terça-feira, 30 de novembro de 2021

CORONEL SIQUEIRA RESURRECTIONS

Afinal, o Coronel Siqueira morreu ou não morreu? Esta é a questão que mobiliza parte da esquerda brasileira desde ontem. Não a chegada da variante ômicron, não o crescimento de Sergio Moro nas pesquisas. O imbróglio começou quando o site DCM divulgou a morte de Sergio Loitte, suposto criador do personagem. Logo surgiu a notícia de que o perfil do birolista mais fofo do Brasil havia sido deletado e, mais tarde, a viúva de Loitte disse numa live que a foto de Siqueira era, na verdade, de um tio dela. Só que tanto o perfil como alguém que se passa pelo coronel seguem ativos. Esta pessoa, que não quer se identificar, publicou um longo texto no site da Carta Capital, de onde o falso milico é colaborador. Enquanto isso, o DCM não arreda pé de sua versão. Em quem eu acredito? Na Carta Capital. No fundo, nem importa se o criador do coronel morreu ou não. Importa se o personagem continua, e isto já está acontecendo. Ele é que nem a Evita Perón: volveré, y seré millones.

A NOIVINHA DO VALDEMAR

Biroliro se filiou hoje ao PL, apenas o nono partido de sua carreira política. A sigla comandada por Valdemar Costa Neto é o puro suco do Centrão: fisiologista, corrupta e sempre pronta a apoiar o governo, qualquer governo. Nem estão muito interessados em reeleger o Edaír: querem mesmo é aumentar a bancada na Câmara, para mamar ainda mais nas tetas da União. A partir de hoje, a Noivinha do Aristides também está noivando com o Valdemar, e este relacionamento amoroso tem tudo para dar muito errado. Só gado mais lobotomizado vai aceitar que o Minto tenha mentido mais uma vez e se aliado a quem ele prometera combater. As vacas que ainda têm cérebro estão migrando para Sergio Moro, e é por isto que o ex-juiz está sendo chamado de "traidor" pelos minions. Moro tem um bilhão de defeitos, mas querer que a PF não seja aparelhada só é uma traição pela ótica da familícia. Enquanto isto, o Bozo disputa com o Tiririca o título de maior palhaço do Partido Liberal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

SCREWBALL À LA FRANÇAISE

"Screwball comedy" é uma expressão que caiu em desuso, mas quem costuma ir ao cinema sabe o que é: comédias românticas com uma mocinha espevitada, diálogos rápidos e acontecimentos improváveis que se sucedem em velocidade alucinante. Este subgênero teve seu auge nos anos 1930 e 40, mas sobrevive até hoje. Um exemplo recente é "Adeus, Idiotas", em cartaz no Festival Varilux do Cinema Francês. Uma mulher com pouco tempo de vida resolve descobrir o paradeiro do filho que ela teve na adolescência e precisou dar para adoção. Ela cruza de maneira absurda com um funcionário público suicida, e mais tarde um cego se junta à dupla. Muita correria, muitos acidentes, muita perseguição pela política e algumas das cenas mais engraçadas que vi este ano. "Adeus, Idiotas" recebeu indicações em 13 categorias do César, e ganhou 6 troféus - inclusive melhor filme, melhor diretor e melhor ator coadjuvante. O ritmo frenético ralenta no terço final, e o desfecho certamente irá dividir opiniões. Mas fazia tempo que um longa me fazia perder o fôlego.

A NOIVINHA DO ARISTIDES

Biroliro gosta de ostentar seu talento como estadista e expor sua visão sobre o Brasil bancando o boneco de posto de beira de estrada, acenando para os motoristas. Mas foi-se o tempo em que o Despreparado só ouvia elogios. Uma mulher que passava em frente à AMAN, em Resende, gritou "noivinha do Aristides" para o Edaír, e ele ficou tão possesso que mandou prender a dita cuja. Esse arroubo de autoritarismo terá uma única consequência: agora o país inteiro sabe da existência do Aristides, instrutor de judô nas Agulhas Negras na época em que o Bozo estudou lá. Segundo o finado senador Jarbas Passarinho, os dois eram mais do que amigos, hohoho. Então, atenção pessoal: é proibido chamar a Noivinha do Aristides de Noivinha do Aristides, porque ela fica bravinha.

domingo, 28 de novembro de 2021

FATHER, SON AND THE HOUSE OF GUCCI

O problema central de "Casa Gucci" é que a história que está sendo contada é uma tragédia, mas o filme se vende como uma comédia. Todos os personagens se dão mal - no entanto, o que os inúmeros trailers mostram são cenários luxuosos, figurinos deslumbrantes e sotaques italianados que nem uma novela das sete tem mais coragem de fazer. No epicentro dessa bagunça está Lady Gaga, com um overacting tão glorioso que merece sua  segunda indicação ao Oscar de melhor atriz. Mas Ridley Scott, especialista em grade épicos com muita ação, talvez não fosse o nome mais indicado para essa sátira social que termina em crime. Ryan Murphy, talvez? Também faltou alguém para cortar meia hora das duas e meia de duração. Mesmo assim, eu me diverti muito. Com locações em Nova York, no lago de Como e em Milão (inclusive na Villa Necchi Campiglio, que apareceu em "Io Sono l'Amore"), "Casa Gucci" é um passeio delicioso por alguns dos lugares mais luxuosos do mundo. A trilha sonora, com muitos hits de Donna Summer, Eurythmics e Blondie, também é divertida, mas por que não puseram mais músicas italianas para dar clima? Além dos homens que ilustram o pôster, o elenco ainda conta com duas mulheres de peso. Uma delas é Camille Cottin, da série "Dix pour Cent", mais linda do que nunca com os cabelos louros a lhe emoldurar o narigão. A outra é Salma Hayek, na vida real a senhora François-Henri Pinault, CEO da holding Kering - que, entre várias outras marcas de luxo, também controla a Gucci. Será que rolou pistolão?

sábado, 27 de novembro de 2021

MANDE ENTRAR OS PALHAÇOS

Semana passada assistimos ao ótimo "tick, tick... BOOM!" na Netflix, e um dos personagens da cinebiografia de Jonathan Larson é Stephen Sondheim, que se tornou uma espécie de mentor do jovem compositor. Comentei com meu marido: "que ironia da vida, o Larson morreu tão moço, aos 36 anos, e o Sondheim está aí até hoje, aos 91".  Não deu outra. As parcas me ouviram, e ontem levaram Sondheim embora. Pelo menos foi uma morte súbita, sem sofrimento. Na quinta ele até recebeu amigos para um almoço de Thanksgiving. E tinha mais é que dar graças mesmo, pois teve uma vida gloriosa. Stephen Sondheim é, possivelmente, o nome mais importante da Broadway de todos os tempos, com uma carreira que abrangeu sete décadas. Começou como letrista de clássicos como "Gipsy" e "West Side Story", mas não tardou a assinar também a música e o libreto. E compôs inúmeros hits que ganharam vida própria. Mesmo que você não esteja ligando o nome à p'ssoa, aposto que conhece vários. Cata só:
Mesmo sendo fanático por musicais, não vi muitos espetáculos de Sondheim no palco. Assisti a uma remontagem de "Follies" em Londres, em 1988, "Into the Woods" em Nova York em 1989, e depois versões brasileiras de "Gipsy", "West Side Story" e "Company". Das suas obras mais tardias, de uma sofisticação ímpar, só vi "Sweeney Todd" no cinema. Perdi "Sunday in the Park with George", "Passion" e "Assassins". Essas duas últimas são de espantar tutistas: a primeira é sobre crimes passionais, a outra é sobre assasinos de presidentes. Brrr.
Minha favorita é "Losing My Mind" na voz de Liza Minnelli com produção dos Pet Shop Boys - a mistura mais bicha da história da humanidade.
E ainda tem "Sooner or Later", vencedora do Oscar de melhor canção em 1991, pelo filme "Dick Tracy". O vídeo acima traz o único momento na vida em que você vai ver Madonna nervosa. Repare como a mãozinha dela treme, na altura do 1:50! Cantar Sondheim é mesmo uma enorme responsabilidade, pois suas músicas são teatro puro. Ele nunca precisou "send in the clowns", como diz o título desse post. Uma gíria do meio, que significa tentar salvar uma peça fracassada com palhaços.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

