domingo, 31 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 6

Às vezes a Mostra me dá fartão. Lá vou eu assistir a mais um filme escolhido por seu paiseco para representá-lo no Oscar, e eu já sei do que se trata: da luta de uma figura solitária contra um sistema opressor, seja ele o patriarcado, o capitalismo ou o pop coreano. Tudo contado de maneira lacônica, com longos silêncios e nenhuma música, em locações feiosas e deprimentes. Ainda bem que "Brighton 4th", da pouco conhecida Geórgia, me surpreendeu positivamente. Sim, estilisticamente o filme se encaixa nos modismos atuais, mas a história é contada com clareza e sem firulas. Um senhor de idade vai a Nova York visitar o filho que se mudou para lá, e encontra o rapaz atolado em dívidas de jogo. Apesar de se passar quase toda nos EUA, a trama quase não tem diálogos em inglês e se passa inteira dentro da comunidade georgiana. Funciona como um instantâneo da cultura daquela nação do Cáucaso: viril, violenta, intolerante, mas também solidária. Valeu o preço do ingresso.
Ainda estou em dúvida quanto ao ingresso para "Memoria". O tailandês Apichatpong Weerasethakul rodou seu novo trabalho na Colômbia, quase todo em espanhol, e o filme irá representar esse país no Oscar. Como eu gostei muito de "Tio Bonmee", que venceu Cannes em 2010, e esse agora tem Tilda Swinton como protagonista, me senti na obrigação de ver. Os dois queriam trabalhar juntos há anos, e combinaram que seria num lugar onde ambos fossem estrangeiros. A primeira hora de "Memoria" é intrigante. Em planos longos e lentos, com a câmera parada, Tilda passeia por Bogotá, visita uma irmã no hospital e pede a um engenheiro de som para materializar o ruído que ela ouve em sua cabeça: uma bola de concreto se chocando contra um chão metálico. Aos poucos, ela percebe que coisas de que se lembra de fato não aconteceram. Estaria ficando louca? Mas a segunda metade se perde num diálogo chatíssimo que ela tem com um sujeito que conhece no interior, e o filme acaba se transformando numa série de belas paisagens. Será que eu não entendi nada? Será que eu quero entender? Pelo menos Tilda continua ótima.

sábado, 30 de outubro de 2021

O PASSADO NÃO CONDENA

Na quinta de manhã, Felipe Andreoli aproveitou seu palanque no "Globo Esporte" para desancar o homofóbico Maurício Souza, demitido por justa causa do Minas Tênis Clube (veja aqui o que ele disse). Foi o bastante para o gado desencavar tuítes e vídeos em que o apresentador faz piadinhas com gays. Subriam até a hashtag ExposedDoAndreoli. Só que tem uma coisa: essa gracinhas eram todas de muitos anos atrás. Pessoas inteligentes mudam de opinião. Eu mesmo já contei muita piada de bicha. A minionzada não tem neurônios, e por isto não percebe que os outros evoluem com o tempo. Por isto mesmo estão ficando para trás.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 5

"O Joelho de Ahed" é o filme mais inovador que eu vi até agora na Mostra. Isto não quer dizer que eu tenha gostado muito, mas sei reconhecer uma novidade quando ela aparece. O diretor israelense Nadav Lapid já tinha ousado bastante com "Sinônimos", que venceu o Festival de Berlim de 2019, e dessa vez ele foi além. O título se refere a uma jovem palestina que estapeou um soldado de Israel. A garota foi presa, e um  político judeu disse que ela merecia ser baleada no joelho. O filme começa com um cineasta chamado apenas Y, um alter ego de Lapid, fazendo testes para encontrar a atriz que interpretará Ahed. Aí ele larga tudo e vai apresentar um filme seu premiado numa pequena cidade do sul do país, em pleno deserto. Assim parece simples, mas tem muita tergiversação, muita câmera tremida, muito monólogo interior. Y se sente culpado pela maneira com que Israel trata os palestinos, carrega um trauma de quando serviu o exército e fala da mãe o tempo todo. Está longe de ser  cativante, mas Nadav Lapid exige (e consegue) atenção.
Meu principal critério para escolher quais filmes ver na Mostra é se o título em questão vai representar seu país no Oscar. Por causa disto fui ver "Descerrando os Punhos", que chegou por aqui com o nome em inglês, "Unclenching the Fists". O escolhido da Rússia venceu a mostra Un Certain Regard de Cannes e vai passar no MUBI no mundo inteiro. É aquele tipo de longa lacônico, naturalista, sem trilha sonora, com que eu implico tantas vezes. A história é aflitiva: uma adolescente da Ossétia do Norte, no Cáucaso, vive oprimida pelo pai doente e pelos irmãos carentes, para quem ela funciona como mãe. O velho não a deixa sequer passar por uma cirurgia importante. Essa atmosfera desoladora e sufocante me cansa um pouco. Devo ser mesmo um macho insensível.

MALVENUTO, MASCALZONE

Biroliro está na Itália, onde finge que vai prestar atenção à reunião do G20. Na verdade, ele foi passear às nossas custas. O lado bom é que, fora do cercadinho, a realidade persegue o Despreparado. Os padres da catedral de Pádua se recusaram a recebê-lo, e ainda criticaram suas políticas. A prefeitura de Anguillara Veneta, que decidiu homenageá-lo, amanheceu com a fachada pichada e coberta de esterco. Fico especialmente revoltado com a visita que o Rachador fará ao cemitério de Pistoia, onde estão enterrados os pracinhas brasileiros mortos na 2a. Guerra. Um covarde desse calibre não pode pisar num solo sagrado. Covarde mesmo: o Bozo não tem culhão para comparecer à COP-26, que acontece na Escócia logo na sequência. Vai voltar correndo para o Brasil, com saudades do gado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A IRMÃ DO CHUCKY

Consegui ver "Annette", meu filme mais esperado deste ano, do melhor jeito possível: refestelado numa das novas chaises longues do Cine Marquise, a versão recauchutada do bom e velho Cinearte, meu cinema favorito de São Paulo. Aliás, fui para gostar e gostei. Sou fã do Sparks desde os 13 anos de idade (estou com 61). A dupla formada pelos irmãos Ron e Russell Mael me acompanhou em todos os momentos da minha vida, e é claro que eu estava ansiosíssimo para ver um musical escrito e composto por eles. A surpresa é que "Annette" é um filme sombrio, quase desesperançoso, distante da ironia e do bom humor que me deixaram apaixonado pelo Sparks. A direção de Leos Carax eleva o artificialismo à enésima potência. Desde o início saltitante, no vídeo acima, de tom bem distinto do que vem a seguir, à marionete que encarna Annette quando bebê, creepy a mais não poder. Parece a irmã do Chucky. Carax adora encher a tela com significados. Aposto que são dele ideias como Adam Driver vestir-se quase sempre de verde e Marion Cotillard de vermelho e amarelo, ou ela estar sempre comendo uma maçã. Os dois estão ótimos e cantando super bem, mas quem rouba cena é a menina Devyn McDowell, uma estrelinha da Broadway de seis anos de idade que só aparece no final. O enredo é uma espécie de "Nasce uma Estrela" da perspectiva do homem: um comediante de stand-up não suporta que sua carreira esteja afundando, enquanto a de sua mulher, que é cantora de ópera, sobe feito um foguete. Mas esse fiapo de trama é soterrado pelo visual espetacular e pela trilha sonora sofisticada. Quem for esperando um novo "La La Land" vai se horrorizar. "Annette" é um filme estranho, para poucos. Eu estou entre eles.

