terça-feira, 22 de março de 2022

SEMENTES DE MOSTARDA

Ontem comecei uma nova fase do meu tratamento. Minha primeira aplicação de Folfiri, o avançado protocolo quimoterápico que seguirei daqui pra frente, estava marcada para as 16 horas. De manhã, quando eu ainda estava em casa, o pessoal da Folha me procurou. "Você pode entrevistar Fulano de Tal às 18h30 de hoje? O repórter que estava escalado se enrolou". Como eu não sou de recusar trabalho, topei na hora, e só depois fui me certificar de quanto tempo duraria a aplicação. "Ah, no máximo uma hora e meia", me garantiu meu irmão mais novo, que já passou por um perrengue parecido. Fiz as contas e concluí que estaria de volta em casa antes das seis. Foi então que, ainda na parte da manhã, chegou uma nova mensagem da Folha: "Fulano desmarcou. Vai ficar para outro dia". Beleza. Acontece...

Cheguei à clínica pontualmente e fui rapidamente atendido. "A que horas eu devo estar saindo daqui?", perguntei para a recepcionista. "Bom, a primeira vez é sempre a mais longa, então imagino que lá pelas sete e meia da noite". Ufa, suspirei por dentro. Ainda bem que Fulano desmarcou. Ia ser punk entrevistá-lo daqui, com meu mísero celular.

Aí me levaram para uma salinha privada, com poltrona reclinável e monitor de TV. Uma enfermeira me explicou em detalhes todos os efeitos colaterais que eu poderei ou não sentir. Aí aplicou um soro no meu port-o-cath, depois um medicamento para náusea e por fim a quimio propriamente dita. A função já estava em andamento quando apareceu uma médica. "Quer fazer acupuntura?" Uai, eu nem sabia que o meu plano incluía isto. Contei que nunca havia feito (aquelas agulhas me dão um pouco de aflição), e a doutora me tranquilizou. Iria apenas aplicar sementes de mostarda na minha orelha, em pontos que correspondem aos órgãos humanos. Com eles, eu vou me sentir mais zen, mais bem disposto. Topei, claro, e um minuto depois minha orelha esquerda havia virado uma horta. Se chover, nascerão vistosos pés de mostarda.

Tudo na santa paz, até que chega uma mensagem da assessora de imprensa. "Fulano quer remarcar! Podemos fazer a entrevista às 18h30, como estava previsto?". Já eram 17h40. "Podemos, vamos nessa!". Seja o que Deus quiser. Tenho apenas que apagar alguns aplicativos do meu celular para abrir espaço para baixar o Zoom, e depois rezar para a bateria - que já estava por volta dos 50% - durar até o fim da conversa. Não, eu não havia levado carregador nem laptop. Me julgue.

Por volta das 18 horas chegou um lanchinho, que eu devorei para controlar a ansiedade: um sanduichinho, um suquinho, um chazinho (de erva-cidreira - me irrita esse hábito brasileiro de chamar de chá qualquer infusão. Chá é chá preto no mundo inteiro, menos aqui). Péssima ideia. 

A entrevista com Fulano começou às 18h45, e àquela altura eu já estava me sentindo apertado. MUITO apertado. Mas vamos nessa, é só meia horinha, nas provas de resistência do BBB eles aguentam muito mais. O papo em si começou bem. Meu entrevistado é simpático, acessível e, apesar de nunca termos nos falado, conhecemos muita gente em comum, o que sempre facilita as coisas. A conversa rolava solta quando meu celular avisou: bateria fraca, só mais 20%. Alertei Fulano que eu poderia cair a qualquer momento, mas vamos em frente. Enquanto isto, minha bexiga já estava do tamanho de uma lua de Júpiter, e eu começava a suar em bicas. Cacete, essa porra já está fazendo efeito?

Entrevista deliciosa, algumas revelações inéditas, e de repente mais um aviso: 10% de bateria. Como já tínhamos coberto vários assuntos, resolvi ir encerrando. Mas outros temas surgiam, e fomos nos alongando até onde desse. Nisto, entrou uma enfermeira no quarto, para avisar que ia aplicar o infusor. Meu entrevistado ouviu, não teve como. Resolvi então abrir o jogo: estou no meio de um tratamento médico. Como ele já tinha falado pouco antes do cãncer que sua mulher venceu, me senti à vontade para contar: estou fazendo quimioterapia. Ele respondeu que já estava desconfiado, porque eu enquadrei sem querer os controles que ficam na parede atrás da minha poltrona. Também se impressionou com a minha disponibilidade, me desejou sorte e me garantiu que já deu certo. Foi nesse clima de otimismo que o meu celular morreu de repente.

