. O tema explícito dessa comédia dramática é a cultura do cancelamento, mas o desfecho da história não propõe soluções nem chega a fazer uma crítica. O que se salva é Guillermo Francella, o comediante mais popular da Argentina, a quem eu já vi no teatro no musical "Os Produtores". Mas nem ele ajuda "Granizo" a provocar risadas. Ainda mais num momento em que muitas cidades do Sudeste vêm sendo arrasadas pelas chuvas.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

ARQUIVO MORTO-VIVO

Adriano da Nóbrega voltou do além para assombrar o clã Biroliro. A divulgação de uum telefonema grapeado em que sua irmã acusa o desgoverno de oferecer cargos para os policias matarem o miliciano reforçam a suspeita de que houve uma proposital queima de arquivo, e que o Bozo não teve o menor prurido em se livrar do antigo aliado. Mas isto será o suficiente para abalar sua popularidade, que está em viés de alta? Sei não. São tantos escândalos acumulados - rachadinha, pastores do MEC, compra da Covaxin, mansão do Zero-Um, Jair Renan - que eu começo a suspeitar que o gado não é exatamente estúpido, mas tão ruim quanto o falso mito que idolatram. O que mais me exaspera é o fato dos milicos estarem carecas de saber da ligação do Despreparado com as milícias cariocas. Lembra quem foi o interventor federal no estado do Rio de Janeiro, entre 207 e 2018? Ele mesmo: o general Braga Netto, provável candidato a vice na chapa do Edaír.

CÍLIOS, MELHOR NÃO TÊ-LOS

Jessica Chastain mereceu o Oscar de melhor atriz e todos os outros prêmios que recebeu por "Os Olhos de Tammy Faye". O filme finalmente chegou ao Brasil pela plataforma Star +, depois de ter sua estreia nos cinemas anunciada algumas vezes. Trata-se da cinebiografia da televangelista Tammy Faye Baker, que já havia sido tema de um documentário do mesmo nome. Ouvi falar da moça pela primeira vez nos anos 80, quando ela estava no auge da fama. Ela e o marido Jim, ambos pastores, faziam tanto sucesso na TV que chegaram a ter seu próprio canal. Criaram um template que depois foi copiado no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Tammy era um fenômeno diante das câmeras. Um talento tão inato quanto o de Hebe Camargo, capaz de sugar as atenções feito um buraco negro. Cantava, usava fantoches, brincava com a plateia. Enquanto isso, Jim pedia doações sem parar. O império erguido pelos Bakker começou a ruir ainda naquela década, quando surgiram denúncias de malversação de fundos e casos extraconjugais de Jim, inclusive com homens. O casal se divorciou e Tammy ainda amargou alguns anos de ostracismo, mas já havia deixado sua marca na cultura pop americana. Mais especificamente, seus olhos hipermaquiados, com cílios postiços exagerados que lhe davam um ar eternamente vulgar. Seria muito fácil interpretar um personagem desses em tom de paródia, mas Jessica Chastain não faz isto em momento algum. A atriz não julga Tammy Faye: ao contrário, mostra que a fé da pastora era mesmo para valer, assim como os demônios que a acossavam. O mais curioso é que eu não acho que a Jessica seja muito carismática na vida real - ela até exala uma certa frieza - mas sua Tammy é um vulcão em erupção. "Os Olhos de Tammy Faye" é um bom filme, e já valeria a pena só por causa dos figurinos absurdos. Mas também conta em detalhes a vida de uma figura controversa, valorizada por uma das maiores interpretações do ano.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

DESISTE, CIRO

Coitado do Ciro Gomes. Chegou a um honroso terceiro lugar em 2018, e só não bateu o Biroliro no segundo turno porque os petistas preferiram votar no Haddad (que acho até mais preparado) e deixar o Brasil cair nas mãos da extrema-direita, msmo sabendo que ele não tinha chance. O Cirão da Massa poderia se eleger facilmente este ano, não fosse por um pequeno detalhe: Lula está de volta ao páreo, desde março de 2021. De lá para cá, o ex-presidente não largou a liderança nas pesquisas um segundo sequer, mas sua sonhada vitória no primeiro turno está cada vez mais distante com o paulatino crescimento do Bozo. A desistência de Sérgio Moro jogou quase todos os votos do ex-juiz no colo do Genocida, e Lula precisa de uma vitória acachapante para evitar um golpe militar. Uma solução seria Ciro abdicar de sua candidatura, que dificilmente irá decolar. Seus 9% de votos iriam diretos para Lula, e a eleição seria decidida já no dia 3 de outubro. Mas como convencê-lo a esse gesto tão nobre, se ele acaba de subir dois pontos nas pesquisas?

