domingo, 16 de maio de 2021

TU VENS, TU VENS, EU JÁ PRESSINTO TEUS SINAIS

Escrevi duas vezes o obituário da Eva Wilma. A primeira delas foi quando atriz esteve internada em 2016. Mas ela logo teve alta e, naquele mesmo, estreou "O Que Aconteceu com Baby Jane?" ao lado de Nicette Bruno - foi a última vez em que as vi no palco. Em fevereiro deste ano, quando Eva Wilma foi internada de novo, a Folha me pediu um novo obituário. Muita gente fora do ramo acha macabra essa prática, mas ela é absolutamente comum nos grandes jornais. Algumas celebridades nem precisam estar doentes para que seus obituários sejam escritos de antemão. Quando Fidel Castro morreu, o New York Times publicou todos os obituários que seus repórteres deixaram prontos ao longo de seis décadas - uma grande aula de história e de jornalismo.

Já pressentíamos que Bruno Covas iria morrer logo desde a campanha de 2019. Mas, apesar de sua aparência pouco saudável, o prefeito de São Paulo foi reeleito com folga. O assunto era proibido: ninguém podia lembrar que, na ausência de Covas, seu vice reacionário assumiria, que logo vinha um "vira essa boca pra lá". Anteontem, quando surgiu a notícia de que seu estado era irreversível, as redes sociais se encheram primeiro de mensagens de condolências e, logo depois, de reclamações por ele estar sendo "enterrado em vida". A quantidade de gente defendendo que um milagre ainda era possível me surpreendeu. O fato é que os brasileiros temos uma relação primitiva com a morte. Ela é um tabu absoluto. Uma entidade que não pode ser chamada pelo nome, sob o risco de se manifestar. Não foi por outra razão que causou tamanha comoção o artigo do Hélio Schwartsman de julho do ano passado, que defendia que a morte do Biroliro seria melhor para o Brasil (e agora sabemos que seria mesmo). Schwartsman é ateu e sua argumentação não tinha nada de pessoal, mas até gente que não suporta o desgoverno caiu de pau em cima dele. Com Bruno Covas, o tabu também agiu forte. Só valiam mensagens de força, fé, pensamentos positivos. O pragmatismo de que agora teremos que  lidar com um prefeito obscuro que atacou a "ideologia de gênero" foi posto de lado. Qualquer menção ao assunto era tachada de, no mínimo, mau gosto. Mas, queiramos ou não, a morte é inevitável, e quando os médicos dizem que uma situação é irreversível, baubau. Quando tivermos a maturidade de encarar esse simples fato da vida, seremos melhores.

19 comentários:

  1. Não se pode viver achando que vai morrer a qualquer momento, mas também não se pode viver achando que a morte nunca chegará.

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  2. Minhas condolências ao Bruno e Eva e suas famílias... Agora uma pergunta: Com tudo o que está rolando, você ainda é capaz de crer em Deus, Tony? Tbm é ateu ou está mais na dúvida ou é ainda um crente em alguma força superior?

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    1. Não me considero ateu, mas está cada vez mais difícil num Deus benevolente que deixa acontecer tantas desgraças.

      Acredito no amor. Acho que o amor é a força mais divina que existe.

      Vida após a morte? Queria muito acreditar.

      Como diz o Bono, para ser ateu é preciso ter muita coragem.

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  3. Caro Tony
    Brasileiros não lidam com a Morte nem com o luto nem com a tristeza.Por isto, mais de quatrocentos mil mortos em pouco mais de um ano se normalizou.
    É o país da maldita felicidade obrigatória.
    Uma nação violenta, misógina, hipócrita, egoísta, covarde, escravocrata.
    A melhor análise sobre a situação do Lucas dentro do BBB 21, que eu assisti, foi a sua na TV CULTURA.

    Agora, a amenidade necessária:A série Halston, que tal?

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    1. Tem post sobre "Halston" logo abaixo, dá uma olhada lá.