TIGRÃO COM HUMORISTA, TCHUTCHUCA COM O STF

Edaír já estava com cara de maus bofes antes mesmo de André Marinho fazer sua pergunta-pegadinha no dia da estreia da Jovem Pan News. O Despreparado acha que não caiu, mas sua reação destrambelhada mostra, mais uma vez, que ele não sobrevive muito tempo longe do cercadinho. Muito provavelmente, não irá a nehum debate na campanha do ano que vem, o que deixará seus adversários à vontade para lhe tacar o pau. Falta media training, sobra ignorância. E vai faltar voto.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

EXPULSO DE QUADRA

Hoje é um bonito dia para o esporte brasileiro e para o avanço das pautas igualitárias. O jogador de vôlei Maurício Souza teve rescindido seu contrato com o Minas Tênis Clube, por pressão dos patrocinadores Fiat e Gerdau. O cara teve todas as chances de se emendar depois de uma postagem homofóbica no Instagram, mas não convenceu ninguém. Postou um pedido esfarrapado de desculpas no Twitter, onde tem muito menos seguidores, e disse que continuaria com sua "opinião". Acontece que nem todo o Brasil virou birolista, e empresas grandes hoje tomam todo o cuidado para não melindrar o público LGBTQIA+, sob o risco de perdas imensas. Maurício, que é tão apoiador do Bozo que acrescentou um 17 a seu nome virtual, ainda não acordou para essa realidade. Agora não tem mais para onde ir no Brasil: o único clube com cacife para bancá-lo é o Cruzeiro, rival do Minas, que também tem seus patrocinadores. Que ele se vá. então, para bem longe. Homofóbicos nunca fazem a menor falta.

VALEU TUDO

Quando alguém tem um autor de novela favorito, esse autor é sempre o Gilberto Braga. Nenhum outro escreveu tramas tão deliciosas, com personagens marcantes porém críveis. Eu sou tão velho que segui a primeira novela dele, "Corrida do Ouro", em 1974, e adorei. Depois veio o boom internacional da "Escrava Isaura" e um trio de produções que mudou para sempre a cara da nossa teledramaturgia: "Dancin' Days", "Água Viva" e "Vale Tudo", possivelmente a melhor novela brasileira de todos os tempos. Gilberto não gostava de ser apontado como especialista em grã-finos, mas ninguém conhecia o high society carioca tão bem quanto ele, que frequentava a alta roda graças a seu marido, o decorador Edgar Moura Brasil. Os dois chegaram a ser o único casal gay incluído no "Sociedade Brasileira", um catálogo de endereços da fina flor do Rio de Janeiro. Ontem ele se foi, sem ter tido tempo de emplacar um novo folhetim que apagasse o gosto amargo de "Babilônia", retalhada pela Globo em 2015 e rejeitada pelo público mais careta. Gilberto Braga criou ícones como Maria de Fátima e Odete Roitman, e ousou no horário mais nobre da televisão brasileira. Nem sempre deu certo, mas valeu cada tentativa.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 4

"Colmeia" ganhou os três principais prêmios da seção internacional do último Festival de Sundance, e é o candidato do Kosovo no próximo Oscar. Um típico candidato, aliás. A protagonista é uma mulher cujo marido desapareceu num massacre, e só por ser uma provável viúva ela passa a ser tratada como puta por todos em sua aldeia. A coitada monta uma cooperativa feminina para fazer ajvar, uma esp´´cie de chutney de pimentão vermelho, mas nada é fácil. A atriz Yllka Gashir está ótima no papel principal, e a mensagem óbvia é que o patriarcado não é páreo para a mulherada unida. Mas não cheguei a me emocionar.
 
O melhor até agora nesses meus primeiros dias de Mostra foi mesmo "Um Herói", que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes e deve ser indicado ao Oscar de filme internacional. O diretor Ashgar Farhadi volta à forma depois de escorregar com "Todos Já Sabem", talvez por filmar novamente em seu Irã natal. A trama levanta questões morais onde todo mundo tem um pouco de razão, e ainda fala do poder das redes sociais em formar opiniões. Um homem que está preso por não pagar uma dívida sai da cadeia por dois dias, justo quando sua namorada encontra uma bolsa caída na calçada. A bolsa está cheia de moedas de ouro, que o sujeito pensa em vender para saldar sua dívida. Mas ele acaba pregando anúncios no bairro, e uma mulher que se diz dona do tesouro logo aparece. Os diretores da penitenciária ficam sabendo, postam nas redes para melhorar a própria imagem e não demora para a TV querer entrevistar o novo herói. Mais não conto, porque a história dá muitas voltas. Meu longa favorito do Farhadi continua sendo "O Passado", mas este também é muito bom. Vá ver quando entrar em cartaz no Brasil.

O SHOW JÁ TERMINOU

Termina hoje a CPI da Covid, talvez a mais importante da nossa história. É para lá de improvável que ela resulte no impeachment ou na prisão do Biroliro, mas acredito que inúmeros objetivos foram alcançados. O maior deles foi revelar que a incompetência e a cupidez desse desgoverno são ainda maiores do que desconfiávamos. Sem a CPI, talvez não soubéssemos que o Ministério da Saúde tentou usar atravessadores para comprar vacinas suspeitas, enquanto retardava a aquisição dos imunizastes da Pfizer. Tampouco teria vindo à tona o escândalo da Prevent Senior, um horror digno da Alemanha nazista. Algumas estrelas políticas brilharam fortes, como Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Fabiano Contarato e Alessandro Vieira. Todos mostraram que têm estofo para a Presidência da República. Até mesmo Renan Calheiros, a quem eu já malhei muito neste blog, se redimiu de certa maneira, apesar de ter tumultuado o relatório final em prol de sua própria carreira em Alagoas. Sem a CPI, vamos perder um reality show que agitou o Brasil durante mais de seis meses. Mas ganhamos ainda mais motivos para defenestrar o Genocida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

CAEZÊRA

Caetano inova até na estratégia de lançamento de seu novo álbum, participando de um vídeo do Porta dos Fundos. Mas que canastrão...

