quinta-feira, 31 de março de 2022

O TAPA QUE NÃO QUER CALAR

Alguém ainda tem saco para discutir o Oscar e o tabefe do Will Smith no Chris Rock? Eu tenho, tanto que participei do podcast "Expresso Ilustrada" desta semana, junto com o Leonardo Sanchez. Ouça aqui.

TODA DITADURA É RUIM

Fico de estômago embrulhado quando ouço esses milicos de merda defendendo o golpe de 1964 e a ditadura militar. É inacreditável que, quase 60 anos depois, boa parte do Exército brasileiro não tenha evoluído um milímetro, e ainda se ache mais capaz de governar do que qualquer civil. Sim, a ditadura fez coisas boas - instituiu o FGTS, trouxe a TV a cores para o Brasil, hã, e o que mais mesmo? - mas também prendeu, matou e censurou a dar com pau. Só o fato de terem proibido a novela "Roque Santeiro" em 1975 já cobre de ridículo eterno esses generais de merda. O que dizer, então, do atentado do Riocentro, em 1981? Além de terroristas, dois baitas incompetentes, pois a bomba explodiu no colo deles, e ajudou o regime a morrer mais rápido. Hoje, infelizmente, é gente dessa gangue que está no poder. Por isto temos que ouvir o Braga Neto e o Biroliro defendendo o indefensável. E ainda temer pelo golpe que eles querem dar em outubro, quando perderem as eleições. Que nojo desse nosso Exército de merda, e que vergonha.

quarta-feira, 30 de março de 2022

FOCINHEIRA NELE

E por falar em cretino, alguém aí ainda tem saco para o Daniel Silveira? O brucutu, cuja maior valentia até hoje foi rasgar uma placa de papelão, vai espremer até a bagaço esse imbróglio da tornezeleira. Afinal, as eleições estão chegando, e esse intrépido vaqueiro precisa agitar seu gado de alguma maneira. Pior que ele, só o biltre do Arthur Lira, que não quer se indispor nem com o STF, nem com o Biroliro, e deixa esse reality show se arrastar nos corredores da Câmara. Por mim eu costurava logo os beiços de Silveira, o que lhe causaria um transtorno a mais: chega de tomar whey protein!

FARTÃO DOS CRETINOS

Num primeiro momento, eu apoiei 100% o Will Smith. Achei bem feito um escrotinho feito o Chris Rock levar um tabefe em pleno Oscar. Não se faz piada com a doença alheia. Acreditei até que a carreira desse comediante de quem eu nunca gostei estaria comprometida. Fantasia minha: os ingressos para o próximo show de Rock já se esgotaram, e foi Smith quem se tornou o saco de pancadas da humanidade. OK, "violência nunca é a resposta" (há controvérsias), mas não é que o maluco no pedaço tenha sacado um revólver e disparado. Foi um tapa de mão espalmada, mais humilhante do que doído. Mas, OK de novo, seria melhor Smith retrucar verbalmente, talvez no discurso de agradecimento pelo Oscar que ele fatalmente faria alguns minutos depois. A piada em si, que ao vivo passou batida pra mim, nem é das mais ofensivas: Rock falou que Jada Pinkett-Smith estava pronta pra filmar "G. I. Jane 2", o que pode ser encarado até como um elogio (e as câmeras provam que Smith riu neste momento). Mas foi a gota d'água. Há tempos que o odiado Chris inclui o casal entre seus alvos. Acho que minha simpatia inicial por Will Smith, compartilhada com muita gente, reflete o fartão generalizado que estamos sentindo dos palermas. Ninguém aguenta mais esses babacas falando merda como se fossem pérolas de sabedoria, machucando a torto e a direito e não sofrendo nenhuma consequência por causa da liberdade de expressão. Aqui no Brasil, isto ficou patente com a reação às cretinices de Monark, Adrilles e Mamãe Falei. A conta finalmente chegou, eles que paguem o preço.

terça-feira, 29 de março de 2022

O CASAL QUE INVENTOU A TV

Tenho um livro chamado "Classic Sitcoms" que traz as histórias e as curiosidades das primeiras séries cômicas da TV americana. No capítulo sobre "I Love Lucy", só a sinopse de duas linhas de alguns episódios já me faz rir. Ver Lucille Ball em ação, então, é irresistível. O estilo dela é palhacesco, primordial, muito físico e pouco verbal. Mesmo que eu conheça a cena de cor e salteado, o riso é irrefreável. Meu interesse pela primeira grande estrela da história da televisão só aumentou com o filme "Apresentando os Ricardos", lançado em dezembro passado. Agora a mesma Amazon Prime Video traz o documentário "Lucy e Desi", dirigido pela comediante Amy Poehler. Baseado em dezenas de fitas cassetes que Lucy gravou contando sua vida, o filme é um ótimo retrato da complexa relação dela com o marido Desi Arnaz. Os dois lutaram muito para trabalharem juntos em "I Love Lucy"; o programa fez muito sucesso e acabou por separá-los. Mas não totalmente... "Lucy and Desi" também dá a Arnaz sua devida importância: ele não só inventou a gravação com plateia, o chamado formato multicâmera, como a própria profissão de showrunner, à frente da produtora Desilu. Na verdade, o casal é responsável por muito da TV que vemos até hoje, atrás e na frente das câmeras. Quem se interessa pela história da televisão não pode perder "Lucy e Desi".

O NAUFRÁGIO DO DORIA

João Doria irrompeu na cena política em 2016, depois de uma longa carreira em que se notabilizou mais como socialite do que como empresário. Surfando no antipetismo, levou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno. Mas não tardou a decepcionar seus eleitores, se fantasiando de gari ou promovendo a execrável farinata. Em 2018, traiu seu padrinho Geraldo Alckmin para tentar se eleger presidente. Não rolou, mas conseguiu, a duras penas, chegar ao governo do estado a bordo do slogan "Bolsodoria". Uma vez no Palácio dos Bandeirantes. rompeu com Biroliro ao trazer para o Brasil as primeiras vacinas contra a Covid-19, e ainda saneou as finanças estaduais. Essas façanhas deveriam lhe garantir uma certa popularidade, mas Doria não passa de 3% nas pesquisas. Sua imagem de almofadinha colou no imaginário popular, e pouca gente gosta dele no PSDB. Agora periga ficar sem cargo público nenhum no final deste ano. Não deixa de ser irônico que um cara tido como grande expert em marketing não tenha sabido vender a si mesmo.

(aos distraídos: o título desse post foi vagamente inspirado pelo naufrágio do transatlântico italiano Andrea Doria,  ocorrido em 1956)

segunda-feira, 28 de março de 2022

O HOMEM QUE FEZ A TORRE

Quem vai a Paris pela primeira vez, tem que subir na Torre Eiffel. É clichê, mas também é magnífico. O monumento é um prodígio da engenharia, e de seus três andares descortinam-se as vistas mais impressionantes da cidade. Hoje ele é o logotipo informal da França, mas sua construção foi tumultuada. Essa história é contada em "Eiffel", disponível na Amazon Prime Video. Para quem não sabe, a torre leva o nome de seu engenheiro, Gostava Eiffel (ah, sim, e a pronúncia correta é Eifél, e não Êifel). No filme ele é retratado em du.as idades: já maduro, tocando a obra que o imortalizou, e ainda jovenzinho, vivendo um romance proibido. Não dá para saber se os lances folhetinescos aconteceram de verdade, pois no início há um aviso de que o roteiro foi "inspirado em casos reais". Mas nem importa: com um visual suntuoso, o longa é agradável de se ver. Até porque nos papéis principais estão Romain Duris e a anglo-francesa Emma Mackey, que também aparece em "Morte no Nilo". Me deu vontade de subir de novo.

