quarta-feira, 31 de março de 2021

ESPERO TER SIDO CLARO

Já falei do golpe de 1964 algumas vezes aqui no blog. Já contei como vivi aquele dia 31, quase seis décadas atrás, quando eu tinha apenas três aninhos de idade. Também falei como foi crescer durante o regime militar, cantando hino no pátio da escola e tendo aula de OSPB. Dois anos atrás, quando seu desgoverno engatinhava, Biroliro mandou os quartéis celebrarem a data, pela primeira vez desde a redemocratização. Hoje o Brasil vive a ameaça de um autogolpe e um prenúncio de anarquia nas Forças Armadas. Mesmo com mais de 3.000 mortos por dia, preços em disparada e o Zero-Um comprando uma mansão de seis milhões, tem cretinos no Twitter - inclusive políticos e militares - festejando a nefasta efeméride. Desta vez eu perdi a paciência. Não vou ficar contemporizando. Soltei o tuíte acima logo nas primeiras horas desta madrugada. Não contente, respondi com ele a um post acintoso do general Mourão. Então, já viu: if I'm not back again this time tomorrow...

terça-feira, 30 de março de 2021

SE A VIDA TE DER LIMÕES

O dramaturgo, ator e ilustrador João Hannuch me mandou seu novo em livro em quadrinhos, "Limonada". Não sei se é autobiográfico, mas muito guei vai se identificar com a história. No dia em que completa 30 anos, o protagonista Beto recebe todos seus ex-namorados, que não foram convidados para a festa. Um por um, eles lembram o aniversariante de como começou o romance entre eles, e como terminou - invariavelmente, Beto levou um pé na bunda. Eu tenho o dobro da idade do rapaz, mas passei por algumas situações semelhantes. Sempre queria casar, mas a recíproca nunca era verdadeira (até que um dia foi). Imagino que a garotada de hoje queira ainda menos compromisso, dada a facilidade dos aplicativos de pegação. "Limonada" é triste e divertido ao mesmo tempo, igual à vida de muitos de nós. E já que estamos no vale, aqui vai outra dica cultural para as bibas: quem tiver o Scruff instalado pode conferir até amanhã, 31 de março, a mostra Curta Woof, que reúne oito filminhos recentes de diretores brasileiros, todos com temática LGBT+. A curadoria é do André Fischer, o criador do festival Mix Brasil. De filme gay, ele entende.

DOR DE COTOVELO

Biroliro é um sujeito rancoroso. Guardou em silêncio durante anos a mágoa de ter sido esnobado por Sergio Moro em 2017, só para choramingá-la no discurso incongruente que fez depois do ex-juiz se demitir do ministério da Justiça. Agora quer demitir o general Edson Pujol, basicamente porque o atual comandante do Exército o cumprimentou com o cotovelo em uma solenidade no ano passado, cumprindo protocolos de segurança. O Genocida se sentiu humilhado em público, e agora quer alguém submisso a seu sonho golpista na chefia das tropas. O remelexo nos ministérios ocorrido ontem é típico da barafunda mental do Despreparado: finge agradar ao Centrão, ao mesmo tempo em que finge para a gadosfera ser mais poderoso do que é. Que ele está tentando criar condições para um autogolpe, não resta a menor dúvida. Mas, como diz um meme que circula nas redes sociais: este será o primeiro golpe de estado sem o apoio das FFAA, do empresariado, da imprensa, da maior parte da população e de qualquer grande potência estrangeira.

segunda-feira, 29 de março de 2021

GADO SURTADO

Que segunda-feirazinha, hein? A queda do Arnesto é um alívio, claro, mas provavelmente temporário - nada indica que virá um chanceler razoável no lugar dele. Mas a demissão do Fernando Azevedo da pasta da Defesa me deixou assustado. Sabemos que Biroliro trama um golpe desde sempre, e pode ser que ele ache que chegou a hora. Para não ficar refém do Centrão e ter que botar gente competente nos ministérios, o Despreparado deve estar querendo por o pau (fino) na mesa e mostrar quem manda. Duvido muito que ele consiga, ainda mais agora. Três mil mortos por dia e a economia em queda livre não dão cancha para nenhum golpista. Mesmo assim, não duvido que ele tente, e que alguns malucos insuflem a violência pelo país. Ontem tivemos um episódio patético em Salvador, com um PM surtado ameaçando quem estivesse por perto - inclusive os trabalhadores que a gadosfera muge que ele tentava defender. O Brasil deve ser o único país onde se lamenta nas redes a eliminação de um terrorista doméstico. Esses alucinados podem se assanhar ainda mais quando o Bozo perder em 2022. Mas, novamente, quero crer que terão o mesmo destino do sniper baiano: serão abatidos sumariamente.

SAMBA DO ERNESTO

Num desgoverno liderado por um covarde, não é de admirar que falte caráter entre seus ministros. O Capachuello caiu esperneando, se dizendo vítima de esquemas de corrupção. Agora é a vez de Ernesto Araújo, de longe o pior chanceler da história do Brasil. Ao perceber que seus dias à frente do Itamaraty estão contados, o pior chanceler da história do Brasil inventou uma narrativa para tentar mascarar sua infinita incompetência, pelo menos para o gado mais fanatizado. Acusou Katia Abreu e praticamente todo o Senado de estarem vendidos aos chineses da Huawei. Um coice que deve acelerar ainda mais sua queda, junto com a do Sorocabannon. Claro que sua saída não significa que nossas relações exteriores voltarão ao eixo: Biroliro ainda não substitui nenhum ministro por alguém melhor do que seu antecessor. Assim como na Saúde e na Educação, deve vir outra cavalgadura por aí, e o Brasil vai continuar sambando miudinho.

domingo, 28 de março de 2021

FESTIM DIABÓLICO

A música de "Montero (Call Me By Your Name") não é grande coisa, mas o clipe é infernal. Num mundo onde histéricos veem o diabo em tudo, é revigorante que um cantor apareça dando a bunda para o próprio Satanás. E vai além: no final, Lil Nas X arranca os chifres do Coisa Ruim e coroa a si próprio como o novo Rei das Trevas. Chupa, crentalhada! 

sábado, 27 de março de 2021

GARRAFA CHEIA EU NÃO QUERO VER SOBRAR

Semana passada eu tive o prazer de constatar que um dos filmes mais hypados da temporada corresponde ao hype: "Bela Vingança" é mesmo tudo aquilo que andam dizendo. Já com "Druk - Mais uma Rodada", não é bem assim. O favorito ao Oscar de melhor filme internacional aborda o consumo de álcool de maneira original, sem cair no moralismo barato ou na tragédia anunciada. "Trainspotting", 25 anos atrás, teve a coragem de mostrar o prazer proporcionado pela heroína. "Druk" vai além: o longa de Thomas Vinterberg defende que uma pessoa ligeiramente embriagada se torna mais corajosa, mais criativa e mais brilhante. Um grupo de quatro professores entediados decide testar empiricamente a tese de um médico norueguês: o corpo humano teria um déficit de 0,05% de álcool, que precisa ser preenchido o tempo todo. Aí eles passam a tomar goles de vodca antes das aulas, e os resultados são sensacionais. Os alunos de história se empolgam, os de música começam a cantar feito anjos, um garotinho que sofria bullying dos colegas se torna o artilheiro do time de futebol. Mas é claro que os quatro não sabem onde parar e todos sofrem consequências, de graus variáveis. No final, "Druk" (algo como bebedeira em dinamarquês) deixa um aftertaste agradável na boca, mas não chega a ser uma obra-prima da coquetelaria cinematográfica.

sexta-feira, 26 de março de 2021

DORIAVAC

Enquanto o Edaír tirava sarro dos 300.000 mortos, promovia aglomerações sem máscara e se recusava a comprar vacinas, João Doria foi à luta, e acaba de marcar seu terceiro gol no combate à pandemia. O governador de São Paulo tem um milhão de defeitos, mas não dá para não reconhecer que, sem ele, a vacinação no Brasil estaria ainda mais atrasada do que está, pois 91% das doses aplicadas por aqui são da Coronovac. O Instituto Butantan também está desenvolvendo um remédio contra a doença, em fase muito mais adiantada do que o spray que o Biroliro quis buscar em Israel. Ontem à noite foi anunciada a Butanvac, que já está em teste em alguns países e pode começar a ser aplicada em julho. A notícia explodiu como uma bomba do Riocentro no colo do Coronaro, coroando uma semana horribilis para o suposto presidente da República. O Minto fez um pronunciamento recheado de mentiras na terça, ouviu uma claríssima ameaça de impeachment vinda de Arthur Lira na quarta e está sendo pressionado a se livrar de seus queridos Ernesto Araújo e Filipe Martins. É bem feito. Passou mais de um ano negando a gravidade dos fatos, e agora toma no rabo mais uma vez. Uma dose bem doída da Doriavac.