TO' EL MUNDO EN PASTILLA EN LA DISCOTECA

O planeta está fervendo, Biroliro disse que a vacina dá AIDS e miseráveis reviram o lixo em busca de restos de comida, mas tudo o que eu tenho a dizer para a humanidade nesta manhã de segunda-feira é que estou viciado na música "Pepas", do cantor portorriquenho Farruko. Sempre tive uma quedinha por canções que fazem apologia às drogas, desde "Cocaine" do Eric Clapton, não sei bem por quê. Pelo hedonismo desenfreado? Pelo acinte às normas vigentes? O fato é que "Pepas" têm mesmo um refrão poderoso, além de um tecladinho digno da Ibiza de uns 20 anos atrás. Fora o gatilho que dá. Não vejo a hora dessa pandemia acabar e podermos ferver outra vez.

domingo, 24 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 3

Luzzu é um pequeno barco de madeira, típico dos pescadores de Malta. Também é o título original do filme que irá representar aquele país insular no próximo Oscar. O nome brasileiro, "Entre Águas", tenta traduzir o dilema do protagonista: ele deve vender seu luzzu, há muitas gerações na família, e passar a trabalhar numa traineira, que faz pesca predatória? O personagem é vivido por um pescador de verdade, Jesmark Scicluna, bonitão e caladão como o papel exige. O filme é quase todo falado em maltês, a única línga semítica oficial da Comunidade Europeia, que soa como árabe com sotaque italiano. O diretor Alex Camilleri éa depto desse estilo lacônico que está na moda, sem firulas nem trilha sonora, e o roteiro é típico de um concorrente ao Oscar de filme internacional: uma profissão tradicional que está sendo esmagada pelo capitalismo contemporâneo. Não amei de paixão, mas gostei de ter visto um longa de Malta.
Meu marido é tão obcecado pelo Tadzio de "Morte em Veneza" que o nome do meio de sua filha é Tadzia. Por causa disto ele foi comigo, pela primeira vez este ano, a um filme da Mostra. "The Most Beautiful Boy in the World" é um documentário sobre Björn Andrésen, o garoto que encantou Luchino Visconti e meio mundo quando tinha 15 anos de idade. Hoje ele tem 66, mas aparenta 120. Porque não teve uma vida fácil: nunca conheceu o pai, a mãe morreu quando ele era pequeno e foi criado por uma avó maluca que queria ter um neto famoso. Acabou no meio de um circo midiático sem ter o menor estofo para aguentar o tranco, e foi o primeiro ocidental a se tornar um popstar no Japão. Até que conseguiu engatar carreira, e filma até hoje. O filme talvez o retrate de um jeito mais triste do que Björn realmente é hoje em dia, com uma namorada e uma filha adulta. Mas é difícil não sair abalado do cinema.

CONTO DE AREIA

Finalmente eu consegui entender alguna coisa de "Duna". Nunca li o livro de Frank Herbert, mas sou velho o suficinte para ter visto no cinema o filme de David Lynch. Que eu revi no ano passado, no streaming, o que me dá lugar de fala para dizer que aquela joça não para em pé. Foram precisos quase 40 anos para que "Duna" ganhasse uma adaptação cinematográfica que fizessse jus à sua fama. A versão de Denis Villeneuve é espetacular em todos os sentidos da palavra, e merece ser vista na maior tela possível (mês que vem, já vai estar na HBO Max). A trama, que parece uma mistura de "Game of Thrones" com "Star Wars" e é anterior a ambas, agora ficou clara para o matuto aqui. Não tem um pingo de humor: não há robôzinhos engraçadinhos soltando tiradas espirituosas, nem nada que quebre o tom solene ao longo de duas horas e meia. Sensorialmente, o novo "Duna" é um arraso. Cenários, figurinos, design de som, efeitos visuais, vai tudo ganhar Oscar no ano que vem, A maioria das lutas é no mano a mano, com facas e adagas, o que reforça o clima medieval. Timothée Chalamet está ainda mais bonito, como se isto fosse possível, e se mostrou uma escolha mais do que acertada para o papel de um messias espacial. Mas quem roubou meu coração foi a musa Charlotte Rampling, que aparece em poucas cenas com uma rede a lhe cobrir o rosto. Agora, quem for esperando um filme completo vai se decepcionar: a história é interrompida de repente, e a continuação nem começou a ser filmada. Ainda falta muita areia para encher esse caminhãozinho.

sábado, 23 de outubro de 2021

FAROESTE DE TERROR

Essa história do tiro acidental disparado por Alec Baldwin ainda pode complicar para muita gente, inclusive o próprio ator. "Rust" é uma produção independente, ou seja, de baixo orçamento. A equipe não é a melhor possível, e muitos de seus membros não são sindicalizados - o que pode significar que não haviam sido treinados direito. Também havia pressa no set: cada dia de filmagem custa um dinheirão, e quanto menos diárias, menor o custo do filme. Isso resultou em pelo menos dois acidentes com armas de fogo antes da morte da diretora de fotografia Halyna Hutchins, e justo no dia em que ela morreu muitos ténicos pediram demissão, porque as condições de trabalho não eram das melhores. Acontece que Baldwin era um dos produtores de "Rust". É bem possível que alguém da família da morta resolva processá-lo, por mais que ele não soubesse que havia uma bala no revólver que atirou. O pesadelo pode estar só começando.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 2

Já foram feitos dezenas de filmes sobre a ditadura militar argentina, mas nenhum como "Azor". Aqui não tem cenas de tortura, ninguém foge dos milicos, nenhuma violência explícita. O que há é um "private banker" suíço e sua mulher visitando clientes em Buenos Aires em 1980, numa sucessão de drinques, festas e banhos de piscina. Aos poucos, o banqueiro percebe que todo mundo sabe (e esconde) alguma coisa. A princípio ele se escandaliza, mas não tarda para o dim-dim falar mais alto. Negócios são negócios, e a Suíça sempre lavou mais branco. O longa de Andreas Fontana entra em circuito em novembro, mas duvido que faça sucesso por aqui: pouca coisa de fato acontece. Só nas entrelinhas.
Quantos filmes do Tchad você já viu? Haha, eu já vi dois, ambos do mesmo diretor: Mahamat-Saleh Haroun. Depois de "Um Homem que Grita", no distante 2010, hoje foi a vez de "Lingui", que fez sucesso no festival de Cannes mas saiu de mãos abanando. As protagonistas são uma mãe solteira e sua filha de 15 anos. A garota engravida e é expulsa da escola. A princípio, a mãe é contra que ela aborte, mas tarda a mudar de ideia. Segue-se uma luta para conseguir um lugar seguro e confiável para abortar num país onde a prática é ilegal e moralmente confiável. Sem uma única cena sobrando, "Lingui" mostra o cotidiano de um dos países mais pobres da África, duríssimo especialmente para as mulheres. Mas elas estão descobrindo que juntas conseguem vencer o patriarcado, inclusive lá.

