terça-feira, 31 de agosto de 2021

CARLUXO RAXADINHO

De todos os cinco filhos do Despreparado, o Zero-Dois me parece o mais trágico. Aquele que vai ter o pior final de todos. O mais patético é que Carluxo nem queria entrar para a política. Foi obrigado pelo pai a se candidatar a vereador com apenas 17 anos de idade, para ampliar o esquema de rachadinhas que o Edaír já operava desde sempre. Na ânsia de ser aceito, o rapaz acabou se tornando o cérebro da familícia. Um cérebro perturbado, sem dúvida, mantido à base de remédios tarja-preta e que pode explodir a qualquer momento. Que talvez esteja próximo: a Justiça quebrou hoje os sigilos fiscal e bancário do Carluxo. Pena que o telefônico permanece intacto. Queria muito ver a cara de quem ler as mensagens sem pé nem cabeça que esse desequilibrado troca com suas paquerinhas.

ATUALIZAÇÃO: no meu afã de postar rápido, escrevi anteriormente que o sigilo telefônico do Carluxo havia sido quebrado. Não foi: só o fiscal e o bancário. Que peninha.

EXCELÊNCIA NEGRA

Eu queria ver "Doutor Gama" mais por dever cívico do que prazer. Afinal, é um filme sobre um personagem histórico importante porém pouco conhecido, uma figura fundamental para a abolição da escravatura, e ainda por cima dirigido por um cineasta negro, mas eu temia que fosse chato e pretensioso. Acabei gostando muito mais do que eu esperava. Jeferson De fez um filme elegante, quase lacônico, de ritmo tranquilo porém sem tempos mortos. A reconsituição de época está impecável, os atores brilham sem precisar de maiores arroubos e a mensagem didática desce redonda. Apesar de ter nascido livre, Luiz Gama foi vendido como escravo pelo pai branco, que queria pagar dívidas de jogo. Acabou se tornando o primeiro advogado negro do Brasil, e ajudou a inocentar vários escravizados acusados de crimes. É uma bela história, contada muito bem. Não perca: "Doutor Gama" já está disponível no Globoplay.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

VAL QUANTO PESA

Eu nunca fui fã do Val Kilmer. Nunca o achei especialmente bonito, nem bom ator. Mesmo assim, gostei bastante do documentário "Val", que chegou há pouco à Amazon Prime Video. O filme é composto, em grande parte, por vídeos caseiros que o próprio Val foi acumulando ao longo da vida, desde que era criança. Sua trajetória é contada em detalhes, da tragédia que marcou sua infância ao súbito estrelato em Hollywood. Cenas de longas como "The Doors" ou "Batman & Robin" ilustram sua fama de difícil, sempre criando caso com diretores e colegas de elenco. Mas a voz da narraçaão em off é a de seu filho: Val Kilmer perdeu a voz alguns anos atrás por causa de um câncer na garganta, e hoje só fala com a ajuda de um aparelho. Sua carreira terminou justo quando ele ensaiava uma volta triunfal, com um monólogo onde interpretava o escritor Mark Twain, e hoje ele vive de sessões autógrafos remuneradas em eventos para fãs. É muito triste, mas também emocionante. "Val" serve como lembrete de como tudo é passageiro, inclusive o motorista e o cobrador,  mas também de que muitas desgraças não são definitivas se houver resiliência e otimismo.

LULA DESREGULADO

Mesmo sendo o franco favorito para as eleições do ano que vem - ou talvez por isto mesmo - Lula já disse duas enormes bobagens, que podem virar munição nas mãos de seus adversários. Uma delas foi reiterar apoio à ditadura venezuelana. A outra foi garantir que tentará mais uma vez a famigerada "regulação da mídia", que muita gente entende como a volta da censura. O capo do PT jura que não, que só quer implantar por aqui um modelo semelhante ao do Reino Unido ou da Alemanha, sem entrar em maiores detalhes. Alguém devia avisá-lo de que essa discussão não atrai um único voto, mas pode afastar vários. Lula sonha com o que Cristina Kirchner fez na Argentina, que desmembrou o grupo Clarín. Só que o inimigo agora é outro: de nada adiantará investir contra a Globo, pois as fake news se espalham mesmo pelas redes sociais. Em 2022 estou mais do que disposto a fazer algo que nunca fiz, votar em Lula, se este for o preço para nos livrarmos do Bozo. Mas eu ficaria mais tranquilo se ele de fato propusesse um governo de união nacional, sem pautas requentadas da velha esquerda.

domingo, 29 de agosto de 2021

BEAT THE CLOCK YOU GOTTA BEAT THE CLOCK

Uma das primeira medidas tomadas por Biroliro na presidência foi a extinção do horário de verão, que o Brasil vinha adotando desde meados da década de 1980. A justificativa oficial era a de que a economia de energia elétrica não compensava o enorme transtorno físico e emocional que algumas pessoas sofrem por adiantar o relógio em uma hora. Essas pessoas deveriam ser proibidas de viajar para outro fuso horário, pois correm risco de vida. Mas o resto de nós adorava aquele dia um pouquinho mais longo, que dava mais praia nas cidades do litoral e mais trabalho para quem fica no escritório, pois anoitece mais tarde. Dois anos depois, é patético ver o Edaír pedindo para as pessoas desligarem um ponto de luz ou tomarem banhos mais curtos para economizar água e luz. Medida concreta para evitar um apagão, como fez FHC, necas de pitiriba, até porque o Despreparado não faz a puta ideia do que seja governar. Melhor jogar a culpa nos outros, talkey? Enquanto isso, empresários fazem lobby pela volta do horário de verão. O Bozo cederá? Duvido: ele tem o dom de sempre fazer a coisa errada.

PARA CAIR DE BOCA

Ontem eu descobri que existe na Espanha uma rede de lojas chamada La Pollería - a Caralharia, em tradução livre. O plato fuerte do lugar é o pollofre, uma simpática contração das palavras polla (pau) + gofre (waffle). O troço pode ser mergulhado em caldas de diversos sabores e depois saboreado da maneira mais pornográfica possível. O curioso é que, num país com fama de machista com a Espanha, La Pollería é um tremendo sucesso, com filiais em várias cidades. No Brasil de hoje, haveria protesto de minions na porta e acusações de pedofilia.

sábado, 28 de agosto de 2021

BRIEFING NO ALVORADA

- Bom dia, presidente. 
- Bom dia. O cercadinho já tá cheio? 
- Já. Com os mesmos de sempre. 
- Então vamos lá. Vamos acabar com essa porra logo, e aí sextou. 
- Vamos. Só uma coisa, presidente... 
- Que foi? 
- A imprensa toda está falando da mansão do Zero-Quatro. 
- Porra! Até que demorou. Eles se mudaram pra lá em junho. Só descobriram agora? 
- E estão dizendo que a sua ex-mulher não tem renda para pagar o aluguel. 
- Claro que não tem. Quem que eles acham que tá pagando por aquilo lá? 
- O erário público. 
- Bom, e o que é que isso tem a ver com o cercadinho? Lá ninguém vai me perguntar nada sobre isso. 
- Não, não vai. Mas era bom o senhor soltar uma bomba qualquer. Pra distrair a imprensa. 
- Uma bomba? Tipo o quê? Que, se não tiver voto impresso, eu mato todo mundo? 
- Não, o voto impresso já não mobiliza tanto quanto antes... 
- Já sei. Vou dizer que todo mundo tem que comprar fuzil. 
- Mas o senhor já disse isso antes. Precisávamos de um ângulo novo. 
- Que tal, "melhor comprar fuzil do que feijão?" 
- Ótimo! Podia ser até mais radical. Tipo, "quem quer comprar feijão é idiota". 
- Porra, de vez em quando você até que dá uma dentro. Gostei. Faz o seguinte: mês que vem, só me devolve 50% do seu salário, talkey?