A enfermeira apareceu novamente para instalar o infusor, mas eu gritei que precisava ir correndo ao banheiro antes de qualquer coisa. Saí arrastando o totem junto, com a bolsinha de quimio ainda conectada ao meu port-o-cath. Chegando ao reservado, me senti esvair em água suficiente para levantar o nível do sistema Cantareira. O suor também sumiu. Necas de efeito colateral. Era só a energia que o meu corpo estava queimando para me manter sequinho enquanto eu precisasse.

Voltei para o quarto, reclinei a poltrona e me joguei. Estava me sentindo exaurido, mas também orgulhoso do que havia feito. Agora tenho uma nova história para contar, se algum dia eu for convidado ao programa do Porchat (a anterior era a dos macacos do Camboja - vai dizer que você nunca pensou em qual seria a sua?). A enfermeira levou mais meia hora para finalmente reaparecer. Implantou o infusor e eu deixei a clínica por volta das 20 horas, sozinho e cambaleante. Voltei de metrô.

Quando cheguei em casa, algo curioso aconteceu. Contei pro meu marido a tarde lôka que eu tive, e senti meu corpo se revigorar. Aí liguei pro meu irmão e contei tudo de novo. Parecia que eu tinha cheirado umas três carreiras. Assisti aos episódios de "A Idade Dourada" e "A Amiga Genial" sem cair no sono, o que é raro, e fui para a cama depois de meia-noite e meia. Ainda chequei e-mails, ouvi música para relaxar, li um pouco do meu livro e apaguei a luz depois da uma. Não preguei olho a noite inteira. Nem um remedinho adiantou. Mas foi uma insônia sem angústia. Ao contrário, só pensamentos felizes cruzavam a minha cabeça. Talvez eu tenha me contagiado com o entusiasmo do meu entrevistado, que é de fato uma força da natureza. Ou vai ver que são as 12 sementinhas de mostarda já mostrando a que vieram.

25 comentários:

  1. Adorei o teu texto, ou melhor tua crônica

    Gosto demais dessas crónicas do cotidiano – sempre com humor.
    Falando nisso, lembro que também gosto dos textos/crônicas do Aguinaldo Silva (da época que ele tinha um blog/portal e até hoje no feicibuqui).
    Gosto desse estilo leve, bem humorado e despretensioso que pode parecer simplista e, bem sei, é muito pelo contrário.

    Escrever ”fácil” é difícil. Well, escrever é difícil (e maravilhoso).

    PS por-via-das-dúvidas. Não quis comparar você com Aguinaldo, melhor esclarecer, vai que tu tem ranço dele, né? Kkkkkkk Mas eu gosto muito dos textos dele assim como dos teus.

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    1. Não tenho ranço do Aguinaldo, não. Já falei mal das novelas dele, já o elogiei por não ter papas na língua. No ano passado eu pedi uma entrevista a ele duas vezes. Na primeira vez ele disse que ainda estava sob contrato com a Globo e não podia falar nada. Na segunda, ele nem me respondeu. Aí, há uns meses, ele me adicionou no Facebook. Não era fake, era ele mesmo. Vai entender.

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    2. Eita! Vc entrevistando o Aguinaldo seria (como diria Ivete) muito massa!

      Acho que vou ali escrever isso no feicibuqi do homi, ele me adicionou como amigo acho que já faz uma década. Cruzes! hahahaha

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    3. Sensacional a sua escrita!!! Pode contar a história que quiser !!!

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  2. Tony, querido:
    texto envolvente, que nos fixa à leitura.
    Mas confesso, como não sabia de nada, fiquei assustado com o tratamento.
    Quimio.... vc está bem? O q vc tem?
    Força aí e recuperação total!
    Beijos
    Maurício

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    1. Eu retirei um tumor do intestino em agosto do ano passado. Sobraram uns pontinhos no fígado e nos nodos linfáticos. Para acabar com eles, estou fazendo quimio. Primeiro passei por um tratamento chamado Xelox, que começou dando certo e de repente parou. Agora troquei para o Folfiri, que é mais power. Vamo que vamo!

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    2. Que bosta Tomy! Ainda bem que vc não perdeu nada durante a pandemia mas ano que vem as festas voltam com tudo! Melhore logo

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  3. Tony, querido. Amo seus textos. Até suas tragedias me levam ao riso. Saudades quando os risos eram ao vivo. Torcida master pelo sucesso do seu tratamento.