VERDADE TROPICAL

Tenho tudo do Caetano Veloso desde meus 14 anos de idade, que foi quando comecei a comprar meus próprios discos. Depois de tantas décadas, posso afirmar que nunca senti o impacto à primeira audição que "Meu Coco" me causou. O primeiro álbum de inéditas desde 2012 traz Caetano em plena forma, tanto como compositor quanto como intérprete. Tem porrada no Biroliro, no single "Anjos Tronchos" e na delicada "Não Vou Deixar", talvez minha favorita. Tem muito amor para dar em faixas românticas como a arabizante "Ciclâmen do Líbano" ou a homoerótica "Cobre". Tem vovô babando pelo netinho em "Autoacalanto", com que me idenfiquei completamente, E tem, acima de tudo, uma fé inabalável na força da cultura brasileira, especialmente na música. "Meu Coco", "Gilgal" e "Sem Samba Não Dá" citam grandes nomes da MPB, lembrando que um país que produziu tantos gênios não pode cair na mediocridade fedorenta da extrema-direita. A verdade é que essa merda vai passar, e Caetano continuará. Assim como esse Brasil bom e talentoso, maior que os tronchos que acham que nos governam.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A MOSTRA DE MÁSCARA - 1

So may we start? Hoje começou para valer a 45a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em formato híbrido: presencial e online. Como já tomei as duas doses, comprei a credencial de 20 ingressos e pretendo ver tudo nos cinemas. Abri os trabalhos com "Compartimento no. 6", que foi premiado em Cannes e irá representar a Finlândia no próximo Oscar. Achei legalzinho, não mais do que isso. Uma garota finlandesa pega um trem de Moscou para Murmansk, à beira  do oceano Ártico, para ver inscrições pré-históricas em pedras.  Dá o azar de cair no mesmo compartimento que um rapaz russo beberrão e grosseiro. A princípio os dois se odeiam, mas a gente sabe que vai rolar alguma coisa. As paisagens gélidas e o céu escuro não criam muito clima para um romance, mas acho que era isso mesmo que o diretor Juho Kuosmanen queria. De qualquer forma, valeu a viagem.
 
Fiquei pelas redondezas nórdicas para o meu segundo filme do dia. "Bergman Island" fala de um casal que aluga a casa que foi de Ingmar Bergman na ilha sueca de Fåro, em boa de inspiração - ambos são diretores e roteiristas. Não estão em crise, mas ela parece doida para estar. A história em que está trabalhando é de uma banalidade atroz, sobre um par de namorados que meio que reata, e somos brindados com cenas deste filme que ainda não foi feito. Não ajuda em nada o fato das atrizes Vicky Krieps e Mia Kasikowska serem desprovidas de carisma e beleza. O melhor do novo longa da cineasta Mia Hansen-Løve é o turismo pelos lugares que Bergman frequentou. Chega a ser um sacrilégio rodar um filme tão tolinho (e praticamente interminável) em um solo tão sagrado.

O TETO FUROU

Foi a direita quem inventou o teto de gastos. Quis o destino que fosse essa mesma direita, ameaçada de sair do poder, quem furasse o teto. Atônito com sua queda nas pesquisas, Biroliro bateu o pé e exigiu que o Auxílio Brasil seja de 400 reais. Foda-se se não há de onde tirar: o Minto é capaz de alugar um aviãozinho e jogar dinheiro na praia par garantir sua reeleição. Mesmo que isto exploda a economia brasileira.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

MUITOS ANOS DE VIDA

Este é o aniversário mais estranho da minha vida. Não contei antes aqui no blog, mas não tenho por que esconder. Desde meados de setembro que eu faço quimioterapia: a cirurgia por que passei em agosto era para retirar um tumor maligno do intestino. Já estive em duas sessões de aplicação intravenosa - devem ser umas oito ao todo - e tomo três comprimidos de manhã, três à noite. A medicina avançou muito! Não perdi cabelo, não fiquei enjoado, não tive afta na boca. O único efeito colateral é uma hipersensibilidade ao frio nos dedos e na língua. Nos primeiros dias após a sessão, não consigo tomar nada gelado. Depois passa. Mas, tirando uma certa fadiga de vez em quando, estou me sentindo muito bem. Não perdi um dia de trabalho, não deixei de entregar uma só coluna. Mas claro que não é mole. Uma doença dessas, a essa altura da vida, é de abalar qualquer um. No entanto, vamo que vamo. Hoje estou recebendo uma enxurrada de telefonemas e mensagens, e meu ego foi às alturas. Bom humor faz bem pra saúde!

ISTOÉ UM DESCALABRO

Deve haver um departamento do Gabinete do Ódio que só pensa em novas maneiras de passar vexame. Vai ver que foi de lá que saiu essa ideia brilhante: nada menos que a Advocacia-Geral da União está pleiteando que a revista IstoÉ saia na próxima semana com a capa ao lado, como "direito de resposta" à edição que comparava Biroliro a Hitler. Aposto que nem na ditadura militar aconteceu um descalabro como este. Fora que a capa proposta é de uma cafonice sem par, com péssima direção de arte e verbo no passado ("defendeu"), como se esse desgoverno já tivesse acabado. Só faltou uma auréola de santo na cabeça do Edaír.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

AVASSALADORAS KIDS

Tenho o prazer de informar que está sendo rodado no Rio de Janeiro o primeiro longa de ficção cujo roteiro eu escrevi do começo ao fim (os outros dois que eu tenho no currículo foram colaborações). As filmagens de "Avassaladoras 2" deslancharam na semana passada e devem ir até o começo de novembro, a depender do clima. O projeto surgiu oito anos atrás, como uma continuação do "Avassaladoras" de 2002. Cheguei a escrever um roteiro inteirinho, do qual nada foi aproveitado. O mundo deu voltas e a produtora resolveu focar a nova história no público adolescente: as protagonistas atuais são as filhas das "vassalas" originais. O elenco também mudou quase todo. No lugar da Giovanna Antonelli agora temos Juliana Baroni, cuja filha é feita pela ótima novata Fernanda Schneider. Mas a diretora é a mesma, minha amiga Mara Mourão. A estreia deve acontecer em algum momento do ano que vem, na plataforma Disney +. Outros filmes virão: ideia é o que não falta.

ESMAGANDO JACINTOS

Se não é fácil ser gay até hoje, imagina na década de 80. Na Polônia comunista. Em seus estertores, o regime achou que seria uma boa ideia perseguir e fichar homossexuais. Como não havia boates oficiais, os alvos eram banheiros públicos e outros pontos de pegação. As bibas eram presas, agredidas e humilhadas. Muitas eram casadas com mulher e tinham filhos, outras corriam o risco de perder seus empregos se fossem arrancadas do armário. É neste ambiente hostil que se passa "Entre Frestas", o título imbecil que o filme polonês "Hyacint" ("jacinto", o nome da operação policial) recebeu na Netflix brasileira. A trama deslancha quando o corpo de um figurão é encontrado num parque de Varsóvia. Um jovem investigador desconfia que alguma coisa está sendo abafada, e logo descobre que a vítima frequentava orgias gays e contratava michês. Não demora para ele conseguir um informante, que o introduz no mundo das festinhas clandestinas e começa a lhe despertar desejos inusitados. "Entre Frestas" tem um certo parentesco com "Cruisin' - Parceiros da Noite", em que Al Pacino procurava por um serial killer de viados. Mas também é um bom thriller contemporâneo, que explora um lado apavorante de um dos países mais homofóbicos da Europa.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

BANANINHA DAS ARÁBIAS

Faz falta um assessor que avise que vai dar merda, que não é o momento para ostentação. Por outro lado, a vaidade e a estupidez do Bananinha são tão grandes que eu duvido que adiantasse. O Zero-Três achou que seria engraçadíssimo postar uma foto da família toda fantasiada, esquecendo que o tresloucado gesto levantaria uma lebre: quem está pagando pela viagem da mulher e da filha para Dubai? Dado o histórico da familícia, duvido que sejam eles mesmos. Até a senhora Bananinha se mordeu, a ponto de postar uma foto da Dilma dormindo na primeira classe de um avião - o que ela queria? Que a ex-presidente viajasse de econômica e ficasse acordada a noite inteira? Por isto que não acredito em Jairzinho Paz e Amor, a suposta maneirada que o Edaír daria para estancar a hemorragia de votos. Falta neurônio para tanto.