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

VENHA A NÓS

No primeiro episódio da série argentina "Vosso Reino", um candidato à presidência da República é apunhalado... e morre. O diretor e roteirista Marcelo Pyñeiro jura que a cena já estava escrita antes do atentado ao Biroliro em 2018, mas é difícil acreditar. Até porque o político em questão era apoiado pelos evangélicos, e o pastor que ele tinha como vice em sua chapa assume seu lugar. Lançada há duas semanas na Netflix, "Vosso Reino" está causando um forrobodó na Argentina. As lideranças evanjas de lá estão reclamando da maneira como a fictícia Igreja do Reino da Luz é retratada na série: hipócrita, corrupta, obcecada por poder e dinheiro. Imagine aqui no Brasil, onde os teocráticos têm uma influência muito maior do que no país vizinho. É uma pena que, no momento atual, nada parecido possa ser rodado por aqui. Por isto, assistir a "Vosso Reino" tem um agradável sabor de vingança. E não só isso: a série é muitíssimo bem escrita, dirigida e atuada, com um plot twist atrás do outro. O elenco está cheio de estrelas locais, como Diego Peretti, Mercedes Morán, Nancy Dupláa e os belos Chino Darín (filho do Ricardo) e Joaquín Furriel (sem barba pela primeira vez). Vale a pena se ajoelhar e entregar a alma a esses deuses.

O BARRACO DA VIÚVA

O MCU, ou universo cinematográfico da Marvel, está longe de ser uma das minhas especialidades. Assisti aos filmes dos Vingadores fora de ordem, alguns na TV, e pulei os longas do Capitão América e os mais recentes do Homem-Aranha. Não sei bem quem é quem, e não me importo. Por isto não me abalei em ir ao cinema para ver "Viúva Negra". Esperei o longa chegar de graça para todos os assinantes da plataforma Diseny +. E não é que eu me diverti? Para além das sequências de ação espetaculares (um pleonasmo, pois se não for espetacular não vale), o roteiro traça um complexo retrato da situação familiar de Natasha Romanoff. Antes de prosseguir, um parêntese para discutir esse nome: Natasha e Romanoff são, respectivamente, o prenome e o sobrenome russos mais óbvios, e parecem ter sido escolhidos por quem tem só um mínimo de conhecimento sobre a Rússia. Mal comparando, é como se a identidade secreta de uma heroína britânica fosse Mary Windsor. Voltemos à resenha. O mais interessante de "Viúva Negra" são as relações de amor e ódio que a protagonista têm com seus falsos pais e sua falsa irmã. Os quatro posavam como uma família "normal" nos Estados Unidos dos anos 1990, mas eram todos espiões russos - curioso que, àquela altura, já não houvesse mais União Soviética. Natasha também está em busca de sua mãe biológica, e a encontra da pior maneira possível. Resumindo: um barraco cabeludo, digno do "Casos de Família".

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

PORSCHE MISÉRIA

Adolescente é, por definição, uma criatura sem noção. Se o adolescente for rico, então, sai de baixo. O perigo aumenta se ele estiver envolvido numa disputa judicial por uma fortuna de milhões. No caso, elas: Marina e Sofia Liberato, as filhas de Gugu, que acharam uma ótima ideia postar um vídeo onde acusam a tia Aparecida de estar lhes roubando. Só que o tiro arrombou a culatra, porque o tribunal da internet se voltou contra as irmãs. Onde já se viu, aos 17 anos de idade, choramingar que não ganhou um Porsche?  As duas são filhas do Paulo Guedes? Gugu está pagando. depois de morto, o preço por não ter deixado as coisas claras em vida. Quem era sua mulher ou marido de fato, quem herdaria o quê? Taí o resultado.

(ATUALIZAÇÃO: escrevi este post meio na correria, e cometi um erro grave ao dizer que as meninas reclamavam de ganhar só 500 mil reais por mês. Eram 500 dólares por semana. Também consta que elas não gravaram para postar nas redes, mas como parte de um depoimento contra a tia, e alguém - ALGUÉM - vazou o vídeo para as redes sociais. Mas a reclamação pela falta de Porsche é genuína)

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O HOMEM DA TARJA PRETA

A revista Piauí iria publicar em breve uma nova reportagem sobre Marcius Melhem. João Batista Jr., o mesmo jornalista que assinou uma matéria devastadora sobre as acusações de assédio ao humorista na edição de dezembro passado, já tinha pronto o texto, cheio de novas revelações. Mas Melhem entrou na Justiça e conseguiu que a Piauí sofresse censura prévia. Nada pode ser publicado "pelo tempo que durarem as investigações". Mesmo assim,  Batista Jr. divulgou um trecho do artigo, com as partes mais sensíveis devidamente tarjadas. Pelas palavras que sobraram ("num flat", "banheiro"), dá para imaginar cenas cabeludíssimas. Talvez piores do que as que são de fato descritas...

DIA DE FICAR NA MOITA

Acho uma idiotice grupos de oposição continuarem pressionando o governo de São Paulo para se manifestarem na Av. Paulista no dia 7 de setembro. Além do gado ter reservado a data primeiro, é cair no jogo dele ir para a mesma via no mesmo dia. Tudo o que Biroliro quer é um choque violento, para justificar o golpe com que ele tanto sonha. Aliás, se você não for um bovino certificado, 7 de setembro é dia de ficar em casa. Aproveita para por as séries em dia! Quem for para a rua, mesmo se for para comprar pão, se arrisca a levar um tiro de algum minion, pois muitos sairão armados neste dia. Não se compra briga com arruaceiro. Deixa os celerados se aglomerarem em paz e transmitirem entre si a variante delta. No domingo, dia 12, é nóis.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

KISSTERIA

O Kiss nunca foi uma das minhas bandas favoritas. Mas eu fui adolescente nos anos 1970, então não teve como eles não marcarem a minha vida. Só um álbum era realmente bom, "Destroyer", de 1976, mas singles como "I Was Made for Lovin' You" e, pricipalmente, "Rock'n'Roll All Night" tocam por aí até hoje. No entanto, mais importante que a música era o visual, o espetáculo, o senso de teatralidade. Todo rock star encarna uma persona que não corresponde exatamente ao que ele é fora do palco, mas o Kiss foi adiante: com suas máscaras de teatro kabuki, Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley e Peter Criss eram personagens em que qualquer fã podia se transformar. Bastava pintar o rosto. Praticamente heróis da Marvel tocando guitarra. Eu me desinteressei pelo Kiss assim que entrei na faculdade, e não levantei da cadeira quando eles finalmente vieram tocar no Brasil. Hoje me arrependo um pouco: falta um show do Kiss no meu currículo. Estou preenchendo essa lacuna com "Kisstory", o documentário em duas partes exibido pelo canal A&E e que ainda pode ser visto em VOD. E aprendendo detalhes que eu desconhecia, como o nome real do Gene - Chaim Witz! Deu até vontade de pintar o rosto.

