segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

FAROFA PELA CULATRA

Carluxo ainda não percebeu que 2022 não é 2018. Toda vez que estoura um escândalo, o suposto gênio do mal inventa algo para tentar reverter a queda de popularidade do Genocida seu pai. Como não dá para internar o velho no Vila Nova Star toda semana, dessa vez o Gabinete do Mal lançou mais uma variante do pão com leite condensado. O objetivo da foto do frango com farofa era distrair a atenção dos 30 milhões que o Despreparado gastou no cartão de crédito corporativo desde 2019. Mas o tiro saiu pela culatra, e com estrondo. Só o gado mais manso ainda compra a falsa ideia do presidente simplezão. O resto da humanidade caiu matando, horrorizada com tamanha nojeira, e gastança com o cartão só piorou a "cuestão". A repercussão foi tão ruim que Fabio Faria removeu a foto das redes, mas o estrago foi feito. Agora o Bozo também pode ser chamado de Porco.

O MELHOR MAU ATOR DO MUNDO

Mesmo tendo solenemente ignorado "Matrix Revoluções" em 2003, eu planejava ver a ressurreição da franquia no cinema. Mas aí veio Natal, Réveillon, a variante ômicron e o escambau. Ainda bem que, pouco mais de um mês depois de estrear, "Matrix Ressurreições" já está na HBO Max, E ainda bem que eu não gastei meu rico dinheirinho para ver essa confusão dos diabos, em que uma discussão sobre o que é realidade e o que não é só serve de pretexto para lutas que já vimos mil vezes antes. O mais interessante do filme acaba sendo o Keanu Reeves, que era tido como uma piada 20 anos atrás e continua sendo uma piada até hoje. A diferença é que antes ríamos dele, e hoje rimos com ele. Keanu se revelou um cara super legal, com um senso de humor auto-depreciativo irresistível. O incrível é que, ao contrário de outros canastrões, ele não melhorou nada com o passar do tempo. Segue fracassando com louvor na prova mais implacável de atuação, que são as cenas em que o personagem não diz nada. Mesmo calado, Keanu é péssimo. Mas tem carisma, simpatia e uma aura de cool que o tornam o melhor mau ator do mundo. Whoa!

domingo, 30 de janeiro de 2022

QUERO SER BELGA

Já sou um pouco belga desde que me rendi ao Tintin aos sete anos de idade, mas agora eu quero oficializar a coisa. Tudo por causa do novo passaporte daquele país, apenas o mais legal de todos os tempos. Cada página é ilustrada com cenas das HQs que transformaram a Bélgica na meca do gênero. Tem Tintin, claro, mas também tem Lucky Luke, Blake & Mortimer, Strapontam e os Schtroumpfs (conhecidos por aqui por seu nome americano, os Smurfs). Quem conhece um bom despachante?

(Obrigado ao Daniel Cassus pela dica)

OH PLEASE STAY BY ME, DIANA

Já fui monarquista convicto. Até votei pela monarquia parlamentarista no plebiscito de 1993. Não porque eu seja conservador, mas muito por bichice pura: gosto do pageantry, dos rituais, das fofocas da corte. Também achava que um rei poderia encarnar o salvador da pátria com que os brasileiros tanto sonham, e deixar o governo na mão de profissionais. Hoje sou republicano. As monarquias modernas são todas disfuncionais (não que as atigas não fossem), e os escândalos são frequentes. Uma família real é só um bando de vagabundos em férias eternas às custas do contribuinte. Um dos episódios que me fizeram mudar de ideia foi a maneira como os Windsor trataram Diana. Ela era um cavalo selado rumo ao futuro, e eles preferiram enxotá-la. Não faltam livros, filmes e peças sobre o assunto. Que talvez seja esgotado pela próxima temporada de "The Crown", com a divina Elizabeth Debicki como a princesa de Gales. Antes disso temos "Spencer", uma fantasia sobre o que teria acontecido num Natal no começo dos anos 90, quando a rainha e seu clã se reuniram no castelo de Sandrigham. O filme do chileno Pablo Larraín é quase um monólogo de Diana, que está em todas as cenas. Um fardo pesado para Kristen Stewart, e ela até que se sai bem. Mas será que realmente merece o Oscar? Sua atuação me pareceu pouco orgânica em vários momentos. Ela está sempre ACTING. Mas Diana também estava, desempenhando um papel que não havia escolhido. Kristen evoca à perfeição a linguagem corporal da princesa, com os ombros sempre tensos e o rosto pendendo para um dos lados. Também exala ternura nas cenas com os filhos. O que falta são interações com Charles e o resto da realeza. Quase todos os diálogos dela são com membros da criadagem. "Spencer" não é fácil de ser visto, pois a protagonista está sempre deprimida, tendo visões com Ana Bolena ou vomitando o que acabou de comer. É quase um filme de arte. Ou de horror, embora o final seja feliz. Pelo menos, naquele momento - a gente sabe o que aconteceu depois.

sábado, 29 de janeiro de 2022

NEIL YOUNGER

Não bastassem o Facebook, o Twitter, o Telegram et caterva, temos um novo vilão na internet. O mais novo peso-pesado big tech a se revelar do mal é o Spotify, a maior plataforma de áudio do mundo, sem a qual nenhum artista consegue emplacar um hit. O Spotify gastou nada menos do que 100 milhões de dólares para ter a exclusividade do podcats de Joe Rogan, notório negacionista. Foi o que bastou para Neil Young, 76 anos, anunciar sua saída da plataforma, no que foi prontamente seguido por Joni Mitchel, 78. Ambos são lendas vivas, mas passaram pelo auge de suas carreiras décadas atrás. Um boicote ao Spotify só funcionaria se tivesse a adesão de Taylor Swift, BTS e outras bobagens que a criançada adora. Mas essa turma não tem o culhão dos veteranos. Neil e Joni já causaram um desastre de relações públicas para o Spotify, que está há dois dias na base do "veja bem", jurando que já tirou mais de 20 mil episódios de podcast antivaxx do ar. Só por isto, os dois mostraram que continuam muito mais jovens e desafiadores do que qualquer estrelinha do pop contemporâneo. Hey hey, my my, rock'n'roll can never die.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

ANIRA GENÉRICA

Anitta jogou a toalha? Cansada de não conseguir emplacar um hit global depois de cinco anos de tentativas, a cantora parece ter mudado de tática. Adeus, referências às favelas brasileiras e à latinidade; olá, pop genérico que poderia ser cantado por qualquer pessoa. "Boys Don't Cry" é um produto de laboratório, com menos de três minutos para não espantar os tiktokers e produção de Max Martin, responsável por sucesso de Lady Gaga, Adele, The Weeknd e muitos outros. O resultado é bem mediano, mas os brasileiros estão a-man-do. Resta saber se o verdadeiro público-alvo do single, nos Estados Unidos, vai gostar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

QUAAAL O QUÊ

Quem viu a ótima série "O Canto Livre de Nara Leão" sabe que a cantora era dona de seu nariz e sempre fazia o que bem entendesse. Mesmo assim, Nara gostava de músicas de mulher sofrida. Encomendou uma a Chico Buarque e recebeu "Com Açúcar, com Afeto", que se tornou um de seus maiores sucessos. Na mesma série, o autor revela que não vai mais cantar essa obra, porque deu ouvidos às reclamações das feministas. Uma polêmica estourou na internet esta semana, totalmente inútil: há mais de 40 anos que Chico não inclui "Com Açúcar" no repertório de seus shows. Mas acho injusto policiar quem resolver cantá-la. Nem toda música precisa traduzir fielmente os sentimentos de seu intérprete, muito menos se adequar às demandas sociais em voga. Além do mais, um cantor é como um ator: pode vestir e despir personas diferentes, e entoar letras que não são do seu ponto de vista pessoal. Mas a garotada atual está habituada com as letras quilométricas do sertanejo, que muitas vezes não cabem nas melodias e usam rimas pobres para descrever situações banais do cotidiano. Falta estudo para essa galera, falta entender o contexto, fala discernimento. E falta afeto.

