domingo, 10 de outubro de 2021

DE PÉ, CINÉFILOS DA TERRA - 6

Já estamos em outubro e eu continuo vendo filmes internacionais que concorreram ao último Oscar. Não vou reclamar: já me aproximo da casa dos 30 títulos assistidos, quase um terço dos inscritos - um recorde. Um deles eu consegui ver no cinema, algo raro nos dias que correm. O guatemalteco "A Chorona" esteve entre os 15 semifinalistas ao prêmio da Academia e foi lançado por aqui como um terror convencional, em salas de shopping. Quem foi esperando levar sustos também ganhou uma aula sobre a história recente da Guatemala: como eu disse na minha crítica na Folha, o longa de Jayro Bustamante lança mão dos clichês do gênero para narrar uma fábula política. O horror da vida real sempre supera o da ficção.
"A 200 Metros" representou a Jordânia na competição, mas se passa na fronteira entre Israel e os territórios palestinos. O vilão aqui é o muro que os israelenses ergueram ao redor de seu país, o que aumentou a segurança mas tornou um inferno a vida dos palestinos comuns que precisam passar de um lado para o outro. O drama do protagonista é especialmente pungente: ele vive a 200 metros da casa onde estão sua mulher e sua família, separados pela muralha intrasnponível. Eles até se veem, mas para estarem juntos é necessária uma epopeia. Para complicar, o visto do sujeito expirou, então ele precisa pegar um transporte clandestino para atravessar a divisa. "A 200 Metros" tem para alugar nas boas plataformas do ramo, e vale a pena mesmo se você não for ligado em política. É quase um thriller, cheio de cenas de suspense.
Esses dois filmes são bons, mas o melhor do trio é "Você Morrerá aos 20 Anos", o primeiro longa do Sudão a entrar na disputa pelo Oscar. Era uma dos favoritos, mas não ficou nem entre os 15 semifinalistas. Uma grande injustiça: o filme é uma beleza, com fotografia apurada e música envolvente. A história parece se passar em outros tempos, não fossem alguns objetos que remetem ao século 21. Numa aldeia no interior desse misterioso país da África, a mãe de um recém-nascido leva seu bebê para ser abençoado por um sheik. O velho então faz uma profecia: o garoto morrerá no dia em que completar 20 anos de idade. É o que basta para todo mundo tratar o coitadinho como um morto vivo. Os pais chegam a discutir qual será a melhor cova para o filho, que até se engraça com uma moça mas não pode namorá-la - para quê, se ele vai morrer logo? Assiti na Mostra dos Cinemas Africanos na plataforma Sesc Digital, e nem sei mais se esta joia rara ainda está disponível. Se estiver, não perca: vale demais a pena.

4 comentários:

  1. Como é feita a escolha dos filmes que vai representar cada país no Oscar?
    O filme que representa um dado país no Oscar é o melhor filme produzido nesse país ou é o filme com o melhor poder político em seu país?

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    1. Cada país tem um jeito. A Academia de Hollywood gosta que seus equivalentes locais indiquem o filme. Aqui no Brasil, essa tarefa cabe à Academia Brasileira de Cinema, que não é um órgão estatal. Em Israel, o filme que vencer o Oscar local, o prêmio Ophir, está automaticamente inscrito para a disputa do Oscar.

      As escolhas geralmente são feitas por comitês, e pesam nela não só a qualidade do filme como a suposta capacidade desse filme agradar à Academia. Por isto, há até pouco tempo, eram escolhas muito caretas. Mas a Academia de Hollywood vem se modernizando, e indicando ao Oscar filmes cada vez mais ousados.

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  2. O Mio Babbino Caro
    Acho notável essa sua fidelidade ao cinema à filmes. Eu abdiquei desse compromisso aos 26 anos. Quando percebi que boa parte dos filmes que via eram questões que tinha em mim. Então decidi que não iria mais perder tanto tempo vendo como lidavam com aquiloS e defini que com esse tempo viveria minha própria experiência e passei a deliberar quando e qual filme assistiria. Cancelei provavelmente mais de 90% de películas e para mim foi bom.Troquei por leituras, passeios, pessoas e principalmente com um cara que estou conhecendo: EU! Que provavelmente será tema de um filme.

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    1. O que você está querendo dizer com isso? Que quem assiste muitos filmes não tem vida? Acho engraçado esse comentário, como se a vida real fosse muito emocionante além de pagar boletos.

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