DESÂNIMO CONTAGIANTE

Depois de algum tempo na moita, Abraham Weintraub e seu irmão Artur voltaram a quebrar a internet. No mau sentido, é claro. É contagiante o desânimo dos dois no vídeo acima: parece que subiram correndo um lance de escadas, coitadinhos. Também são de se reparar os argumentos que eles usam para convocar para a manifestação do gado em 7 de setembro. A extrema-direita tem duas táticas de propaganda. Uma delas é negar a existência ou diminuir a gravidade de problemas reais: racismo só existe em casos pontuais, homofobia só é caracterizada pela violência física, feminismo é mimimi. A outra é se alarmar com problemas imaginários, como o comunismo, o globalismo ou a ideologia de gênero. Aqui eles apontam para o perigo iminente do Brasil se tornar um Afeganistão, como se o desgoverno Biroiliro já não estivesse tentando implantar uma teocracia. Ah, como eu torço para que o ex-minsitro da Educação se candidate ao governo de São Paulo no ano que vem, só para rir da sova que ele vai levar nas urnas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

MESTRA DE NINGUÉM

Meu pódio das melhores séries do ano está ficando apertado. A mais nova medalhista é "The Chair", cuja primeira temporada chegou na sexta na Netflix e já foi devidamente devorada por mim (são só seis episódios, de meia hora cada). Trata-se da primeira produção assinada por David Benioff e D. B. Weiss, os showrunners de "Game of Thrones", e criada pela mulher do primeiro, a atriz Amanda Peet. A locação soa meio distante do nosso rame-rame cotidiano - uma imaginária universidade da Ivy League, Pembroke - mas "The Chair" me atingiu tanto politica quanto pessoalmente. O campus, é claro, é dominado pela garotada que se ofende com qualquer coisa e acha que o mundo inteiro está errado, menos ela. O progresso parece chegar quando a primeira mulher e a primeira não-branca assume a a cátedra de inglês e literatura , no que prometia ser um emprego tranquilo. Mas a acadêmcia vivida por Sandra Oh, a atriz mais adorável do planeta, até que tenta fazer a coisa certa, mas se vê emparedada por dois lados. De um estão os alunos, que acham que um professor que fez "heil, Hitler" em sala de aula para ilustrar um ponto é um neonazista que merece ser defenestrado. Do outro está a velha guarda, com ideias emboloradas e privilégios injustificáveis. Em meio a esse cabo de guerra, a protagonista ainda tem que lidar com a filha adotada, que decidiu que odeia a mãe. Ela vive os dilemas da meia-idade e consegue desagradar todo mundo. Com diálogos afiadíssimos, um elenco dos sonhos, muitas risadas e algumas lágrimas, "The Chair" conclui sua trama rapidamente, sem deixar gancho para uma segunda temporada. Que agora eu rezo para que aconteça.

CACHORRINHO QUE LADRA

Quanto tempo mais vai levar para os líderes do Legislativo e do Judiciário entenderem que Biroliro não quer "diálogo"? Quanto mais até Artur Lira e Ciro Nogueira perceberem que o Despreparado irá descumprir todas as promessas de contenção, porque ele nunca perdeu nada por não se conter? O país paga o preço de ter eleito um arruaceiro, que nunca trabalhou um dia sequer na vida e continua não trabalhando. Mijaír agora quer nos meter medo: faz paradinha de tanques fumarentos, pede impeachment de juízes do STF, jura que as FFAA são "dele", grita que a corda está esticando. De fato está, por ele mesmo. Acontece que, quanto mais ele ladra, menos medo eu tenho. Quem pode dar golpe não avisa que vai dar. E se vier o golpe, quem vai governar? Os PMs que andam se manifestando nas redes sociais? Devem ser tão competentes quanto os milhares de milicos que ocupam cargos civis neste desgoverno. Ah, e convém não se impressionar com o tamanho da manifestação na Av. Paulista, no dia 7 de setembro: estão convocando o gado até de outros estados, com passagem e estadia grátis, na tentativa de ostentar um apoio que o Pequi Roído simplesmente não tem mais. Esse cachorrinho que arreganha os dentes não tem força para morder ninguém.

domingo, 22 de agosto de 2021

SPA SEM TER VOLTAS

Hotéis são ótimos cenários para a ficção. O autor consegue enfiar num mesmo cenário um bando de personagens que não se cruzariam fora dali. Ainda há o bônus da locação glamurosa se a obra for adaptada para as telas. Um exemplo recente é a minissérie "The White Lotus", que está fazendo sucesso na HBO Max. Mal acabei de ver esta e já embarquei em outra viagem: "Nove Desconhecidos", cujos três primeiros episódios acabam de chegar à Amazon Prime Video (serão oito ao todo). O hotel no caso na verdade é um spa ultra exclusivo, que se dá ao luxo de escolher seus hóspedes e combiná-los em grupos em que uns aticem os outros. No comando, uma russa misteriosa: Nicole Kidman, cujo rosto passado a ferro às vezes fotografa lindamente, e em outras lembra os make-ups do filme "As Branquelas". Já o grupo de hóspedes têm o esperado: gente folgada, que fala alto e se mete na vida alheia, além de segredos que aos poucos vêm à tona. Ainda não aconteceu muita coisa, mas as atuações se destacam. Minha favorita é Melissa McCarthy, que faz uma escritora em crise pessoal e profissional. Vai ser bom até o fim? Tomara: o time por trás é o mesmo de "Big Little Lies", da autora do livro à estrela. Mas aposto que ninguém vai sair mais magro ou mais relaxado.

sábado, 21 de agosto de 2021

DEIXA O SOL ENTRAR

Depois de dois álbuns em que soava mais dentro da concha do que Billie Eilish num dia ruim, Lorde finalmente descobriu que faz sol lá fora. Descobriu que é linda, jovem, rica, talentosa e que mora no país melhor governado do mundo, a Nova Zelândia. E resolveu celebrar todas essas descobertas com "Solar Power", que vem sendo saudado pela crítica especializada como um disco ensolarado. Para os padrões neozelandeses, claro: qualquer musiquinha de axé desenxabida exala mais energia solar  do que as 12 faixas juntas. Isto não quer dizer que não seja bom. Nenhum dos singles chega aos pés de "Royals", que a colocou no mapa em 2014, mas "Solar Power" não é um álbum de singles. É para ouvir todo de uma vez, de preferência na rede, sentindo a brisa da tarde, com uma água de côco na mão. Mesmo que você esteja no país pior governado do mundo.
  