MINEIRIM SAFADO

É muito fácil ter ódio do Arthur Lira. O presidente da Câmara ostenta aquele sorrisinho seboso de quem sabe que pode cometer as maiores falcatruas, pois dificilmente será punido. De quem tem o Despreparado na mão, mas não usa esse poder para o bem: só em causa própria, hahahaha. Rodrigo Pacheco é outra história. Vozinha macia, sotaquim mineirim, carinha de quem apanhou muito no recreio do colégio mas hoje está bem de vida. Critica o Edaír com muito mais frequência do que seu colega alagoano, e várias vezes soa como uma pessoa sensata. Esse jeitinho manso fez com que Gilberto Kassab pensasse em Pacheco como candidato à Presidência pelo PSD, na certeza de que tudo o que o Brasil deseja agora é um presidente que nos dê soninho. Mas não deixe tanta candura te enganar: Pacheco é tão do Centrão quanto Lira, Nogueira, Valdemar e toda aquela cáterva que mama nas tetas do Erário. Não só endossou a recusa do Congresso em revelar os nomes dos parlamentares que receberam verbas do orçamento secreto, desobedecendo a uma ordem do STF, como ainda marcou um café com Rosa Weber para ver se hipnotiza com seu charme a ministra mais durona de todos. Rodrigo Pacheco não presta, é farinha do mesmo saco de onde saíram Eduardo Cunha e outros vermes. O que me consola é que suas chances de chegar ao Planalto são menores do que zero.

FAXINA DA PRÓPRIA VIDA

"Maid" estreou na Netflix no começo de outubro, mas só agora eu juntei coragem para assistir à minissérie. Li que a protagonista passa por mil desgraças, e desgraça não é exatamente o que preciso para me distrai neste momento. Mas o meu interesse por Margaret Qualley falou mais alto. Se antes eu já achava graça na filha da Andie MacDowell, agora estou jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. O fato é que tanto ela quanto a mãe, que também participa da minissérie, estão ótimas - e Margaret já ostenta um talento que Andie, que era apenas uma modelo quando começou no cinema, demorou anos para desenvolver. Dito isso, "Maid" é mesmo barra pesada. A protagonista Alex é uma jovem de 25 anos que adiou o sonho de ir para a faculdade porque teve uma filha com o namorado, um sujeito instável dado a bebedeiras e violência doméstica. Ela foge de casa com a menina logo no primeiro episódio, mas sua via-crucis está apenas começando. Tudo o que pode dar errado dá, fragorosamente, e ela termina esse capítulo com uma dívida enorme e dormindo no chão de uma estação de balsas, porque não tem a quem recorrer. A mãe é bipolar, totalmente irresponsável e vive no mundo da lua; o pai constituiu nova família e não quer muito contato com ela. Daí em diante é uma sucessão de idas e vindas, com pequenos sucessos se alternando com enormes problemas. Alex demora para entender que, além de fazer faxina na casa dos outros, também precisa limpar a própria vida, se livrando dos relacionamentos tóxicos que a impedem de ir para a frente. Bem escrita, bem dirigida e bem atuada, "Maid" é uma das melhores séries do ano.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

FAKE NEWS NO SÉCULO 19

Ontem teve pré-estreia do Festival Varilux do Cinema Francês, e os convidados podiam optar entre quatro filmes qual queriam ver. Meu marido e eu vimos todos os trailers, e fizemos a escolha certa: "Ilusões Perdidas", uma adaptação suntuosa do romance de Honoré de Balzac dirigida por Xavier Giannoli. Além do elenco estelar (que inclui Xavier Dolan e Gérard Depardieu) e do visual épatant, o roteiro trata de um assunto que não poderia ser mais atual: as fake news. A diferença é que os jornalecos do século 19 eram abertamente corruptos. Podia-se comprar uma crítica positiva ou negativa, ou plantar mentiras sobre um rival político. É nesse millieu que chega um jovem provinciano com pretensões literárias. Sem conseguir publicar seu livrinho de poesias, ele acaba trabalhando para um desses pasquins, deixando-se seduzir por um mundo de aparências e tapeações. O protagonista é vivido pelo lindinho Benjamin Voisin, de "Verão 85", que nos brindou com sua presença na sala. "Ilusões Perdidas" é cinemão da mais alta qualidade, e ainda vai passar várias vezes no festival. Depois, entra em cartaz. À ne pas manquer.

LONDON CALLING

O trailer de "Noite Passada em Soho" faz crer que se trata do filme mais bacana de todos os tempos. A Londres de hoje! A Londres dos anos 60! Musiquinhas iradas e figurinos sensacionais, e de repente... terror!! Tudo isso está de fato no longa de Edgar Wright, mas o resultado final fica aquém da expectativa. O roteiro não está à altura da produção requintada e do elenco fenomenal. A premissa é curiosa: uma jovem estudante de moda vinda do interior aluga um quarto na capital britânica, e começa a ter estranha visões. Ela é transportada para a Swingin' London de 1967, e meio que vive as mesmas experiências de uma outra garota, recém-chegada como ela. Thomasin McKenzie, revelada em "Jojo Rabbit", está ótima como protagonista, mas é Anya Taylor-Joy quem rouba todas as cenas em que aparece. Taí uma estrela de cinema de verdade, com uma longa carreira pela frente. Voltando ao filme: o que parecia pura diversão logo é contaminado por prostituição forçada e uma série de crimes sangrentos, e daí em diante nada mais faz muito sentido. "Noite Passada..." vale pelo visual estonteante e pela trilha sonora, e só.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

BECAUSE YOU DON'T KNOW WHAT IT MEANS TO ME

Ontem eu falei da importância do Ney Matogrosso para mim, mas existe uma pessoa ainda mais fundamental na minha vida. Ou existiu: hoje se completam exatos 30 anos que morreu Freddie Mercury, o maior vocalista de rock de todos os tempos. Eu o conheci no final de 1974, através de um amigo que comprava discos importados. Ele me emprestou o "Queen II", com aquela luxuosa capa desdobrável em preto e branco, e eu fiquei acachapado. Nunca tinha escutado uma voz tão bonita quanto a de Freddie (e nem escutei até hoje). Poucos meses depois, já em 1975, chegou "Sheer Heart Attack", o terceiro disco do Queen, e eu fui fisgado para sempre. Importante ressaltar que o Freddie do meu altar particular é o dos anos 70, de cabelo comprido, unhas pretas na mão esquerda e figurinos de Zandra Rhodes. A versão dos anos 80, de cabelo curtinho e bigodão, nunca fez a minha cabeça.

Freddie era um role model para mim. Apesar de jamais ter se assumido gay, era óbvio que ele era - até mesmo para um virgem inexperiente como eu. Sua autoestima transbordava. Além de saber-se talentosíssimo, ele fazia o queria da vida. Tinha atitude, bom gosto e senso de humor. Tudo o que eu queria ter também.