NÓS VAMOS INVADIR SUA PRAIA

Costumamos jogar a culpa pelos estragos causados pelas chuvas torrenciais nas costas de governantes incompetentes e corruptos, e estes a rebatem para os moradores teimosos que insistem em construir seus barracos nas escostas, como se houvesse milhares de outras opções. Mas o que aconteceu com a praia de Itaguaçu, na Ilha Grande, mostra que o buraco é maior e muito mais embaixo. Ali a terra deslizou exatamente em cima da idílica praia, soterrando as casinhas ao pé da areia e deixando desaparecidos. As laterais, onde não mora ninguém, foram poupadas. Parece até castigo divino, mas eu não acredito num Deus vingativo. Acredito na estupidez humana, que se recusa levar a sério até hoje o mais que comprovado aquecimento global, que vem mudando o clima no mundo inteiro. Nunca choveu tanto no estado do Rio como este ano. Nunca houve tantos eventos excepcionais, como tornados e trombas d'água, onde nunca havia tido. Greta Thurnberg tem razão, mas os boçais preferem tirar sarro do autismo dela ou dizer que "se o mundo está aquecendo, então por que é que ainda faz frio?". Porque vocês não entenderam nada, imbecis.

terça-feira, 5 de abril de 2022

ENTRANDO NUMA GELADA MAIOR AINDA

Preciso comer coisas geladas por X dias. Como meu pai morreu já faz quase 17 anos, tive que presentear a mim mesmo. O irônico é que eu detesto caviar, mas encomendei cinco latas de Beluga só para irritar os problematizadores. A polêmica em torno do Baccio di Latte, que consumiu o Twitter nesta terça, é uma das coisas mais ridículas que eu já vi na minha vida. O Baccio nem é o melhor e muito menos o mais caro sorvete do Brasil (para quem estiver curioso, eu recomendo o Discreto, do meu amigo Rodrigo Rosner). Esse povo que reclamou da moça que postou os cinco potes nem sabe o que é ostentação para valer. Mas tenho pouco a acrescentar ao artigo que minha amiga Mariliz Pereira Jorge assinou na Folha. Só que a inveja e o ressentimento são duas das forças que movem mundo. Ah, sim, e que a verdadeira riqueza é ter amigos.

NÃO OLHE PARA FORA

Quando eu vi o trailer de "A Bolha", achei que seria um filme na pegada de "Não Olhe para Cima". Uma comédia cínica, farsesca, com um elenco recheado de famosos. A boa impressão se manteve ao longo de quase toda a primeira hora do longa de Judd Apatow. No final de 2020, uma equipe de atores e técnicos se isola num hotel de luxo no interior da Inglaterra, para filmar o épico "Bestas do Abismo 6". Ninguém pode entrar ou sair, porque a pandemia grassa lá fora e a vacina ainda não existe. Claro que todo mundo enlouquece com o isolamento forçado, em diferentes graus. O elenco mimado inclui um casal que vive às turras, um canastrão que ganhou um Oscar e uma influenciadora que só sabe fazer dancinhas no TikTok. Vários desses personagens são interessantes, com subtramas promissoras. Só que elas vão sendo esquecidas ao longo do roteiro, que se torna episódico, com mini-crises que começam de repente e logo terminam, sem acrescentar nada à história. "A Bolha" podia perder uns bons 30 minutos de suas longas duas horas. E o desafio segue de pé: será que já é possível fazer rir com a pandemia?