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

LAURENTINO ME ESCRAVIZOU

Como quase todos os brasileiros, eu nunca me considerei racista. Nunca tratei mal nenhum negro, nunca discriminei ninguém e "tenho até amigos pretos". Essa autopercepção começou a mudar nos últimos anos, quando o termo "racismo estrutural" começou a circular. Hoje me dou conta de como esse descalabro pegou fundo em mim. Como fui treinado a olhar para um negro, qualquer negro, e concluir: pobre. Até hoje uma parte de mim se surpreende quando vejo na TV gente como Jurema Werneck ou Julio Croda. De onde saíram tantos negros educados, articulados e reivindicativos? Algumas leituras têm me ajudado a entender esse processo histórico, e uma parte importante delas é a gloriosa trilogia "Escravidão", do jornalista Laurentino Gomes, cujo segundo tomo saiu há pouco. São livros fundamentais para compreender o Brasil de ontem e hoje, e talvez nos preparar para o país que queremos ser. Esse Volume II foca o século 18, auge do tráfico negreiro, e a riqueza de detalhes que Laurentino fornece é de embevecer. Estou escravizado por sua pesquisa, abrangente e acessível ao mesmo tempo. "Escravidão" é uma obra indispensável, que deveria ser adotada por todas as escolas, todos os negros que querem conhecer mais da própria história e todos os brancos que reconhecem o racistinha que ainda têm dentro de si.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

EMIRADO ISLÂMICO DO AFEGANISTÃO

O Talibã é que nem o Biroliro: promete que vai mudar, mas não muda. Dois dias depois da coletiva em que garantiram que iam pegar leve, os terroristas já mudaram o nome do país para Emirado Islâmico do Afeganistão, instituíram a bandeira aí ao lado e trouxeram de volta as mesmas leis que estavam em vigor em 2001. Já há relatos de perseguições a jornalistas e colaboradores das potências ocidentais. Mas, se o Talibã não mudou, o país em volta deles é outro. Nos últimos 20 anos os afegãos desfrutaram de liberdades até então inéditas, e a região de Cabul progrediu bastante (mas boa parte do país permanece na Antiguidade). São esses jovens que estão indo às ruas protestar contra a milícia islâmica, e levando bala. Mas será que o Talibã conseguirá calá-los? Conseguirá ser aceito por quantas nações se tratar mulheres feito bichos? Ficará no poder muito tempo? Tenho cá minhas dúvidas.

(reparou que eu escrevo "Talibã" neste post, e não mais "Taleban"? É porque a Folha mudou e adotou a grafia mais comum no Brasil. Não, neste blog eu não preciso seguir as regras do jornal, mas prefiro fazer como ele pede para ir me acostumando. Vai que amanhã eu tenho que escrever uma coluna sobre o Talibã para o F5)

COM O RABO ENTRE AS PERNAS

O próprio Biroliro já disse que, se não houver voto impresso (e não haverá), ele periga nem participar das eleições do ano que vem. Ninguém deu muita bola, mas analistas começam a levar a sério essa possibilidade. O plano de melar o pleito só decola se s diferença dele para Lula for apertada - e todas as pesquisas apontam que o petista dará uma lavada. Outras enquetes apontam que o Bozo pode até mesmo ficar fora do segundo turno, se o centro se unir em torno de uma candidatura única. Para evitar o vexame e manter-se invicto - ele não perdeu nenhuma das eleições que disputou - o Covardão simplesmente não concorreria. Como sabemos, coragem jamais foi seu forte, e uma desistência pode dar ensejo à narrativa anti-sistema que se perdeu com a chegada do Centrão ao poder. Resta um problema: sem foro privilegiado, Edaír cai nas garras da lei. Para escapar, ele talvez concorra ao Senado pelo RJ? Deus nos livre, mas acho possível.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

CANTA, CANTA, MILICIANO

O Twitter irrompeu em chamas na noite de segunda-feira, depois que Vera Magalhães perguntou a Maritnho da Vila sobre as ligações de Adriano da Néobrega com a Vila Isabel. A apresentadora do "Roda Viva" já é mal-vista por muita gente, e há quem a acuse até hoje de ter escrito o infame editorial "Uma Escolha Difícil" do Estadão (não, não foi ela). Depois dessa, até de racista Vera foi chamada. O que essa galera não entende é que o "Roda Viva" não é uma homenagem ao entrevistado, e que jornalista tem obrigação de fazer perguntas que incomodam. Martinho se fez de desentendido e no dia seguinte choveram notas de repúdio. Mas quem se deu ao trabalho de googlar descobriu que, depois que o miliciano favorito do Bozo foi morto no ano passado, encontraram com ele duas carterinhas da Liesa, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que o identificavam como diretor da Vila Isabel. Esquindô!

A MUSA DA CPI

Alguns anos atrás, criei uma regra eleitoral para mim mesmo: jamais votar em candidato do MDB. Antro de notórios corruptos como Eduardo Cunha e Michel Temer, o partido estava mais para uma empresa de aluguel de apoio político, cujos preços sobem o tempo todo. Mas hoje em dia eu abriria uma honrosa exceção para Simone Tebet. A senadora pelo Mato Grosso do Sul é a estrela da CPI da Pandemia, sempre mais preparada do que qualquer de seus colegas e sempre implacável no questionamento dos notórios corruptos que vão lá depor. Outro dia a minionzada se assanhou por ela aparecer na CPI com fones de ouvido, enquanto interrogava um dos depoentes. "De quem ela está recebendo ordens?", mugiu o gado. Não eram ordens, mas dados fornecidos por seus assessores no gabinete. Para essa turma é difícil imaginar que um parlamentar possa colocar para trabalhar alguém que contratou com verba pública. Simone Tebet já foi ventilada como possível candidata à presidência em 2022, mas as chances de isso se concretizar são ínfimas. É uma pena, porque eu faria campanha por ela.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O HOTEL DAS ESTRELAS CADENTES

Um grupo de turistas chega a um hotel em uma ilha isolada do Havaí. São quase todos brancos, ricos, héteros e cis: uma família com dois filhos adolescentes, mais a amiga da garota (a única com um tom de pele mais acobreado; um casal em lua-de-mel; e uma mulher carente e solitária, que veio jogar no mar as cinzas da mãe. Ao longo da semana seguinte eles vão se envolver com os funcionários do lugar e com outros hóspedes, e no final alguém morrerá. "The White Lotus" parece bem atraente descrita assim, mas o fato é que os personagens são todos uns chatos, todos apenas interessados por si mesmos. Os três primeiros episódios são meio modorrentos, mas do quarto em diante a chapa esquenta. Eles continuam chatos, mas pelo menos o espectador se diverte em ver gente branca e rica se dando mal. Muitos espectadores, aliás: como a minissérie já é uma das mais vistas da HBO, vai haver uma segunda temporada. Mas em formato de antologia, com novo elenco e cenário.