No final dos anos 80, começaram a circular rumores de que Freddie estava com AIDS. A coisa ficou óbvia quando o álbum "Innuendo" (insinuação) foi lançado no começo de 1991. Muitas letras anteviam um fim próximo, nenhuma mais do que "The Show Must Go On". Por isto não foi uma supresa total quando chegou a notícia de sua morte, no dia 24 de novembro. Freddie sofreu muito, como depois li nas várias biografias. Mas deixou um legado imenso, e hoje tem fãs que nem eram nascidos quando ele morreu. Em mim, deixou marcas indeléveis. Convivemos por apenas 17 anos, mas tive a oportunidade de vê-lo três vezes em cena (duas no Morumbi, em 1981, e uma no Rock in Rio de 85). Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente: será que ficaríamos amigos? Ou talvez seja melhor assim. Ídolo é ídolo, não é para dar rolé junto. De qualquer maneira, Freddie segue comigo, onde quer que eu vá.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

AMIGUINHOS DE DITADURAS

Em 2010, Lula flertou com a ideia de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo, e citou a primeira-ministra alemã Angela Merkel. "Se ela pode ficar tanto tempo no poder, por que eu não posso?" Porque a Alemanha adota o regime parlamentarista e o Brasil, o presidencialista. Lula sabe disso muito bem, é claro, mas neste fim de semana se fez de sonso outra vez. Durante uma entrevista ao jornal espanhol "El País", o ex-presidente teve o desplante de comparar Daniel Ortega com Merkel - só para levar uma invertida da repórter, que apontou que a alemã nunca mandou prender nenhum adversário.

Não deu dois dias e foi a vez de Dilma Rousseff se levantar da tumba e cometer uma burrada parecida. No lançamento de um livro sobre a China, a presidenta incompetenta disse que a ditadura chinesa, que executa dissidentes com um tiro na nuca, é "uma luz diante da decadência ocidental". Dilma nunca escondeu que adora um estado "forte", que intervenha pra valer na economia, e não mudou de ideia mesmo depois de ter provocado recessão e desemprego. Agora, defender a China a menos de um ano da eleição, é tão estúpido quanto apoiar a Nicarágua. Ela e Lula forneceram farta munição para seus inimigos, que explorarão ao máximo essas incoerências. Nem o Alckmin como vice vai adiantar, se o PT não parar agora de elogiar ditadores.

MINHA VIDA, MEUS MORTOS, MEUS CAMINHOS TORTOS

Já contei aqui no blog várias vezes, mas vou repetir de novo. Eu tinha 13 anos de idade quando Ney Matogrosso explodiu na cultura brasileira, como vocalista dos Secos & Molhados. Mal consigo descrever o impacto que aquela figura estranha, não-binária antes do termo existir, causou no adolescente que eu era. Nas cinco décadas seguintes, eu me aproximei e me afastei do Ney seguidas vezes. Houve épocas em que eu comprava todos os discos, outras em que esquecia de sua existência. Mas em 2009 a Folha me escalou para cobrir o show "Beijo Bandido", e eu me rendi novamente. Ney voltou com tudo para a minha vida. Por tudo isto, foi com enorme prazer que eu li "Ney Matogrosso - a Biografia", do jornalista Julio Maria. A narrativa começa antes mesmo do nascimento do cantor, explicando sua família e o cenário quase de faroeste em que ele se criou. Há muita ênfase nos Secos & Molhados, que no final duraram apenas três anos, e capítulos inteiros dedicados a cada álbum/show (os dois sempre vinham juntos) até 1990. Aí a história fica tristíssima. Ney perde, em pouco tempo, o namorado Marco, o ex-namorado Cazuza e o amigo Rafael Rabello, violonista que o acompanhou muitas vezes. Os últimos 30 anos ganham apenas as últimas páginas do volume, sem maiores detalhes da vida pessoal - até porque talvez eles não existam. Ney meio que sossegou o facho, apesar do nude que ele mesmo vazou há poucos meses. Também deve ser imortal. Aos 80 anos, tem o corpo de um homem de 55, e sua mãe ainda está viva! Dona Beíta faz 100 no ano que vem. Seu corpo fechado fez com que ele jamais fosse contaminado pelo HIV, apesar de uma vida de saliências. No ano passado, Ney testou positivo para o novo coronavírus, mas como é feito de aço inoxidável, não apresentou nenhum sintoma da Covid. Vai nos enterrar a todos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

QUE DROGA DE INFÂNCIA

Deve ser horrível morar num país em que o narcotráfico domina vastos territórios, com poder de vida e morte sobre a população. O México vive há décadas esse drama, que volta e meia rende assunto para o filme que o país envia ao Oscar. É o caso de "A Noite do Fogo", uma coprodução com o Brasil, também premiada na mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. O longa de Tatiana Huezo acompanha a vida de uma garota do interior do estado de Guerrero em dois momentos: a infância, quando sua mãe a ensina a se esconder em uma cova para escapar dos traficantes, e a adolescência, quando eles aparecem para "confiscá-la". Mesmo nesse clima de terror constante, a menina consegue brincar com as amiguinhas e mais tarde se engraçar para o primeiro namorado. Não cheguei a vibrar, mas também não desgostei. No entanto, saí do cinema preocupado. Nos créditos finais, aparece que a preparadora do elenco foi a Fátima Toledo. Será que os atores apanharam muito?

A INCONSCIENTE BRANCA

Como é que alguém ainda posta, em pleno ano da graça de 2021, o vídeo do Morgan Freeman criticando o Mês da Consciênca Negra? O próprio ator já voltou atrás. É preciso ser muito burro para propor o "Dia da Consciência Branca", mas Regina Duarte já deu repetidas provas de sua limitada capacidade mental. A ex-atriz que encarnou Malu Mulher não aprendeu nada com sua personagem feminista, e seu arcabouço mental está tão preso aos anos 50 que ela acha normal ser humilhada por um homem. O simples fato de Regina continuar apoiando o Biroliro depois de tudo que ele fez com ela mostra sua falta de autoestima. Como se não bastasse, ela continua questionando a eficácia das vacinas, mesmo com o número de mortes e internações caindo por todo o Brasil. Regina Duarte segue a cartilha da extrema-direita, que não é propor soluções para os problemas, e sim negar a existência deles. Uma burrice colossal, que espalha morte e sofrimento e só serve para manter uma quadrilha no poder. Além de destruir carreiras consagradas.

domingo, 21 de novembro de 2021

O BIROLIRO DO CHILE

O que o mundo menos precisa neste momento é de mais um líder de extrema-direita. Infelizmente, José Antonio Kast foi o mais votado no primeiro turno das eleições presidenciais chilenas, e periga vencer o segundo turno se as forças democráticas não se unirem em torno do esquerdista Gabriel Boric. Como é que pode, um país que sofreu horrores durante a sangrenta ditadura de Pinochet eleger um cara que defende essa mesma ditadura? Só que nenhum regime dura tanto tempo - foram 17 anos - se não tiver apoio de uma fatia considerável da sociedade. E as forças que apoiaram Pinochet acordaram de sua hibernação depois que o Chile foi sacudido por uma onda de protestos que levou à convocação de uma Constituinte. É uma reação ao avanço dos progressistas, como nos outros lugares do mundo em que a extrema-direita chegou ao poder. Kast tem propostas parecidas com as do Biroliro, sem ser grosseiro como o quadrúpede que nos governa. Que os eleitores de lá vejam o que aconteceu por aqui, e tomem a decisão correta em 19 de dezembro.

sábado, 20 de novembro de 2021

ANTES DA EXPLOSÃO

Parece que Jonathan Larson sabia que tinha pouco tempo. Prestes a completar 30 anos e AINDA sem ter feito seu próprio musical na Boradway (Stephen Sondheim fez o dele aos 27), o futuro autor de "Rent" deu para escutar uma bomba-relógio. A cada segundo, a explosão estava mais próxima. Larson então escreveu um show autobiográfico chamado "tick, tick... BOOM!", onde cantava as agruras de ser um compositor talentoso preso a um emprego numa lanchonete. Esse show temcenas recriadas no filme do mesmo nome, que acaba de estrear na Netflix. É a estreia na direção do multi-talentoso Lin-Manuel Miranda, criador de "In the Heights" e "Hamilton". Também é a oportunidade para o ex-Homem-Aranha Andrew Garfield mostrar que sabe cantar e dançar (vem uma indicação ao Oscar por aí). "tico, tico... BOOM!" é um jorro de energia e um hino de amor ao teatro musical. Apreciadores do gênero irão se deleitar. Mas não vá esperando nenhuma música de "Rent".  A história acaba antes de entrar em cartaz o espetáculo que mudou a história da Broadway. Mas imagens de arquivo e letreiros contam o que aconteceu: Larson morreu de aneurisma no dia da pré-estreia, aos 36 anos. O coração dele explodiu.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A MARÍLIA MENDONÇA DOS INGLESES