BOSTA DE IAQUE

Em 2007, depois de uma saraivada de críticas, a Academia de Hollywood mudou o sistema de seleção dos indicados ao Oscar de filme internacional. Os velhinhos que faziam essa escolha deixavam passar batidos títulos importantes, dando preferência a draminhas rurais com criancinhas fofinhas. A Academia então criou a lista de nove semifinalistas, com os seis filmes favoritos dos velhinhos e três filmes apontados por um comitê especial. Deu certo. Só que, a partir de 2020, o shortlist inflou para 10 pré-selecionados, e o comitê foi extinto. Resultado: bobagens comoventes como "A Felicidade das Pequenas Coisas" agora entram para a lista. O filme vem do remoto reino do Butão, encravado no Himalaia entre a Índia e a China. E faz parte da campanha de marketing que aquele país já faz há alguns anos, em que se declara o campeão mundial da "felicidade nacional bruta". O roteiro é óbvio. Um jovem professor quer largar tudo e virar cantor na Austrália. Mas, enquanto seu visto não sai, o governo o despacha para a aldeia de Lunana, a oito dias de viagem da capital. O lugar não tem internet, e a eletricidade só rola quando bate o sol. O aquecimento é feito à base de bosta de iaque. Mesmo assim, o rapaz se encanta com o lugar e começa a rever seus planos. Pena que o filme mostre muito pouco da aldeia em si. O pai de uma das alunas é alcoólatra, e fica por isto mesmo. Não vemos nenhum outro prédio além da escola. As paisagens são bonitas, mas, como disse meu marido, "parecem Teresópolis". Eu fiz questão de ver para ticar mais um país no meu mapa-mundi cinematográfico. Mas agora temo que essa tolice chegue entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme internacional.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

AÍ TEM COISA

Edaír Biroliro passou cinco dias com a agenda em branco, de sexta a terça. Nesta quarta, o Despreparado teve apenas dois compromissos oficiais, no final da tarde. Ele também cancelou uma viagem que faria à Colômbia esta semana. Trabalho nunca foi seu forte, mas desculpa oficial é que ele está trístissimo com a morte da mãe. Só que alguém aí realmente acredita que o Genocida se abale com a morte de quem quer que seja? O que corre à boca pequena é que ele testou positivo de novo. Não duvido nada que a ômicron tenha pego o Bozo, já que ele não para de aglomerar sem máscara. Só lamento que, apesar da criminosa pregação antivaxx, ele provavelmente se vacinou em segredo.

TELEPHONE ARAB

"Perfeitos Desconhecidos" é uma das franquias de maior sucesso do cinema atual. Produzido na Itália, o primeiro filme saiu em 2016. A premissa é simples e um pouco absurda: durante um jantar, um grupo de casais amigos concorda em deixar na mesa todos os celulares. Qualquer ligação recebida será atendida pelo viva-voz, qualquer mensagem será lida em voz alta. Claro que todos os amantes decidem ligar naquela noite, e o quebra-pau é generalizado. Barato, com poucos cenários, o longa já foi refeito em diversos países. A versão espanhola está disponível na Netlifx há alguns anos. Agora a paltaforma escolheu "Perfeitos Desconhecidos" para ser seu primeiro filme original rodado em árabe. O elenco reúne a nata dos atores libaneses, inclusive a também diretora Nadine Labaki, e um casal de estrelas egípcias, que é para atrair audiência em todo o Oriente Médio. O curioso é que os personagens se comportam como se estivessem no Ocidente. Há pouco sabor local, tirando o idioma e o cardápio delicioso do jantar - que inclui até mouloukhia, uma espessa sopa egípcia, que minha finada professora de inglês, uma judia de Alexandria, me deu certa vez para provar. Os casais se cumprimentam com beijinhos no rosto, nenhuma mulher usa véu, todo mundo bebe vinho e uísque e não há nenhuma menção à religião ou aos costumes tradicionais. Entre as revelações há muitos casos extraconjugais e até a homossexualidade de um dos homens, Afinal, a ação se passa em Beirute, a mais ocidentalizada das capitais árabes. Por isto mesmo, "Perfeitos Desconhecidos" vem sendo atacado por conservadores, que o acusam de querer apenas a destruição da sociedade. Menas, né, gente? É só um filminho burguês para ser visto, digerido e esquecido, apesar dos bons diálogos e das boas atuações. Também serve como alerta: nunca deixe seu amante te ligar à noite.

(O título desse post é uma referência a uma música da banda árabe-alemã Dissidenten, do hit "Fata Morgana". Quem lembra?)

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

OS RICOS TAMBÉM BRIGAM

"Downton Abbey" foi uma série encantadora. Eu me viciei logo no primeiro episódio, e nunca mais larguei. O tema principal eram as mudanças do mundo sobre a aristocracia rural inglesa, mas era tudo em câmera lenta. Afinal, eles estavam na região de York, no norte do país, longe da agitação de Londres. "Donwton Abbey" também tinha poucos vilões. O conflito maior era de classes, entre patrões e empregados, e mesmo assim todo mundo era bacana. Para coroar, o texto de Julian Fellowes era sutil, com diálogos críveis e boas doses de humor. Nada disso acontece em "A Idade Dourada", que vem sendo vendida pela HBO como "Downton Abbey nos Estados Unidos". A ação se passa em Nova York no final do século 19, uma época pra lá de agitada, quando o país começou a se tornar uma potência mundial. Infelizmente, o primeiro capítulo parece ter sido escrito por Walcyr Carrasco. Tudo é escancarado, sublinhado e martelado na cabeça do espectador - entendeu? E agora, você entendeu? O maior embate se dá entre o "old money", as famílias que já estava na cidade desde os tempos coloniais, e os burgueses que vêm enriquecendo com indústrias e ferrovias. Uma das personagens é uma nova rica que não mede esforços para ser aceita pela alta sociedade tradicional. Ela não bom senso nem bom gosto, mas seus vestidos - claramente inventados - são fa-bu-lo-sos. Também é meio forçado que a matriarca caretona tope contratar uma secretária negra depois de um minuto de conversa. mas os aristocratas de Fellowes sempre foram idealizados, muito mais bonzinhos que os da vida real. O que não bate com o estilo do autor é o clima folhetinesco. Vai ver que a nova direção da HBO, ávida por audiência, o forçou a se "popularizar". Bom, a minha audiência eles terão de qualquer jeito. Só não garanto que eu vá adorar.