DANÇA PRO TIO, DANÇA

É um erro achar que o Taleban caiu de Marte. Que são um bando de malvados ameaçando os afegãos bonzinhos. Assim como o birolismo aqui no Brasil, o fundamentalismo religioso está impregnado no DNA cultural do Afeganistão. Ou, melhor dizendo, os dois casos refletem a falta de cultura e educação de seus países. Só um em cada três afegãos é alfabetizado. Tampouco existe por lá uma identidade nacional comum. O que há são diversas etnias, e a dominante, a pushtun, é justamente de onde surgiu o Taleban. Como o país é isolado e seu único produto de exportação é a heroína, o Ocidente nunca achou que valesse a pena colonizá-lo. O resultado é que a mentalidade medieval subsiste por toda parte. Um dos aspectos mais tétricos dessas tradições são os bacha bazi, ou garotos dançarinos. Como em toda nação islâmica, homens e mulheres são criados separados no Afeganistão, e os noivos às vezes se conhecem apenas no altar. Os rapazes então se aliviam com garotinhos, vendidos como escravos sexuais por suas famílias pobres. Esses moleques são obrigados a se pintar e a dançar feito garotas, e depois são abusados por seus senhores. Não dá mesmo para esperar muita coisa de um país onde isso existe até hoje.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O AFEGANISTÃO DESPENCA

São as imagens mais horripilantes do ano, e olha que 2021 está cheio delas. Não consigo sequer imaginar o desespero de quem se agarra a um avião decolando, na vã esperança de fugir para qualquer lugar. Hoje o mundo inteiro aponta o dedo para os EUA pelo desastre em curso no Afeganistão e está óbvio que a retirada foi mal planejada, mas Joe Biden tem razão num ponto: por que os americanos deveriam lutar uma guerra que os próprios afegãos não querem lutar? Agora, vamos ver que regime o Taleban vai impor. Meu lado Poliana torce para que não seja tão ruim como antes, até porque há uma nova geração acostumada a liberdades inusitadas. E a China, que tem fronteira com o Afeganistão, não vai deixar que seu vizinho se torne novamente o paraíso dos terroristas. Mas eu costumo errar previsões. Melhor esperar pelo pior.

CHAMANDO O GADO

Nada mais apropriado em termos de imagem do que Sérgio Reis convocando a minionzada com um berrante para uma manifestação pró-golpe. Já sabíamos há tempos que o sertanejo era birolista de raiz. Agora descobrimos que ele também é uma besta quadrada, do mesmo nível que as vacas de suas fazendas. O véio da porteira encampou uma causa que não é a dele, a dos caminhoneiros, e está simplesmente ameaçando parar o Brasil se o voto impresso não for aprovado até 7 de setembro. Que democrático, não é mesmo? Só que os próprios caminhoneiros querem distância, pois Reis tem mais afinidade com o outro lado do balcão, o agronegócio. Fora que esse papo de dizer que vai fechar o Congresso e o STF já encheu: quem tem força para dar golpe simplesmente dá, não fica mandado recado. Ôôôa, volta pro seu curral.

domingo, 15 de agosto de 2021

REZA MAIS QUE NÃO TÁ FUNCIONANDO

O documentário "Pray Away" da Netflix não traz surpresas. Ele entrega exatamente o que promete: depoimentos de cortar o coração, de gente que dedicou boa parte de suas vidas ao movimento ex-gay. Muitas delas foram garotas-propaganda da fictícia terapia de conversão, desfilando como exemplo de quem conseguiu se livrar do pecado da homossexualidade. O filme se concentra na Exodus, que foi a maior organização do gênero por cerca de 30 anos e acabou quando muitos de seus líderes perceberam que não só continuavam tão gays quanto antes, como estavam causando mal a milhares de pessoas. Mas ainda existem dezenas de outros grupos nos EUA: um dos personagens do longa é uma ex-mulher transgênero, que agora se parece com um homem transgênero. Fica o alerta para nós, porque os evanjas vêm há anos pressionando Brasília para criar "clínicas" de cura gay por aqui. Vamos rezar para que não.

sábado, 14 de agosto de 2021

DEPOIS DAQUELE BAILE

Disponível no Globoplay, a minissérie "Belgravia" tem como ponto de partida um acontecimento histórico: o baile oferecido por uma nobre inglesa em Bruxelas, em 1815, ao qual compareceram muitos dos oficiais que estavam na cidade. A festa foi interrompida pelos avanços das tropas de Napoleão, e a soldadesca presente correu para enfrentar o imperador francês no que seria a batalha de Waterloo. Um segredo emergirá desta noite, que mudará o destino dos Trenchard - uma rica família burguesa que, apesar da granalhaça, é tratada como arrivista pela nobreza. Mais não direi, porque vale a pena ir desvendando aos poucos este novo trabalho de Julian Fellowes. O criador de "Downton Abbey" dela vez adaptou seu próprio livro, e realmente não há ninguém melhor do que ele para deslindar os meandros da aristocracia britânica do século 19. Mas não são só os cenários e figurinos suntuosos que fazem de "Belgravia" um passatempo superlativo. Ao longo dos seis episódios, não há uma única cena sobrando, nem um único diálogo ruim. Eu sempre achei que meu fascínio por "Downton Abbey" se devia ao fato da série me levar para um lugar agradável - ao contrário de, digamos, uma penitenciária feminina - mas outros produtos de época não tiveram o mesmo efeito. Agora ficou claro que bom mesmo é o roteiro de Fellowes, um mestre do ofício.

(Este post era para ter saído ontem, mas não consegui escrever nada. Passei mal por alguma coisa errada que eu comi e fui para no pronto-socorro. Ainda estou fraquinho, mas já bem melhor. Como não quero quebrar minha regra de "nulle die sin linea", publico o texto com data de sábado. Ah, sim, e quem manda aqui no meu blog soy yo).

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

VIETNAM REDUX

Eu tinha 15 anos quando acabou a Guerra do Vietnam. Exaustos por um conflito que se arrastava há mais de uma década e acossados pela opinião pública, os Estados Unidos assinaram um arremedo de tratado de paz com os vietcongs e se picaram. Não deu outra: em poucos meses, os comunistas chegaram a Saigon e tomaram todo o país. A guerra inteira foi inútil, pois terminou exatamente com aquilo que os americanos queriam evitar. Algo semelhante está acontecendo no Afeganistão. Sem conseguir eliminar o Taliban depois de quase 20 anos, os EUA chegaram à triste conclusão de que não vale mais a pena, nem em grana, nem em vidas. Os afegãos foram deixados à própria sorte, que é a mesma de 2001: serem dominados por uma milícia ultrarreligiosa, que oprime as mulheres e proíbe a música e a TV. É uma tragédia humanitária, que pode piorar ainda mais se o "atoleiro dos impérios" servir mais uma vez de santuário para um grupo terrorista à la al-Qaeda. 11 de setembro redux?

