quinta-feira, 17 de março de 2022

YES I'M GONNA BE A STAR

É preciso preparo para encarar as três horas de "Drive My Car". Abasteça-se de guloseimas, vá ao banheiro antes e, acima de tudo, conscientize-se de que o diretor Ryûsuke Hamaguchi opera numa frequência diferente da nossa. No mundo dele até existem pobres, mas ninguém sofre muito por falta de dinheiro. O que interessa mesmo são as relações pessoais, os diálogos e os silêncios, as emoções que custam a vir à tona. Nesta longuíssima adaptação de um conto de 40 páginas de Haruki Murakami, um consagrado diretor de teatro ainda está de luto pela morte da mulher, ocorrida dois anos antes. Ela o traía, mas mesmo assim ele sofre. Também está com um princípio de glaucoma, então eu super me identifiquei - pingo um colírio específico desde 2008, mas nunca desenvolvi nenhum sintoma. Convidado a montar uma versão multilíngue de "Tio Vânia" num festival em Hiroshima, ele é obrigado por razões contratuais a ceder a direção de seu SAAB Turbo vermelho a uma motorista profissional. O carro é velho e tem a direção do lado esquerdo, o que pode ser complicado num país de mão inglesa como o Japão. Mas é também a concha onde ele se esconde dos problemas e pensa em soluções para seus espetáculos. Não há muito mais conflito do que isso, e uma hora a menos de duração talvez me levasse às lágrimas. Do jeito que está, é lento e lindo, e nunca realmente chato, mas a frieza generalizada só é quebrada na última meia hora. Mesmo assim, o passeio vale a pena. Até porque, indicado a quatro categorias no Oscar, "Drive My Car" é o favorito na de melhor de filme internacional.

2 comentários:

  1. Aguardando a crítica de Águas Profundas

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  2. Eu fiquei assistindo achando o ritmo lento, esperando acontecer algo. Então me vi envolvido nas relações entre as pessoas. Porém o último ato me pegou desprevenido e foi algo tão poético que me emocionou. Não um filme que estou habituado a ver, e isso me deixou muito feliz.

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