O INFERNO ESTÁ EM FESTA

Eu tento não acreditar em retribuição divina. Não dá para confiar numa divindade que mata tanta gente bacana, na flor da idade, e deixa que os canalhas vivam felizes para sempre. Mas, pelo jeito, a morte de Olavo de Carvalho não precisou de nenhuma intervenção sobrenatural. O guru do gado sempre negou a gravidade da pandemia, e vinha fazendo campanha contra a vacinação. Taí: morreu de Covid. A minionzada vai dizer que ele sofria de outra mazelas, o que é verdade, mas o novo coronavírus deu aquele empurrãozinho providencial. Satanás precisou abrir todas as portas do inferno para receber seu novo inquilino, e o resultado é que São Paulo vive hoje o dia mais quente do ano. A festa de más-vindas já está rolando, e não tem hora pra acabar. Agora falando sério: não dá para negar o simbolismo de Olavo morrer junto com o birolismo, que está na UTI para ver se sobrevive até outubro.  Com ele também deve falecer sua influência, que se provou nefasta com as indicações dos incompetentes Abraham Weintraub e Ernesto Araújo para o ministério. Agora fazendo galhofa: e os milhões que Olavo devia a Caetano Veloso, quem pagará? Aliás, quem vai chupar o c* do Caetano?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

NA CARNE DOS OUTROS NÃO DÓI

Imagine uma instituição como a Fiocruz, na linha de frente do combate à pandemia, ter 11 milhões cortados de seu orçamento neste momento delicado. Biroliro ainda limou verbas da educação, do INSS, da saúde, do saneamento, das comunidades indígenas, dos quilombos. E o Paulo Guedes ainda achou pouco. Como que a Faria Lima ainda apoia o pior ministro da Economia que esse país já teve? Achou que, por Guedes ter enriquecido no mercado financeiro, também enriqueceria o Brasil? O sujeito não tem um pingo de consciência social. Mas, voltando aos cortes: adivinha o que sobrou incólume? Foi o fundo eleitoral de quase cinco bilhões, que vai ajudar a reeleger os bandidos do Centrão. E ainda tem minion que acredita em "nova política".

domingo, 23 de janeiro de 2022

SINAI DOS TEMPOS

Já vi muitos filmes em 2022, em casa ou no cinema, mas estou meio devagar com as séries. Terminei de ver a segunda temporada da odiosa "Emily in Paris" e acompanho os episódios semanais de "The Greta", mas só fui maratonar mesmo "A Garota de Oslo", disponível há mais de um mês na Netflix. Trata-se de uma coprodução entre Noruega e Israel que mistura a tensão política da situação no Oriente Médio com lances do mais puro folhetim. Os capítulos são curtos, só meia hora cada, e sempre terminam com ganchos difíceis de resistir. Uma garota norueguesa é sequestrada, junto com dois irmãos israelenses, pelo Estado Islâmico em uma praia no Sinai. A mãe dela se abala para Jerusalém e aciona diplomatas que ela conheceu em 1993, durante as negociações de paz em Oslo entre Israel e Palestina. Daí rola de um tudo, e tem até cenas rodadas na Faixa de Gaza. Mesmo assim, "A Garota de Oslo" não chega aos pés de séries similares que me deram taquicardia, como "Califado" e "Teerã" - cuja segunda temporada vem aí com ninguém menos que Glenn Close.

sábado, 22 de janeiro de 2022

BEM FEITO, ELIZÂNGELA

Elizângela faz parte da minha memória afetiva. Sou antigo o bastante para lembrar dela ainda adolescente, como a jovem assistente do Capitão Furacão. Depois ela me acompanhou ao longo de inúmeras novelas, e eu ainda a conheci rapidamente nos bastidores do Video Show. É uma graça de pessoa e uma ótima atriz. Mas também é antivaxx, e eu fiquei feliz em saber que ela foi internada em estado grave, com sequelas de Covid, depois de não só não ter tomado uma única dose, como também ter feito campanha contra as vacinas nas redes sociais. Não, não desejo mal a Elizângela, e fico ainda mais feliz em saber que ela está se recuperando bem. Minha satisfação é de outra natureza. Para começar, torço para que este episódio sirva para ela mudar de ideia e pedir desculpas pelas besteiras que andou dizendo. Elizângela escapou, mas vai que alguém que acreditou em seus palpites estúpidos não tenha tido a mesma sorte? Mas também sei que muito antivaxx prefere morrer a dar o braço a torcer. Então, que esta internação sirva para abrir os olhos das outras pessoas. Tão vendo, gente? Que não se vacina corre o risco sério de ser internado como a Elizângela, e até de morrer. Mesmo se pegar a variante ômicron, que de branda não tem nada - é a vacina que está a tornando mais fraca. Então fique boa logo, Elizângela, e volte a brilhar. Seu brilho será ainda mais forte se você esquecer o negacionismo, trocar de time e acreditar na mesma ciência que acabou de te salvar.

VERDE É A COR DO MISTÉRIO

Pelo trailer, "A Lenda do Cavaleiro Verde" parece uma divertida fantasia medieval, com cenas de luta e monstros fantásticos. O filme de David Lowery tem mesmo tudo isso, mas na verdade é quase um poema tonal. Uma viagem lisérgica. Um ritual de iniciação. Não faltam símbolos misteriosos, e os psicanalistas vão passar horas tentando decifrar o significado da raposa que acompanha o protagonista. O roteiro é baseado num épico medieval, "Sir Gawain e o Cavaleiro Verde", que faz parte do ciclo de lendas da corte do rei Artur. No filme, Gawain ainda não é sir: é só o jovem sobrinho do rei (que não tem nome), louco para provar seu valor e ser sagrado cavaleiro. Por isto, quando o misterioso Cavaleiro Verde irrompe em plena festa de Natal, o rapaz é o único que se dispõe a lutar com o monstro - meio que uma árvore petrificada que anda e fala. A proposta é simples: o ferimento que a criatura receber será retribuído dali a exatamente um ano. Se for só um arranhão, o agressor também será arranhado. Só que Gawain comete a imprudência de cortar a cabeça do Cavaleiro Verde, que sai com ela nas mãos como se nada. Um ano depois, o moçoilo inicia sua jornada rumo à Capela Verde, onde terá um novo encontro com seu adversário. A viagem é marcada por incidentes curiosos: Gawain é assaltado, cruza com um grupo de gigantas, recupera a cabeça submersa de Santa Winifred. Também tem diversas oportunidades de provar sua honra e seu valor, e falha em todas. Até que ele finalmente comparece ao seu compromisso, e o desfecho é tão enigmático quanto o que veio antes. Só posso dizer que me lembrou "A Última Tentação de Cristo". "A Lenda do Cavaleiro Verde" está disponível na Amazon Prime Video e com certeza irá desapontar quem espera por uma aventura à la Sessão da Tarde. Porque é um filme-cabeça, com ritmo lento, imagens deslumbrantes e uma trilha sonora que é quase um personagem, de tão presente. Parece um sonho, com muitas camadas e interpretações possíveis. Talvez fique melhor se acompanhado por um charo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A FAMILÍCIA RACHADINHA

O que pretendia Waldir Ferraz ao dizer para a revista Veja que sim, havia rachadinha nos gabinetes do Biroliro e sua prole? Mas, segundo ele, a culpada era Ana Cristina do Valle, a mulher no. 2, que até hoje chantagearia o ex-marido. O Bozo teria que ser mais tapado do que já é para assinar tantas contratações, demissões e recontratações de funcionários fantasmas sem desconfiar que rolava treta ali. Talvez o ex-assessor tenha tentado agradar ao chefe da familícia e receber endosso para se candidatar a deputado, mas o tiro saiu pela culatra. Levou um sabão e soltou uma nota nas redes sociais dizendo que a Veja havia inventado tudo, que ele nunca disse nada daquilo. Só que está tudo gravado... A história é mesmo confusa, mas uma coisa está clara: o círculo íntimo do Despreparado está rachando. Todo mundo quer se candidatar, e não vai ter voto para todo mundo. Então briguem, desgraçados, briguem!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A VOZ DO MILÊNIO

Elza Soares teve uma vida difícilima. Perdeu filhos, perdeu seu grande amor, perdeu muito dinheiro. Passou anos esquecida, mas ressuscitou algumas vezes. Uma delas foi em 1984, quando Caetano Veloso a chamou para gravar "Língua" com ele. Depois ela entrou em baixa novamente, mas reconquistou os holofotes no começo deste século, quando lançou o álbum "Do Cóccix até o Pescoço". Desde então, não parou mais, até esta quinta-feira. Sinto-me consolado por Elza ter sido exaltada ainda em vida. Seus últimos discos foram inovadores e contundentes, revelando uma mulher inquieta, Sempre em busca do novo, sempre ligada ao passado, sempre lutando contra o racismo e a desigualdade. Tive a sorte de conhecê-la rapidamente durante o lançamento de "Elza", a biografia escrita por Zeca Camargo. Um ano depois, a vi no palco pela única vez, na gravação de um especial da Record. Elza Soares era o resumo da mulher negra brasileira. Um talento sublime, uma biografia inacreditável. Ainda teve a felicidade de morrer em casa, tranquilamente, aos 91 anos. E o Brasil teve a sorte de produzir este fenômeno, e a decência de reconhecê-lo a tempo.