FASCISTA NÃO PODE SER BURRO

A piada pronta do dia é este tuíte de Roberto Jefferson. O canalha estava sendo procurado pela PF, que não o achava em lugar nenhum. Só que ele se esqueceu de desativar a localização no Twitter, e pouco depois foi preso em Comendador Levy Gasparian. Talvez seja solto logo; apesar de emitido pelo ministro Alexandre Moraes, o pedido de prisão está tendo seu embasamento questionado por juristas. Nem por isto vou deixar de comemorar. Somos muito lenientes com a extrema-direita. Se o Biroliro tivesse sido punido quando dedicou ao torturador Ustra seu voto pelo impeachment da Dilma, a história talvez fosse outra. Se bem que não sei se dá para chamar o Bob Jeff de fascista: na verdade, ele é um oportunista acintoso, que viu na adesão ao desgoverno a chance de salvar seu partido moribundo, o PTB, e continuar roubando os cofres públicos. No entanto, como deixou claro o tuíte desta manhã, o sujeito é uma besta quadrada. Como todos, aliás. Se tentarem dar o golpe, vão tropeçar em si mesmos e se esborrachar, tal qual a Joice Hasselmann.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

DOIS GIGANTES

Eu ia soltar um post sobre o Paulo José, que morreu na noite de ontem. Sempre gostei dele, e virei fã de carterinha depois que mediei um debate na pré-estreia do documentário "Todos os Paulos do Mundo", três anos atrás. Antes que eu pudesse escrever uma linha sequer, morreu o Tarcísio Meira. Resolvi juntar os dois numa postagem só. Aí a Folha me pediu uma análise sobre a carreira do Tarcisão, que já foi publicada. Logo em seguida, foi a vez do F5 me pedir uma coluna traçando paralelos entre os dois, que nos deixaram em menos de 24 horas. Resultado: estou exausto, e sem novas ideias para discorrer sobre esses dois pilares da nossa cultura. Nem um título original para este post eu consegui bolar. Não faz mal. Nada que eu fizer fará justiça aos gigantes.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

ATIVOU O DESCONTO NO APLICATIVO?

Não. Não ativei. Nem baixei o app. Já sei, já sei: tem que baixar, tem que preencher um cadastro enorme, tem que checar as ofertas ANTES de sair de casa. Como se eu não tivesse um trilhão de outras coisas para fazer. Como se vir ao supermercado, ou à farmácia, ou à pet shop, fosse minha única tarefa do dia. Eu já estou aqui, eu vim em pessoa, então porque não me dão logo esse desconto? Afinal, eu sou cliente VIP/Mais/Plus/etc. É assim que agradecem a minha fidelidade? Mas já não têm todos os meus dados? Já não conhecem os meus hábitos de compra? Vocês têm mesmo que me irritar justo na hora mais sensível, a hora de pagar? Pronto, baixei essa merda. Preenchi o cadastro enorme. Cadê as ofertas? Ah, não tem de NENHUM produto que eu queira. Não, não quero trocar de marca. Mais fácil eu trocar de supermercado. Ou de farmácia. Ou de pet shop.

PÁTRIA DESEDUCADORA

Com a saída de Ernesto Araújo e Ricardo Salles, sobrou para Milton Ribeiro a tarefa de disputar com a Damares a faixa de pior ministro do desgoverno Biroliro. Ontem o deseducador soltou que a universidade deveria ser só para alguns poucos, "pelo bem da sociedade". Só faltou dizer que esses poucos têm que ser ricos e brancos, mas isso ficou subentendido. Essa cambada tem pavor de uma população educada e ciente de seus direitos. A entrada em massa de negros no ensino superior, a partir do governo Lula, desestabilizou o equilíbrio político (vulgo opressão) que reina no país desde 1500. Como dizia o Darcy Ribeiro, "a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto".

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O ARREMEDO DE COREIA DO NORTE

Se a intenção não fosse intimidar o Congresso, bastava remarcar a "tanqueciata" para amanhã ou depois. Mas claro que era: Biroliro achou que estava dando uma demonstração de força, mostrando que as Forças Armadas são mesmo dele. Só que eles podem até dar um golpe, mas não vão conseguir governar o Brasil - aliás, já não estão conseguindo. Com a economia indo mal, a pandemia longe do fim, escândalos pipocando todo dia, popularidade em declínio e zero apoio internacional, inexistem as chances dessa ditadura se consolidar. O Bozo protagonizou mais um vexame, e de novo arrastou as FFAA com ele. Um recadinho carinhoso aos generais de pijama do Clube Militar: enfiem os canhões dos tanques em vossos cuzinhos e girem.

EX-CASSETA & PLANETA URGENTE

Ontem à noite fiz minha segunda live para o canal Manual do Tempo. Dessa vez o entrevistado foi Claudio Manuel, humorista, roteirista, diretor, ator e, claro, um dos integrantes do Casseta & Planeta. O gancho da conversa foi a ótima minissérie "Meu Amigo Bussunda", que chegou há coisa de um mês ao Globoplay e da qual o Cláudio é o diretor-geral. Mas o papo foi muito além: falamos das pressões que eles sofriam na Globo, de como a internet mudou o humor praticado no Brasil e da falta que ele faz (ou não) na nossa TV de 2020. Ainda demos um furo: vem aí um episódio extra de "Meu Amigo Bussunda", o quinto, aproveitando histórias e depoimentos que não couberam na fornada original.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

LASSO APERTADO

Demorei um pouco para me entregar a "Ted Lasso". Vi os três primeiros episódios da série da Apple TV +, achei legalzinho e fui cuidar da minha vida. Aí ela começa a ganhar todos os prêmios e ainda recebeu impressionantes 20 indicações ao Emmy (quatro delas só na categoria de melhor ator coadjuvante). Me senti obrigado a conferir o resto da temporada, até por obrigação profissional. Foi então que o lasso do título entrou em ação, me agarrando de jeito. A série vai pegando pique, os personagens são muito bem construídos e o sétimo episódio, "Make Rebecca Great Again", é uma obra-prima. Talvez eu tenha custado a gostar porque sou adepto do humor irônico, e o protagonista de Ted Lasso é o oposto disto. É um cara totalmente do bem, que não manda indiretas nem faz piadas cruéis. Um técnico de futebol americano, levado para Londres para treinar um time de futebol "normal", um esporte que ele desconhece. O próprio New York Times disse que a série talvez seja o que estamos precisando nesses tempos bicudos: um chazinho e um ombro amigo. Eu sei que estou precisando.