Foi preciso Marília Mendonça morrer para eu me dar conta das semelhanças dela com Adele. Duas mulheres com vozeirão, que compõem músicas cheias de dor de cotovelo e sofrência. Ambas com corpos fora do padrão e longos cabelos alourados. Duas campeãs de vendas em seus respectivos idiomas. Só faltou Marília plagiar uma música do Martinho da Vila. O sambista carioca também não aparece em "30", o quarto álbum de Adele e o primeiro em seis anos. Pelo título, a maioria das faixas foi escrita três anos atrás; a cantora já está com 33 anos. "Easy On Me", o primeiro single, me fez temer pelo pior: mais uma sessão de choradeira, para se ouvir comendo sorvete direto do pote. Mas "30" é, de longe, o trabalho mais variado de Adele, e também o melhor. Ela não chega a se aventurar pela dance music, mas há muita animação nos ritmos e um certo otimismo nas letras. Adele se separou do marido, teve um filho e virou uma adulta propriamente dita. Tudo isso transparece, com arranjos criativos e impecáveis. A voz dela também nunca esteve tão precisa, mesclando drama e galhofa em doses exatas. Como Marília e Martinho, Adele também é chegada num copo. Como seria maravilhoso reuni-los todos ao redor de uma mesa de bar.

OVERDOSE DE DIREÇÃO DE ARTE

Muitos críticos estão dizendo que Wes Anderson passou do ponto com "A Crônica Francesa". Que o novo longa do diretor sucumbe ao peso dos maneirismos e da direção de arte levada ao extremo. De fato, é tanta informação visual na tela que lá pela metade eu já estava enjoado. Mas este excesso só incomoda para valer quando o roteiro escorrega. Como todo filme episódico, alguns episódios são melhores que os outros. Aqui são só três, e o segundo realmente deixa a desejar - isto, apesar da presença de meu adorado Timothée Chalamet. O trio de histórias é baseado em casos reais vividos por escritores da revista "New Yorker", mas com aquela dose de exagero que só Wes Anderson é capaz de dar. O elenco tem tantas estrelas que basta piscar o olho para perder alguém (foi só nos créditos que eu percebi que Cécile de France faz a mãe do Timothée). Quase toda a ação se passa na fictícia cidade francesa de Ennui-sur-Blasé, um nome tão pretensioso que nem chega a ser engraçado, mas é uma Paris mal disfarçada. Há muitos momentos divertidíssimos, mas o que pretendem emocionar não conseguem justamente por causa da overdose imagética. "A Crônica Francesa" é o equivalente cinematográfico a um banquete só de macarons. Hélas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

LEITE ESTRAGADO

Queria muito votar num candidato moderno, carismático, de ideias arrojadas. Se ele ainda por cima fosse gay assumido, então, era sopa no mel. Infelizmente, Eduardo Leite não é esse candidato. O jovem governador do Rio Grande do Sul, que despontou como uma das poucas novidades da próxima corrida presidencial, enterrou de vez suas chances comigo ao admitir que telefonou para João Doria, a pedido do general Ramos, para convencer o governador paulista a adiar o início da vacinação. Alguém que, a essa altura do campeonato, ainda age para não deixar o desgoverno Biroliro sair mal na foto não merece o meu voto. Leite estragado a gente joga fora.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

OS OVOS DE CLEÓPATRA

Dificilmente eu iria assistir "Alerta Vermelho" no cinema. Como o filme está dando sopa na Netflix e ostenta o título de produção mais cara de todos os tempos da plataforma, consegui vê-lo sem sair da minha chaise longe. E me diverti muito! Agora eu sei para onde foram todas as piadas que deveriam estar nos filmes de James Bond do Daniel Craig. Dito assim, parece que o roteiro é genial, mas tem bobagens colossais. A começar pelos ovos de Cleópatra, relíquias da antiguidade disputadas por dois ladrões de obras de arte. A produção sequer tomou o cuidado para deixar esses objetos com cara de terem sido feitos no Egito ptolemaico. Pra quê, não é mesmo? O público-alvo não ia perceber mesmo. Mas a falta de verossimilhança é compensada pelas locações espetaculares (algumas criadas em computador) e pela quase-química do trio de protagonistas, Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot. As sequências de luta também são de doer no espectador, e adorei o fato de ninguém morrer. Ufa, ainda bem que acabei esse post, pois já estou esquecendo do filme.

JOVEM KLAN NEWS

Outro dia me perguntaram o que eu estava achando do canal de TV Jovem Pan News, e eu respondi: não assisto nem por dever profissional. Com raríssimas excecões, aquilo lá é uma cambada de velhos matusquelas e ignorantes perniciosos, que defendem as pautas mais retrógradas com os argumentos mais furados. Mas a JP News dá sempre um jeito de chegar até mim. Desde que foi inaugurado duas semanas atrás, o canal vem sendo notícia toda vez que algum de seus asnos comentaristas zurra mais alto do que de costume. Ontem talvez tenha zurrado alto demais: José Carlos Bernardi, birolista de carteirinha, sugeriu que a Alemanha é rica porque confiscou as fortunas dos judeus "no pós-guerra". O confisco aconteceu mesmo, só que antes, e de nenhuma maneira pode ser apontado como a causa da riqueza do país. Bernardi ainda sugeriu que o Brasil deveria fazer algo parecido... Como as entidades judaicas têm mais poder e influência por aqui do que quaisquer outras que defendam minorias, a emissora e o próprio Bernardi correram a pedir desculpas. O sujeito ainda apelou para o desgastado "fui mal-entendido", quando deveria simplesmente assumir seus erro. Para mim, de nada adianta. Vou continuar não assistindo. 

 (o trecho em questão pode ser visto a partir da 1:30:00 do vídeo acima)

terça-feira, 16 de novembro de 2021

MONUMENTO AO GADO

"Bull" significa que a Bolsa está em alta. "Bear", que está em baixa. Esses termos do mercado financeiro americano nunca pegaram no Brasil. Isso não impediu que uma corretora "presenteasse" São Paulo com a estátua de um touro dourado, instalada em frente à Bolsa de Valores da cidade. O bicho evoca o bezerro de ouro, cujos adoradores foram fustigados por Moisés depois que o profeta desceu do Monte Sinai com as tábuas dos 10 Mandamentos. Mas é, na verdade, uma cópia mal-ajambrada do touro de Wall Street. Que, aliás, mudou de sentido depois que a estátua de uma menininha corajosa surgiu do dia para a noite diante do bicho. O bovino daqui, como se vê pelo meme acima, também já está sendo ressignificado.

O AMOR VEM PRA CADA UM

Smithers, o assistente do Mr. Burns, deu pinta de gay desde a primeira temporada de "Os Simpsons", de 1989. Os indícios eram muitos, desde sua obsessão por limpeza até sua coleção da boneca Malibu Stacy. O personagem finalmente saiu do armário em 2016, mas continuava assexuado. Sua paixão doentia pelo patrão o fazia ignorar qualquer chance de afogar o ganso. Isso vai mudar no episódio que vai ao ar nos EUA neste domingo. Smithers conhecerá um designer chamado Michael de Graff, e os dois irão namorar. Hurra! A notícia, na verdade, é uma série tão iconoclasta como "Os Simpsons" ter levado 32 anos para incorporar um romance gay em suas tramas. Mas a mensagem é de esperança. Se até o Smithers desencalhou, você também consegue.