FREE BRITNEY, BITCH

Este blog estreou em 2007, o mesmo ano em que Britney Spears começou a derreter em público. A cantora raspou a cabeça, atacou paparazzi com um guarda-chuva e fez uma apresentação desastrosa nos VMAs. A imprensa caiu matando, inclusive em uma novidade da época: os blogs especializados em falar mal de celebridades, como o do Perez Hilton, nos EUA, e o finado Te Dou Um Dado?, aqui no Brasil. Britney virou um saco de pancadas e ganhou apelidos como Neyde e Nonô (esse eu nunca entendi por quê). E eu faço um mea culpa: embarquei contente na onda, tirando sarro da maluca que, no fundo, só queria a guarda dos filhos. Agora vejo como agimos mal depois de assistir ao documentário "Framing Britney Spears", disponível no Globoplay. A moça deu o azar de despontar para a fama justamente quando a internet estava se expandindo, na virada do milênio. Era literalmente uma criança, e não teve pais ou empresários que a protegessem dos abutres. O filme escancara o sexismo que ela sofreu desde pequena, com entrevistadores perguntando sobre seus namorados, seus seios ou se ela ainda era virgem. O "tipping point" parece ter sido o namoro com Justin Timberlake. Sentindo-se traído, o cantor gravou músicas contra a ex e emplacou a narrativa de que ela não prestava. Hoje ele se arrepende e pede perdão, e eu também. Britney Spears é um talento extraordinário: basta ver suas performances ainda garotinha, que ofuscariam todos os concorrentes do The Voice Kids. É cruel que ela siga há anos na moita. Não lança um álbum completo desde 2017, e parece estar esperando que seu pai finalmente perca o controle sobre sua vida e sua carreira para sair da toca. Já passa da hora dessa mulher de 39 anos ser dona do próprio nariz. Por isto, eu endosso: free Britney Spears, bitch. Ontem. Já deu.

quinta-feira, 25 de março de 2021

BALADA DE GISBERTA

O assassinato de Gisberta Salce Junior abalou Portugal de um modo que nenhuma das centenas de mortes de travestis e transexuais que ocorrem no Brasil todos os anos consegue nos abalar. Ocorrido em 2006, o crime já rendeu filmes, peças de teatro, uma música de Pedro Abrunhosa eternizada por Maria Bethânia e agora um livro que é uma porrada. Porque o narrador de "Pão de Açúcar", de Afonso Reis Cabral, é ninguém menos do que um dos meninos que espancou nossa conterrânea até a morte, ao longo de vários dias. Gisberta é achada por ele em uma barraca improvisada, dentro do esqueleto de uma obra inacabada - o supermercado do título. Carcomida pela AIDS e pela tuberculose, ela não consegue mais fazer shows nem programas, e parece ter chegado ao ponto mais baixo possível. Só que ainda não. O moleque e seus amigos passam a visitá-la diariamente. Levam comida, como se fosse para um bichinho ferido. Ouvem e contam histórias. O narrador está fascinado por aquele "homem com mamas", e chega a ter ereções quando pensa nele. Até que o segredo se espalha, outros garotos se juntam ao grupo original e passam a bater em Gisberta, por maldade e diversão. A prosa de Reis Cabral não é das mais fáceis de navegar: além das construções de frase tipicamente lusas e dos termos que não se usam no Brasil, o texto também sofre de uma certa afetação, incompatível com a cabecinha de um puto de apenas 12 anos. Mas "Pão de Açúcar" é um mergulho na alma masculina em formação, de alguém que pode ser provedor e violento ao mesmo tempo e com a mesma pessoa. Um livro belo em seu horror. Por falar em beleza, o autor também não é de se jogar fora.

WP, VAI TOMAR NO C*, OK?

Não, Filipe Martins não é um supremacista branco. É algo ainda pior: um cínico oportunista, que não hesitaria em implantar as ideias dessa cambada se isto lhe garantisse mais poder. Por enquanto, ele só dá adeusinho, como fez Donald Trump ao se referir aos Proud Boys ou Allan dos Santos ao tomar um copo de leite. Antigamente, esses acenos ao radicais eram mais discretos. Tanto que foram apelidados pela imprensa americana de "apito para cachorro", porque só os iniciados seriam capazes de percebê-los. Mas agora são feitos de maneira escancarada, visando a lacração: "olha, mano, que irado, o cara fazendo o gesto do White Power bem atrás do presidente do Senado, kkkk". O senador Randolfe Rodrigo achou que Martins estava mandando todo mundo tomar no cu e reclamou na hora, pedindo que o assessor do Despreparado fosse retirado do plenário. O "judeu, porém cristão" se fez de sonso, alegando que estava só "ajeitando a lapela do terno". Pois eu retruco usando todos os sentidos do gesto obsceno numa só frase: ei, supremacista branco, vá se foder, tá OK?

ADENDO: muito interessante este fio do jornalista Daniel Pinheiro no Twitter. Ele explica como Filipe Martins teria "se sacrificado", pondo em risco o próprio cargo, para distrair a atenção da mídia da desastrosa sabatina de Ernesto Araújo no Senado. Prensado pelos senadores, o chanceler foi às lágrimas... Isso mesmo: mais uma cortina de fumaça.

quarta-feira, 24 de março de 2021

BÉÉÉÉÉ

Talvez eu não fosse ver "Cabras da Peste" no cinema. Não é o meu tipo de filme, por mais que eu saiba de sua relevância como artefato cultural brasileiro etc. etc. Mas como estreou direto na Netflix e eu não tinha mais o que fazer, assisti e gostei muito. Edmilson Filho já é um dos grandes nomes do humor nacional, e honra a tradição do Ceará como celeiro de comediantes. Além disso, tem boa química com Matheus Nachtergaele. Os dois interpretam tiras de temperamentos opostos obrigados a trabalhar juntos para resolver um caso, um dos setups mais batidos de todos os tempos, mas ainda pouco aproveitado no Brasil. O resultado é simpático e competente, com sequências de ação bem rodadas e várias piadas boas. É muito legal quando a qualidade não é sacrificada em nome do apelo popular.