domingo, 17 de outubro de 2021

PRIMAVERA PARA BOSTONAZI

Meu professor de história no cursinho fez um teste com os alunos de uma classe anterior à minha. Escreveu várias frases na lousa e perguntou se os alunos concordavam com elas. Quase todos disseram que sim. Eram trechos de "Mein Kampf". Gente branca de classe média tem uma certa predisposição a apoiar Adolf Hitler, contanto que o nome dele não apareça. Mas, se aparecer, é um deus nos acuda. Graças a sete décadas de doutrinação midiática, o Führer é o Anticristo, o vilão absoluto, o mal encarnado. Mas poucos conhecem suas ideias, por isto o debate ridículo se Hitler era de direita ou esquerda. Biroliro não é nazista, mas muito do que ele diz e faz (ou ameaça fazer) se aproxima daquele ideário. O que aconteceu na Prevent Senior, então, é digno de Josef Mengele. A revista IstoÉ desta semana faz a comparação óbvia, mas causou reboliço entre o gado. Viralizou o vídeo em que um sujeito na esquina da "Radock" Lobo (já percebemos que ele não é do bairro) compra quatro revistas numa banca, para depois rasgá-las. Não dá para exigir que asnos como ele saibam um mínimo de história. No mais, é triste perceber que a Lei de Godwin, criada pelo jornalista Mike Godwin em 1990, perdeu a validade. Ela diz que, numa discussão sobre política, não há como continuar se alguém chamar o outro lado de nazista. Isto era no tempo pré-Trump e outros populistas de extrema-direita. Isto era no tempo em que se achava que algo tão horrendo como o nazismo jamais aconteceria de novo.

sábado, 16 de outubro de 2021

RASHOMON NA IDADE MÉDIA

"Rahsomon" é um filme essencial de Akira Kurosawa em que a mesma história é contada de maneira diferentes por diversas pessoas. Cada um puxa a brasa para a própria sardinha, e o espectador sai sem saber de fato o que aconteceu. Esse recurso foi usado muitas vezes depois. Uma das mais recentes foi na série "The Affair", sobre um caso extra-conjugal. Fui ver "O Último Duelo" esperando ver algo do gênero. O primeiro filme de Ridely Scott deste ano (o segundo será "Casa Gucci", que sairá próximo ao Natal) é um drama medieval baseado no livro de Eric Jager. Uma nobre francesa denuncia que estuprada por um rival de seu marido; o sujeito nega; os dois homens se enfrentam num combate até a morte, na esperança de que Deus faça vencer aquele que diz a verdade. As duas horas e meia de duração são divididas em três capítulos, cada um do ponto de vista de um dos vértices do triângulo. Mas o que se vê na tela não são relatos distintos. São sempre as mesmas cenas, acrescidas de outras que dão mais contexto. Nas duas primeiras partes eu estava fascinado. O prazer de assistir na tela grande a um cinemão bem feito, com figurinos e direção de arte impecáveis, mais atores do porte de Adam Driver e Jodie Comer (Matt Damon e Ben Affleck, que assinam o roteiro, eu não curto tanto). Mas quando chegou a versão da mulher eu senti um certo fastio. O que ela conta bate com o que diz seu violador. Ele só alega que gritar e espernear são uma forma de consentimento. E aí vem o duelo em si, uma das lutas mais cruentas que o cinema jamais captou. Mesmo assim, eu ainda esperei por uma surpresa que não veio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

ARCO-ÍRIS TELEVISIVO

Podem criticar à vontade, mas nenhuma emissora brasileira de TV aberta é tão simpática à causa LBTQIA+ quanto a Globo. Nenhuma outra colocou tantos personagens gays, lésbicas e trans em suas novelas, e nenhuma tem se posicionado tão claramente a favor dos direitos igualitários em seus programas. Por tudo isto, corri para ver "Orgulho Além da Tela", a minissérie documental em três episódios que chegou nesta semana ao Globoplay. O programa vasculha os arquivos do canal em busca de viadagem na dramaturgia, e logra desencavar o primeiro personagem gay da nossa televisão, em "Assim na Terra Como no Céu", de 1970. Eu assistia a esse folhetim de Dias Gomes nas sextas-feiras, porque podia dormir tarde, e confesso que não me lembro dessa biba vivida pelo Ary Fontoura - vai ver que era sutil demais para um garoto de 10 anos. De lá a série segue em ordem cronológica até 2019, e o terceiro episódio é dedicado aos transexuais. É um ótimo registro histórico, mas "Orgulho Além da Tela" peca por tentar arrancar emoção do espectador ao promover encontros entre atores e fãs. O resultado é quase tão constrangedor quanto esses reencontros de mãe e filho depois de 25 anos no "Hora do Faro". O tom excessivamente auto-laudatório, que pinta a Globo como uma paladina progressista, só é quebrado de vez em quando, pelos depoimentos de autores que viram frustradas suas tentativas de colocar um beijo homossexual em suas tramas. Mas o próprio Silvio de Abreu revelou detalhes mais instigantes na entrevista que deu para mim em junho, no canal Manual do Tempo. Também faltaram as versões de diretores globais e - por que não? - as de opositores da representatividade LGBTetc. na TV como pastores evangélicos e lideranças conservadoras. Mesmo assim, vale a pena ver.

DISCO MUSIC DE ELEVADOR

Donna Summer é uma das minha cinco cantoras favoritas de todos os tempos. Nem tinha como não ser: foi a mulher que mais vendeu discos no undo na segunda metade dos anos 70, quando eu era adolescente e começava a consumir música para valer. Entre 1975 e 1979, ela emplacou quase duas dezenas de hits, que tocam por aí até hoje. Mas será que sua vida rendia um musical? Não: apesar de ter morrido relativamente jovem, aos 63 anos, Donna Summer não enfrentou enormes dificuldades ao longo de sua carreira, nem tinha uma personalidade muito complexa. Mas isto não desanimou a Broadway em homenageá-la com um espetáculo "jukebox", reunindo seus maiores sucessos. "Summer" foi montado no Brasil por Miguel Falabella e agora volta ao cartaz depois de um hiato de um ano e meio, causado pela pandemia. Ontem finalmente fui assistir, e é com dor no coração que digo que não gostei muito. O problema central é o libreto. A trajetória de Donna é contada de maneira confusa, sem ordem cronológica. Meu marido, que não conhecia nada, boiou bonito. Tampouco há razão para dividir a personagem em três, em diferentes idades. As músicas vão brotando a esmo, sem contexto, tentando ilustrar diferentes passagens da vida dela. Mas o maior imbróglio que Donna protagonizou é ignorado: na década de 1980, em pleno fervor cristão, ela atacou os gays, seu público mais fiel. Teve discos queimados em praça pública e nunca mais se recuperou. Para piorar, o cenário da versão brasileira é escuro e horrendo. Parece inspirado nos elevadores do shopping Eldorado. Salva-se o elenco. Karin Hills confirma a grande estrela que é como a madura Diva Donna, mas minha favorita é Jennifer Nascimento, que faz a Disco Donna, no auge da fama. É pouco. Minha memória afetiva merecia mais.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

ROUND 7

A série "Round 6" continua rendendo assunto. Em menos de três semanas, o mais recente fenômeno da indústria cultural sul-coreana se tornou a série da Netflix mais vista de todos os tempos, penetrando até no inexpugnável mercado americano. Quais as causas desse sucesso todo? É o que tenta destrinchar o novo episódio do podcast "Expresso Ilustrada", que chamou a mim e à Luciana Coelho, que escreve sobre séries na Folha, para dar uns pitacos. No final, um de nós foi eliminado.