(O título desse post é o nome da versão brasileira de "Love Comes to Everyone", do George Harrison, imortalizada por Zizi Possi. Ouça sempre que sentir carente. O clipe foi dirigido pelo senhor meu marido.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

A INFÂNCIA DO MAFIOSO

Vou cometer um sacrilégio. Achei esse filme novo dos Sopranos melhor do que muita coisa do Scorsese. Claro que a influência do capo di tutti capi é enorme na série que mudou a história da TV, mas "Os Muitos Santos de Newark" consegue superar, por exemplo, "O Irlandês". Ajuda muito se você tiver visto "Família Soprano" na HBO. O longa é cheio de referências e ovos de páscoa, e resolve alguns mistérios. A ação se passa em 1967, quando Tony Soprano ainda era criança, e 1974, com o futuro mafioso adolescendo e já delinquindo. Mas o personagem principal é seu tio Dickie Moltisanti (daí o título), cujo trato civilizado disfarça uma índole violenta. É ele a verdadeira figura paterna do jovem Tony, cujo pai está na cadeia. O elenco fenomenal traz Vera Farmiga, Leslie Odom Jr. e a italiana Michela de Rossi, uma quase sósia de Penélope Cruz, além de Michael Gandolfini, filho de James, com a versão mais jovem do papel que consagrou seu pai. Devem vir mais filmes por aí, contando o que aconteceu antes da série. Só espero que não venha nenhum que se passe depois. Aquele final perfeito merece continuar em aberto.

VTNC VOCÊ E SEUS FILHOS

Carluxo passou a semana mandando mensagens para o pai, avisando que até entre o gado mais tacanho estava pegando mal essa história de filiação ao PL. Mas o Edaír não está nem aír: se a minonzada engoliu o Queiroz, a saída do Moro e a corrupção no ministério da Saúde, não há de ser um ladravaz de terceira geração como Waldemar da Costa Neto que irá desanimá-los. O chefe da familícia adiou sine die sua adesão a um dos partidos mais enlameados do Centrão por uma razão bem mais prosaica. Ele quer o controle de todos os diretórios, e o compromisso de que os "liberais" (risos) não vão apoiar nos estados ninguém de que ele não goste. Só que aí já é pedir demais. O Centrão sempre apoia quem parece ter mais chances, não quem tem o melhor projeto. O mais divertido é que o relógio está correndo e o Despreparado tem cada vez menos tempo para se juntar a algum partido. Vai acabar topando qualquer coisa, e VTNC. Ele e seus filhos.

domingo, 14 de novembro de 2021

ATOTÔ OBALUAIÊ

Eu nunca tinha assistido a um espetáculo da Deborah Colker ao vivo. Preenchi essa lacuna na noite de ontem com "Cura", cujo título e assunto vêm a calhar para o momento que eu passo. A mais importante coreógrafa do Brasil mistura candomblé e judaísmo, com cenários de Gringo Cardia, libreto de Nolton Bonder e música de Carlinhos Brown. A cura que ela busca, inspirada pela doença de pele incurável de seu neto, é antes de tudo espiritual. A morte é contemplada de perto num pas-de-deux ao som de "You Want It Darker", que Leonard Cohen compôs quando sentiu que seu fim estava próximo. "Cura" me tirou o fôlego, me deslumbrou e me deu vontade de fazer uma oferenda para Obaluaiê.

MACHO DESCONSTRUÍDO

Não sou grande fã do Tiago Iorc. Até fui à gravação do Acústico MTV dele, dois anos atrás, mas não saí muito empolgado. Minha primeira reação ao clipe de "Masculinidade" tampouco foi das mais entusiasmadas. Não é bem uma música: é um longo discurso com um fundinho musical, algo que Caetano já fez antes e melhor. Mas vi e ouvi mais de novo, e fui apreciando mais a cada vez. É importante que, no Brasil tenebroso de 2021, alguém com a penetração de Tiago entre a garotada venha com uma letra como esta. Sempre foi raro alguém cantar a dor de ser homem; em tom de autocrítica, então, nem me lembro. O clipe também é ousado, apesar de Ney Matogrosso também já ter feito tudo antes e melhor. Não faz mal. Os comentários no YouTube são animadores. "Masculinidade" é mais um sinal de que estamos mudando.

sábado, 13 de novembro de 2021

NADA É PRETO OU BRANCO

Nesses tempos em que o colorismo entrou na pauta, "Identidade" é um filme que merece ser visto e discutido. A estreia da atriz Rebecca Hall ("Vicky Cristina Barcelona") como diretora acaba de chegar à Netflix, e conta em delicado preto-e-branco uma história bem violenta. As protagonistas são duas amigas de infância, que se reencontram depois de 12 anos separadas. Ambas são negras de pele clara. Claire, vivida por Ruth Negga - que está cotada ao Oscar de atriz coadjuvante - foi criada pelas tias brancas e, desde o final da adolescência, se passa por branca (daí o título original, "Passing"). Ela finge tão bem que se casou não só com um branco que não suspeita de nada, mas que também é asquerosamente racista. Irene (Tessa Thomspn), por outro lado, não precisou abdicar de nada para se tornar a esposa de um médico negro bem-sucedido e morar numa ótima "townhouse" no Harlem. Até empregada negra ela tem, vários tons mais escura. Mesmo assim, quando circula nos bairros brancos, Irene enterra o chapéu para esconder os cabelos e carrega no pó de arroz. Claire, exausta da farsa que vive, quer se aproximar de Irene, do Harlem, da cultura negra que ela deixou para trás. Mas a amiga tem dois pés atrás. Sente pena da amiga, mas também inveja e ressentimento por ela ter traído sua própria identidade. É uma boa ideia que ambas estejam bem de vida, pois assim a única desigualdade que conta é a racial. Com o piano esparso de Devonté Haynes na trilha sonora e uma reconstituição de época que faz pensar num orçamentomuito mais alto do que de fato é, "Identidade" é um filme plácido na superfície, mas com grandes emoções e grandes temas fervendo logo abaixo. Não faltam meios-tons.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

PRISIONEIRO DE SI MESMO

Eu gostei muito de "Sócrates", o longa de estreia de Alexandre Moratto. Gostei um pouco menos de "7 Prisioneiros", recém-chegado à Netflix, que mesmo assim é bem bom. Há váriosos elementos em comum entre os dois filmes, como o roteiro lacônico, que termina antes de um desfecho propriamente, e o protagonista feito por Christian Malheiros, mais com silêncios do que com plavaras. Também há desesperança. Em "Sócrates", isto era mais palatável, porque o personagem-título tinha apenas 16 anos e a vida inteira pela frente. Aqui o buraco é mais fundo. Os tais prisioneiros são sete rapazes - três deles imigrantes estrangeiros - mantidos em regime de escravidão num ferro-velho de São Paulo. Atraídos pela promessa de emprego, eles descobrem que já têm uma dívida imensa antes mesmo de começar a trabalhar. Não podem circular à vontade e são mantidos atrás de grades durante a noite. Um deles resolve fazer o jogo do capataz, vivido por Rodrigo Santoro, na tentativa de negociar uma saída para o grupo. O que ele consegue, na verdade, é corromper a si mesmo, aderindo aos poucos a um sistema desumano. Não é um filme fácil de se assistir, mas pelo menos é um filme curto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

IMORTAIS HÁ MUITO TEMPO

Poucos dias depois da eleição de Fernanda Montenegro, chegou a vez de Gilberto Gil entrar para a Academia Brasileira de Letras. Apesar da importância de ambos para a nossa cultura, tem gente por aí torcendo o nariz: "ãin, eles não são escritores, que escárnio com o templo máximo da literatura". De fato, Fernandona assina apenas sua própria autobiografia, escrita em parceria com Marta Góes, e Gil só publicou compilações de suas letras de canções. Mas quem reclama da chegada de ambos à ABL demonstra pouca familiaridade com a instituição. Desde sua fundação, a Academia segue o modelo francês, que prefere reunir notáveis do que apenas os grandes escritores. Foi esta filosofia que permitiu a entrada de nomes como Ivo Pitanguy, que era cirurgião plástico e só tinha livros científicos publicados, e Paulo Coelho, que, apesar de best-seller, escreve mal pra caralho. Pelo menos a ABL não se dobra mais aos poderosos de plantão, elegendo ditadores como Getúlio Vargas ou o general Aurélia de Lira Tavares, que assinava poemas com o pseudônimo de Adelita. É inegável a contribuição de Gil e Fernanda para a difusão e o enriquecimento da língua portuguesa, mesmo sem eles terem escrito grandes romances. Mais três vagas abertas serão preenchidas até fim do ano. A lamentar, apenas que Conceição Evaristo não esteja concorrendo a nenhuma delas.