QUE MENTIRA QUE LOROTA BOA

Biroliro ainda segue a cartilha de Steve Bannon - "governe apenas para os seus fanáticos" - mesmo depois dessa estratégia ter se mostrado furada com a derrota de Donald Trump. O Genocida costuma falar o que sua plateia bovina espera dele, e não passa a menor convicção quando é obrigado a dizer outra coisa. O pronunciamento de ontem foi curto, constrangedor e nada convincente. Pandemito estava visivelmente desconfortável, tendo que ler (mal) no teleprompter palavras como "solidarizo-me com todos aqueles que tiveram perdas em suas famílias". O Despreparado também acha que todo mundo é burro feito os minions e que ninguém se lembra de expressões como "gripezinha" ou "país de maricas". O resultado é que já estão circulando vários vídeos como o acima, produzido pela Folha, ressaltando as mentiras e lorotas que o Bozo tentou nos empurrar ontem - justamente o dia em que o Brasil registrou, pela primeira vez, mais de 3.000 mortes pelo coronavírus. Talvez nem precisássemos desmentir o Minto tão depressa. Na live desta quinta, ele mesmo irá contra tudo o que disse na noite de  terça.

terça-feira, 23 de março de 2021

KÁSSIO CONKÁ

Kássio Nunes Marques finalmente disse a que veio. O mais novo vilão ministro do STF pediu vistas há duas semanas, para se consultar com seus superiores. Deveria ele confirmar a suspeição de Sergio Moro, abrindo a porteira para que toda a Lava-Jato seja melada? Isso é de total interesse do Centrão, que mantém o Biroliro como refém. Ou livraria a cara do ex-juiz, deixando Lula inelegível? Isso é de total interesse do Pau Fino, que levou o medíocre Kássio à mais alta corte do país. Este último falou mais alto, claro. Mas Lula acabou sendo salvo (por enquanto) por Carmen Lúcia. A ministra perdeu a chance de mudar o rumo da história do Brasil alguns anos atrás, quando livrou a cara de Aécio Neves. Hoje teve a chance de novo, e não a desperdiçou.

AÊ PESSOAL DA CANHOTA

Biroliro é uma ratazana, e está acuado. E o que fazem as ratazanas quando estão acuadas? Arreganham os dentes. Tentam meter medo. É isto o que o Despreparado vem fazendo nos últimos dias, ao constatar que sua popularidade só despenca. Até mesmo os peso-pesados do PIB brasileiro estão se voltando contra ele, como se viu na tardia "carta dos banqueiros e empresários". Mas, ao invés de tomar tento na vida, o Pau Fino voltou a falar em medidas duras, estado de defesa e "meu exército", causando desconforto na cúpula das Forças Armadas. Também mandou seu capachildo André Mendonça encher o saco do Ciro Gomes e de quem mais se atrever a falar mal de seu desgoverno, num evidente sinal de fraqueza. Outro sintoma de que as coisas vão mal para ele é o vídeo acima: desde quando que um político querido pelo povo precisa que uma milícia uniformizada faça vagas ameaças em vídeo? Um dos sustentáculos da ditadura venezuelana são esses grupos paramilitares, e o Bozo quer copiar a ideia. Mas claro que não vai ser uma meia-dúzia de gatos pingados fazendo cara feia e falando português errado que vai assustar o pessoal da canhota, i.e. 75% dos brasileiros. O máximo que esses brucutus vão conseguir é uma homenagem da Irmãos Dotados, que bem que poderia produzir um vídeo de orgia inspirado neles.

segunda-feira, 22 de março de 2021

A POTOCA MILENAR

A notícia é velha de dois dias, mas eu não resisto a comentá-la. Roberto Jefferson mostrou, pela enésima vez, que sua escrotidão não tem limites. O ex-deputado e cacique do PTB é a prova viva de que os minions não estão nem aí para o combate à corrupção. Caso estivessem, não dariam cartaz para um corrupto confesso, que foi para a cadeia por seus crimes. Mas Jefferson é espertalhão, e sabe que qualquer bobagem já serve para excitar o gado. Só que agora deu uma escorregada que pode lhe custar caro. Por causa do post ao lado, publicado no Instagram, Bob Jeff está sendo processado pela Conib, a Confederação Israelita no Brasil. Ainda não entendi o objetivo do cara: denunciar um imaginário esquema de tráfico de órgãos de crianças, talvez? De qualquer forma, ele deveria ter feito sua lição de casa. Baal não era um deus adorado pelos judeus, mas sim pelos fenícios, os vizinhos do norte, que viviam no que hoje é o Líbano. E que também fundaram Cartago, a cidade do norte da África que ameaçou o poderio nascente de Roma no século 1 a. C. Foram os romanos que espalharam uma das primeiras fake news registradas pela história. Para angariar apoio popular contra os cartagineses, inventaram que seus inimigos sacrificavam criancinhas a Baal. Não há o menor registro documental ou arqueológico de tal prática, mas a potoca colou.

ELA CUMPRE O QUE PROMETE

Uma amiga que morou anos nos Estados Unidos trouxe sua assinatura do iTunes americano para cá, com acesso a muitos filmes que ainda não estão disponíveis no Brasili. Ontem ela alugou "Bela Vingança", e me convidou para ver junto. Aceitei, com aquela pontinha de suspeita: será que um dos filmes mais hypados da temporada justifica todo o hype? É com alívio que digo que sim. A estreia de Emerald Fennell como diretora de longa-metragem é uma porrada no estômago, e também o sinal definitivo que temos mais um grande talento a todo vapor. A moça também é roteirista (foi a showrunner da segunda temporada de "Killing Eve", a melhor de todas) e atriz (faz a Camilla Parker-Bowles na terceira temporada de "The Crown"). Agora está indicada a dois Oscars, direção e roteiro original, e deve levar este último. Carey Mulligan também é a favorita para melhor atriz, com justiça. Depois de uma década sem um papel que chamasse novamente a atenção da Academia (ela foi indicada uma única vez, em 2009, por "An Education"), essa inglesa de 35 anos está fabulosa como uma mulher que resolve se vingar de todo o sexo masculino. "Bela Vingança" começa com ela se fingindo de bêbada para flagrar os abusadores, todos com cara de bonzinho, mas vai muito além disso. O tom de comédia predomina, até que o final dramático puxa o tapete debaixo do espectador. Assista acompanhado, pois vocês vão ter muito assunto. Essa jovem mulher cumpre tudo o que promete.

domingo, 21 de março de 2021

ONDE FOI QUE ERRAMOS


Queria falar de coisas mais amenas, mas não consigo. Então deixa eu voltar ao assunto: a mágoa da esquerda com quem criticou os governos de Lula e Dilma. Foram essas críticas, segundo a militância, que pavimentaram o caminho para a eleição do Biroliro. Os queixumes esquerdistas deixam implícito que os governos do PT foram impecáveis. Que não houve desvios bilionários da Petrobras, ou que a "nova matriz econômica" não produziu desemprego e inflação - foi tudo ilusão de ótica. Ou, se houve mesmo tudo isto, a imprensa deveria ter fechado os olhos, em nome do bem maior que são a inclusão social e a redução da desigualdade. Toda essa argumentação é furada, claro. Imprensa é diferente de assessoria de imprensa. Imprensa tem que incomodar. Tem que questionar os poderosos, o tempo todo.

Mas um grande erro foi cometido, sim, e não só pelos jornalistas que apontaram o dedo para o PT. Muita gente simplesmente não percebeu o apoio que uma grande parte dos brasileiros dá às ideias retrógradas e violentas do Edaír. Lembro do "Roda Viva" a que o então candidato compareceu em 2018, e a bancada de entrevistadores só queria saber de cobrar suas posições machistas, homofóbicas e racistas. O cara nadou de braçada. Riu  muito, confirmou tudo e viu seus números subirem. Ninguém questionou sua capacidade como administrador. Ninguém perguntou qual seria seu plano de governo. 

Houve um solitário momento em que algo do gênero aconteceu naquela malfadada campanha eleitoral. Foi no único debate a que o Pandemito compareceu, um pouco antes da facada. Marina Silva, com sua voz fininha e seu corpo magérrimo, encurralou o capitão, acusando-o de promover a mortandade de inocentes com sua ideologia armamentista. "Nós somos mães!", bradava ela. Acuado, o Bozo se encolheu todo e só conseguia responder "e conhecereis a verdade, e ela vos libertará", feito um boneco falante enguiçado.