TODO MUNDO ODEIA O CHRIS

Não importa que o sentimentalóide "No Ritmo do Coração" tenha usurpado o trono de "Ataque dos Cães". Ninguém está nem aí se a Academia cortou oito categorias da transmissão ao vivo. O que todo mundo vai lembrar dessa entrega do Oscar vai ser o tabefe que o Will Smith aplicou no Chris Rock. A primeira impressão foi a de que a agressão havia sido combinada. Era bem possível: americano adora essas bobagens em premiações. Eu assisti ao ensaio da entrega dos Tonys em 2019, e me maravilhei como absolutamente nada era espontâneo. Mas o que comprovou que o tapa não estava no script foram os palavrões despejados por Smith, duas vezes seguidas: "keep your name of my wife out of your fucking mouth!!". Palavrões são um tabu absoluto na TV aberta americana, ainda mais em eventos ao vivo. Aos poucos as coisas foram ficando mais claras. Não foi um soco, foi um bitch slappin' - talvez para não deixar marcas? A treta entre Will Smith e Chris Rock vem de longa data. No Oscar de 2016, Rock era o apresentador e tirou sarro do boicote que Jada Pinkett-Smith fez à festa. Ela protestava contra a exclusão do marido na categoria de melhor ator, por "Concussion". "É como se eu boicotasse as calcinhas da Rihanna", disse Rock. "Eu também não fui convidado". O pior é que a calvície de Jada se deve à alopecia, uma doença autoimune comum entre mulheres negras. Ou seja, ela não está careca por vontade própria. Agora, Smith fez bem em reagir com violência física? Ele mesmo se arrependeu, ao agradecer em prantos o prêmio que ganhou logo depois. O fato é que esse assunto ainda vai render muito, o que é ótimo. Agora, já pensou se o Oscar fosse no Brasil e a piada tivesse sido feita pelo Danilo Gentili?

domingo, 27 de março de 2022

ATAQUE DO CORAÇÃO

Quem vai ganhar o Oscar de melhor filme? "Ataque dos Cães" ou "No Ritmo do Coração"? Após meses na dianteira, o longa de Jane Campion perdeu terreno nas últimas semanas para o remake de uma comédia sentimental francesa, que faturou os prêmios máximos dos sindicatos dos atores, produtores e roteiristas. Temo que o mesmo vá se dar logo mais à noite. Até porque, em sua categoria principal, o Oscar usa um sistema de voto preferencial. Os acadêmicos não dizem apenas qual é seu título favorito, mas ranqueiam os 10 indicados em ordem de preferência. Quem tirar a mais alta média ponderada leva o troféu."Ataque dos Cães"  já entrou para a história do cinema, mas também incomoda algumas pessoas por lidar com violência e homossexualidade. Já "No Ritmo do Coração" é fofura do começo ao fim e não tem grandes detratores. Por isto, temo que mais uma vez a Academia vá premiar um filmezinho anódino, digno da "Sessão da Tarde", em detrimento de uma autêntica obra de arte.

E nas outras categorias, em quem eu aposto?

Melhor diretor - Jane Campion (Ataque dos Cães) ACERTEI

Melhor ator - Will Smith (King Richard) ACERTEI

Melhor atriz - Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye) ACERTEI

Melhor ator coadjuvante - Troy Kotsuer (No Ritmo do Coração) ACERTEI

Melhor atriz coadjuvante - Ariana DeBose (West Side Story) ACERTEI

Melhor filme estrangeiro - Drive My Car (Jpaão) ACERTEI

Melhor roteiro original - Licorice Pizza ERREI

Melhor roteiro adaptado - No Ritmo do Coração ACERTEI

Melhor fotografia - Ataque dos Cães ERREI

Melhor edição - Duna, mas pode ser qualquer outro MEIO QUE ACERTEI

Melhor direção de arte - Duna ACERTEI

Melhor figurino - Cruella ACERTEI

Melhor cabelo e maquiagem - Os Olhos de Tammy Faye ACERTEI

Melhores efeitos visuais - Duna ACERTEI

Melhor trilha sonora - Duna ACERTEI
 
Melhor som - Duna ACERTEI

Melhor canção - Dos Oruguitas (Encanto) ou No Time to Die (realmente não sei) MEIO QUE ACERTEI

Melhor longa em animação - Encanto ACERTEI

Melhor documentário - Summer of Soul ACERTEI

Melhor curta-metragem - The Long Goodbye ACERTEI

Melhor curta em animação - Bestia ERREI

Melhor curta documental - Audible ERREI

Ou seja: "No Ritmo do Coração" vai levar todos três Oscars a que foi indicado, enquanto que "Ataque dos Cães, que teve 12 indicações, ficará com dois ou três. Assim é a vida.

Quatro erros em 22 categorias. Nada mau, hein?

sábado, 26 de março de 2022

LOLLA LÁ

Entre 2016 e 2018, era impossivel ir a um show ou a uma peça sem ouvir "Fora Temer", muitas vezes vindo do próprio palco. A moda de 2022, é claro, é "Fora Biroliro" e vivas ao Lula. Foi o que aconteceu ontem durante o show da Pabllo Vittar no Lollapalooza, amplamente repercutido pela imprensa. O Bozo, claro, não gostou, e acionou o TSE contra a organização do festival por propaganda eleitoral antecipada. Isso vindo do cara que nunca desceu do palanque e toda semana promove motociata, jetskiata e jeguiata. E é só um aperitivo do que vem por aí na campanha, com pinta de ser a mais judicializada e violenta de todos os tempos. Não há de ser nada, porque o Edaír vai acabar K.O..

sexta-feira, 25 de março de 2022

ESTRELAS NO ESCURO

Existe um formato de entrevista chamado "roundtable", ou mesa redonda. Ele é muito usado quando o entrevistado é uma megacelebridade, sem tempo nem saco para 300 conversas individuais. Antigamente, funcionava da seguinte maneira: ao redor de uma mesa, sentava-se o ator (muitas vezes, mais de um), um assessor de imprensa e de quatro a seis jornalistas. O papo fluía bem, embora eu ainda prefira o one-on-one. Tudo isso evaporou com a pandemia. Agora, as grandes produções internacionais promovem roundtables via Zoom, que estão mais para imensas coletivas. Participam de 25 até 200 repórteres - que tal? E forma-se uma fila, com cada um sendo chamado para fazer uma única pergunta e pronto. Claro que não dá certo. Já participei de algumas, e o resultado é sempre frustrante. Temos que ouvir um monte de gente despreparada fazendo perguntas idiotas, e esperar com paciência pela nossa vez. Que, às vezes, nem chega. Foi o que aconteceu ontem. Marcaram uma roundtable com três atrizes famosas, para o horário ingrato das nove da noite (elas estavam em Los Angeles). Passei metade do dia em função disso, vendo os episódios da série que elas participam e fazendo pesquisinha. Queria estar preparado! Mas claro que, quando chegou a hora, o troço atrasou uns quarenta minutos. Quando finalmente começou, uma das estrelas havia feito forfait, e as outras estavam sem vídeo. Escuridão total. Pior: as duas falavam bem longe do microfone, e simplesmente não dava para ouvir nada. Depois de uma hora de tortura, a roundtable acabou. Não tive a chance de fazer minhas perguntas geniais, que mudariam o curso da história. Mandei e-mails mal-criados e estou puto até agora. Nunca mais vão me chamar para nada.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A BANDA FAVORITA DA SUA BANDA FAVORITA

Ufa. Levei mais de um ano, mas finalmente consegui ver "Os Irmãos Sparks". O documentário de Edgar Wright sobre a minha banda favorita em atividade chegou a várias plataformas brasileiras, disponível para compra ou aluguel. Mas eu duvido muito que alguém mais além de mim tenha se interessado. A imensa maioria das pessoas nunca ouviu falar em Ron e Russell Mael, mas eles têm uma importância no meio musical desproporcional ao pouco sucesso que fazem. Para mim, assistir este filme, foi como rever a minha vida em fast forward, lembrando de onde eu estava a cada lançamento. Sou fã deles desde 1974, quando o "Fantástico" exibiu o clipe de "This Town Ain't Big Enough for Both Us". De lá para cá, comprei ou baixei todos os álbuns, no formato que fosse. Os Mael nem sabem que eu existo, mas são meus companheiros de viagem. Queria muito poder entrevistá-los, ou mesmo ver um show - uma lacuna no meu CV. Já que isto nem está no horizonte, vou me sossegar com este longa.