O MARRECO POUSOU

Sim, eu admirava o Sergio Moro. Caí feito um marreco no conto do juiz durão, imparcial, interessado apenas em uma coisa: combater a corrupção, não importa onde. A farsa moresca começou a ruir quando ele aceitou o convite para ser o ministro da Justiça do Biroliro. Na época, Moro alegou que protegeria melhor a Lava-Jato se estivesse dentro do ministério. Não demorou para bater de frente com o Edaír, que só pensa em proteger sua familícia. Antes de sair do governo, em maio do ano passado, o ex-juiz ainda foi desmoralizado pela Vaza-Jato, que mostrou seu conluio com os promotores para tirar Lula das eleições de 2018. Quando ele aceitou o convite para uma consultoria nos Estados Unidos, achei que era carta fora do baralho. Que o cônge realmente não tinha ambições políticas e que estava de saco cheio de tudo isso aí. Mais uma vez, eu me enganei. Sergio Moro está de volta, e neste momento parece ser o único candidato viável da mítica terceira via. Não acredito que vá vencer a eleição: é rejeitado pela esquerda e pela extrema-direita. Mas agrada à direita e ao centro, e pode tirar muitos votos do Despreparado. Já pensou, o Bozo fora do segundo turno? Não é por outra razão que ele já saiu acusando o ex-aliado de "não saber o que é ser presidente". Como se ele soubesse.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

VOCÊ, QUE TAMBÉM É GAY

Achei que era um deepfake quando comecei a ver. O reacionário Abraham Weintraub dirigindo-se ao espectador como "você, que também é gay"? Na verdade, era só mais uma frase mal-construída do pior ministro da Educação que esse país já teve. O objetivo do vídeo acima não é arregimentar homossexuais para a extrema-direita. Os poucos que ainda estão lá aderiram faz tempo, e alguns já saíram correndo depois de constatar a incompetência generalizada desse desgoverno. O que Weintraub quer mesmo é sinalizar para seu gado que não, eles não são homofóbicos, algo que poucos assumem ser. O cinismo vai ao ponto desse cristão de araque evocar os ensinamentos de Jesus Cristo. Como eu torço para que ele se candidate ao governo de São Paulo nas eleições do ano que vem, só para levar uma surra humilhante nas urnas.

(obrigado à Lucia Lamberti pela dica)

terça-feira, 9 de novembro de 2021

ORTEGA NO DOS OUTROS É REFRESCO

Não é só o Biroliro que, de vez em quando, fala merda para agradar seu gado mais tacanho. O PT também tem seus minions, e foi para eles que o partido soltou uma nota nesta terça enaltecendo a reeleição espúria de Daniel Ortega na Nicarágua. Como se esses fanáticos não fossem votar no Lula de qualquer jeito... Parece que o partido se esquece que a eleição vem aí, e que seus inimigos transformarão esses pecadilhos em munição pesada. O mais patético é que Ortega mandou prender nada menos do que SETE de seus adversários no pleito. Quer dizer então, petistas, que prender candidato é OK, contanto que ele seja do outro lado?

VERDADES SECRETAS II

Em 2005, o escândalo do Mensalão quase derrubou o primeiro governo Lula. A oposição preferiu não abrir um processo de impeachment, certa de que derrotaria o presidente na eleição do ano seguinte. Isso só não aconteceu porque a economia estava indo bem. Dezesseis anos depois, a mamata está de volta, de maneira ainda mais acintosa. Até partidos de esquerda apoiam a PEC dos Precatórios, que vai liberar uma granalhaça para os deputados, sem sabermos quem recebeu quanto para fazer o quê, sob o pretexto de criar o Auxílio Brasil. Além de beneficiarem a si mesmos, os sacripantas ainda estão ajudando a campanha de reeleição do Edaír. O imbróglio só cresce: a segunda votação acontece hoje na Câmara, e o STF acaba de formar maioria contra o orçamento secreto enquanto escrevo este post. Pode vir aí mais uma crise entre os poderes. Parece a continuação de uma novela antiga, só que agora com menos trama e ainda mais putaria.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

VOCÊ, ROBÔ

Tom Hanks conseguiu ser indicado ao Oscar por um filme em que, na maior parte do tempo, falava sozinho. Seu coadjuvante em "Náufrago", de 1999, era a bola de basquete Wilson. ais de duas décadas depois, o ator comete façanha parecida em "Finch", em que contracena apenas com um cachorro e um robô. Só que o robô, fala, responde e tem opinião formada sobre tudo. Esse prodígio da automação tem a voz do ator caleb Landry Jones, que eu não sei se estava presente no set ou só gravou suas falas depois. Tampouco descobri se o andróide era de verdade ou feito em computação gráfica. Na trama, a humanidade foi quase toda dizimada por uma tempestade solar em 2026 (falta pouco!). Um dos sobreviventes é o personagem-título, que constrói sozinho, com barbante e cola de farinha de trigo, um robô rudimentar, porém dotado da mais refinada inteligência artificial. Os três percorrem o interior dos EUA rumo a São Francisco, que o loquaz robô sonha em conhecer. Em diversos momentos, "Finch" cai em território disneyano, com overdose de fofura e zero verossimilhança. Mas Tom Hanks está bem como sempre, e a direção de Miguel Sapochnik, responsável pelos melhores episódios de batalhas de "Game of Thrones", nunca deixa a peteca cair.

ALMOÇO COM O GORDOFÓBICO

Por causa do post "Gordofobia Estrutural" que eu publiquei ontem aqui no blog, fui convidado pela Myrian Clark para falar sobre o assunto no "Almoço com MyNews", que ela comanda no canal MyNews no Youtube. Fui o primeiro convidado do dia, e falei tanto que ocupei toda a primeira metade do programa. Além de gordofóbico, eu também sou fominha.

domingo, 7 de novembro de 2021

GORDOFOBIA ESTRUTURAL

Nós brasileiros não conseguimos mais nos unir nem nos momentos de luto. Em meio à comoção nacional provocada pela morte de Marília Mendonça, uma treta emergiu na internet. O pomo da discórdia era um texto do historiador Gustavo Alonso publicado pela Folha, revisitando toda a carreira da cantora. Uma matéria longa e elogiosa, muito mais detalhada do que a minha que saiu no F5. Aí alguém implicou com um trecho que diz que Marília "brigava com a balança", postou sua indignação no Twitter e abriram-se as portas do inferno. 

Dava para perceber pelos comentários que a imensa maioria dos furiosos não leu a coluna toda, só o trecho tido como polêmico - que, a meu ver, nem era ofensivo, pois relatava uma verdade sobre a artista: ela de fato fez muita coisa para emagrecer, de cirurgias a dietas rígidas. E postava sobre isso, comemorando cada resultado, como na foto ao lado. Aliás, quando emagreceu, Marília também foi vítima de patrulhamento: ela teria cedido à pressão da indústria e deixado de ser uma pessoa "body positive", em paz com o próprio corpo. Também foi criticada por não ter emagrecido "o suficiente". Êita tempinhos difíceis.