A CASA MENOS VIGIADA DA INGLATERRA

"The House", disponível na Netflix, é visualmente assombroso e potencialmente deprimente. Não assista se você estiver em busca de diversão levinha. Trata-se de um longa em animação stop-motion, com três episódios dirigidos por cienastas diferentes. Mas todos se passam no mesmo cenário, em épocas distintas: uma casa suntuosa, que não costuma ser boa com seus donos. No primeiro capítulo, situado no início do século 20, uma família em dificuldades financeiras aceita deixar sua antiga residência em troca de uma mansão, oferecida por um rico arquiteto. No novo endereço, eles nem mesmo precisam mais cozinhar: refeições copiosas são servidas por empregados invisíveis. Mas é claro que there's a catch. Sabe-se lá por quê, o pai começa a se transformar em poltrona, e a mãe em cortinas, deixando desamparadas as filhas pequenas. O segundo episódio é ainda mais desconcertante. Nos dias de hoje, um rato antropomórfico se endividou no banco para arrematar a casa, reformá-la e revendê-la com lucro. O problema é que o lugar está infestado por besouros comedores de carpete, um bicho que eu nem sabia que existia. Há um dispensável balé de larvas e insetos que remete ao pior momento de "Cats", além da desagradável sensação de um castigo imerecido. Mas o último capítulo traz alguma esperança. Num futuro pós-apocalíptico, as águas circundam a casa, agora transformada em hotel. Só restam dois hóspedes que não pagam seus aluguéis, e a proprietária está desesperada. Ah, sim, agora eles são gatos. E pelo menos o desfecho não é uma tragédia absoluta. Um prodígio de técnica e inventividade, ao som de vozes de atores britânicos como Helena Bonham-Carter, Matthew Goode e Miranda Richardson, "The House" é um belíssimo delírio, mas também um filme de terror. Moral da história: não deixe estranhos tomarem o controle do seu lar?

PANTERAS QUARENTONAS

"As Agentes 355" faz uma baita força para ter representatividade. As cinco protagonistas deste filme de ação são de etnias e nacionalidades distintas: a americana Jessica Chastain, a alemã Diane Kruger, a queniana Lupita Nyong'o, a chinesa Bingbing Fan e a espanhola Penélope Cruz. Do grupo, só Lupita ainda não tem 40 anos, que completará no ano que vem. É muito louvável ver mulheres mais velhas distribuindo porrada, apesar da ligeira forçação de barra. Mas os títulos do gênero já desafiam a credibilidade com perseguições impossíveis e arquivilões que querem dominar o mundo. "355" não faz diferente. As heroínas são espiãs de países diferentes, em busca de uma temível arma secreta: um dispositivo capaz de penetrar e dominar qualquer aparelho eletrônico. A princípio rivais, elas acabam juntando forças em nome da sororidade e pelo bem da humanidade. O melhor papel coube a Penélope Cruz, que faz uma psicóloga colombiana sem treinamento formal, trazendo um certo alívio cômico. Depois de um começo promissor, "As Agentes 355" cai no rame-rame habitual, com explosões e pancadaria. Mas a beleza dessas quarentonas e o glamour das locações são de encher os olhos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

NASCE UM ÍCONE

2022 já começou com La Niña Blanca passando o rodo. No domingo se foi a querida Françoise Forton. Hoje foi a vez de Andre Leon Talley, lendário editor de moda da Vogue americana, ainda mais por ser gordo, gay e preto. Mas a notícia mais chocante de todas foi a morte do Gaspard Ulliel. O galã francês tinha só 37 anos, e um filhinho de seis. Já era um astro em seu país e estava prestes a deslanchar uma carreira internacional: ganhou um papel em "O Cavaleiro da Lua", série da Marvel que estreia em março. Justo na semana passada eu vi um filme com ele, "Sibyl", diponível no Telecine Play. Ganhou um César de revelação masculina por "Eterno Amor", de Jean-Pierre Jeuent, e outro de melhor ator por "É Apenas o Fim do Mundo", do Xavier Dolan, e ainda foi indicado ao prêmio dois anos antes por seu papel mais marcante, em "Saint-Laurent", de Bertrand Bonnello. O filme é a melhor das duas cinebiografias do estilista lançadas em 2014, e de quebra ainda tem o Gaspard num glorioso nu frontal. O ator sofreu um acidente de esqui ontem em Grenoble, nos Alpes franceses: colidiu com outro esquiador e feriu o crânio. Não resistiu. Essa é umas razões pelas quais eu não esquio, não patino, não ando de bicicleta... O triste é que Gaspard Ulliel se vai antes de formar uma cinematografia sólida, para a qual ele tinha todo o potencial. Morreu antes de se tornar um ícone. Agora talvez vire.

CANTANDO COM OS ANJOS

Um amigo americano postou no Facebook que o irmão mais velho dele, de 72 anos, morreu de Covid-19 sem ter tomado uma única dose de vacina. Precisei me conter para não mandar um "bem feito" nos comentários, mas por dentro estou aos berros: BEM FEITO. Bem feito também para a cantora tcheca Hana Horká, do grupo folk Asonance, que preferiu se contaminar de propósito do que se vacinar. Ela agora está cantando com os anjos, se é que teve sua entrada garantida no céu. Seu perfil no Twitter foi apagado, para evitar ainda mais dissabores à família. É impressionante como ainda tem antivaxx por aí, ainda mais depois que está mais do que provado que as vacinas protegem contra casos graves e até a morte. O que passa na cabeça torta dessas pessoas, que não enxergam a realidade? A variante ômicron estaria fazendo um strike neste momento, não fossem tantas pessoas já com o ciclo vacinal completo. Então corra, não marque bobeira, tome logo sua terceira ou quarta dose. Fui liberado para tomar a terceira daqui a uma semana, quando sumirem os sintomas da minha sexta aplicação de quimio. Eba!

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

ABRAHAM AS PORTAS DO INFERNO

É mais do que provável que muitos birolistas se esfarelem nas urnas quando chegar outubro. Quem seriam os eleitores, por exemplo, do Mário Frias? Ou do Sérgio Camargo? De todos esses, o que vai me dar mais orgasmos quando perder é Abraham Weintraub, o pior ministro da Educação que o Brasil já teve, incapaz de escrever duas frases sem cometer três erros. O energúmeno acha que tem cacife para se eleger governador de São Paulo e está chateadíssimo com a familícia, que preferiu apoiar o goiano Tarcíso de Freitas para o cargo. A dor de cotovelo é tamanha que Weintraub já deu uma entrevista dizendo que o Bozo soube com antecedência que o Zero-Um estava sendo investigado pelo caso das rachadinhas. Também sinalizou que sabe muito mais e que seu coração é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

ETERNA BOBAJADA

Não quis gastar meu rico dinheirinho para ver "Eternos" no cinema, e fiz bem. Ontem finamente assisti ao filme no Disney +, e é só mais uma bobajada da Marvel. Uma bobajada de luxo, com elenco estelar, diretora ganhadora do Oscar e um roteiro que propõe nada menos do que um desafio a Deus. Aliás, é incrível como os super-heróis atingem diretamente nossa veia politeísta, e estão eles mesmos cada vez mais parecidos com deuses. Mas "Eternos" também tem cenas muito escuras, ritmo irregular, figurinos de escola de samba e um roteiro mais confuso que um antivaxx que tomou vacina. Essa nova safra de personagens da Marvel procura ticar todas as caixas da diversidade: tem mulher mais velha, gordo, preto, gay, branco, surda, indiano, latina, oriental e até pré-adolescente não-binárie. Só faltou a proverbial travesti perneta sergipana, que sempre falta que é para o o povo identitário poder reclamar. E mesmo assim, transbordando pretensões religiosas, boas intenções e custos proibitivos, "Eternos" é só mais uma etapa da expansão do Universo Cinematográfico Marvel. Que, tal qual a variante ômicron, ainda vai chegar em você. Prepare-se.