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A BANANA TEM É INVEJA DA COBRA

A essa altura do desgoverno do Edaír, nada que parte dele ou de sua familícia deveria nos surpreender. Mas ainda bem que ainda não estamos totalmente anestesiados, vide onda de indignação que se alastrou por causa do tuíte nojento do Bananinha sobre a Míriam Leitão. Não é possível que nada aconteça: o filho Zero-Três precisa ser punido. Num mundo ideal, ele perderia o mandato. O lado engraçado é ver minion dizendo que o post foi mal interpretado, pois na verdade ele estaria xingando a jornalista de cobra. O mais triste foram os esquerdistas vindo com aquele papo de "Miriam criticou o Lula, portanto ela meio que merece". Não, ninguém merece ser trancada grávida e nua com uma jiboia num quarto escuro, e muito menos que alguém faça troça disso. Mas o Bananinha precisa causar online, já que não faz nada na vida real. O que me consola é que dificilmente ele será de novo o deputado mais votado do Brasil, ainda mais com Boulos e até Moro disputando a Câmara por São Paulo. Também ficou patente que a banana não tem pena, mas sim inveja da cobra. Pudera: uma banana não se mexe, nem tem veneno. E é tão mole que dá para amassar com uma colher.

O GRAMMY DO VIZINHO É SEMPRE MAIS VERDE

De todos os prêmios da indústria americana de entretenimento, o menos respeitável é o Grammy. Sim, ainda menos que o Globo de Ouro. Porque não são só os frequentes escândalos que abalam a credibilidade da premiação da música. São suas próprias escolhas: simplesmente não dá para confiar num troféu que nunca foi para o Queen, o ABBA ou Jimi Hendrix. O Grammy gosta de prestigiar os melhores vendedores do ano, não necessariamente os de mais alta qualidade, e é notório o viés racista. Sabe quantas vezes Beyoncé venceu como Álbum do Ano? Nenhuma, enquanto que a insossa Taylor Swift acumula três vitórias na categoria (mesmo número que Adele atingirá no ano que vem). Dito isto, até que a edição de 2022 não foi tão ruim assim. Eu temia que Olivia Rodrigo levasse todas as categorias em que foi indicada, mas ela só faturou três - incluindo uma das quatro grandes, revelação do ano. Nada contra a moça, mas o popzinho que ela faz não traz novidade alguma. 
Quem saiu consagrado foi o tal do Jon Batiste, de quem eu nunca tinha ouvido falar até ele garfar 11 indicações em novembro. Ganhou em cinco, inclusive melhor álbum. Surpresa nenhuma: o som dele presta tributo ao passado, algo que o Grammy adora. O cara reproduziu no palco o clipe de "Freedom", mas as performances de ontem ainda não estão no YouTube. Por enquanto, fiquemos com o vídeo original.   

domingo, 3 de abril de 2022

FRENTE AMPLA PRA ANTEONTEM

Viktor Orbán foi reeleito para um quarto mandato como primeiro-ministro da Hungria, mesmo enfrentando uma frente ampla que reunia partidos da direita à esquerda. Acontece que essa frente se formou tarde demais. No poder desde 2010, o Orbandido teve tempo de remoldar o Judiciário à sua imagem, controlar quase toda a mídia e reescrever as regras eleitorais para sempre favorecer seu partido, o Fidész. Exatamente o que o Biroliro tanto sonha fazer aqui no Brasil. Por isto, fica o aviso para quem critica a chapa Lula-Alckmin: agora é a hora dos pró-democracia se unirem, não daqui a 12 anos. Pelo menos ainda não sabemos se os governistas húngaros mantiveram a supermaioria de dois terços no parlamento, que permite mudanças a bel-prazer na constituição. A vitória de Orbán também significa que suas políticas anti-LGBT continuarão. O sujeito é tão imundo que não teve o menor prurido em incluir a seguinte pergunta na cédula eleitoral de hoje: "você apoia a exposição irrestrita de crianças menores de idade a conteúdo de mídia sexualmente explícito que possa afetar seu desenvolvimento?" Vamos ficar espertos, turma. A frente ampla contra o Bozo tem que ser formada hoje, agora, já, anteontem.