O SOPRANISTA

Chorei feito um botafoguense durante a cerimônia de encerramento das Olimpíadas. Qualquer coisinha me levava às lágrimas, pois estou desafogando a semana mais tensa da minha vida: os atletas empunhando as bandeiras de seus países; o astronauta francês tocando saxofone no espaço; os bailarinos fingindo serem moradores de Tóquio, numa das coreografias mais cringe de todos os tempos. Engraçado como os japoneses são minimalistas em quase tudo, do design à culinária, mas quando entram em cena viram os reis do overacting. E ninguém overactuou mais do que o divo Tomotaka Okamoto, que cantou o hino olímpico. Trata-se de um homem com voz de soprano (tecnicamente, um sopranista), e não um contralto com voz de castrato. Claro eu fui atrás da discografia do rapaz, que navega nas perigosas águas do classic fusion. O repertório é cheio de árias óbvias como "Nessun Dorma", hits crossover como "Con Te Partirò" e a inevitável "Bohemian Rhapsody", o karaokê favorito dos cantores de ópera. Virei fã, até porque Tomotaka parece minha saudosa tia Lourdes on acid.

domingo, 8 de agosto de 2021

TRANSBORDANDO FELICIDADE

A garota é boa mesmo. Em seu terceiro álbum, Billie Eilish confirma que ela e o irmão Finneas, que a produz, são MAJOR TALENTS, desses que entram para o Rock & Roll Hall of Fame. "Happier Than Ever" é um assombro, bom do começo ao fim e perfeito para ser ouvido de uma só sentada (no meu caso, deitada, meu estado mais frequente no momento). A voz blasé da garota combina perfeitamente com a cama sonora estendida pelo rapaz, e o resultado é totalmente contemporâneo e original. Assim como meu outro disco favorito de 2021 até agora, "Souvenir" do Miranda!, "Happier Than Ever" foi sendo lançado aos poucos, com os primeiros singles saindo no ano passado. Minhas faixas favoritas estão entre as mais antigas, como "My Future" ou "Therefore I Am", mas em breve terei outras. As mais fortes candidatas são "Overheated" e "Billie Bossa Nova", que por enquanto só têm lyric video. Tudo bem: o visual nunca foi o forte de Billie, mas no áudio, de fato, ela nunca foi tão feliz. Como, aliás, se percebe pela capa.

sábado, 7 de agosto de 2021

QUE EU TÔ VOLTANDO PRA CASA

Foram seis noites e cinco dias, os mais estranhos da minha vida. A cada 24 horas, uma aflição a menos me atazanando: primeiro a sonda na uretra, depois o soro, aí os curativos e o acesso. Ainda estou com um dreno, que deve ser tirado na terça-feira quando eu for ao médico. A dieta também passou por sucessivos upgrades: hídrica - líquida - pastosa liquidificada - pastosa com pedacinhos e agora só com algumas restrições. Nada de frituras, nada de fruta com bagaço e laticínios, só sem lactose, por mais uns 10 dias. É duro, mas eu finalmente vou emagrecer. O melhor de tudo é que já estou de volta ao meu aconchego. Tive alta hoje, e parece que eu passei um mês fora. Tenho a sensação de que o Lalo cresceu. O duro é convencê-lo a não pular nas cicatrizes na minha barriga, nem morder o tubo do dreno. Agradeço as toneladas de carinho que eu recebi ao longo desse périplo. Telefonemas, mensagens de gente que eu não vejo há anos e os comentários de vocês estão me ajudando a sair dessa muito rápido.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

EU LEVO UM CHUTE DE VOCÊS

Interrompi minha exaustiva rotina no hospital para assistir, às 13 horas em ponto, à estreia mundial de "I Get A Kick Out of Your". O novo clipe de Tony Bennett e Lady Gaga foi transmitido simultaneamente por todas as MTVs do mundo, e também exibido num telão no Times Square, em Nova York. Logo em seguida, chegou ao YouTube. Eu não esperava que os dois gravassem juntos um segundo álbum de duetos, "Love for Sale", que sai em outubro e só traz canções de Cole Porter. O novo trabalho celebra os incríveis 95 anos de Tony Bennett: seus vocais estão tão firmes e potentes que parece até o Ney Matogrosso, outro para quem o tempo não passa. Consta que ele está com Alzheimer, mas ainda lembra das músicas que marcaram sua carreira. Isso explica as lágrimas de Lady Gaga, e o chute que eu levei nos fundilhos para largar de frescura.

ERAM OS DEUSES COGUMELOS?

Quando eu era pequeno, toda a vida na Terra se encaixava em apenas dois reinos: animal e vegetal. Hoje já são cinco, seis, sete ou oito, dependendo do autor consultado. Mas todos concordam numa coisa: os fungos são um reino à parte. É o maior reino de todos, com um milhão e meio de espécies (seis vezes mais que as plantas) e está literalmente em toda a parte, do Ártico a dentro de você. É uma rede que nos envolve, e que facilita todas as demais formas de vida do planeta. Há até quem diga que ela ajudou no crescimento do cérebro humano, franqueando a civilização. Esse mundo quase invisível é investigado no documentário "Fungos Fantásticos", que acaba de chegar à Netflix. O filme tem um personagem principal: o micólogo (especialista em fungos) Paul Stamets, que construiu um pequeno império criando e vendendo fungos para as mais diversas finalidades. É interessantíssimo, apesar de um pouco odara. O final, que explora as capacidades terapêuticas de fungos psicodélicos (o popular chá de cogumelo), resvala num misticismo de boutique que me incomoda um pouco. Mas os fungos são muitos, e sabemos quase nada sobre eles. "Fungos Fantásticos" é uma ótima introdução.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

DÊ O GOLPE SE FOR HOMEM

Estou de saco cheio desse covardão que finge ser o presidente da República. Por aqui com suas ameaças explícitas de dar um golpe de estado. Pelas tabelas com suas más-criações de criança birrenta. Por isto, lanço aqui o desafio: dê o golpe se for homem, seu merda. Ponha os tanques na rua. Feche o Supremo, o Congresso, a internet. Acabe com a TV Globo. Ah, e cale a minha boca. A minha e a de todos que não te apoiam. Que, aliás, te execram, pelo desastre na condução da pandemia, pela inflação galopante, pela falta de compostura. Ah, não vai dar? Esqueceu a arminha em casa? Sei, sei. Tu não é homem. Tu nunca foi.

COMO VOTAR EM TODOS AO MESMO TEMPO

No Brasil pós-redemocratização, nunca houve duas eleições seguidas com as mesmas regras. O Congresso está sempre tentando mudá-las - não para melhor refletir os anseios da sociedade, óbvio, mas para favorecer a si mesmo. Agora está em andamento mais uma PEC eivada de absurdos, como a proibição de pesquisas na véspera do pleito ou a adoção do famigerado distritão. Mas lá no meio tem algo que pode ser interessante. A relatora Renata Abreu (Podemos-SP) propõe acabar com o segundo turno. No lugar dele, votaríamos em até cinco candidatos, em ordem de preferência. Alguns estados americanos já adotam este método, e o resultado é que desse jeito se evita a eleição de extremistas. O eleito é realmente um consenso da sociedade. Ainda não mergulhei a fundo no assunto, mas me parece o caminho mais certo de todos. Alguém aí é contra? E por quê?