O PASSARINHO ASSUSTADO

Deu certo. A campanha #TwitterApoiaFakeNews fez com que o Twitter capitulasse e trouxesse para o Brasil a ferramenta de denúncia de informações falsas, ainda em fase de testes nos EUA, na Austrália e na Coreia do Sul. As Filipinas, onde também haverá eleições presidenciais este ano, e a Espanha também serão incluídas. É uma derrota expressiva para a minionzada e os antivaxx em geral, que vão mugir que sua liberdadezinha de expressãozinha está sendo cerceada, yadda yadda yadda. Que se bandeiem todos para o Telegram e para a Truth Social, a rede do Trump, onde terão um alcance muito mais limitado. Agora temos que assustar a Estrela da Morte, vulgo Meta, para que ela faça algo parecido no Facebook e no WhatsApp.

domingo, 16 de janeiro de 2022

NÃO EXISTE RACISMO REVERSO

Todo movimento político tem seus radicais. Existem feministas que pregam a extinção dos homens e a persguição a mulheres trans. Entre os LGBTQIA+, há quem queira a abolição perpétua dos gêneros, e cadeia para quem não usar pronomes neutros. No movimento negro, tem quem seja contra namoros interraciais. Muitas vezes, esses exageros comprometem a imagem de todos os ativistas, que parecem muito mais agressivos do que de fato são. Mas os radicais também são a locomotiva que puxa o trem inteiro para a frente. Eles são necessários para que avanços concretos aconteçam, e não se fique apenas no ora-veja. Mas é sempre importante lembrar que são minoritários, apesar de barulhentos. Não é justo pegá-los como representativos do movimento como um todo. Só que é exatamente isto o que Antonio Risério faz em seu polêmico artigo publicado na Folha de hoje. Todos os exemplos que ele cita no texto são verdadeiros. Daí a extrapolar que existe racismo reverso, é de uma escancarada desonestidade intelectual. Risério esquece de dizer que a Nação do Islã ou casos pontuais de antissemitismo são reações a séculos e séculos de opressão. Esses extremistas são de fato execráveis, mas são tão poucos que nem de longe representam uma ameaça.  No entanto, eles servem à manjada tática da extrema direita de negar a existência de problemas reais e espernear contra problemas imaginários. Não existe o perigo de uma supremacia negra se impor entre nós, porque não existe racismo estrutural de negros contra brancos. Não existe racismo reverso.

A ABADESSA REBELDE

Benedetta Carlini foi uma abadessa italiana do início do século 17, julgada e condenada por lesbianismo. Dada a visões místicas, ela também era muito popular na pequena cidade toscana de Pescia, onde ficava seu convento. Essa história verídica serviu de base para o livro "Atos Impuros" de Judith Brown, adaptado para o cinema no filme "Benedetta" de Paul Verhoeven. O trailer dá a entender que a personagem foi uma pobre vítima da Igreja Católica, mas o longa tece uma história bem mais complexa. Benedetta feria a si mesma com cacos de vidro, para fingir que tinha os mesmos estigmas de Cristo - um sinal inequívoco de santidade. Tão manipuladora e desonesta que, a certa altura, eu fiquei torcendo para a Inquisição pegá-la logo. Só que do lado de lá também não havia flor que se cheire: só padres e bispos sonhando com mais poder, dada a possibilidade de transformar Pescia num centro de peregrinação como se tornou Assis depois de São Francisco. Segue-se então um interessante jogo político e erótico que culmina com uma das sequências mais descabeladas que eu já vi, digna de uma novela de Walcyr Carrasco. No papel-título está Virginie Efira, uma belga cada vez mais onipresente no cinema francófono. Além de bastante desibinida, ela é bonita e boa atriz, mas não tem a allure das divas da geração anterior, como Adjani, Huppert ou Ardant. Esse quesito é preenchido no filme por Charlotte Rampling, majestosa mesmo quando coberta de pústulas. Em suma: "Benedetta" não é tão sacrílego como pretende sua campanha de marketing, mas leva o espectador para outro mundo, hipócrita e cruel. Pensando bem, não muito diferente daquele em que vivemos hoje.

sábado, 15 de janeiro de 2022

TINTIN PARALELO

Como todo mundo, eu pulo os anúncios que o YouTube coloca antes dos vídeos que a gente quer assistir. Mas outro dia eu vi um até o fim, porque o Tintin apareceu logo nos primeiros segundos. Para meu dissabor, era um comercial do Brasil Paralelo, anunciando que a série em animação baseada nos álbuns de Hergé agora está disponível aos assinantes da plataforma. Até aí, beleza, mas o que me deixou bolado foi o texto da locução em off, que dizia que "o desenho do Tintin" (como se antes não houvesse uma HQ) havia sido "cancelado por criticar o comunismo soviético", e que por isto não passa mais em nenhum canal do mundo. Tudo balela, claro. O personagem foi criticadíssimo por causa de seu dois primeiros álbuns. "Tintin no País dos Sovietes", de 1929, é uma sátira tosca e desinformada sobre a então jovem União Soviética, e sumiu de circulação por mais de 50 anos. Só foi republicado na década de 1980, como uma relíquia de outra era. O álbum seguinte, "Tintin no Congo" (ou, na edição brasileira, "na África") é um libelo pró-colonialismo, que trata os negros como bichos e os bichos como alvos a serem derrubados. Também é o reflexo da época. Hergé era então muito jovem, e seus quadrinhos eram publicados por um jornal católico. Mas o autor amadureceu, e nas décadas seguintes Tintin se tornou um paladino antirracista e pró-democracia. Só que ao Brasil Paralelo interessa a narrativa de que Tintin vem sendo perseguido pelo politicamente correto, o que não é verdade - basta ver como o Museu Tintin, na Bélgica, vive lotado. O lado bom dessa história é que os filhos dos reacionários serão expostos a um herói que não tem superpoderes, está sempre aberto ao novo e viaja pelo mundo respeitando as culturas locais. O Brasil Paralelo não se tocou, mas Tintin é um cavalo de Troia.

FIRE BURN AND CAULDRON BUBBLE

Já tinha visto versões de "Macbeth" no teatro e no cinema, mas nenhuma me pegou tanto quanto "A Tragédia de Macbeth". O primeiro filme de Joel Coen sem seu irmão Ethan chegou ontem à Apple TV +, e é nada menos que um arraso. Rodado em estúdio num glorioso preto-e-branco, com pouquíssimas locações externas, a nova encarnação da "peça escocesa" consegue ser fiel ao texto de William Shakespeare e, ao mesmo tempo, absolutamente contemporânea, tanto no tratamento como na mensagem. É extremamente artificial - às vezes lembra teatro filmado - e também orgânica, como se estivéssemos vendo personagens de carne e osso e não atores. E que atores. Denzel Washington está a caminho de sua 9a. indicação ao Oscar, e Frances McDormand só não está no páreo proque levou seu terceiro prêmio da Academia no ano passado. Mas o destaque vai para a britânica Kathryn Hunter, que compõe as três bruxas (ou seria uma só?) de maneira assustadora. As cenas de luta são tão viscerais que nem parecem coreografadas, e a sequência do espírito que surge na água me arrepiou os cabelos. Joel Coen fez todas as escolhas certas, da música à direção de arte, e o resultado está aí: uma obra de arte, para ser vista e revista.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O HOMEM DAS CAVERNAS

Passei a semana tentando não falar das barbaridades cometidas pelo Genocida, mas não dá mais pra segurar. Explode coração. Ontem ele assinou um decreto que autoriza a destruição de qualquer caverna para a construção de qualquer empreendimento "de utilidade pública" - estradas, linhas de transmissão e, se valer a vontade do Paulo Guedes, até cassinos. Edaír confirma assim que não é um homem do século 17, como arriscaram alguns analistas, mas um autêntico troglodita. Uma criatura selvagem, sem o menor lustro de civilização, preocupada apenas consigo mesma e sua família imediata. Ainda bem que em outubro ele entrará em extinção.