UM LUGAR NA MESA

"Abe" teve uma trajetória acidentada. O primeiro longa de ficção de Fernando Grostein Andrade, o irmão gay do Luciano Huck, ficou pronto há mais de dois anos. Passou na Mostra de São Paulo de 2019 e teve sua estreia nos cinemas adiada sucessivas vezes, por causa da pandemia. Agora finalmente chegou à Netflix, talvez seu habitat ideal: é um filme feito para ser visto em casa, porque dá fome. O roteiro parece ter sido calibrado para ficar o mais fofo possível. Abe (Noah Schnapp, de "Stranger Things") é um garoto dividido: seus avós palestinos o chamam de Ibrahim, seu avô e tio israelenses preferem Abraham. Seus pais não se metem muito, mas mesmo assim o garoto se sente solitário e deslocado. Vai encontrar um porto seguro na comida, sob a batuta de um cozinheiro brasileiro vivido por Seu Jorge. Os closes culinários são tão maravilhosos que podem ser classificados como food porn, mas a dramaturgia deixa a desejar. Apesar de conviverem há cerca de 15 anos, os lados judeu e muçulmano da família não param de brigar entre si, por mais sagrada que seja a ocasião. Abe, que tenta unir a todos com sabores inusitados, vê seus esforços se frustarem. Claro que o final é o mais feliz possível, e o filme tem um apuro visual raro entre os nossos cineastas. Fico pensando o quanto tem de autobiográfico nessa história.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

CIRO DESENCAPADO

Ciro Gomes é tremendamente carismático. Também tem um programa de governo para o Brasil, concorde-se com ele ou não. Seria um grande candidato à presidência da República, não fossem dois probleminhas. O primeiro se chama Lula, com quem ele disputa (e sempre perde) o eleitor de esquerda. O segundo é ele mesmo. Já virou folclore seu temperamento do cão, já virou piada sua língua descontrolada. Hoje Ciro atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que estava do outro lado, ao comprar briga com um cachorro morto chamado Dilma Rousseff. A ex-presidente, que vinha sendo ostracizada pelo próprio PT, renasceu como mártir. E Ciro, coitadinho, não conquistou um único voto à direita. Parece que, mais uma vez, não será dessa vez.

TIROTEIO NA BASÍLICA

A diatribe de Dom Orlando Brandes contra a política armamentista do Biroliro é mais um sintoma da corrosão do apoio ao presidente entre o segmento conservador. O arcebispo de Aparecida fez um sermão contundente na manhã desta terça, sem citar o nome de ninguém, e depois recebeu o Minto para a missa da tarde, que interrompeu seu feriadão no Guarujá para fingir que é católico. Cada vez cola menos. Para além da pauta ideológica, a incompetência do Pau Fino se impôs em todas as áreas, do combate à pandemia até a volta da fome e da inflação. Conservadores de verdade já estão pulando fora dessa canoa furada, o que aumenta as chances de uma terceira via no ano que vem. É tudo o que o Bozo mais teme.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

QUERO FICAR NO SEU CORPO FEITO TATUAGEM

O mundo das artes plásticas é repleto de figuras bizarras e picaretas em geral. Não causaria espanto se a premissa de "O Homem que Vendeu Sua Pele" acontecesse na vida real. Um sujeito desesperado por dinheiro - no caso, um refugiado sírio, louco para reencontrar sua amada na Europa - aceita que um artista badalado tatue um visto para o Espaço Shengen em suas costas. Ele recebe um dinheirão por isto, e receberá mais cada vez que a obra mudar de dono. Em contrapartida, terá que ser exibido em museus e leilões como um objeto, e, quando morrer, sua peciosa pele pertencerá a seu último proprietário. A justificativa é perfeita: mercadorias circulam entre países com muito mais facilidade do que seres humanos. Mas o protagonista logo começa a se incomodar, incitado por um movimento de exilados que o acusa de desrespeitar a causa, e também pelo fracasso em se aproximar da ex-namorada, agora casada com outro. As coisas caminham até um desfecho cruel e plausível, que mostra que o mal está por toda parte. Mas, logo em seguida, o roteiro da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania engata uma marcha à ré que desrespeita o cinismo de um dos personagens principais e livra a cara do capitalismo. "O Homem que Vendeu Sua Pele" é um filme interessante, que discute o papel da arte nos dias de hoje. Esteve entre os cinco indicados ao último Oscar de longa internacional, mas havia outros títulos no páreo que mereciam mais.

O AGRO É POC

Gabeu surgiu dois anos atrás como um pioneiro do pocnejo, a vertente gay do gênero musical mais popular do Brasil. O rapaz tem berço: é filho do Solimões, que faz dupla com Rionegro. Também tem sorte, porque o pai o apoia totalmente e até o chama de "meu viadinho". Depois se apresentar ao mundo com o single "Amor Rural", ele lança agora seu primeiro álbum, com o título singelo de "Agropoc". Por enquanto só ouvi "Bailão", mas já me entusiasmei. Com pegada de country americano e letra que se aplica a muitas bibas, não só as do campo, a música é forte candidata a hit. Será que o queernejo, o outro nome do estilo, agora vai? Os sertanejos são sempre associados ao machismo e até o birolismo, e com razão. Mas o sucesso das feminejas, que foram encampadas pela mulherada, mostra que só depende de nós.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

TERRIVELMENTE ENROLADO

Como sói acontecer, Edaír Biroliro criou uma armadilha para si mesmo. Ao prometer que nomearia alguém "terrivelmente evangélico" ao STF, ele amarrou seu destino ao de André Mendonça, que corre o sério risco de ser rejeitado pelo Senado. E deu a figuras sinistras como Malafaia o poder de veto a qualquer nome que venha a substituir o atual AGU, numa demonstração de fraqueza explícita. Onde já se viu pastor ditando quem o presidente pode indicar ao Supremo? Só no Brasil, é claro.