Àquela altura, muita gente já sabia quem era o Mijaír. Ele nunca enganou a quem prestou o mínimo de atenção. O que não sabíamos, e eu me incluo nesses, era a capilaridade de suas ideias. Para mim, o sujeito era um extremista que nunca passaria de 20% dos votos. Jamais conseguiria vencer uma eleição majoritária, só proporcionais. Um político de nicho. Mas, de uma hora para a outra, descobrimos que ele tinha fãs em todos os segmentos da sociedade. Foi com horror que descobrimos bolsominions infiltrados entre colegas de escola, amigos de longa data, parentes próximos e queridos. Alguns ainda disfarçavam, dizendo que o problema maior era o PT. Outros, nem isso. Assumiam com todas as letras que gostavam mesmo do ideário asqueroso, de perseguição às minorias, de supressão de liberdades, da volta da ditadura.

Boa parte dessa galera continua gostando do Despreparado, mesmo com quase três mil mortos por Covid-19 todos os dias. Mesmo sem ele ter feito nada de positivo em mais de dois anos de governo. Ou seja: não são as ações dele que os seduzem, são as palavras e atitudes. Essa turma mantém a popularidade do Pau Fino entre 25 e 30%, a depender da pesquisa consultada, e estarrece os observadores. Como é que pode? Como que o Brasil pode ter um núcleo duro tão assim ruim? Como é que não sabíamos disso até outro dia?

Eu não sabia mesmo, e não consigo descrever o tamanho da decepção com meu país. Não verei esse lugar dar jeito - não durante a minha vida. Penso, a médio prazo, em me mudar para Portugal, ou sei lá para onde ainda viceje a civilização. Se o Genocida for reeleito, é porque o Brasil quis assim. E porque ambos se merecem.

sábado, 20 de março de 2021

FALTA DE PONTARIA

A reação mais curiosa à já histórica coluna da Mariliz Pereira Jorge publicada na quinta pela Folha não veio do gado. Esses mugiram, é claro, mas isto já era esperado. O que me surpreendeu - e não deveria, porque não foi a primeira vez - foi gente de esquerda atacando a Mariliz, porque ela já foi muito crítica ao PT. Isto, segundo eles, não a credenciaria a criticar também o Bozo, mesmo ela não tendo votado nele. Cheguei a brigar com um amigo no Facebook, pois ele estava alertando seus seguidores a não compartilharem o texto da Mariliz ("vocês não sabem quem ela é" - só que é ele quem não sabe). 

Outra que sofreu um ataque despropositado por esses dias foi a Vera Magalhães, que na mesma quinta falou no Jornal da Cultura que o colapso da saúde era tão grande que já estava faltando leito em hospital particular. Um desclassificado se deu ao trabalho de editar essa fala de maneira que a Vera soasse como uma elitista empedernida, horrorizada com a pandemia porque agora ela atingiu a elite. Isso tem nome e sobrenome: fake news.  É distorcer a realidade para ela se adequar não à sua ideologia, mas às suas idiossincrasias. Esses dois exemplos singelos mostram a mágoa de caboclo que ainda transborda nos corações de muitos petistas (mas, veja bem, não no do Lula). A galera exige um teste de pureza que só tem paralelo na histeria dos minions, que vetam uma potencial ministra da Saúde só porque ela atendeu a Dilma. Alguns falam até em responsabilizar (vulgo julgar e prender) jornalistas que apoiaram a Lava-Jato, como se a ditadura do proletariado já estivesse instalada. Mas o inimigo de verdade é bem outro, como sabemos, e ele conta com a nossa desunião. O que precisamos entender é que agora não se trata mais de esquerda versus direita, mas de democracia versus ditadura. Depois a gente volta a brigar entre si.

sexta-feira, 19 de março de 2021

СЕЖТЮУ

Alguém aí lembra de "Pa' Bailar", o tema de abertura da novela "A Favorita"? A faixa mais conhecida do conglomerado Bajofondo, liderado pelo genial Gustavo Santolalla, já ganhou letra algumas vezes, sempre com melodias diferentes, nas vozes da mexicana Julieta Venega e do argentino Santullo. Agora ressurge com essa inusitada variante de inspiraração russa, cantada pela uruguaia Natalia Oreiro. É o meu hit desta 3.785ª fase de confinamento. Nem por isto ando cabisbaixo. Como diz o título deste post, grafado no alfabeto cirílico: sextou.

LAÇOS DE FAMILÍCIA

Muita gente está atribuindo ao Felipe Neto a autoria do vídeo "Bolso Família", que começou a viralizar na tarde de ontem. Na verdade, ninguém sabe quem está por trás dessa pequena obra-prima, que lembra o "Bolsocaro" no tom e na execução. São ambos geniais: linguagem concisa, mensagem destruidora e curta duração, para consumir poucos dados quando forem executados. O fato é que a familícia está com muitos flancos abertos ao mesmo tempo. A pandemia está fora de controle, a inflação vai voltando com tudo e os escândalos de corrupção se acumulam. Biroliro tanto vem sentindo os golpes que ontem leu em voz alta alguns dos epítetos da épica coluna da Mariliz. Tadinho, não é mesmo? Justo ele, que nunca xingou ninguém e sempre tratou todo mundo com a maior gentileza. Agora só falta um DJ transformar o magoado discurso presidencial em remix para as pistas.

quinta-feira, 18 de março de 2021

O CHORO É LIVRE

Nunca gostei do Major Olímpio, mas pelo menos ele teve a decência de se afastar do Biroliro quando ficou claro que o Pequi Roído é o chefe de um orcrim. Por isto, não vou tripudiar de sua morte, apesar de ele ter se arriscado inutilmente. O senador por São Paulo esteve na infame manifestação contra o lockdown convocada pela demagoga prefeita de Bauru e pelo Véio da Havan - um sujeito para quem nem a morte da mãe pela Covid serviu para torná-lo menos negacionista. É inacreditável como tem gente que ainda não acredita no coronavírus, mesmo com quase três mil mortos pelo dia e o colapso absoluto do sistema de saúde. Mas, como mal disse a Maju Coutinho, o choro é livre. A apresentadora do JN foi mal interpretada e continua na mira dos minions, mesmo depois de ter pedido desculpas no programa de hoje. Só que ela tem razão. Ninguém gosta de lockdown, mas ele é a única coisa que pode nos salvar neste momento. A escolha é simples: chorar de raiva por ter que ficar em casa, ou chorar por um ente querido.