BORXIT

Que inveja dos britânicos. Bastou uma mísera festa da firma, realizada em pleno lockdown, para o primeiro-ministro Boris Johnson ver sua popularidade despencar e ter sua renúncia exigida por parlamentares. Já pensou se este mesmo rigor fosse aplicado no Brasil? Biroliro teria sido impichado logo na primeira aglomeração que promoveu em frente ao Alvorada. Sem falar nas motociatas, passeios de motoski, churrascos, aniversários e outras festividades que ocupam quase toda a agenda do nosso suposto presidente Boris Johnson não é tão ignóbil quanto o Bozo, mas é um rufião aventureiro sem o menor estofo para comandar uma das nações mais importantes do planeta. Aderiu ao Brexit por puro oportunismo, e vai pagar a conta quando os britânicos se derem conta do mau negócio que fizeram. Talvez pague até antes. Festinha em dia de luto oficial não é algo que se perdoe por lá. Nem cabelos desgrenhados.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

AI SE EU TE PEGO

Um dos sobrinhos com quem eu passei o Réveillon em São Sebastião testou positivo assim que voltou para o Rio. Corremos a nos testar na quinta passada, e todos demos negativo. Na sexta, fui comer pizza na casa de uma amiga. Hoje ela me avisou que testou positivo e está com sintomas leves. Muitos outros conhecidos, invctos até agora, também estão sucumbindo à variante ômicron. Quase todos já tomaram três doses, e estão na prática enfrentando uma gripezinha. Eu ainda não tomei a terceira: teria que interromper a quimio por 10 dias para tanto, e minha prioridade é outra. Por isto minha paranoia está no nível cinco, com a sensação de que a ômicron vem fechando o cerco à minha volta. Cuidem-se, queridos leitores. Não só continuem a usar máscara, como expulsem do metrô quem não estiver usando. Os imunossuprimidos como eu agradecem.

FALA MANSA

Quem é Ryûsuke Hamaguchi? Eu, que me acho tão cinéfilo, nunca tinha ouvido falar desse diretor japonês até seu filme "Drive My Car" ser escolhido para representar o Japão no próximo Oscar. Desde então, o longa vem acumulando prêmios - o último foi o Globo de Ouro, revelado neste domingo. Enquanto "Drive My Car" não estreia por aqui, "Roda do Destino", o trabalho anterior de Hamaguchi, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros. Fui assistir para tapar o buraco no meu currículo e saí com sentimentos conflituosos. O filme consiste em três episódios, todos protagonizados por mulheres, que exploram as coincidências que afastam e aproximam as pessoas. Não há grandes arroubos de câmera, só uns zooms que parecem amadorísticos de propósito. Mas há muito, MUITO diálogo. Todo mundo fala o tempo todo, como se não houvesse amanhã. Duas moças descobrem que estão interessadas pelo mesmo rapaz; uma outra tenta se vingar de um professor que humilhou seu amigo, mas o plano não dá certo; por fim, outras duas se reencontram numa escada rolante, mas não lembram direito de onde se conhecem. É preciso abandonar o cinemão a que estamos acostumados e embarcar no universo do cineasta para desfrutar de "Roda do Destino". E mergulhar nos diálogos, que, segundo relatos, estão ausentes de "Drive My Car", recheado de longos silêncios.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A PRINCESA SEM COROA

Nunca fui muito fã da Kristen Stewart. Acho que ela está sempre com cara de sono, mesmo que o filme tenha explosões e correria. Por isto, não fiquei especialmente chateado quando Kristen não apareceu entre as cinco indicadas ao prêmio SAG de melhor atriz de cinema. O Sindicato dos Atores dos Estados Unidos anunciou ao meio-dia desta quarta seus favoritos do ano que passou, e a intérprete da princesa Diana em "Spencer" não estava entre eles. Ainda não vi o filme (perdi a cabine para a imprensa que rolou em dezembro), então não é justo dizer que estou contente com essa esnobada. Que pode não querer dizer muita coisa em termos de Oscar, pois os SAG Awards não são uma prévia confiável das escolhas da Academia. Viola Davis, por exemplo, venceu no ano passado, mas perdeu para Frances McDormand na noite do Oscar. Acontece que, desde que os SAG Awards começaram a ser entregues, em 1996, nunca houve um caso de uma não-indicada ao prêmio vencer o Oscar depois. Isto talvez aponte para uma vitória de Nicole Kidman nas duas premiações. Ela de fato está ótima em "Being the Ricardos", e vem acumulando trabalhos interessantes já passada dos 50 anos de idade. Aliás, lembrei de um fato curioso: Nicole deveria ter sido a mãe de Kristen em "Quarto do Pânico", 20 anos atrás. Mas um ferimento no set de "Moulin Rouge" tirou-a do filme de David Fincher, e ela foi substituída por Jodie Foster. Isto não a impediu de se tornar a rainha de Hollywood.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

PRO DIA NASCER FELIZ

Demorou, mas The Weeknd finalmente me arrebatou. Eu já vinha acompanhando o trabalho desse canadense desde 2015, baixando seus álbuns e incluindo seus singles nas minhas playlists. Mas faltava um trabalho como "Dawn FM" para eu me render. Lançado na sexta passada, o novo disco de Abel Makkonen Tesfaye é conceitual - algo raro nesses tempos de musiquinhas avulsas. Não traz nada de revolucionário. A ideia de imitar um programa de rádio - no caso, da fictícia emissora 103.5 Dawn FM - já foi usada muitas outras vezes. A história contada tampouco é das mais originais: o despertar de um novo dia, depois de uma noitada de excessos. Este amanhecer traz maturidade e até velhice, que é como o artista aparece na foto da capa. As faixas, fortemente inspiradas pela dance music dos anos 80 e 90, não trazem grandes novidades, mas são todas ótimas, sem exceção. Minhas favoritas são os dois primeiros singles, "Take My Breath", lançado em agosto passado, e "Sacrifice", representadas neste post. Mas "Dawn FM" foi feito para ser ouvido na íntegra e na ordem, feito um disco das antigas. É o primeiro título a entrar na minha lista dos melhores de 2022. 