domingo, 10 de outubro de 2021

DE PÉ, CINÉFILOS DA TERRA - 6

Já estamos em outubro e eu continuo vendo filmes internacionais que concorreram ao último Oscar. Não vou reclamar: já me aproximo da casa dos 30 títulos assistidos, quase um terço dos inscritos - um recorde. Um deles eu consegui ver no cinema, algo raro nos dias que correm. O guatemalteco "A Chorona" esteve entre os 15 semifinalistas ao prêmio da Academia e foi lançado por aqui como um terror convencional, em salas de shopping. Quem foi esperando levar sustos também ganhou uma aula sobre a história recente da Guatemala: como eu disse na minha crítica na Folha, o longa de Jayro Bustamante lança mão dos clichês do gênero para narrar uma fábula política. O horror da vida real sempre supera o da ficção.
"A 200 Metros" representou a Jordânia na competição, mas se passa na fronteira entre Israel e os territórios palestinos. O vilão aqui é o muro que os israelenses ergueram ao redor de seu país, o que aumentou a segurança mas tornou um inferno a vida dos palestinos comuns que precisam passar de um lado para o outro. O drama do protagonista é especialmente pungente: ele vive a 200 metros da casa onde estão sua mulher e sua família, separados pela muralha intrasnponível. Eles até se veem, mas para estarem juntos é necessária uma epopeia. Para complicar, o visto do sujeito expirou, então ele precisa pegar um transporte clandestino para atravessar a divisa. "A 200 Metros" tem para alugar nas boas plataformas do ramo, e vale a pena mesmo se você não for ligado em política. É quase um thriller, cheio de cenas de suspense.
Esses dois filmes são bons, mas o melhor do trio é "Você Morrerá aos 20 Anos", o primeiro longa do Sudão a entrar na disputa pelo Oscar. Era uma dos favoritos, mas não ficou nem entre os 15 semifinalistas. Uma grande injustiça: o filme é uma beleza, com fotografia apurada e música envolvente. A história parece se passar em outros tempos, não fossem alguns objetos que remetem ao século 21. Numa aldeia no interior desse misterioso país da África, a mãe de um recém-nascido leva seu bebê para ser abençoado por um sheik. O velho então faz uma profecia: o garoto morrerá no dia em que completar 20 anos de idade. É o que basta para todo mundo tratar o coitadinho como um morto vivo. Os pais chegam a discutir qual será a melhor cova para o filho, que até se engraça com uma moça mas não pode namorá-la - para quê, se ele vai morrer logo? Assiti na Mostra dos Cinemas Africanos na plataforma Sesc Digital, e nem sei mais se esta joia rara ainda está disponível. Se estiver, não perca: vale demais a pena.

sábado, 9 de outubro de 2021

SILÊNCIO, QUE SE VAI CANTAR O FADO

A plataforma Paramount + deve ter visto um salto em seu número de assinantes nesta sexta. Muita gente aderiu ao teste de sete dias grátis, eu inclusive, só para ver o show "Madame X" da Madonna. Vou aproveitar esta semaninha para ver de novo, porque eu adorei. Pela primeira vez em mais de 30 anos, Madge evitou os estádios e levou seu circo para teatros. O resultado é um contato mais próximo com o público, apesar do Coliseu de Lisboa - onde boa parte do espetáculo foi gravada - ser imenso. "Madame X" é, de longe, o concerto mais político da carreira de Madonna. É uma resposta direta à ascensão de Trump, Biroliro e outros bostas da extrema-direita. Liberdade de expressão, controle de armas, controle sobre o próprio corpo e direitos igualitários fazem parte da playlist, que tem poucos hits do passado. Também é fruto da temporada que a cantora passou em Portugal, com muitas influências latinas. Um dos pontos altos é "Batuke", com a sensacional Orquestra Batukadeiras. Madonna também se arrisca num fado, cantando em português quase castiço, e logo em seguida o cenário se transforma numa espécie de cabaré povoado por bichas e mulheres de vida suspeita. Ela nunca falou tanto no palco, e às vezes a arrogância com que trata os fãs me faz duvidar de sua sinceridade. Mas agora é tarde para reclamar: Madonna é rainha e eu sou seu súdito desde 1984. "Madame X" é seu show mais sofisticado e adulto (não admira que ninguém na plateia parecia ter menos de 40). Foi também uma turnê curta, repleta de acidentes e encurtada por causa da pandemia. Ainda bem que existe este registro.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

QUE DROGA DE FILHA

Às vezes eu acho que a Glenn Close só não ganhou um Oscar por ser feia. Sim, f-e-i-a: minha atriz favorita tem inúmeras qualidades, mas a formosura não está entre elas. Glenn até que fica uma mulher interessante quando está bem vestida e bem produzida, mas nada disso acontece em "Four Good Days", que chegou às plataformas de streaming mantendo o título original. De cabelinho curto e jeans apertado, ela está o cão chupando manga no quarto filme que roda com Rodrigo Garcia, filho de Gabriel García Márquez. Mas está fabulosa como sempre, num papel que tem um certo parentesco com a Mawmaw de "Era uma Vez um Sonho", que lhe rendeu sua mais recente indicação ao Oscar: a mãe de uma viciada em drogas, que não sabe se estapeia ou abraça a filha. Feita aqui por Mila Kunis, sem medo de ficar horrenda e esbanjando um talento dramático que "That 70's Show" nunca deixou que desconfiássemos. Dito isto, o longa em si não é grande coisa: parece feito para a televisão, com seu orçamento modesto e ambições idem. Mas Glenn Close é Glenn Close, e eu vejo qualquer coisa onde ela estiver. Pena que a versão para o cinema de "Sunset Boulevard" pareça cada vez mais distante.

POBREZA MENTAL

Pobreza menstrual é um termo que começou a circular na mídia há pouco tempo. Eu nem desconfiava que isso existia. Foi graças à chegada das mulheres ao poder em diversos países que o problema ganhou nome e solução. Hoje, países avançados como a nova Zelândia já distribuem absorventes gratuitos a mulheres carentes e a estudantes da rede pública. Aqui no Brasil, um projeto de lei capitaneado pela deputada Marília Arraes (PT-PE) foi obviamente vetado pelo Biroliro, depois de asnos como Abrahm Wejngarten terem apelidado a ideia de Chicobrás. Asustado com a má repercussão, hoje o Mentalmente Pobre disse que precisou vetar porque não há previsão da fonte de custeio etc. etc., mas é só conversa para o gado dormir. Todo mundo sabe que, se os homens menstruassem, os absorventes seriam gratuitos desde o século 19.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O PIOR ESTADO DO BRASIL

Sei que é feio generalizar, que todos os estados brasileiros são bacanérrimos e por aí vai. Mas, na boa: o pior de todos se chama Santa Catarina. OK, SC é uma beleza, tem praias formidáveis, sotaques incríveis, a melhor Oktoberfest fora da Alemanha. Tenho até amigos catarinenses! Mas um lugar onde o Véio da Havan é o favorito para se eleger senador no ano que vem não pode ser boa coisa. Tem também a vice-governadora que se recusa a renegar o nazismo do pai, and don't get me started on Balneário Camboriú. Depois de construir os arranha-céus mais altos do país, que arruinaram a praia com suas sombras, o que fez a cidade? Aumentou a praia! Só para, daqui a alguns anos, erguer prédios ainda maiores. Nesta quinta os barriga-verdes fizeram jus à má fama quando o TJSC confirmou por unanimidade a inocência de André de Camargo Aranha, acusado de estupro por Mariana Ferrer. Tomara que ela recorra, para levar o caso para a esfera federal. Ela não tem chance nesse estado fascistóide.