PEQUI ROÍDO

Felipe Neto está livre da perseguição insana do Carluxo, pelo menos até o próximo round. A familícia tem razão em temer o maior influenciador digital do Brasil, com 41 milhões de seguidores, mas talvez não devesse xuxá-lo com vara curta. O rapaz já revidou, formando a Cala a Boca Já Morreu, uma frente de advogados para defender de graça quem sofrer acusações parecidas. Talvez eles já possam entrar em ação no caso do sociólogo Tiago Costa, que está sendo investigado pela PF por causa dos já famosos outdoors do "pequi roído", erguidos em Palmas no ano passado. É sempre bom lembrar que a investigação corre a mando de André Mendonça, o ministro da Justiça que age como leão-de-chácara dos Biroliro. Bom, pelo menos por enquanto tá liberado chamar o Pequi Roído de genocida. E de todos esses outros nomes elencados pela épica coluna de minha amiga Mariliz Pereira Jorge desta quinta-feira.

quarta-feira, 17 de março de 2021

ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM

A elite carioca sempre teve medo do dia em que o morro desceria em peso para o asfalto. Este temor não se restringe ao Rio de Janeiro: por toda a América Latina, sempre pairou a ameaça de uma revolta popular, desorganizada e violenta. O filme mexicano "Nuevo Orden", disponível na Amazon Prime Video, imagina como ela se daria. Um casamento elegante na Cidade do México é interrompido pela chegada dos pobres. Na primeira vez, é um ex-empregado que vem implorar por dinheiro para a cirurgia que sua mulher precisa. Na segunda, são manifestantes armados, que esbofeteiam os convidados e saqueiam os pertences dos anfitriões. E aí a coisa degringola, com a instalação de um regime de terror e uma conclusão chocante, mas não surpreendente. "Nuevo Orden" peca pelo fato de assumir o ponto de vista dos grã-finos, sem dar muita voz aos trabalhadores. Como não dá para torcer pelos ricos, o impacto fica aquém do de "Parasita", "Coringa" ou "Bacurau", filmes que abordaram a questão da desigualdade com mais inteligência e sutileza. Mesmo assim, vale a pena ser visto, até porque dura menos de uma hora e meia. Ainda tem o bônus da presença de Darío Yazbek, meio-irmão mais novo de Gael García Bernal. 

EU SOU UMA PINTURA

Aos presumidos 80 anos de idade, Amanda Lear continua sendo um enigma. Ninguém sabe sua idade exata, o lugar onde nasceu ou seu sexo biológico. Só o que lhe aconteceu depois de se tornar amante de Salvador Dalí, que lhe deu seu nome artístico - amant de Dalí. Depois Amanda namorou David Bowie, que lhe pagou aulas de canto, e se tornou uma cantora de sucesso na Europa no final da década de 70. Seu primeiro disco já investia na imagem de artificialidade e se chamava "I Am a Photograph". Agora a diva fecha o ciclo e, em seu novo clipe, se mistura a seus próprios quadros, que ela já vem pintando há alguns anos. É um cover de "More", um standard que já foi gravado por meio mundo. Mais travesti do que nunca, Amanda diz que ama a letra sobre o amor, apesar de não estar amando ninguém específico no momento. "J'ai fermé la boutique", disse ela na TV francesa. Já fechou a lojinha.

terça-feira, 16 de março de 2021

BÊNÇÃO PRA QUÊ?

Durante quase dois milênios, a Igreja Católica e suas inúmeras dissidências monopolizaram os casamentos no Ocidente. O casamento civil só foi introduzido no final do século 19, quando a maioria dos países europeus e americanos promoveu a separação entre Igreja e Estado. Os padres reclamaram muito, alegando que um leigo jamais teria o poder espiritual de um representante de Deus e blábláblá. A nostalgia por este poder explica, em parte, porque tantos sacerdotes concordam em abençoar casais do mesmo sexo. Eles estão confirmando que só com a aquiescência do Altíssimo um matrimônio pode existir. A outra parte da explicação vem dos próprios gays e lésbicas que se casam. Todos cresceram numa sociedade heteronormativa, onde o ritual do casamento é um dos eixos da sociedade. E muitos sonham em se ajoelhar ao pé do altar, numa cerimônia mais prenhe de significados do que a simples assinatura de um contrato. Mas ontem o papa Francisco pôs um fim nessa esbórnia. Justo ele, o mais simpatizante dos pontífices, teve uma atitude bastante antipática, e que pode custar mais alguns milhares de fiéis a Roma A mim, pouco se me dá. Mesmo que as loucas do Vaticano aprovem "YMCA" como marcha nupcial, eu só volto a ser católico no dia em que as mulheres puderem ser ordenadas.

É PROBIDO CHAMAR O GENOCIDA DE GENOCIDA

Edaír Biroliro acha que o lockdown pode lhe custar votos, mas não o número de mortos pela Covid-19. Na cabeça torta do Despreparado, alguns dias de comércio fechado são mais danosos à sua popularidade do que dois mil cadáveres por dia. Só isto já demonstra sua total falta de empatia ou solidariedade, e faz suspeitar que ele até goste de provocar tantas fatalidades. Deve se sentir poderoso, o rei da cocada preta. Portanto, é mesmo um genocida, pois a morte de centenas de milhares de pessoas faz parte de seu projeto de poder. E é obrigação de todo mundo denunciá-lo como genocida, não só do Felipe Neto. Mas é contra ele que se volta o Carluxo, que o acusa de crime contra a segurança nacional. O influenciador mais importante do Brasil foi intimado a depor, mas duvido que o caso vá muito longe. É só mais uma tentativa de intimidação aos críticos do Pau Fino, e muitas outras ainda virão. Especialmente nos dias em que surgirem notícias negativas para a familícia. Reparou que uma reportagem de ontem no UOL deslindava todo o esquema de rachadinha nos gabinetes dos Coronaro? Que coincidência, não é mesmo?

segunda-feira, 15 de março de 2021

O MESMO MINISTRO DE SEMPRE

A imprensa está destacando a tragédia que é termos o 4º ministro da Saúde em plena pandemia. Pois eu acho que a tragédia é ainda maior: seguimos com o mesmo ministro de sempre, Edaír Biroliro, o Genocida. Mandetta e Teisch saíram porque se recusaram a seguir as tresloucadas diretrizes do Despreparado; o general Capachuello saiu porque seguiu à risca. Com mais de dois mil mortos por dia - cinco vezes mais do que o número de pracinhas que morreram ao longo de toda a campanha do Brasil na Itália, na Segunda Guerra Mundial - Pazuzu virou unanimidade negativa nacional. Menos entre o gado, que ontem mugiu em várias cidades brasileiras para apoiar a falta de vacinas, o colapso do SUS e a gasolina a seis reais. Essa turba pode ficar tranquila: depois de quase invadirem o quarto de hotel da médica Ludhmilla Hajjar para, digamos, desencorajá-la a aceitar o convite para o ministério, hoje eles devem estar contentes com a indicação para o cargo do doutor Marcelo Queiroga, birolista de primeira hora. Portanto, não há o que celebrar. Só o fato de que, sob o comando de mais um lambe-botas, a pandemia seguirá descontrolada no Brasil, e uma de suas vítimas fatais será a reeleição do Pandemito.

A PORTA MEIO ABERTA

Mais um domingo de março, mais uma cerimônia de premiação. Ontem foi a vez dos Grammys, adiados em mais de um mês por causa da pandemia. Não adiantou muito: a festa não teve público. Só mesinhas espalhadas pelo que parecia ser o estacionamento de um shopping, ocupadas pelos principais indicados. Eles aplaudiam uns aos outros durante as performances, e ninguém saiu de mãos abanando. Parecia o show de talentos no orfanato de crianças especiais: todo mundo ganhou pelo menos um trofeuzinho. Nada contra. Prefiro assim do que quando um único artista leva tudo, como se ninguém tivesse ouvido outra coisa no ano anterior. Entre os números musicais, adorei o da Dua Lipa, que rebolou de biquíni e me fez repensar minha orientação sexual. Também gostei do Bruno Mars, sempre um camaleão, dessa vez encarnando um cantor de doo-wop na ultra-setentista "Leave the Door Open", que não concorria a nada (mais tarde ele recebeu o espírito de Little Richard durante a homenagem aos falecidos).De resto, um tom algo politizado, com mulheres negras e músicas de protesto levando prêmios. Mas os Grammys continuam meio racistas. A categoria principal, álbum do ano, foi pela terceira vez para uma cantora que eu detesto, a branca medíocre Taylor Swift. Mesmo com pandemia, certas coisas não mudam.