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

VACINA, SÓ COM PROPINA

Ainda bem que eu já operei o intestino, porque a segunda temporada da CPI da Pandemia poderia me dar mais um nó nas tripas. Eu achava que esse desgoverno era "só" negacionsita, e que se recusava a comprar vacinas por achá-las desnecessárias e caras. Nunca vou esquecer que o general Capachuello disse que elas seriam adquiridas "se houvesse demanda". Aí eles precisaram se mexer porque o Doria conseguiu a Coronavac e marcou um golaço político. Mas imunizar a população nunca foi a prioridade do ministério da Saúde. Depoimentos de figuras sinistras como o reverendo chorão mostram que essa cambada só queria comprar vacina se houvesse propina. Ir direto à Pfizer, sem ágio ou atravessador, nem pensar. E as vacinas em si nem precisariam ser entregues. Entidades desqualificadas como a Davati ou a Senah levariam algum, os pseudo-técnicos do governo levariam outro tanto, e pronto. Ninguém sabe, niguém viu.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O ESPÍRITO DO TEMPO

"O importante é competir". A frase do Barão de Coubertin surgiu em 1908, durante os Jogos de Londres - a quarta olimpíada da era moderna. E colou de um jeito absurdo, mesmo com todo mundo sabendo que o importante mesmo é ganhar. É o famoso espírito olímpico, que faz a pobre corredora suíça se arrastar até a linha de chegada sob os aplausos do mundo inteiro. Mas alguma coisa mudou nessa estranha Tóquio-2020. Simone Biles, candidata a grande estrela da temporada, desistiu de quase todas as finais que disputaria, e só foi criticada por escrotos de alto rendimento como Rodrigo Constantino e Leandro Ruschel. O resto do planeta a abraçou, corretamente mais preocupado com a saúde mental da atleta do que com pedacinhos de metal colorido. Também foi emocionante o empate que rendeu medalhas de ouro aos dois campeões em salto de altura, o catari Mutaz Ersha Bashim e o italiano Gianmarco Tamberi. Claro, houve quem não gostasse, mas o consenso geral é de que foi uma solução elegante e até amorosa. E tudo isso quer dizer o quê? Que os tempos, eles estão mudando. Depois de um ano e meio de pandemia e mais de quatro milhões de mortos a nível global, estamos todos exaustos. Medalhas são ótimas, mas não a qualquer custo. Queremos abraço, aconchego e colo. Bolo de chocolate.

EUFORIA PÓS-OPERATÓRIA

Acordei às 18h30 de ontem, depois de algumas horas na sala de cirurgia. Correu tudo tão bem que nem precisei ir para a UTI. Antes das 21h eu já estava de volta ao quarto, assistindo ao Jornal Nacional. Passei por uma laparoscopia, e é claro que estou um pouco dolorido. Mas o sintoma mais inesperado foi uma alegria misturada com alívio. A excitação por estar vivo - a gente sempre acha que vai morrer na operação, por mais boba que seja. Desembestei a falar, com enferemeiros, com amigos que telefonavam, com o santo do meu marido. Também mergulhei na internet, lendo as notícias que perdi durante o dia, e liguei a TV na GloboNews. Resultado: fui dormir à uma da manhã. Agora estou sentado pela primeira vez em mais de 24 horas, depois de ter chupado um picolé de uva, tomado uma xícara de chá de erva doce e devorado uma gelatina de abacaxi. Tudo vai virar líquido dentro de mim, porque eu ainda não posso fazer número dois. Quando puder, volto para casa. E obrigado pelas mensagens, ligações e comentários. Entrar na faca em tempos de internet é mais fácil. Estou me sentindo mais amparado que nunca, e quase eufórico.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

MANUTENÇÃO DO ENCANAMENTO

Vou ser operado nesta segunda de manhã. Será minha primeira cirurgia desde que removi as amígdalas, aos cinco anos de idade. O Biroliro escapou de entrar na faca por causa de uma obstrução intestinal, mas eu não. Estou com dificuldade para ir ao banheiro desde o começo de junho, e fui ao médico no começo de julho. Depois de alguns exames, chegamos à conclusão de que é melhor resolver o problema logo. Escrevo este post no domingo à noite, antes de ir para o hospital, para que ele seja publicado na segunda e eu consiga manter um dos lemas deste blog, nulle dies sine linea. Não sei se consigo cumprir na terça, pois estarei voltando da UTI. Peço a compreensão do nobre leitorado, assim como orações, pensamentos positivos e velas de sete dias. E vamo que vamo.

domingo, 1 de agosto de 2021

OITENTASSO

Hoje o Ney Matogrosso completa 80 anos de idade, e eu custo a acreditar. Como que ele consegue manter o corpo esguio como sempre foi e a voz maviosa e cristalina da juventude? É espantoso que "Nu com Minha Música", o EP que ele está lançando no dia de seu aniversário, tenha sido gravado este ano. Já disse alguma vezes aqui no blog que acho o Ney o maior artista solo da MPB, tanto pelo talento musical como pela atitude libertária. Alguns cobram dele uma militância mais aguerrida pelos direitos LGBTetc. e o criticam por não levantar bandeiras, esquecendo que Ney é uma bandeira ambulante desde 1973, quando estouraram os Secos e Molhados. Eu tinha 13 anos naquela época, e foi deles o meu primeiro show da vida. O teatro ficou no escuro, uma luz estroboscópica começou a piscar e de repente lá estava ele materializado no palco, rodopiando feito um dervixe. Essa entrada triunfal estragou todos os outros shows do resto da minha vida: eu sempre acho banal quando um artista simplesmente entra em cena, ao invés de surgir do éter. Parabéns, Ney, e obrigadíssimo pelo papel fundamental que você teve no meu processo de autoaceitação.

MIL E UMA NOITES NUMA SÓ

Opa, mais uma prisão cheia de homens negros irriquietos. Só que dessa vez a barra é bem mais pesada: "Noite de Reis" se passa em La Maca, uma penitenciária na Costa do Marfim, onde os detentos fazem meio o que querem. O filme que levou o país africano a figurar entre os 15 semifinalistas do último Oscar internacional é um drama onde não faltam violência e injustiças. Mas também tem aham, poesia: o protagonista é um rapaz que, logo em seu primeiro dia atrás das grades, é designado "Roman" pelo chefe do lugar - ou seja, ele tem que contar histórias, mesmo sem ter experiência prévia. Roman apela então para a saga de outro delinquente, Zama King, e logo seus colegas de cadeia estão ilustrando com movimentos quase coreográficos as reviravoltas que ele narra. Também há imagens do que de fato aconteceu e ainda de um registro onírico, da luta entre uma rainha e um rei com superpoderes. Confuso? "Noite de Reis" tem muitas camadas e eu não sei se digeri todas. Mas o que ficou para mim foi a reafirmação do poder infinito do storytelling. O que diferencia o homem dos outros animais é que nós somos os únicos que gostam de ouvir histórias.