DIANA ENVOLVIDA EM UM NOVO DESASTRE

O musical "Diana" teve sua estreia na Broadway adiada em mais de um ano e meio por causa da pandemia. Programado para março do ano passado, ele só entra em cartaz agora em novembro. Para gerar algum fluxo de caixa, os produtores adotaram uma estratégia de marketing arriscada. O espetáculo inteiro foi gravado sem plateia, e já está disponível na Netflix. No entanto, se eles estão esperando um estouro de público depois desse lançamento, podem tirar o cavalinho da chuva. "Diana" é um desastre do começo ao fim. Visualmente até tem sua graça, mas as músicas são todas ruins, com letras piores ainda - e musical com música ruim nem deveria receber alvará. A promessa de revelar detalhes inéditos sobre a vida da princesa tampouco se cumpre. Não há nada que não tenhamos visto ou lido nos últimos 24 anos, especialmente na série "The Crown". Também é questionável reduzir a família real a apenas três pessoas - Diana, Charles e Elizabeth 2a. - com Camilla Parker-Bowles girando em torno deles. Para completar, o final abrupto não gera a catarse esperada. A humanidade se divide entre quem odeia e quem adora musicais, e eu me encontro entre esses últimos. "Diana" não vai conquistar nenhum novo adepto para o nosso lado, e talvez afugente alguns já convertidos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

BATATINHA FRITA 1, 2, 3

O trailer de "Round 6" não me deixou assanhado para ver a série. Não sou chegado em ultraviolência. Aí essa produção sul-coreana se tornou um fenômeno mundial e eu me vi obrigado a conferir what's the fuss all about. No segundo episódio, eu já estava fisgado. Como eu digo na minha coluna de hoje no F5, a ideia não é nova: a competição até a morte já foi usada em dezenas de obras, e serviria para dar uma levantada no interesse do "Zig Zag Arena", novo programa domincial da TV Globo. Mas "Round 6" explora o drama moral de seus personagens, constantemente colocados diante de escolhas difíceis - sem falar nos jogos em si, cada vez mais cruéis e sangrentos. Agora torço por um esquete do Porta dos Fundos ou coisa que o valha chamado "O Jogo do Lula" (uma variação do título original). Um robô gigante do ex-presidente, dotado de sensor de movimento, cantaria "Batatinha Frita 1, 2, 3" enquanto os candidatos da terceira via tentam atingir 10% de votos no primeiro turno. Quando a música para, o robô se vira e atiradores metralham os que não alcançaram a marca.

ENTER THE DRAGON

Depois de três anos de abstinência de "Game of Thrones", ontem a HBO jogou um ossinho para nós, pobres famintos. O canal divulgou o primeiro teaser de "House of the Dragon", que estreia em 2022. A trama é um prequel de "GoT" e conta como a casa Targaryen, vinda da Valyria, conquistou o continente de Westeros com a ajuda de uns lagartos voadores. Achei muito legal, mas também não achei: o Trono de Ferro, de novo?? Outra notícia alarmante é a de que o autor da saga, George R. R. Martin, está na equipe de roteiristas. Pelo jeito, os dois últimos livros das "Crônicas de Gelo e Fogo" terão que ser psicografados.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

NOVELA DA RECORD PARA CATÓLICOS

"Fátima - A História de um Milagre" não é o tipo de filme que eu pagaria para ver. Só assisto filmes religiosos se eles se tornam fenômenos culturais, como "A Paixão de Cristo" do Mel Gibson (que eu odiei). Mas fui convidado pela distribuidora para a cabine de "Fátima", que entra em cartaz no dia 14. Provavelmente não irão me convidar nunca mais, porque não gostei muito. Assistir a esse tipo de obra nunca é fácil para quem não segue a religião em questão (ainda acredito em Deus, mas faz tempo que não me considero mais cristão). Eu tento manter a objetividade crítica, analisando a dramaturgia e os valores de produção. Nesse último quesito, "Fátima" passa com louvor: a reconstituição de uma aldeia portuguesa de 100 anos atrás é primorosa. Mas as atuações são irregulares, ou os atores trazem muita bagagem. Adoro a Sônia Braga, por exemplo, mas como me convencer que a atriz que foi a caliente Dama do Lotação agora é a irmã Francisca, aos 80 anos de idade? O roteiro tampouco ajuda. Os diálogos parecem terem sido traduzidos para o inglês e depois colocados na boca de um elenco que também não tem o inglês como língua materna. Mas o pior de tudo é o ritmo. O pouco drama que há, o conflito entre os relatos dos pastorinhos e as autoridades civis e eclesiásticas, é esticado a mais não poder, ao ponto de não acontecer nada lá pelo meio do filme. Nenhuma atenção é dada aos famosos três segredos. Pelo menos o final reencena o chamado "milagre do sol", que embasbacou as centenas de pessoas que estiveram na Cova da Íria em 13 de outubro de 1917, para a suposta última aparição da Virgem Maria. Sinto que "Fátima: A História de um Milagre" é o equivalente católico das novelas bíblicas da Record. Bem-cuidado, até bonito de se ver, mas que prega apenas para quem já crê.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

ATAQUE À ESTRELA DA MORTE

Toda vez que cai o WhatsApp, eu rolo de rir com os trouxas que entram em pânico porque se esqueceram que seus celulares também têm telefone e SMS. Hoje o tombo foi maior: caíram todas as redes da Estrela da Morte do imperador Zucker. Facebook, Instagram e WhatsApp estão fora do ar desde manhã, e já tem gente perguntando se tem as habilidades necessárias para sobreviver na sociedade agrário-pastoril que em breve voltará. Tampouco faltam teorias de conspiração: uma delas jura que o Face e seus irmãos foram deletados. Varridos da face da Terra para todo o sempre! Lamento pelas muitas fotos e lembranças que acumulei lá desde 2009, mas não fico totalmente triste, não. Isso é que dá uma única empresa controlar tantas redes de alcance mundial. Tem lugares que estão até sem internet, porque o provedor é do Facebook. As ações da empresa também caíram, inclusive porque uma ex-funcionária vazou documentos comprometedores. Enquanto isto, o Twitter também periga cair, porque está sobrecarregado de refugiados da concorrência. Que essa gentalha não estrague a minha rede favorita.

ELE QUER PEGAR O SEU DINHEIRO

O Brasil já teve diversos ministros incompetentes no comando da Economia. Tampouco faltaram aqueles que adotaram medidas para aumentar a popularidade presidencial no curto prazo, mas de efeitos desastrosos no médio. Paulo Guedes tica essas duas caixinhas, além de demonstrar uma sensibilidade social digna do século 17: suas declarações patéticas sobre empregadas domésticas na Disney e a volta do AI-5 irão persegui-lo até o túmulo, o que é bem-feito. Agora sabemos que o posto Ipiranga do Biroliro também lucra com a alta do dólar, que prejudica milhões de brasileiros. A revelação de que tanto ele como Roberto Campos Neto mantêm empresas offshore na Ilhas Virgens Britânicas para esconder dinheiro é um escândalo que abalaria qualquer governo sério. Como estamos no Brasil, Guedes continuará arreganhando as garras pra cima da gente, enquanto sua fortuna pessoal aumenta todos os dias.