NOIVA EM FUGA

Tadinho do Carluxo. O Zero-Dois estava de casamento marcado para este sábado, 26 de março, mas vai continuar solteiro. Hoje foi revelado que sua noiva, a estudante gaúcha Georgia Paiva Azambuja rompeu o noviado no começo deste ano. Um noivado meio secreto, porque não há fotos dos dois juntos dando sopa na internet. Enfim, cada um sabe o que faz. Longe de mim insinuar qualquer coisa.

quarta-feira, 23 de março de 2022

A OUTRA ANITTA

Falar mal do esforço de Anitta em emplacar uma carreira internacional virou moda, especialmente entre alguns leitores desse blog. Só que esta semana a Girl from Rio está por cima da carne seca. Ou melhor, em quarto lugar entre as mais tocadas do mundo no Spotify com "Envolver" (OK, nos EUA ela está na 180a. posição). Mas a galera esquece que existe uma espécie de outra Anitta, a espanhola Rosalía, que  lança singles sem parar mas não emplaca um hit nas paradas americanas. Só que ninguém implica com ela, talvez porque seu trabalho seja mais original e consistente que o da brasileira. Depois de surgir como uma renovadora do flamenco, Larrosalía agora lança "Motomami", que atira em várias direções sem nunca perder a personalidade. Várias faixas têm nomes japoneses, como "Sakura" e "Hentai", mas a sonoridade tem pouco de oriental. São reggaetóns, baladinhas, sevillanas, além de algumas francamente inclassificáveis. Todas em espanhol, e eu aprecio essa resistência de Rosalía em se submeter ao jugo do inglês. "Motomami" já entrou para a minha lista de melhores do ano, e tomara que inspire Anitta a superá-lo em breve.

A MÁ EDUCAÇÃO

Num país decente, não só Milton Ribeiro já estaria demitido, como o próprio desgoverno do Edaír correria perigo. Mas os escândalos são tantos e tão frequentes que acabamos anestesiados. Apesar da grita na imprensa, duvido muito que o ministro da Deseducação sofra mais do que um puxão de orelhas. Até porque o vedadeiro culpado não é ele: é o Biroliro, que o mandou atender pedidos de pastores e tolerar a corrupção em uma das pastas mais poderosas do Esplanada. Também acredito que muitos brasileiros ignorem o que é o estado laico. Para essa galera, usar as verbas da educação para construir igrejas é uma prerrogativa normal de um governante. Que as eleições cheguem logo, porque antes delas nada vai acontecer.

terça-feira, 22 de março de 2022

I MAY DESTROY YOU

Eu estava empolgadíssimo com "A Idade Dourada". Sou viciado em "Downton Abbey", e queria ver o que o roteirista Julian Fellowes faria com a aristocracia de Nova York do final do século 19. Foi a época em que magnatas fizeram fortunas, mas penaram para ser aceitos pela esnobe elite da cidade. Só que o primeiro episódio da série me desapontou um pouco. Achei novelão demais, com diálogos dignos do Walcyr Carrasco de tão óbvios. Agora suspeito que só ali teve a mão dos executivos da HBO, pois os capítulos seguintes foram ficando cada vez melhores. O ápice foi o de ontem, o nono e último dessa primeira temporada. A senhora Bertha Russell, riquíssima porém mal-nascida, conseguiu, através de uma ligeira chantagem, arrastar para o baile de debutante de sua filha ninguém menos do que a senhora Caroline Astor, a imperatriz informal do soçaite novaiorquino. A primeira é fictícia, mas inspirada em Alva Vanderbilt. A segunda existiu mesmo, e era chamada de Lina pelos últimos - tal qual essa grande dama dos dias de hoje, Linn da Quebrada. Agora, tem coisa mais provinciana do que um lugar onde uma única dama detém o poder de decidir quem é "bem" e quem não é? Dizem que a alta sociedade de Nova York podia ter apenas 400 integrantes, pois esta era a capacidade máxima do salão de festas da sra. Astor. A treta com a sra. Russell também é baseada num caso real, mas é duvidoso que as protagonistas tenham travado um diálogo tão ferino quanto seus avatares na tela. "Você está ciente de que eu posso te destruir, se eu quiser?", rosna Lina, em pleno baile da rival. "Claro", responde Bertha, "mas você não fará isto. Nós somos parecidas demais. E eu posso ser uma boa amiga, se você me deixar".

A chegada de parvenistas é um tema que soa fútil para os dias de hoje, mas Jean-Michel rendeu grandes obras na literatura. Como o livro "A Idade da Inocência", de Edith Wharton, ou a novela "Os Ossos do Barão", de Jorge Andrade, baseada em sua peça do mesmo nome. Esta última trazia o conflito para a São Paulo de meados do século 20, com os autodeclarados quatrocentões discriminando os imigrantes e seus filhos, apesar desses serem muito mais ricos do que os primeiros. Eu cheguei a presenciar essa mentalidade dentro da minha própria família. Minha mãe é quatrocentona por parte de pai e, por parte de mãe, descende de dois governadores do estado de São Paulo, Carlos de Campos e Bernardino de Campos. Já meu pai, embora nascido em Fortaleza, era um carioca da Tijuca, muito bem educado mas sem berço engalanado. Acredita que minha avó, que não tinha onde cair morta, o esnobou durante muito tempo? Papai levou uma vida requintada e sempre nos deu de tudo, mas não chegou a construir patrimônio. tudo que ele deixou quando morreu foi um título do Country Club, que precisou ser vendido e dividido entre os cinco filhos. Mas o caso dele não contraria a regra imutável: o dinheiro sempre vence. De nada adianta os antigos socialites reclamarem. O dinheiro sempre vence.

SEMENTES DE MOSTARDA

Ontem comecei uma nova fase do meu tratamento. Minha primeira aplicação de Folfiri, o avançado protocolo quimoterápico que seguirei daqui pra frente, estava marcada para as 16 horas. De manhã, quando eu ainda estava em casa, o pessoal da Folha me procurou. "Você pode entrevistar Fulano de Tal às 18h30 de hoje? O repórter que estava escalado se enrolou". Como eu não sou de recusar trabalho, topei na hora, e só depois fui me certificar de quanto tempo duraria a aplicação. "Ah, no máximo uma hora e meia", me garantiu meu irmão mais novo, que já passou por um perrengue parecido. Fiz as contas e concluí que estaria de volta em casa antes das seis. Foi então que, ainda na parte da manhã, chegou uma nova mensagem da Folha: "Fulano desmarcou. Vai ficar para outro dia". Beleza. Acontece...

Cheguei à clínica pontualmente e fui rapidamente atendido. "A que horas eu devo estar saindo daqui?", perguntei para a recepcionista. "Bom, a primeira vez é sempre a mais longa, então imagino que lá pelas sete e meia da noite". Ufa, suspirei por dentro. Ainda bem que Fulano desmarcou. Ia ser punk entrevistá-lo daqui, com meu mísero celular.

Aí me levaram para uma salinha privada, com poltrona reclinável e monitor de TV. Uma enfermeira me explicou em detalhes todos os efeitos colaterais que eu poderei ou não sentir. Aí aplicou um soro no meu port-o-cath, depois um medicamento para náusea e por fim a quimio propriamente dita. A função já estava em andamento quando apareceu uma médica. "Quer fazer acupuntura?" Uai, eu nem sabia que o meu plano incluía isto. Contei que nunca havia feito (aquelas agulhas me dão um pouco de aflição), e a doutora me tranquilizou. Iria apenas aplicar sementes de mostarda na minha orelha, em pontos que correspondem aos órgãos humanos. Com eles, eu vou me sentir mais zen, mais bem disposto. Topei, claro, e um minuto depois minha orelha esquerda havia virado uma horta. Se chover, nascerão vistosos pés de mostarda.