BEBIDA FRACA

Certos filmes foram feitos para serem vistos no streaming. Não têm efeitos especiais nem cenas de perseguição, e o espectador não fica com aquela sensação de "ai, eu deveria ter ido ver no cinema". É o caso de "Bar Doce Lar", dirigido por George Clooney e disponível na Amazon Prime Video. O título original, "The Tender Bar", é um trocadilho com bartender, a profissão de um personagem crucial: o tio do protagonista, um garoto filho de pai ausente. O papel coube a Ben Affleck, que está batendo um bolão aos 49 anos de idade e recebeu até uma indicação ao Globo de Ouro de ator coadjuvante. Mas a melhor razão para ver este filme despretensioso é justamente sua simplicidade. Baseada nas memórias de J. R. Moehringer, a história flui tranquila, sem barrigas nem sacolejos. É um drink fraquinho, mas não muito adocicado. Vemos o moleque se transformar num adolescente que consegue entrar em Harvard, graças ao apoio da família do lado materno. No final, ele ainda acerta as contas com o pai canalha e o mundo pode dormir em paz.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

ISSO O GLOBO DE OURO NÃO MOSTRA

Ah, a hipocrisia. Um dos estopins do cancelamento dos Globos de Ouro foi a revelação de que a Netflix levou diversos integrantes da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood para um rolê em Paris. Alguns meses depois, a série "Emily in Paris" recebeu várias indicações ao prêmio. Não é de hoje que acusações do gênero recaem sobre a HFPA, mas o fato de não haver negros entre seus membros entornou o caldo de vez. A própria Netflix agora se faz de virgem impoluta, e boicotou a premiação de 2021. O Globo de Ouro não se fez de rogado. Deu três troféus importantes à plataforma: melhor filme dramático, melhor direção e melhor ator coadjuvante, todos para "Ataque dos Cães". Também adotou uma estratégia inteligente. Revelou os vencedores aos poucos na noite deste domingo, em seu perfil no Twitter. Conseguiu gerar torcida e até saudade entre os cinéfilos, que lamentaram o fato de alguns agraciados não poderem fazer discursos de agradecimento. Como Michelle Jaé Rodriguez, a primeira mulher trans a vencer um Globo de atuação - melhor atriz dramática por "Pose". Outros prêmios pareciam querer ressaltar a correção política da HFPA, como a vitória da excruciante "Underground Railroad" como melhor minissérie. Também foi surpreendente a escolha de Nicole Kidman como melhor atriz de filme dramático, em detrimento da favorita Kristen Stewart. Tomara que no ano que vem a cerimônia de premiação volte a ser transmitida ao vivo pela TV, com estrelas bêbadas passando vexame. 

A NARA E A CORAGEM

Eu gostava da Nara Leão quando era bem pequenininho. Eu e o Otelo Pepino Trapo, o patriarca da "Família Trapo", que era tarado pelos joelhos da cantora. Aí eu cresci, fui ouvir outras coisas e só retornei a Nara quando ela gravou "Garota de Ipanema", um disco de clássicos da bossa nova voltado ao mercado japonês. Comprei em vinil e não conseguia chegar até o fim. A voz da Nara era ASMR antes dessa sigla existir: me punha para dormir logo na primeira faixa. Nara Leão passou anos presa na minha caixinha mental de coisas chatas. Só saiu agora, em grande estilo - como diria sua irmã Danuza, como o Salgueiro entrando na avenida. Mudei de ideia graças à incrível minissérie "O Canto Livre de Nara Leão", que acaba de chegar ao Globoplay. Em cinco episódios, o diretor Renato Terra resgata a força e a importância de uma cantora que mudou os rumos da MPB. Nara era muito mais transgressora do que qualquer Cássia Eller. A voz tranquila enganava. Foi uma mulher inquieta, que gostava de todos os tipos de música, sem jamais se prender a um único estilo. Fico pensando no que ela estaria gravando hoje. Sertanejo universitário? Funk proibidão? Nara também era corajosa, dizendo coisas como "o exército tem que acabar" em plena ditadura militar. Sua lembrança é inspiradora, ainda mais neste momento de transição em que o Brasil parece embarcar. Ah, e tente não se emocionar com a cena final da série, um imprevisto fora do roteiro. Nara era foda, como diz o João Wainer na Folha. Nara segue entre nós.

domingo, 9 de janeiro de 2022

BOFETADA COM LUVA DE PELICA

Edaír Biroliro deve estar tremendo debaixo da cama. Desabituado a sofrer consequências pelo que diz e faz desde que o Exército não o puniu com severidade pelo plano de explodir o reservatório de Guandu, o Despreparado levou um jab certeiro em seu rosto macilento. Desferido por um cara que o apoiou, e que ele mesmo indicou para a presidência da Anvisa: Antonio Barra Torres. A carta do médico e contra-almirante é um passa-moleque como há muito não se via nesse país de invertebrados e bajuladores. É claro que o Bozo não vai se retratar. No máximo, dirá que foi mal interpretado e que suas palavras foram ditas "no calor do momento", como nos atos golpistas de 7 de setembro. Mas o Sakamoto tem razão: o Gabinete do Ódio já deve estar tramando uma mentira monumental, para atiçar ainda mais a minionzada contra Barra Torres e sua família. Enfim, não há de ser nada. Uma bofetada ainda maior virá em outubro.

COM MEU BEM FUI AO CINEMA ASSISTIR O FESTIVAL

Woody Allen perdeu a mão? Não sei, mas uma coisa é certa: prestígio, ele perdeu. A campanha insana movida por Mia Farrow convenceu o público e o showbiz americanos que o sr. Soon-Yi é um pedófilo capaz de molestar a própria filha. O resultado é que Woody não consegue mais atrair estrelas de primeira linha para seus filmes. Para os protagonistas de "O Festival do Amor", ele teve que se contentar com Wallace Shwan e Gina Gershon. Ela até que se sai bem, mas ele não tem a star quality necessária para encarnar um avatar do próprio Woody: um cinéfilo inverterado, professor universitário e escritor frustrado, que ainda por cima enfrenta uma crise em seu casamento. Como sempre acontece nos filmes do diretor, o personagem se encanta por uma mulher linda e muito mais jovem do que ele - no caso, a espanhola Elena Anaya, num papel claramente escrito para Penélope Cruz. A história se passa na belíssima cidade basca de San Sebastián, durante o festival anual de cinema. Mas este cenário é só o pretexto para Woody realizar a boa ideia que teve: recriar cenas clássicas de filmes de arte, que surgem como sonhos em preto-e-branco de seu alter ego. Tem Orson Welles, Federico Fellini, François Truffaut, Claude Lelouch, Luís Buñuel e nada menos que três menções a Ingmar Bergman. Só que o draminha pessoal do pseudo-Woody não merece essas obras-primas. Há alguns momentos engraçados, mas a auto-indulgência de Allen não deixa que esse filminho se torne mais uma pérola em sua extensa cinematografia.

sábado, 8 de janeiro de 2022

WHEN GREG MET TOM

Muita gente já reparou que a relação entre o Tom Wambsgans e o Greg Hirsch da série "Sucession" tem um subtexto gay. Esse namorico a seco ganha protagonismo no trailer fake feito por um youtuber americano chamado Liminal. É um ótimo exemplo de como uma narrativa pode mudar a percepção da realidade: com cenas bem escolhidas e trilha melosa, a luta pelo poder na Wastar Royco vira uma comédia romântica.

