terça-feira, 6 de julho de 2021

ROGAI POR NÓS, PECADORES

O roteirista britânico Russell T. Davies acaba de entrar para o meu panteão de ídolos contemporâneos. Talvez já devesse ter entrado há anos: foi ele quem criou "Queer as Folk", até hoje a melhor série sobre o lifestyle das guei. Dois anos atrás, Davies assinou a excelente minissérie "Years and Years" da HBO, que imaginava o Reino Unido na próxima década. Agora ele cometeu uma obra-prima: "It's a Sin", finalmente disponível no Brasil na plataforma HBO Max. Eu estava meio assim para ver, porque a minissérie fala da AIDS - um assunto que não costuma render boa dramaturgia, porque a gente já sabe que o final é infeliz. Mas os cinco episódios vão muito além do horror da doença. Também um formam um painel fidedigno dos anos 80 em Londres, com sexo a rodo e a melhor música pop de todos os tempos. Quatro amigos gays e uma faz hagiografia (google aí) vão morar juntos num imenso apartamento, onde todo mundo transa com todo mundo e a festa não tem hora para acabar. Aí surge a maldita, e as primeiras reações são de negação. "Isso só dá nos americanos, é um complô da indústria farmacêutica, o governo quer nos controlar". As mesmas desculpas que circulavam por aqui naquela época, em que eu também desabrochava para a viadagem. Não demora, no entanto, para a síndrome começar a ceifar amigos, conhecidos e membros do próprio grupo. Desse jeito soa como a coisa mais deprimente do mundo, mas Davies tempera os roteiros com todo o humor possível e uma justa indignação ante a apatia dos governantes, que demoraram a investir em pesquisas. Na linha de frente está Olly Alexander, o vocalista da banda Years and Years, que se mostra um ator completo e carismático. Há também rápidas participações de bibas famosas, como Neil Patrick Harris e Stephen Fry. "It's a Sin" funcionou como uma catarse para mim, que conheci muitos que não tiveram a mesma sorte que eu. Somos todos pecadores, todos humanos, e a AIDS não escolhia quem atingir. Quase 40 anos depois, as novas gerações podem sentir nessa minissérie um pouco da barra que nós vivemos.

3 comentários:

  1. Eu vi essa minissérie (vi não, comi com farinha). Não sou dessa geração (nasci em 84), então é muito importante termos essa visão de como era a reação das pessoas diante de algo novo, recheado de preconceito. Foi triste, mas ao mesmo tempo um deleite. Fica até um gostinho de quero mais, mas creio que a proposta foi 100% atingida, de uma forma envolvente, sem barrigas ou apelações.

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  2. Nossa, amo a HBO como canal a cabo, mas como Streaming deixa desejar
    tenho videogame, Apple tv e a minha tv também é Smart
    O HBO Go já era ruim, eles melhoraram a interface com o rebranding, mas continua com os mesmos servidores de paçoca
    nos grupos de filmes que eu estou, quase ninguém tem resposta do suporte deles, faz lembrar da raiva que todos passamos quando tinha episódio novo de Game Of Thrones
    a imprensa br não tem falado nada sobre só que as pessoas comemoraram a morte do HBO Go

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