Tudo na santa paz, até que chega uma mensagem da assessora de imprensa. "Fulano quer remarcar! Podemos fazer a entrevista às 18h30, como estava previsto?". Já eram 17h40. "Podemos, vamos nessa!". Seja o que Deus quiser. Tenho apenas que apagar alguns aplicativos do meu celular para abrir espaço para baixar o Zoom, e depois rezar para a bateria - que já estava por volta dos 50% - durar até o fim da conversa. Não, eu não havia levado carregador nem laptop. Me julgue.

Por volta das 18 horas chegou um lanchinho, que eu devorei para controlar a ansiedade: um sanduichinho, um suquinho, um chazinho (de erva-cidreira - me irrita esse hábito brasileiro de chamar de chá qualquer infusão. Chá é chá preto no mundo inteiro, menos aqui). Péssima ideia. 

A entrevista com Fulano começou às 18h45, e àquela altura eu já estava me sentindo apertado. MUITO apertado. Mas vamos nessa, é só meia horinha, nas provas de resistência do BBB eles aguentam muito mais. O papo em si começou bem. Meu entrevistado é simpático, acessível e, apesar de nunca termos nos falado, conhecemos muita gente em comum, o que sempre facilita as coisas. A conversa rolava solta quando meu celular avisou: bateria fraca, só mais 20%. Alertei Fulano que eu poderia cair a qualquer momento, mas vamos em frente. Enquanto isto, minha bexiga já estava do tamanho de uma lua de Júpiter, e eu começava a suar em bicas. Cacete, essa porra já está fazendo efeito?

Entrevista deliciosa, algumas revelações inéditas, e de repente mais um aviso: 10% de bateria. Como já tínhamos coberto vários assuntos, resolvi ir encerrando. Mas outros temas surgiam, e fomos nos alongando até onde desse. Nisto, entrou uma enfermeira no quarto, para avisar que ia aplicar o infusor. Meu entrevistado ouviu, não teve como. Resolvi então abrir o jogo: estou no meio de um tratamento médico. Como ele já tinha falado pouco antes do cãncer que sua mulher venceu, me senti à vontade para contar: estou fazendo quimioterapia. Ele respondeu que já estava desconfiado, porque eu enquadrei sem querer os controles que ficam na parede atrás da minha poltrona. Também se impressionou com a minha disponibilidade, me desejou sorte e me garantiu que já deu certo. Foi nesse clima de otimismo que o meu celular morreu de repente.

A enfermeira apareceu novamente para instalar o infusor, mas eu gritei que precisava ir correndo ao banheiro antes de qualquer coisa. Saí arrastando o totem junto, com a bolsinha de quimio ainda conectada ao meu port-o-cath. Chegando ao reservado, me senti esvair em água suficiente para levantar o nível do sistema Cantareira. O suor também sumiu. Necas de efeito colateral. Era só a energia que o meu corpo estava queimando para me manter sequinho enquanto eu precisasse.

Voltei para o quarto, reclinei a poltrona e me joguei. Estava me sentindo exaurido, mas também orgulhoso do que havia feito. Agora tenho uma nova história para contar, se algum dia eu for convidado ao programa do Porchat (a anterior era a dos macacos do Camboja - vai dizer que você nunca pensou em qual seria a sua?). A enfermeira levou mais meia hora para finalmente reaparecer. Implantou o infusor e eu deixei a clínica por volta das 20 horas, sozinho e cambaleante. Voltei de metrô.

Quando cheguei em casa, algo curioso aconteceu. Contei pro meu marido a tarde lôka que eu tive, e senti meu corpo se revigorar. Aí liguei pro meu irmão e contei tudo de novo. Parecia que eu tinha cheirado umas três carreiras. Assisti aos episódios de "A Idade Dourada" e "A Amiga Genial" sem cair no sono, o que é raro, e fui para a cama depois de meia-noite e meia. Ainda chequei e-mails, ouvi música para relaxar, li um pouco do meu livro e apaguei a luz depois da uma. Não preguei olho a noite inteira. Nem um remedinho adiantou. Mas foi uma insônia sem angústia. Ao contrário, só pensamentos felizes cruzavam a minha cabeça. Talvez eu tenha me contagiado com o entusiasmo do meu entrevistado, que é de fato uma força da natureza. Ou vai ver que são as 12 sementinhas de mostarda já mostrando a que vieram.

segunda-feira, 21 de março de 2022

CORNO MANSO MAS NEM TANTO

Adrian Lyne foi um dos cineastas que mais marcaram os anos 80 e 90. Filmes como "Flashdance", "9 e 1/2 Semanas de Amor" e "Atração Fatal" tinham o que a crítica da época chamava de "linguagem publicitária", com fotografia requintada, edição de videoclipe e trilha sonora em primeiro plano. Mas o que fez mesmo a fama de Lyne foi a pegada erótica de seus longas, que o público adorava - "9 e 1/2 Semanas" ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo. Talvez por isto mesmo este octogenário diretor britânico tenha ficado quase duas décadas sem filmar. A caretice reina sobre o mundo contemporâneo, e não só no Brasil. Mas eis que surge "Águas Profundas", adaptação de um romance de Patricia Highsmith, autora de "O Talentoso Mr. Ripley". Um casal junto há um certo tempo vive agora uma relação aberta, mas desequilibrada. Ela faz questão de exibir seus amantes nas festas, para o desespero de seu discreto marido. Até que os Ricardões começam a aparecer mortos, e só há um único suspeito por esses crimes. Ben Affleck nunca apareceu tão soturno, mas quem tem uma atuação surpreendente é a belíssima cubana Ana de Armas. Os dois até tiveram um casinho durante as filmagens, mas hoje ele já está de volta com Jennifer Lopez. Espero que não tenham vivido uma relação tão doentia quanto seus personagens. Só que "Águas Profundas" é rasinho, e nunca mergulha na complexidade do casal protagonista. Mas, com lindas locações em Nova Orleans e nenhuma enrolação, até que é um programa decente para um sábado de chuva.

domingo, 20 de março de 2022

VISÕES DO EURO

Ainda faltam quase dois meses para o Eurovision, e tomara que a guerra na Ucrânia já tenha acabado até lá. De qualquer maneira, os reflexos do conflito europeu mais violento desde 1945 devem ser sentidos no festival. "Stefania", a candidata ucraniana, continua sendo apontada como a favorita pelas casas de apostas, e sua vitória não seria apenas política: a música é boa mesmo. Outra que segue uma fórmula parecida, misturando folclore e música eletrônica, é a francesa "Fulenn", defendida pelo cantor Alvan e o trio vocal Ahez. Parte da letra é em bretão, a língua do Asterix. Também tem dancinha, indispensável para viralizar no TikTok.
Portugal escolheu uma canção com o título mais português possível, "Saudade, Saudade", da cantora Maro. Por isto mesmo, é surpreendente que parte da letra seja em inglês. Os portugueses se recusaram durante décadas a cantar em outras línguas, e venceram o Eurovision de 2017 com "Amar pelos Dois" sem abrir mão dessa escolha. Pelo menos essa nova faixa não é o pop genérico que muitos países preferem inscrever.
A Lituânia é o único país báltico que nunca venceu o Eurovision, mas talvez seja questão de tempo. Suas concorrentes estão cada vez melhores, e "Sentimental", de Monika Liu, ainda ganha pontos por ser inteirinha em lituano. Mesmo assim, duvido que vá longe. Minha visão premonitória diz que a vitória será da Ucrânia. Pelo menos na música.

sábado, 19 de março de 2022

GLENNVERSÁRIO

Hoje é o aniversário da Glenn Close. Minha atriz favorita faz 75 anos, e muita gente está aproveitando a data para lembrar que ela foi indicada oito vezes ao Oscar e não ganhou em nenhuma. Mas o maior prêmio para um ator é uma carreira longa e bem-sucedida, e isto a Glenn já tem faz tempo. O próximo papel em que a veremos é o de uma espiã britânica que vive no Irã, na segunda temporada de "Tehran". Uma das minhas séries favoritas de 2020 retorna em 6 de maio, e eu já estou contando os segundos que faltam. E pro Oscar da Glenn, falta quanto?