domingo, 14 de março de 2021

A ACADEMIA NA PANDEMIA

Amanhã de manhã saem as indicações ao Oscar de 2020 e uns trocados. A mais estranha temporada de prêmios da história fez com que a Academia de Hollywood esticasse o ano em dois meses: filmes lançados em janeiro e fevereiro de 2021 valem para a premiação relativa ao ano anterior. Os objetivos eram: 1) dar tempo para mais estreias de peso; 2) dar tempo para que a pandemia amainasse e os cinemas reabrissem; e 3) dar tempo para que a cerimônia  acontecesse normalmente, sem discursos de agradecimento pelo Zoom. Não deu muito certo. Muitos filmes importantes foram adiados para o final deste ano, como "Amor Sublime Amor" de Steven Spielberg ou "Duna" de Denis Villeneuve. As salas de Nova York e Los Angeles, os dois maiores mercados dos EUA, seguem quase todas fechadas. Mas talvez a entrega do Oscar seja mais presencial do que as de seus antecessores. Está marcada para 25 de abril e, até lá, boa parte dos americanos vai estar vacinada. Nada disso me permite furar uma antiga tradição deste blog, que é prever as indicações. Então vamos lá:

MELHOR FILME
Bela Vingança
Mank
Meu Pai 
Minari
Uma Noite em Miami
Nomadland
Os 7 de Chicago
A Voz Suprema do Blues

Isso, se forem oito indicados. Podem ser nove: aí, entra "Judas e o Messias Negro" na lista. Na rara hipótese de serem 10, entram "O Som do Silêncio" ou "The Mauritanian".

ATUALIZAÇÃO: Foram só oito mesmo, mas errei dois na minha lista. No ligar de "Uma Noite em Miami" e "A Voz Suprema do Blues", entraram "Judas e o Messias Negro" e "O Som do Silêncio".

MELHOR DIRETOR
Lee Isaac Chung (Minari)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
David Fincher (Mank)
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloe Zhao (Nomadland)

Pela primeira vez, teremos duas mulheres no páreo! E talvez uma terceira: Regina King, de "Uma Noite em Miami". Mas, para isso, Alan Sorkin vai ter que ceder o lugar. Florian Zeller, de "Meu Pai", também é uma possibilidade. Correndo bem por fora, o dinamarquês Thomas Vinterberg, de "Druk". 

ATUALIZAÇÃO: Errei um. Aaron Sorkin caiu fora e entrou justo o que eu disse que corria bem por fora, Thomas Vinterberg.

MELHOR ATOR
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Gary Oldman (Mank)
Seteve Yeun (Minari)

O mais vulnerável desses cinco é Gary Oldman. De olho na vaga dele, estão Tahar Rahim (The Mauritanian), Delroy Lindo (Destacamento Blood), Tom Hanks ("Relatos do Mundo") e Mads Mikkelsen (Druk), mas a concorrência é fraca.

ATUALIZAÇÃO: Acertei tudo, eu sou foda.

MELHOR ATRIZ
Andra Day (Os Estados Unidos vs. Billie Holliday)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Frances McDormand (Nomadland)
Carey Mulligan (Bela Vingança)

Este é o raro ano em que disputa entre as mulheres está mais acirrada entre as mulheres do que entre os homens. Ao invés de Vanessa Kirby, pode entrar Sophia Loren, mais pela volta aos 84 anos do que por "Rosa & Momo", ou até mesmo Amy Adams, com quem a Academia está em dívida, por "Era uma Vez um Sonho".

ATUALIZAÇÃO: Acertei tudo, I am fuck.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)
Chadwick Boseman (Destacamento Blood)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami)
Paul Raci (O Som do Silêncio)

A mais frouxa de todas as corridas, onde um ator fazendo papel de protagonista (Daniel Kaluuya) deve levar o prêmio de melhor coadjuvante. Paul Raci ou Chadwick Boseman podem cair fora, abrindo espaço para... Alan Kim, o garotinho chorão de "Minari"? Ou Jared Leto, por "Little Things"? Não vi esse filme, mas dizem que é péssimo.

ATUALIZAÇÃO: Errei um. O finado Chadwick Boseman não entrou. Em seu lugar, uma surpresa: Lakeith Stanfield, por "Judas e o Messias Negro" - um filme que dois coadjuvantes nos papéis principais.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Glenn Close (Era uma Vez um Sonho)
Olivia Colman (Meu Pai)
Jodie Foster (The Mauritanian)
Youn Yuh-Jung (Minari)

É aqui que a coisa pega. Amanda Seyfried, antiga favorita por "Mank", periga ser esquecida. Ellen Burstyn, por "Pieces of a Woman", e Helena Zengel, por "Relatos do Mundo", a uma hora dessas já foram.

ATUALIZAÇÃO: Errei Jodie Foster. "The Mauritanian" não levou uma mísera indicação. No lugar dela, entrou Amanda Seyfried.

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Collective (Romênia)
Deux (França)
Druk: Mais uma Rodada (Dinamarca)
La Llorona (Guatemala)
Quo Vadis, Aida? (Bósnia)

Os únicos que estão garantidos são o dinamarquês e o bósnio. No lugar de qualquer um dos demais, podem entrar "Caros Camaradas" (Rússia) ou "Noite de Reis" (Costa do Marfim).

ATUALIZAÇÃO: Errei dois. França e Guatemala foram esnobadas. Acabaram sendo indicados dois longas que não estavam entre os mais cotados: "Dias Melhores", de Hong Kong, e "O Homem que Vendeu Sua Pele", da Tunísia.

Amanhã eu volto para ver quantas eu acertei.

sábado, 13 de março de 2021

ZÉ ARMINHA

Que pesadelo. O buraco da familícia não tem fundo. Eles sempre dão um jeito de ir mais baixo. O novo horror é o Zé Gotinha de metralhadora na mão, uma imagem que mereceu o repúdio até mesmo de Darlan Rosa, o criador do personagem. A tragédia só não é completa porque as tentativas dos Biroliros de negar seu passado negacionista não enganam ninguém. Eles perceberam um pouco tarde que o Brasil quer vacina, e agora vai ser difícil arrancar essa bandeira de Doria ou de Lula. Em resumo: enfia a arminha no rabo, Bananinha. E puxa o gatilho.

sexta-feira, 12 de março de 2021

PANDEVERSÁRIO

Faz um ano que a OMS declarou a pandemia. Um ano. Caralho. Achei que ela duraria no máximo até junho, mas cá estamos nós. Com recorde de mortos sendo batido todos os dias e o Despreparado ainda no poder. Pessoalmente, tive muita sorte. Ninguém da minha família ficou doente, e tanto minha mãe como minha sogra já estão vacinadas. Mas a tragédia continua. Em meio a tanta desolação, dou uma de Poliana e faço o jogo do contente. O que a pandemia nos trouxe de bom? Eu, por exemplo, aprendi a fazer pudim e cole slaw. Também conheci melhor a minha própria casa, e descobri onde que se guarda cada artigo de material de limpeza (eu não sabia, me julgue). A nível global, a pandemia teve uma qualidade. Desnudou a incompetência crônica de populistas da direita à esquerda. Trump perdeu a eleição por causa dela, e Biroliro segue firme pelo mesmo caminho. Se isto acontecer, terá valido a pena? Enfim, bola pra frente. O primeiro ano de pandemia é sempre o mais difícil.

quinta-feira, 11 de março de 2021

AS METADES DA LARANJA

Duas séries atuais partem da mesmíssima ideia: no futuro próximo, haverá um teste que determinará, com 100% de certeza, quem é a pessoa perfeita para você. Ainda não vi "The One", que estreia nesta sexta na Netflix, mas é improvável que seja pior do que "Soulmates", já disponível na Amazon Prime Video. São só seis episódios, em formato de antologia: as histórias são independentes entre si, e podem ser vistas em qualquer ordem. Mas só a primeira, a única que tem atores mais conhecidos - Sara Snook, de "Sucession", e Kingsley Ben-Adir, de "Uma Noite em Miami" - vale alguma coisa. O roteiro usa com alguma habilidade a primeira complicação que vem à mente com uma premissa dessas: e se a pessoa que fizer o tal teste já for casada? É lógico que o resultado será bem outro, e coitado daquele casamento. Dali em diante, é ladeira abaixo, com tramas cada vez mais improváveis e diálogos que parecem ter sido escritos por alguém que não fala inglês. As situações variam muito, mas a moral é sempre a mesma: teste nenhum vai fazer você feliz, a vida é muito maior do que isso, o amor se constrói no dia-a-dia, etc. etc. Tudo de uma obviedade tão grande que a gente até esquece das inúmeras forçadas de barra. Do tipo: seu parceiro ideal existe, e é da mesma faixa etária que você! Ah, jura? Enfim, não perca seu tempo. Tem coisa muito melhor para ver por aí. Ou então, vá paquerar online.

