domingo, 16 de janeiro de 2022

A ABADESSA REBELDE

Benedetta Carlini foi uma abadessa italiana do início do século 17, julgada e condenada por lesbianismo. Dada a visões místicas, ela também era muito popular na pequena cidade toscana de Pescia, onde ficava seu convento. Essa história verídica serviu de base para o livro "Atos Impuros" de Judith Brown, adaptado para o cinema no filme "Benedetta" de Paul Verhoeven. O trailer dá a entender que a personagem foi uma pobre vítima da Igreja Católica, mas o longa tece uma história bem mais complexa. Benedetta feria a si mesma com cacos de vidro, para fingir que tinha os mesmos estigmas de Cristo - um sinal inequívoco de santidade. Tão manipuladora e desonesta que, a certa altura, eu fiquei torcendo para a Inquisição pegá-la logo. Só que do lado de lá também não havia flor que se cheire: só padres e bispos sonhando com mais poder, dada a possibilidade de transformar Pescia num centro de peregrinação como se tornou Assis depois de São Francisco. Segue-se então um interessante jogo político e erótico que culmina com uma das sequências mais descabeladas que eu já vi, digna de uma novela de Walcyr Carrasco. No papel-título está Virginie Efira, uma belga cada vez mais onipresente no cinema francófono. Além de bastante desibinida, ela é bonita e boa atriz, mas não tem a allure das divas da geração anterior, como Adjani, Huppert ou Ardant. Esse quesito é preenchido no filme por Charlotte Rampling, majestosa mesmo quando coberta de pústulas. Em suma: "Benedetta" não é tão sacrílego como pretende sua campanha de marketing, mas leva o espectador para outro mundo, hipócrita e cruel. Pensando bem, não muito diferente daquele em que vivemos hoje.

3 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro

    "Não há nada de novo debaixo do sol"
    (Kohelet)

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  2. "Além de bastante desibinida, ela é bonita e boa atriz, mas não tem a allure das divas da geração anterior, como Adjani, Huppert ou Ardant."

    Acho que você mudaria de opinião se assistisse Sybil (Não sei se já assistiu). Ela é um "acontecimento" ali.

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    1. Eu vi "Sybil" na quinta passada, quando passou no Telecine Cult. Foi justamente ali que eu me dei conta de que ela não tem o glamour das estrelas mais velhas. Aliás, o cinema francês parece ter superado a fase das divas. As atrizes mais requisitadas dos dias de hoje fazem a linha 'mulher normal".

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