Eu nem conheço o Gustavo Alonso, mas, como havia gostado muito de seu texto, resolvi partir em sua defesa no Twitter. Não, não sou nada contrário à "cultura do cancelamento". O que não falta por aí é gente que mereça ser cancelada, ignorada, esquecida. Mas é preciso conhecimento de causa. A gritaria em torno da matéria parecia mais uma catarse coletiva, um ataque a um esquerdomacho qualquer, do que uma contra-argumentação bem ponderada. Joga pedra no Gustavo!

Aí veio essa boa contra-argumentação. Mulheres que eu sigo e admiro no Twitter como Mika Lins, Nina Lemos e Milly Lacombe se posicionaram com contundência. Minha amiga Mariliz Pereira Jorge assinou uma boa resposta na Folha, seguida por outro texto lapidar de Bianka Vieira. E aí, o esquerdobicha aqui começou a pensar: acho que elas têm um ponto...

Homens heterossexuais não fazem a menor ideia da cobrança que as mulheres sentem em cima de seus corpos, desde o dia em que nasceram. Os gays, alguns, sabem: em certos círculos, há uma pressão absurda por corpos esculpidos e bombados, e quem não se encaixar no padrãozinho não merece sexo nem amor. Mesmo assim, não é comparável à gordofobia que a mulherada sofre. Digo isso porque sou gay e também sou gordófobo, ainda que de maneira mais ou menos inconsciente. Pois é.

No meu próprio texto, ressaltei que Marília era "cheinha", e teve quem não gostou. Minha intenção era boa: só queria sublinhar o fato da cantora ser um reflexo fiel de suas fãs, tanto nas letras diretas como no corpo "real", e que se tornar uma sílfide não era um problema para ela.

O fato é que Marília pensava em emagrecer, sim, e continuava fazendo dieta. Era uma batalha pública, que ela fazia questão de compartilhar com seus seguidores nas redes sociais As razões dela não interessam mais: podia ser pela saúde, podia ser que Marília se sentisse melhor mais magra, podia ser que ela finalmente tivesse sucumbido à ditadura da indústria da moda, que só finge ser inclusiva.

Gustavo Alonso poderia ter usado outros termos para apontar como o corpo foi desimportante para o sucesso estrondoso da artista? Sim, assim como eu. Poderíamos ter simplesmente ignorado esse fato? Certamente. Mas a trajetória de Marília Mendonça não fica completa sem esse dado. Ela desafiou um mercado machista, cantando e compondo num gênero em que as mulheres tinham relativamente pouca voz. Seu corpo faz parte de seu triunfo.

Agora, se fosse um homem gordo que tivesse morrido, teríamos lembrado de sua gordura? Indo contra o senso geral, acho que sim, especialmente se esse sobrepeso tivesse importância em sua carreira. Ou, como no caso de Elvis Presley - como diz o obituário do New York Times - se tivesse importância em sua morte.

Mas é inegável que homens e mulheres são medidos com réguas diferentes. Eu, que de uns anos para cá comecei me dar conta do racismo estrutural e passei a acender luzinhas vermelhas para o meu próprio comportamento, agora também preciso me conscientizar da gordofobia. Ela está entranhada entre nós, a ponto de passar batida por quem não é alvo dela. Na maioria das vezes, não queremos ofender ninguém quando dizemos algo gordofóbico. Acontece que quem sabe se o calo dói é quem leva o pisão. Prometo que vou prestar mais atenção.

sábado, 6 de novembro de 2021

VIAGEM A 1977

Eu sou velho o bastante para ter sido um grande fã do ABBA quando a banda estava no auge. Mas naquela época eu não gostava muito. Achava bobinho, música para menininha. Fui gostar mais quando o quarteto sueco voltou à moda na década de 1990, 10 anos depois de sua dissolução. Que, agora, sabemos que foi temporária: depois de uma pausa de 40 anos, o ABBA finalmente está de volta, com um álbum de inéditas e uma temporada de shows em Londres no ano que vem. Esses concertos, na verdade, são virtuais: são avatares jovens de Agnetha, Benny, Bjøorn e Anni-Frid que o público irá ver em cena, enquanto que os verdadeiros, hoje septuagenários, continuam em suas casas na Suécia. O disco "Voyage" também é uma tentativa de voltar ao passado. Não soa como um trabalho novo, mas sim como algo que foi gravado em 1977 e depois engavetado. Não tem trap, não tem feat. de rapper, não tem nada que soe minimamente contemporâneo. A única faixa de que eu realmente gostei foi "Don't Hold Me Down". As demais soam quase todas como musiquinhas de Natal, cantadas por um coro de crianças louras vestindo pulôveres coloridos enquanto a neve cai docemente. Talvez fosse isso o que os fãs hardcore quisessem. Eu prefiro viver o presente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

GUERRILHA CULTURAL

Tenho a impressão de que a polêmica em torno de "Marighella", assim como os sucessivos adiamentos, acabaram fazendo bem ao filme. A estreia de Wagner Moura na direção finalmente entrou em cartaz esta semana, quase três anos depois do previsto. E chegou num momento bom, com Biroliro em baixa e seu gado reduzido a meia dúzia de malucos. Em 2019, logo após a posse do Minto, não duvido que os cinemas chegassem a sofrer atentados a bomba, caso ousassem exibir "Marighella". Hoje tudo o que os minions fazem é dar nota baixa para o longa no IMdB. Mas, afinal, ele é bom? Sim, é, e muito. Tem um certo excesso de câmera na mão, mas sequências como a da abertura, num trem em movimento, são dignas de um cineasta com décadas de experiência. Nenhum personagem é aprofundado, e o vilão torturador vivido por Bruno Galiasso podia ter um pouco mais de nuances. Ah, sim e o fato do bando de Marighella querer implantar uma ditadura de esquerda no Brasil também é convientemente ignorado. O que salta aos olhos é a ingenuidade deles: esperavam um maciço apoio popular à causa, que nunca veio. Mas Seu Jorge está fenomenal no papel-título, bonito e grave como nunca. Ele tem a pele muito mais escura que a do Marighella real, e era Mano Brown quem foi primeiro escalado para interpretar o guerrilheiro. Aí o rapper desistiu, e Wagner Moura decidiu radicalizar: convidou um negro retinto, para representar todos os negros que lutaram contra a ditadura militar. Apesar das mais de duas horas e meia de duração, "Marighella" não aborrece um único segundo. E transcende os limites do mero entretenimento, ao se tornar um libelo a favor da liberdade artística e contra o desgoverno Bostonazi.

(Meu marido aparece no filme. Vamos ver se alguém acerta quem é ele)

O PALHAÇO-MOR DA REPÚBLICA

Uma maneira de encarar os 14 meses que ainda restam do desgoverno Biroliro (se ele não cair ou renunciar antes) é levar tudo na piada. O próprio Edaír vem se esforçando para nos fazer rir. Confundiu John Kerry com Jim Carrey. Visitou a Torre de Pizza. Ostenta a própria ignorância (e a preguiça de aprender) como se fosse uma condecoração da Ordem Nacional do Mérito Científico - que, aliás, ele não concedeu a si mesmo. O Bozo seria um palhaço tão bom como seu xará se fosse inofensivo. Só que, para cada gargalhada que ele provoca, há rios de lágrimas e ondas de indignação.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 9

Ufa. Acabou a Mostra. Confesso que eu não aguentava mais. Todo dia ter que entrar no aplicativo, todo dia ir ao cinema, quase todo dia soltar um post como este. Agora deu. Meu penúltimo filme foi "Yuni", que a Indonésia está mandando para o Oscar. Acredita que eu nunca tinha visto um filme de lá? A protagonista é uma menina linda, ótima aluna e cheia de amor para dar. Encantada por um de seus professores e alvo de olhares de um colega de escola. Mas ela também é cobiçada por outros homens, e recebe duas propostas de casamento que recusa em sequência. Se recusar mais uma, será mal-vista na sociedade conservadora em que vive. Em resumo: mais um típico filme de Oscar. Mas ate que tem alguns momentos muito bons.
O mesmo já não pode ser dito de "Sanremo". O candidato da Eslovênia se inscreve numa tendência moderna: filmes sobre a velhice e, mais especificamente, sobre a perda da memória. Só que é difícil fazer algo melhor do que "Meu Pai", que deu a Anthony Hopkins seu segundo Oscar. A ação (não existe propriamente uma trama) se passa num lar para idosos bastante confortável, cheio de atividades para entreter os velhinhos. Um deles acha que sua mulher e seu cachorro ainda estão vivos, apesar de ambos terem morrido há anos. Ele encontra uma espécie de alma gêmea em uma senhora que, como ele, é fã das músicas italianas do Festival de Sanremo. Ponto. Mais nada acontece. Tem gente que vai achar lindo, poético, delicado. Eu só achei chato, e suspirei aliviado quando acabou.