A VERY STRANGE ENCHANTED BOY

Em 1985, fui a Nova York pela primeira vez como um adulto (já havia estado lá duas vezes, aos 10 e aos 12 anos de idade). Me hospedei na YMCA, vi o máximo de peças da Broadway que meu orçamento aguentou e finalmente me aventurei pelo SoHo. Lá, a grande atração era a exposição conjunta de Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat, na galeria Tony Shafrazi. Claro que eu não comprei nenhum quadro, mas trouxe o poster ao lado, que enfeitou meu quarto por muito tempo - hoje eu não sei onde o enfiei. Um ano e meio depois, Warhol morreu por causa das complicações de uma cirurgia, com apenas 58 anos de idade. Basquiat se foi em 1988, aos 27, vítima de uma overdose. A relação entre os dois é esmiuçada no quarto episódio de "Os Diários de Andy Warhol", em cartaz na Netflix. A série é um manancial de imagens de arquivo preciosas, mas o mais impressionante talvez seja a voz de Warhol recriada por inteligência artificial, lendo os diários que ele escreveu de 1976 a 1987. Mas já vou avisando que não é para qualquer um: é preciso ter interesse por artes plásticas e pela cena nova-iorquina dos anos 60 aos 80, quando Warhol reinou soberano. Os episódios são longos e cheios de detalhes, e o ritmo não é vertiginoso. Mas quem prestar atenção vai descobrir pérolas como "Blowjob", o revolucionário curta que Warhol rodou em 1964. São nove minutos com a câmera fixa no rosto de um sujeito que recebe sexo oral. O erotismo é um tema frequente na obra de Andy Warhol, mas ele próprio se dizia assexuado, apesar de não ser. Teve dois longos namoros com rapazes bonitões, e mesmo assim ainda se achava indigno. Pior: se achava feio. É verdade que seu traços lembram os de um um boneco de ventríloquo, mas beleza é atitude. Para ser bonito, é preciso se sentir bonito. Pelo menos, Warhol nos deixou uma das obras mais belas e influentes do século 20.

sexta-feira, 18 de março de 2022

TELEGRAM EXTRAVIADO

Nunca baixei o Telegram, e nem pretendo baixar. Não é por razões ideológicas. Já basta o WhatsApp, onde assessores de imprensa para quem eu nunca dei meu número me infernizam dia e noite. Agora, nem se eu quisesse: Alexandre Moraes finalmente mandou suspender o funcionamento do Telegram no Brasil, depois de meses de solicitações que não foram respondidas. O app, ficou evidente, está pagando para ver. Talvez ache que o apoio do Edaír seja suficiente para ele não sair do ar. Já na Alemanha, que não é governada pela familícia, o Telegram cumpriu direitinho todas as ordens judiciais que recebeu, sem criar caso. Sei que estou sendo preconceituoso, mas não consigo confiar numa empresa que surgiu na Rússia (logo onde), passou por diversos países e hoje está sediada em Dubai - uma escolha curiosa, já que não existe liberdade de expressão nos Emirados Árabes Unidos. Também sei que o Telegram é uma ferramenta importante para grupos que se rebelam contra ditaduras, mas o buraco no Brasil é mais embaixo. Sem ele, Carluxo e sua gangue ficam sem sua plataforma preferencial, o que é ótimo. Por mim, o Telegram não precisa mais voltar.

quinta-feira, 17 de março de 2022

YES I'M GONNA BE A STAR

É preciso preparo para encarar as três horas de "Drive My Car". Abasteça-se de guloseimas, vá ao banheiro antes e, acima de tudo, conscientize-se de que o diretor Ryûsuke Hamaguchi opera numa frequência diferente da nossa. No mundo dele até existem pobres, mas ninguém sofre muito por falta de dinheiro. O que interessa mesmo são as relações pessoais, os diálogos e os silêncios, as emoções que custam a vir à tona. Nesta longuíssima adaptação de um conto de 40 páginas de Haruki Murakami, um consagrado diretor de teatro ainda está de luto pela morte da mulher, ocorrida dois anos antes. Ela o traía, mas mesmo assim ele sofre. Também está com um princípio de glaucoma, então eu super me identifiquei - pingo um colírio específico desde 2008, mas nunca desenvolvi nenhum sintoma. Convidado a montar uma versão multilíngue de "Tio Vânia" num festival em Hiroshima, ele é obrigado por razões contratuais a ceder a direção de seu SAAB Turbo vermelho a uma motorista profissional. O carro é velho e tem a direção do lado esquerdo, o que pode ser complicado num país de mão inglesa como o Japão. Mas é também a concha onde ele se esconde dos problemas e pensa em soluções para seus espetáculos. Não há muito mais conflito do que isso, e uma hora a menos de duração talvez me levasse às lágrimas. Do jeito que está, é lento e lindo, e nunca realmente chato, mas a frieza generalizada só é quebrada na última meia hora. Mesmo assim, o passeio vale a pena. Até porque, indicado a quatro categorias no Oscar, "Drive My Car" é o favorito na de melhor de filme internacional.

COMO SE TORNAR O PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA

Mesmo sabendo que a manobra é inconstitucional, Biroliro insiste em manter a censura ao filme "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola". Os objetivos são dois. O primeiro é mostrar que o gado fez de tudo para proteger nossas criancinhas do Fábio Porchat, e quem não deixou foram os malvados do STF amparados pela malvada Constuição. Mas não temam, bezerrinhos, que no segundo mandato a gente se livra de ambos! O segundo objetivo é testar as águas. A extrema-direita quer mesmo a volta da censura. Não para combater a pedofilia, é claro, mas para perseguir desafetos, como o Danilo Gentili acabou de se tornar. Este talvez fosse o momento de um gesto de desobediência civil: finalmente assistir a "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", na Netflix ou no Globoplay. Mas não tenho coragem. Prefiro defender a liberdade de expressão, sem ver o que foi expresso.

quarta-feira, 16 de março de 2022

GOLPE DE ESTADO E ALFINETADAS

Maria Thereza Goulart tinha 19 anos quando se tornou a segunda-dama do Brasil, 25 quando virou primeira-dama e 28 quando seu marido Jango foi deposto por um golpe militar. Sua beleza e juventude encantaram a imprensa internacional, e sua imagem elegante foi criada com a ajuda de Dener Pamplona de Abreu, o pioneiro da alta-costura brasileira. A peça "Maria Thereza e Dener" evoca esta amizade, e faz pensar nos pontos comuns entre a gaúcha e o paraense. Ambos tiveram suas trajetórias brilhantes interrompidas cedo: ela, pelo fim abrupto da carreira política do marido; ele, pela morte aos 42 anos, de cirrose. Dener, aliás, merecia um espetáculo só dele, pois é apenas um coadjuvante no texto de José Eduardo Vendramini. Aqui o foco é Maria Thereza, e a própria estava na plateia nessa noite de estreia, lépida e faceira aos 85 anos de idade. O som ainda está baixo e a iluminação um pouco opaca, mas nada que o diretor Ricardo Grasson não possa consertar facilmente. O essencial já está lá: as atuações de Angela Dippe, que idealizou a peça, e Thiago Carreira, que faz um Dener quase idêntico ao que assombrou a minha infância. Eu morria de medo de virar um viado trágico que nem ele.