À ÍNDIA FUI EM FÉRIAS PASSEAR

Volta e meia, pintam na Netflix uns longas em animação que passam longe do padrão monstrinhos-simpáticos-para-a-criançada. Ano passado teve o estranhíssimo "Perdi Meu Corpo", sobre uma mão à solta em Paris. Este ano é a vez do belo "Bombay Rose" da diretora Gitanjali Rao, que está bem cotado para uma indicação ao Oscar da categoria na segunda que vez. Esqueça o 3D que faz a glória da Pixar: aqui é tudo pintado à mão, em 2D, e o efeito é o de um sonho projetado. A protagonista é uma moça que fugiu de um casamento arranjado e se tornou vendedora de flores nas ruas de Mumbai, e várias outras tramas se cruzam em volta dela. Mas não há uma história propriamente dita. O que há é um retrato impressionista da maior cidade da Índia, com prédios modernos se dissolvendo e dando lugar a construções do passado, já demolidas. Também há fantasias históricas que parecem iluminuras em movimento, muitas referências ao cinema de Bollywood e até, pasme, Caetano Veloso cantando "Cucurrucucú Paloma".  Eu não fumo maconha, mas "Bombay Rose" é o filme ideal para se assistir chapado. Fica a dica.

quarta-feira, 10 de março de 2021

A NOVA ARMINHA

Edaír Biroliro acha que todo mundo é burro que nem ele ou seus eleitores. Acuado pela explosão dos casos de Covid-19, pela falta de vacinas, pelo colapso da saúde, pelo vexame em Israel, pela economia em queda e, last by not least, por Lula renascendo das cinzas, o Despreparado finalmente mudou o discurso. Agora é pró-vacina desde criancinha. Acha que ninguém vai se lembrar que ele bradou aos sete ventos que não seria vacinado e ponto final, que quem se vacinasse poderia virar jacaré ou que o general Capachuello declarou em dezembro que o governo iria comprar vacinas "se houver demanda". Os caras são tão enfiados na própria bolha que acham mesmo que a maioria da humanidade é antivaxx que nem eles. Agora o Bozo quer que a gente esqueça de tudo isso e veja nele o Capitão Vacina, aquele que imunizou o Brasil. Vai colar? Talvez, entre os mais fanáticos e os mais desinformados. Mas a televisão e a internet não vão deixá-lo posar de herói. Pandemito é um vírus, e a vacina contra ele já está à vista.

MÁRIO FILHO FOREVER

É muito chato ser vereador no Rio de Janeiro. A cidade não tem problema algum e tudo funciona às mil maravilhas; não admira que o Carluxo gaste a maior parte de seu tempo em tuítes desconexos, já que não há o que melhorar na cidade. Alguns de seus colegas, sem a mesma verve lietrária do Zero-Dois, ocuparam o tempo ocioso com um projeto para mudar o nome do Maracanã, uma antiga demanda da população. Sai Mário Filho, que ninguém nunca soube quem era, e entra Rei Pelé, o maior brasileiro de todos os tempos, para quem nenhuma homenagem jamais será demais. Ufa! Agora podemos nos preocupar com outras causas urgentes, como a volta dos carrinhos da Geneal. Agora falando sério: Pelé tinha que ter um pingo de dignidade e recusar essa palhaçada. Mário Filho, irmão de Nélson Rodrigues, foi o jornalista esportivo que defendeu que o grande estádio da Belacap fosse construído no bairro quase central do Maracanã, e não na distante Jacarepaguá, como queria Carlos Lacerda. já pensou? Os cariocas teriam que ir ao Jacara, ao invés do Maraca. Mário Filho continua sendo o nome oficial de todo o complexo esportivo do Maracanã, mas isto não importa. Foi pelo estádio que ele brigou, e foi esse estádio que imortalizou seu nome. É esse estádio que não precisa mudar de nome.

terça-feira, 9 de março de 2021

O JOE BIDEN BRASILEIRO?

Lula sempre foi tido como um sujeito de sorte. Foi durante o seu governo, por exemplo, que a Petrobras finalmente encontrou as jazidas do pré-sal, numa prospecção que começou muitos anos antes de ele ser eleito. Mas nem o próprio ex-presidente esperava a reviravolta desta segunda-feira, um daqueles dias em que a gente sentiu a História caminhando para a frente. Lula hoje está livre para disputar a presidência em 2022, e dificilmente a decisão monocrática de Edson Fachin será revertida pelo plenário do STF. Também é pequena a chance de ele ser condenado em segunda instância pela Justiça do DF antes das eleições. Portanto, the Lula is on the table; o que dá para conjecturar agora são as possibilidades dentro desta certeza. Há quem aposte que Lula imitaria Cristina Kirchner e sairia como vice de Ciro Gomes ou outro nome da centro-esquerda. Isso ajudaria a contornar a elevada rejeição ao seu nome, e poderia levar a chapa a uma vitória já no primeiro turno. No entanto, acho quase impossível. A fome de Lula por protagonismo sempre foi maior do que qualquer estratégia eleitoral, ou mesmo do amor que ele sente pelo país. Lula jamais sacrificará seus planos de poder pelo bem comum, como já ficou claro inúmeras vezes. Ele será o cabeça de chapa, pode anotar - e quem será o vice? Luiza Trajano, que já vinha sendo cotada, torna-se um nome fortíssimo, mas vai depender da vontade da empresária de se afastar de seus bem-sucedidos negócios para se meter numa aventura eleitoral. Ciro pode até topar, mas só se Lula jurar que não tentará se reeleger (estará com 81 anos em 2026). Mesmo assim, duvido que o barbudo prometa tal coisa.