UM TOTAL DE MILHÕES DE PESSOAS

Absolutamente imperdível o depoimento que o Marco Pigossi deu à revista Piauí. Mesmo tendo nascido num meio privilegiado e se tornado uma estrela da TV, a jornada dele é parecida com a de muitos gays e lésbicas. Doeu saber que o namorado tinha que fingir que eles não estavam juntos quando o ator cruzava com algum conhecido no shopping. Doeu ainda mais a história do pai que, mesmo já sabendo que o filho é gay, votou no Biroliro. E a mensagem que fica desse processo dolorido é sempre a mesma: depois que você se aceita, todo o resto vem fácil. O mais legal é que, tirando uns poucos comentários trogloditas, o público em geral está dando o maiorrr apoio. Quando saiu do armário em novembro, Marco Pigossi brincou que estava chocando "um total de zero pessoas". Agora, com essa entrevista à Piauí, ele vai é ajudar alguns milhões de jovens pelo Brasil afora.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

JESUS LHE CHAMA

Regina Duarte é um caso clínico que merece ser estudado. A ex-atriz não se cansa de passar vergonha, à vista ou no crediário. Ela ficou magoadinha pela Globo não tê-la chamada para participar do especial "70 Anos Esta Noite", apesar de ter se juntado a um governo que jurou destruir a emissora onde  trabalhou por mais de 50 anos. O curioso é que Regina ainda apoia o Edaír sob qualquer condição. O Despreparado a humilhou em público, arrancando-a da secretaria da Cultura depois de menos de três meses no cargo e lhe prometendo a direção da Cinemateca, algo que ele nunca cumpriu. Mesmo assim, a divorciadinha do Brasil ainda posta horrores como a foto ao lado em seu perfil no Instagram. E brada que não é fake, que para ela "è vero". Talvez seja mesmo. Esse Jesus de três metros de altura está conduzindo o Biroliro para uma derrota fragorosa nas urnas. E a criancinha em seus ombros é a alminha de uma jovem vítima da Covid-19, que morreu porque o Minto não comprou a vacina a tempo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

MAL DAS PERNAS

Nem todo candidato a uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional é bom. Um exemplo disso é o representante de Hong Kong, "Retrato de um Campeão", disponível na Netflix. Trata-se de um drama ambientado no mundo dos esportes, ou seja: a gente já sabe o que vai acontecer. O jovem atleta superará mil dificuldades, talvez com a ajuda de um parente e/ou técnico, e acumulará vitórias. A novidade aqui é que o protagonista é um paratleta: o corredor So Wa Wai, que tem paralisia cerebral e mesmo assim ganhou inúmeras medalhas. Mas não importa se a história é manjada. O que torna um filme realmente bom é a maneira como essa história é contada, e é nisto que "Retrato de um Campeão" tropeça e se esborracha no chão. A direção burocrática de Jimmy Wan abusa da câmera lenta, dos closes em lágrimas e, principalmente, da música óbvia e melosa. Nem a presença da atriz Sandra Ng, popularíssima na China, evita que esta bomba seja tão apelativa como os casos de superação mostrados na Hora do Faro.

INFERNIZANDO DJOKOVIC

É delicioso pensar que, neste exato momento, o babaca-mor Novak Djokovic está trancafiado num hotel de Melbourne e torrando uma grana preta com advogados. O tenista sérvio achou que poderia entrar na Austrália com uma isenção emitida pelo estado de Victoria, mas o governo federal de lá não quis nem saber. Não se vacinou, não entra no país. Novax Djocovid já havia promovido um torneio no auge da pandemia, contra todas as recomendações médicas, e vários atletas se contaminaram - inclusive ele. Mas pensa que adiantou de alguma coisa? O babaca-mor segue com sua cruzada negacionista. Talvez só haja uma coisa que o faça mudar de ideia: a perda de patrocínios. Bora boicotar as marcas que o financiam.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

EMMERDER LES NON-VACCINÉS

Eu não endeuso nenhum político, mas tenho cá meus queridinhos. Como Justin Trudeau, o primeiro-ministro do Canadá. Ou o presidente francês Emmanuel Macron, que concorre este ano à reeleição. Que pode ter ficado mais difícil depois dele ter dito numa entrevista que quer "emmerder les non-vaccinés". O verbo "emmerder" não é palavrão, e no contexto pode ser traduzido como "infernizar". Que é exatamente o que os antivaxx merecem. Ninguém pode ser obrigado à força a se vacinar, mas é mais do que justo que um potencial vetor do coronavírus seja impedido de circular livre por aí. Empresas exigem há décadas que seus funcionários sejam vacinados, e nunca ninguém reclamou. Países exigem que visitantes sejam vacinados contra uma série de doenças, e quem não quiser, simplesmente não vá para lá. Ponto final. Os anti-vacina na verdade politizam uma questão de saúde pública, e no fundo só querem ocultar a incompetência dos políticos de extrema-direita, incapazes de lidar com a pandemia. Quer dizer então que, em nome da liberdade individual, uma pessoa HIV-positiva poderia sair transando por aí sem camisinha, contaminando quem ela quisesse?

FURDUNÇO NA VIZINHANÇA

Sou suspeito para falar da Sylvia Colombo. Além de ser uma das minhas melhores amigas, também foi ela quem me levou para escrever na Folha, em 2009. Sylvia mora em Buenos Aires há alguns anos e é a correspondente do jornal na América Latina. Está sempre viajando pelos países da região, cobrindo eleições e tumultos em geral. Tamanha quilometragem gerou um livro imprescindível: "O Ano da Cólera", que cobre o período entre 2020 e 2021 no Chile, na Bolívia, na Venezuela, na Argentina e no Uruguai. Na verdade, cobre muito mais: cada um dos capítulos dedicados a esses cinco países traz um levantamento histórico, às vezes remontando ao século 19, para explicar o que está rolando no presente. Eu sou leitor assíduo das matérias da Sylvia na Folha, e mesmo assim me surpreendi com seu estilo fluido, claro e objetivo. Ela usa seus talentos como jornalista e historiadora para compor um painel abrangente dos nossos vizinhos, acessível até para um leigo absoluto no assunto. Perfeito para entender as particularidades de cada nação, e também os pontos em comum que elas têm entre si e com o Brasil.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

HARRY POTTER E A ESCRITORA CANCELADA

Eu tinha 41 anos de idade quando o primeiro filme da franquia "Harry Potter" chegou aos cinemas. Isto quer dizer que eu já era um homem mais ou menos feito e que a saga do bruxinho não podia mais ser o meu roman de formation. Mas ela foi o dos meus sobrinhos mais próximos. Os dois praticamente cresceram em Hogwarts, lendo todos os livros, revendo cada longa dezenas de vezes e até comendo jujubas de todos os sabores num Natal especialmente feliz. Ontem assistimos todos juntos ao especial "De Volta a Hogwarts" da HBO Max, que reúne elenco e diretores para lembrar histórias das filmagens. Meus sobrinhos se emocionaram, como se estivessem reencontrando Jesus. Eu me surpreendi com a quantidade de detalhes de que não me lembrava mais - como assim, a Hermione se casa com o Ron?? O programa é muito bem feito, com uma produção requintada e uma boa edição. Mas uma coisa me deixou bolado. J. K. Rowling, cuja cabeça pariu todo esse universo, aparece poucas vezes, sempre acompanhada pela legenda "gravado em 2019". É como se a produção quisesse deixar claro que ela continua cancelada por causa de alguns tuítes supostamente transfóbicos, e portanto não merece dar um depoimento inédito como todos os demais envolvidos. Sim, eu acho que a escritora foi um pouco desastrada em suas declarações, mas a reação de setores do movimento trans foi claramente desproporcional. Para variar, certos ativistas preferem atacar quem já está do lado deles, ao invés de mirar nos verdadeiros inimigos da causa. J. K. Rowling escreveu um textão em seu site pessoal, explicando o contexto , defendendo seus pontos de vista e até compartilhando um drama pessoal que ficou em segredo durante décadas. Recomendo a leitura antes de sair jogando pedra nela.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

PRIVADAS FLUTUANTES

Navios de cruzeiro são coisas tão nojentas que, desde muito antes da pandemia, já existia um site que monitorava a eclosão de surtos de doenças gastrointestinais a bordo deles. É o que dá trancafiar milhares de pessoas num espaço confinado e deixá-las interagir à vontade. Por isto, não é surpresa nenhuma que tantos casos de covid tenham surgido em navios nessa virada de ano. Espantosa foi a autorização que diversos países deram para que essas viagens acontecessem. Eu, que já não sentia a menor vontade de embarcar num cruzeiro, tenho agora mais uma razão para ficar em terra. Acho tudo cafona e desconfortável, além da comida ser ruim e a internet, caríssima.