PORT-A-CATH

Parece o nome de uma praia chique em Massachussets, dessas em que a família Kennedy tem casa de verão. Mas o port-a-cath - ou, como se diz aqui no Brasil, portocat - é um dispositivo subcutâneo que libera quimioterapia diretamente na corrente sanguínea, durante dias a fio. O "porto do cateter". Ontem instalei o meu. Foi uma cirurgia rápida, que levou só uma hora e não me obrigou a dormir no hospital. Na segunda que vem começo uma nova fase do meu tratamento. A cada duas semanas, vou encher o tanque do port-a-cath, e deixar que o remédio faça sua mágica.

terça-feira, 15 de março de 2022

A CORAGEM QUE VOS FALTA

Tenham um mínimo de compaixão, seus escrotos. Um pingo de dignidade. Parem de mandar comentários maldosos sobre a morte do Paulo Vaz. Até porque eu nem leio até o fim: quando percebo qual é o assunto, suas mensagens de ódio vão direto para o lixo. Ninguém tem o direito de fazer acusações levianas. Ninguém está autorizado a tornar pior uma situação que já é horrível. Não tem nada mais asqueroso do que bicha moralista. Além de tudo, são umas covardes, porque se escondem atrás do anonimato. Popó tinha uma coragem que vocês jamais terão, com suas vidinhas de merda regadas a ressentimento. Recolham-se à vossa insignificância. No meu blog vocês não têm vez.

segunda-feira, 14 de março de 2022

BÍBLIA BÍBLIA BÍBLIA

Toda série de TV tem uma espécie de manual de instruções, com a descrição detalhada dos personagens, resumos de temporadas e possíveis arcos dramáticos. Sabe como os roteiristas chamamos esse calhamaço? Bíblia. Em breve talvez não possamos mais, se o Congresso aprovar o estúpido projeto de lei do deputado federal Pastor Sargento Isidório (Podemos - BA). Esse PM aposentado quer que seja proibida a palavra "bíblia" fora do contexto religioso. Seu objetivo declarado é impedir a publicação no Brasil da "Bíblia Gay", que saiu nos Estados Unidos em 2018. Acontece que ali, sim, a palavra está sendo usada no contexto religioso: é uma versão da Escritura que revê o palavreado homofóbico de alguns versículos. Como a Bíblia está em domínio público há milênios e ninguém pode exigir direitos autorais sobre ela, qualquer tipo de censura a esse tipo de iniciativa é absurda e inconstitucional. O mais chocante é que partidos da esquerda à direita apoiam o tal PL, que deve ser votado ainda esta semana. Pois eu proponho a desobediência civil desde já. Vamos falar BÍBLIA em qualquer contexto. Tipo, quem quer ir ao cinema amanhã BÍBLIA à noite? Ixe, me bateu uma vontade louca BÍBLIA de comer pipoca. Esse BBB 22 BÍBLIA tá muito chato, hein? Preciso levar meu cachorro ao BÍBLIA veterinário. E tome BÍBLIA!

O GADO SEM ASSUNTO

Tá batendo o desespero na minionzada. Outubro está chegando, Lula segue na liderança e eles precisam urgentemente criar um clima de pânico moral. Na falta de um escândalo de verdade, Mario Frias recorreu ao filme "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", lançado em 2017, que havia passado por baixo do radar dos birolistas. A desculpa é a cena acima, em que Fábio Porchat tenta - mas não consegue - molestar dois garotos sexualmente. As redes sociais dos bovídeos se cobriram de falsa indignação neste domingo, e até o Infeliciano apagou o tuíte feito cinco anos atrás elogiando o longa. O "pastor" alega que não viu a cena em "cuestão", pois devia estar atendendo ao telefone naquele momento. Então tá. Esqueçamos que, na época, o Danilo Gentil, que escreveu o livro e estrelou o filme, ainda era um fiel escudeiro do Bozo. Foi só ele não apoiar mais o Despreparado para virar alvo do Gabinete do Ódio (Porchat sempre foi). Esse gado já mugiu mais e melhor, hein?

domingo, 13 de março de 2022

PANDEMIGAS

"A Lista" nasceu online, como tantas outras peças que estrearam durante a pandemia. No elenco, duas atrizes que estavam confinadas juntas: Lília Cabral e sua filha Giulia Bertolli, de 25 anos, em seu segundo espetáculo profissional. O sucesso na internet fez com que o ótimo texto de Gustavo Pinheiro ganhasse uma montagem presencial, que passou pelo Rio no final do ano passado e agora chega a São Paulo. O ponto de partida é simples: naquele início de 2020, quando não havia vacina e pouco se sabia sobre o novo coronavírus, uma moça faz, toda semana, as compras de supermercado para uma vizinha mais velha, que prefere não sair de casa. A lista nunca muda, mas sempre vem alguma coisa errada, o que dá motivo para longas discussões entre as duas. Essas querelas bobas acabam se tornando confissões, em que uma expõe à outra seus dramas e suas  dúvidas. Não há exatamente uma trama, mas um estudo de personagens: principalmente a professora aposentada vivida por Lília, cuja amargura não a deixa usufruir da saúde que tem. A atriz está ótima como sempre, esbanjando um timing cômico cada vez mais afiado. Quem surpreende é Giulia, que parece ter nascido pronta. Sem ser uma cópia escarrada da mãe, ela exibe muitas das qualidades maternas, mas tem personalidade própria e envergadura para voos mais altos. "A Lista" é uma boa comédia sobre as mazelas da classe média brasileira em tempos de pandemia, e também o desabrochar de um novo talento. Giulia Bertolli acaba de entrar no mapa.

sábado, 12 de março de 2022

A MATURIDADE É VERMELHA

Quando certa manhã Meilin Lee acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em um enorme panda vermelho. Trata-se de uma maldição: ao chegar à puberdade, todas as mulheres de sua família viram pandas, sempre que sentem emoções intensas como raiva ou... desejo sexual. Sim, "Red - Crescer É uma Fera" talvez seja o primeiro desenho animado da Disney em que a protagonista é dominada pelo tesão. A vermelhidão do panda também é uma metáfora óbvia para a menstruação, e o sinal de que finalmente chegou a hora de uma garota desobedecer aos pais. O que não é nada fácil se você é de origem chinesa, mesmo vivendo na Toronto cosmopolita de 2002. A ambientação 20 anos atrás serve para que Meilin e suas amigas não vivam grudadas nas redes sociais, e também é um reflexo da vida da diretora sino-canadense Domee Shi, que ganhou um Oscar pelo curta "Bao" e tinha a mesma idade de sua personagem - 13 anos - naquela época. "Red" critica o tradicionalismo da cultura chinesa sem jamais faltar ao respeito, e também ri das mudanças bruscas da adolescência como só um time formado majoritariamente por mulheres conseguiria fazer. Ainda passa uma mensagem de empoderamento sem precisar de palestrinha, e é uma festa para olhos e ouvidos. Mas, apesar de classificado como livre, não é indicado para crianças muito pequenas. Não sei nem se a minha neta de oito anos já está preparada para ver.

sexta-feira, 11 de março de 2022

SE ACASO VOCÊ CHEGASSE

A melhor razão para assinar Globoplay são as séries documentais originais da plataforma. Todo mês sai uma. Este ano já teve uma sobre Nara Leão, outra sobre Celso Daniel e agora "Elza & Mané - Amor em Linhas Tortas", a história do atribulado dentre duas lendas da cultura brasileira. Para quem não sabe, Garrincha estava no auge da carreira quando largou mulher e OITO filhas para ficar com Elza Soares, que estava se tornando uma grande estrela da nossa música. Quando eu falo "auge", quero dizer que dali em diante o jogador rolou ladeira abaixo. Seus joelhos estourados o tiraram de campo, e seu alcoolismo acabou matando-o em 1983. Nos quase 20 anos em que ficou junto, o casal enfrentou escândalos na imprensa, exílio em Roma, altos e baixos financeiros e uma relação que não raro descambava para a violência física. A série de Caroline Zilberman conseguiu entrevistar a própria Elza antes que ela morresse em janeiro, e ainda traz depoimentos de Ruy Castro (biógrafo de Garrincha), Zeca Camargo (biógrafo da cantora), Chico Buarque e muitos outros. Além da riqueza das imagens de arquivo, impressiona a fraqueza de Garrincha e a força de Elza Soares. Foi graças a ela que ele sobreviveu tanto tempo, apesar de ser acusada de destruí-lo naquela época. Uma mulher-monumento, que ainda vamos celebrar muito.

quinta-feira, 10 de março de 2022

AGORA, FORTE CANDIDATO A MELHOR FILME?