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  4. Tony, torço muito pela tua boa recuperação meu caro. Sucesso hoje e sempre, e um grande beijo ;)

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  5. Sempre é uma delícia te ler, mas dessa vez em especial te senti vivo como nunca. Vai dar tudo certo, já deu. Mas o mais bonito e o que mais me emociona é perceber a forma como sua experiência tem te atravessado, mesmo sem te conhecer, consegui ver vários de vc nesse texto. Do jovem ao atual e maduro Tony. Obrigado! ❤️

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  6. Leio seu blog de 2012. Apesar de nunca ter comentado nada (em 10 anos... Desculpa, tá?), sempre estou por aqui. Hoje, resolvi comentar porque essa crônica veio com tanta vida que a energia chegou aqui. Abraço!

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  7. Gratidão pela partilha, querido Tony.
    Ler seus textos é como ler uma mensagem, daquelas muito esperadas, de um amigão das antigas.
    Passo por aqui todos os dias... Algumas vezes mais de uma vez buscando novidades.
    Mentalizando diariamente pelo sucesso de seu tratamento.
    Sua missão neste planetinha azul ainda é bastante longa.

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  8. Melhoras pra você. Duas coisas a comentar; primeiro: muito curiosa essa mistura do que há de mais moderno na ciência médica com o que há de mais ultrapassado e pseudocientífico, a acupuntura. Segundo: um aparelho cuja bateria se esvai em tão pouco tempo? É iphone, sim ou com certeza?

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    1. É iPhone, mas a bateria já estava com 40% quando a entrevista começou. E não havia wifi no lugar, então tive que usar meu pacote de dados. Fora que o Zoom consome energia que é uma beleza...

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  9. Na figura que ilustra esse ótimo post tem um órgão/ponto chamado "shenmen". Deve ter sido a mostarde nele que te deixou tão aceso.

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  10. Linda crônica, Tony. É essa vontade de escrever e de viver que vai te curar. Só faltou dar nome ao santo. Mandando boas energias daqui.

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  11. Tony, tô torcendo demais por vc aqui. Fique bem logo! Beijão.

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  12. Tony, você é sempre hilário, muito boa sua coluna. Fico torcendo para o tratamento te deixar mais hilário ainda.

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  13. Tony, torço muito pela sua melhora e que, apesar de tudo, seja leve.
    Gosto muito de você e há anos te devoro semanalmente. Dito isto, sei o quanto você é aberto a algumas coisas que são ditas no seu blog e queria fazer uma correção de algo que estamos acostumados a dizer mas “ninguém vence o câncer” porque ninguém perde a batalha pra essa doença terrível.
    Não sei se me faço entender, a dor quando ouço alguém dizer que “venceu” implica que quem não, perdeu.
    Não publique isso pois de coração, não é a intenção.
    Desejo profundamente que você mantenha esse blog até quando essa palavra não existir mais, se é que ela ainda exista. :)

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    1. Anônimo, publiquei seu comentário porque acho essa discussão interessante.

      Eu acho que é possível dizer, sim, que se venceu o câncer. O que eu não digo de jeito nenhum é "fulano perdeu a batalha contra o câncer". Porque o câncer SEMPRE perde: se a pessoa morre, as células cancerosas morrem junto com ela.

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  14. Sou uma leitora silenciosa deste blog há anos. É porque desde aqui cheguei (por meio de uma sessão de perguntas e respostas na Women's Health, daí queria saber se Tony Goes era uma figura inventada ou não), sinto que a sessão de comentários é pra leitores que meio que se conhecem e tem uma dinâmica própria. Não queria ser entrona. Hoje, não me contenho: que texto! Obrigada, Tony! Te desejo muita saúde!

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    1. Obrigado, betapop, mas foi-se o tempo em que eu conhecia os comentaristas do meu blog. Antigamente, quase todos usavam pseudônimos, então dava para saber quem era quem. Hoje são quase todos anônimos, e poucos se dão ao trabalho de se identificar (tipo o Babbino Caro).

      Obrigado pelos votos de saúde! E comente sempre, por favor.

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  15. Gostei demais deste texto. Pude visualizar cada momento. Escreva mais sobre este assunto Tony. Beijos e tudo de bom!

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  16. O Mio Babbino Caro
    Definitivamente ninguém paga meia na vida.
    "Todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas." (OW)

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