LULALCKMIN

Leio na coluna da Mônica Bergamo que dirigentes do PT e do PSB estão em altas negociações. A ideia é formar uma chapa para 2022 com Lula como candidato a presidente e Geraldo Alckmin como vice. A união de dois grandes rivais da política brasileira deste século soa inacreditável, mas também faz sentido. Seria a combinação imbatível de duas forças poderosas, para varrer o bozoarismo do Planalto. Esse pacto só ficou possível porque Alckmin está de saída do PSDB, magoadíssismo com João Doria. Mas há muitas arestas a aparar. O PSD também está de olho no picolé de xuxu, para que ele se candidate novamente ao governo de São Paulo - no momento, Alckmin lidera as pesquisas. No lugar dele, eu imporia uma condição: Lula não se candidataria à reeleição em 2026 e apoiaria Alckmin como seu sucessor. Tomara que dê certo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 8

Viadagem dava até cadeia até relativamente pouco tempo, mesmo em países tidos como civilizados. O pretexto não era a homossexualidade em si, mas a chamada exposição indecente - em português claro, o banheirão. "Grande Liberdade", que vai representar a Áustria no próximo Oscar, tem um protagonista que passa três temporadas preso justamente por isto, nas décadas de 40, 50 e 60. Atrás das grades ele conhece um junkie, que a princípio o despreza. Os dois acabam virando amigos, e às vezes algo mais. Também há paixonites presidiárias e muito bullying dos carcereiros e demais prisioneiros. O filme de Sebastian Meisse seria melhor se o diretor tivesse feito uns cortes no roteiro, pois o ritmo dá uma ralentada na segunda metade. Mas a conclusão é magistral. Não, não vou dar spoiler.
"Deixe Amanhecer" vai ao Oscar a bordo de uma polêmica: o filme representa Israel e é dirigido por um israelense, mas é quase todo falado em árabe e tem elenco todo palestino. Foi o vencedor do prêmio Ophir, o Oscar de lá, e isto o credencia automaticamente a tentar uma vaga na premiação da Academia. Mesmo sendo um longa que aponta para uma das milhões de maneiras com que Israel inferniza a Palestina. Na trama, um casal com filho tenta voltar para Jerusalém depois da festa de casamento do irmão do marido. Mas o exército bloqueou a estrada, e eles não têm opção a não ser voltar para trás. Boiei um pouco na discussão sobre trabalhadores ilegais, e já vibrei mais com outros títulos do gênero. Mas minha lista de filmes vistos do Oscar só aumenta.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

NADA, NADA, NADA

Mario Frias não sente nada por Wagner Moura. Nada, nadica de nada, nada mesmo. É tanto nada que ele traduziu esse vazio absoluto ao longo de sete tuites na tarde desta terça, depois do diretor de "Marighella" dizer que despreza o atual Secretário da Cultura. O que dizem esses tuítes? Hahaha, eu não sei. Frias me bloqueou no ano passado. Vai ver que ele também não sente nada por mim. Eu queria também não sentir nada por ele, mas sinto. Será que é pena, porque ele terá dificuldade de encontrar outra ocupação depois que sair do cargo no ano que vem? Não. É desprezo mesmo. É nojo. E é vontade de rir, porque não dá para levar esse bebê chorão a sério.

SE MEU FUSCA TRANSASSE

"Titane" é um choque. O filme que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e irá representar a França no próximo Oscar é um escândalo, um escárnio, uma palhaçada e tudo o mais que estão dizendo por aí. Também é um enigma: é difícil interpretar o que Julia Ducournau quer dizer, se é que ela quer dizer alguma coisa. A diretora e roteirista parece mais interessada em passar sensações à plateia: ódio, asco, ternura, nojo, medo, às vezes todas ao mesmo tempo. A protagonista, numa atuação fenomenal da ex-modelo Agathe Rousselle, é uma moça que tem uma placa de titânio na cabeça, por causa de um acidente de carro na infância. Daí vem também uma paixão perversa pelos automóveis. Adulta, ela rebola em eventos automobilísticos e assina autógrafos para fãs ávidos por seu corpo. Também mata um deles, que se mete a engraçadinho. Depois entra num Cadillac que a chamava piscando os faróis e... transa com ele. Engravida. Vem aí um bebê metade humano, metade máquina! Enquanto o pimpolho não chega, nossa heroína ainda mata mais um monte de gente e depois se disfarça de homem, fazendo-se passar por um rapaz há anos desaparecido. Não sem antes quebrar o nariz na pia... O pai do garoto, vivido pelo incrível Vincent Lindon, acredita. "Titane" tem cenas grotescas, mas não quer só épater les bourgeois. Também é um tratado sobre as relações entre pais e filhos. Sobre o amor e a falta dele. Muita gente vai detestar, mas é um dos melhores filmes do ano.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 7

Mas essa Mostra não acaba nunca? Até eu, que sou fanático, já estou exausto. Ainda mais porque neste domingo não vi nada de muito empolgante. Eu esperava bem mais de "Lamb" (e por que não "Ovelha"?), o representante da Islândia no Oscar. A premissa prometia: um casal de pecuaristas adota uma ovelhinha e passa a tratá-la como uma criança. Como se fosse a filha deles. O bicho logo vira um híbrido, com corpo humano e cabeça ovina. Mas o roteiro não sabe muito bem para onde levar a história, que acaba se alongando demais. Bocejo.

O Egito avisou no sábado que está enviando "Souad" para o Oscar. Quando eu vi que o filme já estava na programação da Mostra, corri para garantir meu ingresso. De novo me aborreci. A sinopse parecia boa. Una garota leva uma vida de fantasia nas redes sociais, inventando namorados que ela não poderia ter na vida real. Aí acontece uma tragédia, que chacoalha a vida de todos. Mais não posso contar. A narrativa não mergulha na contradição entre a sociedade repressora e a tecnologia, e as relações não se aprofundam. Bocejo (2).

TUTTI BUONA GENTE

Bioliro continua passando recibo de ignorância e truculência em seu rolé pela Itália. Na tarde de ontem, em Roma, supostos policiais empurraram jornalistas e arrancaram seus celulares. Como nenhum deles se identificou, duvido muito que fossem mesmo agentes da polícia. Aposto que eram seguranças particulares, contratados através dos contatos que a familícia tem com a máfia. Esse episódio patético serve de trailer para o que nos espera em 2022. Se o Bozo se arriscar para fora de seu cercadinho durante a campanha eleitoral, é certo que vai estar rodeado de meganhas, que irão agredir qualquer um que não grite "mito". Aliás, neste domingo nem o gado foi poupado: sobrou sopapo para os apoiadores do Genocida. Como diz o velho ditado espanhol: cría cuervos que te sacan los ojos.