"Belfast" é uma graça. Bem escrito, bem filmado, bem atuado, com humor e emoção em quantidades exatas.  Sem falar nas divinas minissaias e cabelões de 1969. Agora, forte candidato ao Oscar de melhor filme? Sem desmerecer o trabalho do Kenneth Branagh, "Ataque dos Cães" é muito melhor. Este sim, vai entrar para a história do cinema. Mas "Belfast" merece ser visto. É uma versão da infância do próprio Branagh, que migrou da Irlanda do Norte para a Inglaterra antes de entrar na adolescência. A razão principal foram "the troubles", os conflitos entre católicos e protestantes que assolaram os irlandeses durante décadas. Duvido que os pais do diretor fossem tão glamurosos quanto Jamie Dornan e Caitríona Balfe, mas tá valendo. Já Judi Dench e Ciáran Hinds (pronuncia-se algo como "cório") foram indicados aos Oscars de coadjuvantes meio porque sim. Na vida real, ele quase tem idade para ser filho dela; no filme, são casados. Curto e sem barriga, "Belfast" é um programa agradável. Agora, forte candidato ao Oscar de melhor filme?

PAPA DON'T PREACH

A homofobia não é um raio em céu azul. Ela nunca ocorre sozinha. Uma pessoa homofóbica não é um exemplo de virtude em todas as outras áreas. Porque a homofbia denota falta de caráter, e quem não tem caráter pode fazer qualquer coisa. Que o digam os pastores espumantes que bradam pela "família", mas exploram seus fiéis e exigem isenção fiscal. Que o diga o patriarca Cirilo, o líder da Igreja Ortodoxa Russa. A intolerância dos ortodoxos é conhecida, mas Cirilo - que passou pelo Brasil em 2015, a caminho de uma base russa na Antártica - se esmerou na escrotidão. Aliado de Vladimir Putin, o papa russo disse que a invasão da Ucrânia é justificada porque o país realiza paradas de orgulho gay. Como se ele fosse santo: seu gosto pelo luxo é famoso. Numa foto de 2009, ele ostenta um caríssimo relógio Breguet no pulso. O escândalo foi tão grande que a imagem foi "editada" - apagaram o relógio. Mas esqueceram de apagar o reflexo dele na mesa... Isto só reforça a minha teoria: gente sem caráter também costuma ser burra.

quarta-feira, 9 de março de 2022

QUE O ENTRETENIMENTO ESTEJA COM VOCÊ

Descobri a "Entertainment Weekly" na banca do aeroporto de Congonhas, e devorei a revista durante uma Ponte Aérea. Tudo que eu gostava estava lá, com a exceção de fotos de homens pelados. Nas três décadas seguintes ela se tornou a minha bíblia, e uma fortíssima influência no meu estilo de escrever. Cheguei a ser assinante durante um tempo, mas foi uma experiência frustrante: a revista já estava bancas brasileiras muito antes de chegar à minha casa. Mesmo assim, ela continuou sendo a minha favorita, até pela falta de concorrência direta. Mas a internet não perdoa ninguém. As vendas despencaram e a publicação se tornou mensal, apesar de manter o "Weekly" no título. Passei a acessar todo o conteúdo pelo site, que hoje em dia é gratuito. No Brasil, a revista se tornou rara. A última que eu comprei foi em maio do ano passado, pela bagatela de 100 reais, e nem cheguei a folhear. Hoje sai o último número impresso da EW, com fotos exclusivas da série "Ob.-Wan Kenobi", que estreia em breve no Disney +. Fico triste porque sou antigo e ainda gosto de papel, mas não muito. A diversão continua no site ew.com, e não tem hora para acabar.

A VIDA CONTINUA

A série "After Life" talvez não seja o programa mais indicado para alguém como eu, que está em tratamento contra o câncer. Afinal, o protagonista perdeu a mulher para a doença, e não há um único episódio em que ele não se torture assistindo a vídeos dela e chorando as pitangas. Eu tinha até parado de ver depois da estreia da segunda temporada: simplesmente não me pareceu lá muito interessante. Mas agora chegou a terceira e última safra à Netflix, e choveram elogios de todos os lados. Então me prontifiquei a assistir tudo, desde o ponto em que havia parado. E gostei bastante. Ricky Gervais, talvez a pessoa menos sentimental do mundo, consegue emocionar sem cair um segundo na pieguice, e ainda faz graça dos patéticos moradores da fictícia cidade inglesa de Tambury. O episódio final é especialmente bonito: o mal-humorado Tony (não podia ter outro nome?) chega à conclusão de que não ligar para nada não é o superpoder que ele imaginava. O que importa mesmo é se importar, espalhar amor e viver a vida ao máximo, porque ela é curta. Então vivamos, pois, vivamos.

terça-feira, 8 de março de 2022

PRATICAMENTE INTEGRADAS À SOCIEDADE

Biroliro deve achar que o Dia Internacional da Mulher serve para mandar flores para esposas e secretárias, agradecendo-as por enfeitar os ambientes com sua beleza e doçura. É impressionante, porém não surpreendente, que ele tenha decidido fazer um discurso em homenagem ao que imagina ser o sexo frágil diante de um fundo rosa, com uma gravata rosa no pescoço. Edaír também aproveitou a data de hoje para assinar um decreto garantindo a distribuição de absorventes para mulheres pobres - parecido ao que ele vetou meses atrás, sob a alegação de que o texto não previa de onde sairiam os recursos. Este agora tampouco prevê, mas as eleições estão chegando, não é mesmo? O triste - ou não - é que, dizendo que o mulherio precisa ser "ajudado", ele não vai conquistar nenhum voto além dos que já têm. E aí, vai chorar feito uma menininha de cinco anos que levou um puxão no cabelo.

GET INTO THE GROOVE, YOU'VE GOT TO PROVE

Não tem maneira melhor de comemorar o Dia Internacional da Mulher do que participando do Madonna Bootcamp! Uma espécie de campo de concentração em que as jovens postulantes ao papel principal na cinebiografia da cantora são submetidas a sessões de até 11 horas seguidas de aulas de dança. Elas também têm que provar que sabem cantar como Madonna no início da carreira (ou seja, mal) e que têm a desfaçatez necessária para usar uma gargantilha onde se lê "boy toy" e ainda assim conquistar o mundo. Mas é tudo em prol da causa feminista! Afinal de contas, o filme sobre Madonna será escrito, produzido e dirigido por uma mulher: a própria Madonna, maaas é claaaro. Estão no páreo nomes como Emma Laird, Florence Pugh e Julia Garner (de longe a minha favorita pessoal), além de praticamente todas as starlets brancas de língua inglesa entre 20 e 30 anos de idade. Não era para menos. O personagem é daqueles que ganham Oscar, se a Academia esquecer por alguns instantes sua birra ancestral com a Material Girl. Mas nada me tira da cabeça de que Madonna está promovendo esses jogos vorazes só para provar que não há ninguém no mundo capaz de fazer o que ela fez. No final do processo, não será supresa alguma se ela escalar a si mesma, aos 63 anos, para se interpretar aos 23.

segunda-feira, 7 de março de 2022

MAMÃE MEU PREÇO CAIU

Nacionalistas russos colocaram a cabeça do Mamãe Falei a prêmio. Mesmo sendo inimigos dos ucranianos, eles entenderam que as declarações do deputado atingem todas as mulheres, especialmente as louras eslavas. A coluna da Mônica Bergamo na Folha deu a notícia em primeira mão e depois removeu a página do ar; não haveria "interesse público". Mas é claro que há, principalmente por causa do valor do prêmio: míseros dois mil reais, uma humilhação e tanto para quem foi um dos políticos mais votados de 2018. Agora o Mamãe Caguei (pela Boca) corre o sério risco de ser cassado por seus pares, até porque tem poucos aliados na Assembleia Legislativa: brigou com quase todos os colegas nesses seus três anos e pouco de mandato. O boca suja é só o mais recente integrante da turma de babacas de direita que vem se ferrando em 2022: Monark, Kim Kataguiri, Adrilles... E ainda estamos em março!