      Eu não apareço TV Cultura desde o ano passado. Você deve ter me visto falando sobre o Lucas do BBB21 no programa Legítimo, da TV Democracia, um canal no YouTube.

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    2. Sim. Depois que eu escrevi TV Cultura, lembrei que não foi lá. De qualquer forma, você foi perfeito na análise.
      Devo estar mais lerda do que de costume, porque vi, logo após, seu texto sobre a série. Aprecio seu trabalho. Obrigada.

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  4. Concordo que há um tabu sobre a morte, porque grande parte das pessoas se recusam a acreditar que exista alguma vida além do carne e osso.
    Mas mesmo achando um pouco forçado alguns comentários que vi esses dois dias, acho bem pior, mas bem pior mesmo, achar que só está vivo quem está bem com saúde. Quem tem alzheimer já morreu, quem está como ele estava até hoje de manhã em cuidados paliativos e sem perspectiva, já está morto. Pois é… Só que não. O corpo só morre quando o coração para. E até lá só resta desejar melhoras.
    Eva era maravilhosa, de estilo sóbrio e elegante, tão diferente do que se vê hoje.
    Ao anônimo das 11:16, cara eu nem sou de ler a Bíblia mas o assunto falso Messias e as grandes pragas estão por lá.
    E hoje estamos tendo um a governar os nossos dias.
    Voltando ao Bruno ontem estava pensando o horror de um homem, pleno e lúcido esperando sua hora, esquálido, em um quarto de hospital.

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    1. Anônimo 16 de maio de 2021 13:29 - Bíblia? Não, obrigado! Ciência!
      O que define se uma pessoa está viva ou morta é a atividade cerebral. O corpo já era sem ela. Só serve para transplante se o defunto fosse saudável.

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  5. Que texto interessante. Concordo e penso que coisas assim deveriam ser ensinadas nas escolas. A compreensão de que tudo terá um fim é necessário, nem que seja para encarar de forma mais sóbria e saudável (na medida do possível). Se se cura do câncer, foi Deus. Se morre, foi também a vontade d'Ele. Contra esse tipo rasteiro de pensamento não há como lutar. Parabéns Tony.

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  6. O meu filho pequeno estuda em uma escola em São Paulo em que um dos personagens pedagógicos morre. A escola organizou uma visita ao Cemitério do Morumbi para explorar o assunto. Achei muito interessante essa abordagem com as crianças.

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  7. O Mio Babbino Caro
    Atotô

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  8. maldita culpa judaico-cristã...

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    1. Quem tem culpa é o crente do Mijair.

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  9. O tipo de morte que realmente me assusta são aquelas em que alguém comete um erro fatal e tem tempo para entender o que fez.

    Aquele momento de consciência em que você percebe que não há como voltar atrás deve ser profundamente horripilante.

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  10. Nunca pensei na morte. Nunca pensei na minha própria morte, ou na dos meus pais. Foi fantástico.

    Bem, agora isso me atingiu recentemente como uma tonelada de tijolos. Não quero estar em um mundo sem os meus pais. Não consigo imaginar. E quase certo que ambos terão ido embora, e minha vez de partir estará sobre mim.

    Nunca tive chance de ter filhos, mas agora posso imaginar como deve ser um conforto ter filhos quando as pessoas perdem seus pais. Você ainda tem essas pessoas às quais está conectado diretamente.

    Eu tive este pensamento sombrio de que morrer pode ser melhor do que viver a morte de ambos os pais e se tornar um "órfão". Mas, é claro, eu sei que você precisa apenas sorrir e aguentar. Venha o que vier.

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  11. Gente, eu tarra vendo aqui no Fantastico a matéria sobre a morte do Bruno Covas e me veio umas duvidas: O Bruno Covas era gay?? Aquele secretario la q deu entrevista na matéria era o namorado dele? Sim, pq ele falou como se fosse o viuvo. Acho que a Tonya sabe de algo...

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