INVENTANDO SIMON

Além de terem enganado dezenas de pessoas e embolsado milhares de dólares usando identidades falsas, os vigaristas Anna Delvey e Simon Leviev têm outra coisa importante em comum, que os tornam frutos do nosso tempo: ambos usaram o poder da internet para construir suas imagens sedutoras. A estelionatária russa, cuja história é contada na série "Inventando Anna", tinha no Instagram a arma indispensável para projetar sua vida imaginária de glamour. Já o israelense se vendia no Tinder como o herdeiro de um império de diamantes, em busca de uma alma gêmea com quem compartilhar suas aventuras e sua fortuna. Só agora, depois de mais um mês do filme ter chegado à Netflix, é que fui assistir a "O Golpista do Tinder", e gostei muito do formato escolhido. Deixar que três vítimas do pilantra contassem seus dramas em primeiro pessoa, expondo conversas pessoais e fotos íntimas, leva o espectador diretamente à dor vivida por essas mulheres. Uma delas nem achava que estava namorando: Simon era só um amigo muito divertido, a quem ela não hesitou em ajudar num momento supostamente difícil. Espanta a falta de empatia do sujeito, que deixou inúmeras garotas por toda a Europa atoladas em dívidas. Espanta ainda mais o fato de ele estar livre, leve e solto, depois de apenas cinco meses preso por usar um passaporte falso. O cara roubou algo como 10 milhões de dólares, e agora se tornou uma celebridade que negocia livremente os direitos de sua própria história. Isso também diz muito sobre a nossa época.

domingo, 6 de março de 2022

UMA OFERTA QUE VOCÊ NÃO PODE RECUSAR

Eu tinha 12 anos quando "O Poderoso Chefão" estreou no Brasil. Era tão jovem que não havia carterinha falsificada que me fizesse entrar no cinema. Só fui ver a primeira obra-prima de Coppola mais de 20 anos depois, em VHS, e uma única vez. Mas o filme está tão incorporado ao DNA cultural contemporâneo que há sequências inteiras que eu sei de cor, como a do cavalo. Fui dar uma refrescada na memória com a versão comemorativa dos 50 anos desse monumento, restaurado em 4k e som Dolby. Meu sobrinho de 21 anos também foi, junto com a namorada. Ela achou "muito violento", saiu para ir ao banheiro e ainda dormiu alguns minutos na poltrona. Já eu e ele não tiramos os olhos da tela: há algo no "Chefão" que apela aos homens, mesmo a um gay como eu. Em termos formais, não vi nada de muito inovador. Coppola ousaria bem mais em seus longas seguintes, com decupagens inusitadas, efeitos arrebatadores e roteiros não-lineares. Mas o padrinho tem algo em comum com outro clássico de enorme duração, "E o Vento Levou": a ação nunca para. Não há barriga. Tem sempre alguma coisa acontecendo. A grande novidade talvez tenha sido o sangue espirrando aos jorros, algo raro até então. Enfim: assistir ao "O Poderoso Chefão" na tela grande é uma oferta irrecusável. Agora preciso rever a parte dois.

sábado, 5 de março de 2022

UM INSTANTE, STROMAE

Quantos anos você tinha quando descobriu que o nome do Stromae é "maestro" em verlan, a velha gíria francófona que inverte as sílabas das palavras? Talvez muitos, porque esse cantor e compositor belga despontou há relativamente pouco tempo, em 2010, quando "Alors on Danse" se tornou um hit global. Só que, desde então, esse filho de mãe flamenga com pai ruandês lançou um único single, que passou meio batido. Stromae aproveitou esse longo período longe da mídia para se casar, ter um filho e tratar os ataques de pânico que o impediam de se apresentar em público. Agora parece que está tudo sob controle. "Multitude", seu primeiro álbum em quase uma década, faz jus ao nome, percorrendo vários estilos diferentes ao longo de suas 12 faixas. Os dois primeiros singles, "Santé" (uma homenagem aos profissionais que enfrentaram a pandemia) e "L'Enfer" (sobre saúde mental) são ótimos, mas o disco como um todo é bem mais variado. E impossível de classificar: Stromae pode ser muitos, como indica a capa do novo trabalho, mas também é único. Ninguém se parece com ele.

sexta-feira, 4 de março de 2022

SÃO FÁCEIS PORQUE SÃO POBRES

O MBL é chgado num stunt. Numa ação meramente publicitária, para chamar a atenção da mídia ou fingir para seus seguidores que eles estão fazendo alguma coisa. Foi assim com o carro de som enviado para peitar o PCO numa manifestação em frente ao consulado russo no Rio. Também é o caso da suposta viagem de Arthur do Val e Renan dos Santos às fronteiras da Ucrânia, da qual não vi até agora uma única prova concreta além dos áudios que vazaram na tarde desta sexta. O Mamãe Caguei (Pela Boca) diz que as ucranianas "são fáceis porque são pobres" e daí para baixo. As declarações já custaram ao deputado estadual o fim de seu namoro, o repúdio de Sergio Moro, um pedido de cassação e mais um monte de processos que ainda virão por aí. Como que o cara acha que pode mandar áudios num grupo de WhatsApp, porque ninguém irá mostrar nada à imprensa? É isto o que nos salva da vitória final da extrema-direita. São todos burros, por mais que digam que leram Olavo. Carluxo, Zambelli, Bia Kicis, Kim Kataguiri... um mais tapado que o outro.

A ESTRELA DO NORTE

O tcheco Alphonse Mucha ficou conecido como o dono do traço mais marcante do período Art Nouveau, assinando cartazes de peças de Sarah Berhnardt e anúncios de vinhos franceses. Mas ele também era um pintor de mão cheia, e sua obra-prima é a série "Epopeia Eslava", que ele pintou no entusiasmo pela criação da Tchecoslováquia, depois da 1a. Guerra Mundial. A tela mais impressionante é esta acima, conhecida por vários nomes: "Mulher na Natureza", "Sibéria" ou, o meu favorito, "A Estrela do Norte". Inspirado pela fome que grassava na Rússia depois da revolução bolchevista, Mucha usou sua mulher como modelo para a camponesa que, perdida na neve, percebe de repente que fo-deu. A única salvação possível é a espiritual, simbolizada pela estrela acima de sua cabeça. Sei que, na concepção original, a vítima era a própria Rússia. Mas dá perfeitamente para ressignificar o quadro, imaginando a Ucrânia sendo cercada pelas tropas de Vladimir Putin.

quinta-feira, 3 de março de 2022

WE DON'T TALK ABOUT GEORGIA

Coitados dos georgianos. Eles se sentem europeus, mas a recíproca não é verdadeira. A Georgia está longe demais dos grandes países da Europa Ocidental, e nunca teve um papel importante na história do continente. Por isto que ninguém deu a menor pelota quando o pequeno país do Cáucaso foi invadido por tropas russas em 2008. Seu pecado foi pleitear a entrada na OTAN. Mas Vladimir Putin não quis nem saber: arrancou duas regiões de maioria russa do norte do país, a Ossétia do Sul e a Abkhazia, e as declarou repúblicas independentes. O autocrata da Rússia achou que a invasão da Ucrânia seguiria um script parecido, mas errou rude. Em toda minha vida, nunca vi o mundo tão unido contra alguém. Enquanto isso, a Georgia foi jogada às traças. Embora branco, cristão e falando uma língua indo-europeia, o povo de lá não é visto pelos ocidentais com a mesma compaixão que dedicamos aos ucranianos. Agora eles pediram para entrar na União Europeia, mas o timing não poderia ser pior. Continuaremos não falando sobre a Georgia.