A História está dando a Lula a chance raríssima de se redimir. Sua trajetória, que parecia terminar em infâmia, agora mudou de rumo, e ele pode se tornar o homem que salvou o Brasil de uma nova ditadura. Mas vai precisar de uma grandeza que talvez não tenha. Vai ter que se posicionar não como a jararaca vingativa, que quer anular a Lava-Jato e negar as roubalheiras do petrolão, mas sim como uma espécie de Joe Biden brasileiro. O político experiente, que todos conhecemos, e que pode não ser o sonho de muitos, mas é o melhor aparelhado para derrotar um mal muitíssimo maior. Também vai ter que acenar para o nefasto mercado, que já ficou "nervoso" com a possibilidade de sua candidatura, apesar de ter faturado trilhões enquanto Lula esteve no Planalto. E fazer alianças mais à direita, com os liberais que se horrorizaram com o troglodita que ajudaram e alegre (eles são poucos, mas existem). Haverá uma terceira via? Duvido. Luciano Huck vai enfiar a viola no saco e substituir Faustão nas tardes de domingo, talvez sonhando com 2026. Ele não entrará no páreo se a vitória não estiver quase garantida. Ciro pode se tornar um superministro, ou amargar rancor no limbo. Doria talvez prefira a reeleição ao governo de S. Paulo, muito mais tranquila. Certamente surgirão outras opções, mas só um milagre nos afastará do segundo turno mais polarizado de todos os tempos. E aí, sabemos quem vai ganhar. Já vejo amigos que anularam o voto em 2018 dizendo que agora vão de Lula, se ele for a única alternativa para esmagar o Bozo. Eu, que votei no Haddad naquela época, também vou, claro. Adeus, Biroliro!

segunda-feira, 8 de março de 2021

SÓ BEBENDO MESMO

Um turbilhão de emoções contraditórias. É assim que eu me encontro agora, depois de saber que Edson Fachin anulou todas as condenações de Lula. Se confirmada pelo plenário do STF, o ex-presidente recupera os direitos políticos e pode se candidatar em 2022. Fachin se ateve a uma tecnicalidade. A 3a. Vara de Curitiba não teria competência para julgar os três casos que mais afligem Lula: o do apartamento no Guarujá, o do sítio em Atibaia e o das doações ao instituto que leva seu nome. Ou seja, Sergio Moro exagerou na parcialidade, como já sabíamos. Isto não quer dizer que as acusações foram extintas, mas sim que mudaram de foro. Agora serão julgadas em Brasília, por não terem relação direta com os desvios da Petrobrás. Tudo isso ainda pode tirar Lula do páreo no ano que vem, mas está pintando que o STF achou uma maneira de evitar a reeleição do Bozo. No entanto, será que isso é bom? Lula tem um recall positivo altíssimo, mas também uma elevada rejeição. Tudo que o Biroliro quer é enfrentá-lo no segundo turno, e vice-versa. Ou será que não? Provavelmente, um candidato como Haddad seria mais fácil de bater, como foi batido em 2018. Seja lá como for, Lula parece ressuscitar como a figura dominante da política brasileira dos últimos 40 anos. Para entender um plot twist como este, só bebendo mesmo.

MEGXILE

É uma pena que a série "The Crown" não vá chegar aos dias de hoje, porque assunto não falta. O envolvimento do príncipe Andrew com um esquema de prostituição de menores daria um episódio e tanto, por exemplo. Já a saga de Harry e Meghan Markle talvez rendesse todo um arco de temporada. Depois da entrevista que o ex-casal real deu ontem a Oprah Winfrey, me caiu a ficha. O príncipe ruivo vai terminar o que sua mãe Diana começou: derrubar a monarquia britânica. Eu sempre gostei de monarquias constitucionais por causa do pageantry, da pompa e circunstância, mas venho mudando de ideia. Até mesmo os semi-recatados Windsor vêm se mostrando inadequados para a função. O comedimento da rainha Elizabeth II, que beira o auto-sacrifício, não tem eco nas gerações seguintes, e nem deveria ter. Que cada um case com quem quiser e leve sua própria vida, mas não às custas do contribuinte. Deus queira que o "megxile" sirva de exemplo aos outros royals.

domingo, 7 de março de 2021

FLOR DO MEU PARAGUAI

Que inveja dos paraguaios. Pois é, galera, nunca imaginei chegar a este ponto. Estou mesmo com inveja dos nossos vizinhos mais folclóricos. Do país que, para os brasileiros, é sinônimo de falsificação e pobreza. O governo de Mario Abdo Benítez deixou a pandemia se alastrar e não providenciou vacinas, já pensou que horror? Só que lá o povo foi para as ruas. Este domingo já é o terceiro dia em que Assunção assiste a protestos massivos, alguns bem violentos, e todos os ministros tiveram que colocar seus cargos à disposição. A turba quase invadiu a Mburuvicha Róga, a residência oficial com o nome mais formidável do planeta. Deveríamos imitar os hermanos, mas não em tudo. Parece que no Paraguai é uma grande ofensa ter a cara desenhada na cabeça de um pau; se fizessem isto com o Biroliro, ele deixaria de fazer arminha com a mão e adotaria esse novo logo.

(O título deste post é uma referência à letra de "Índia", uma das duas únicas guarânias que eu conheço. Sempre achei que ela terminava com "TODO meu Paraguai", como Gal Costa gravou, mas Roberto Carlos preferiu "FLOR do meu Paraguai". Busquei a versão original de Cascatinha e Inhana, e adivinha? Não dá para saber. Então fui de flor mesmo, que combina melhor com a delicada imagem do cartaz da foto.)

sábado, 6 de março de 2021

JUSTO ONDE DÓI MAIS

Muitos já tentaram desmoralizar o Biroliro lembrando as barbaridades machistas, homofóbicas e racistas que ele escarrou através dos anos, mas o efeito foi justamente o contrário: como o Brasil está coalhado de machistas, homofóbicos e racistas, o Despreparado só cresceu em popularidade. Um pouco mais eficaz é mostrar que ele está longe de ser um paladino contra a corrupção, apontando para a rachadinha, o Queiroz, a Micheque e a mansão do Zero-Um no condominion. Eficaz, mas nem tanto: já ouvi gado mugindo que "não votei no filho". E tem até que defenda a condução desastrosa do combate à pandemia, mesmo com mais de 1.500 mortos por dia. Agora, tiro certeiro me parece ser a abordagem do vídeo "Bolsocaro", que viralizou nas redes. Ele chuta o ponto fraco do desgoverno: o desempenho pífio na economia, que atinge 100% da população. Preço alto é algo que todo mundo entende, e de que ninguém gosta. Bem feito: quem mandou ter bolso no sobrenome?

FAMÍLIA É FAMÍLIA

Uma matéria na Folha de hoje me levou ao vídeo acima, que faz parte de uma campanha húngara contra a homofobia. Ele foi produzido pela ONG Sociedade Háttér e vem sendo veiculado desde dezembro na RTL,  que faz parte da maior rede particular da Europa de emissoras de TV e não se submete à protoditadura de Viktor Orbán. Mesmo assim, o governo da Hungria está processando o canal, alegando que o filme contém mensagens impróprias para crianças. Contém o escambau: o slogan da campanha é "Família É Família", e dá para perceber como os produtores escolheram pessoas com as caras mais comuns possíveis para responder às perguntas que os homofóbicos costumam fazer a casais do mesmo sexo. É tudo de uma sobriedade tão grande que chega quase a ser chato. Mas Orbán não está nem aí e, com a popularidade em queda, viu nos LGTBTc. um alvo fácil para subir nas pesquisas. Biroliro ainda não se atreveu a tomar uma atitude semelhante por aqui, mas é claro que todas as conquistas da última década correm perigo se ele for reeleito no ano que vem. O Despreparado poderá escolher mais juízes para o STF, talvez até aumentá-lo a seu bel-prazer, e não piscará em mandar para o inferno milhões de "famílias arco-íris" (o lindo termo usado na Hungria). Família é família, mas familícia é bem outra coisa.

sexta-feira, 5 de março de 2021

ZÓIO TAPADO, PELAMORRRDEDEUS, INFERRRNO

Presta atenção no que tá acontecendo. Um ano atrás, eram os prefeitos de pequenas cidades italianas que perdiam a paciência com a população, alheia aos perigos do coronavírus. Demorou, mas a onda de indignação finalmente chegou aos nossos governantes. Governadores de vários estados estão revoltados com o Biroliro. Diversos prefeitos, como o de Pirassununga, não aguentam mais a dupla pressão que vêm sofrendo. De um lado, comerciantes insistem em manter as lojas abertas, e a garotada quer mais curtir a vida e beijar muito. Do outro, a falta de leitos nos hospitais, com gente morrendo nos corredores. As novas variantes são mais mortais e contagiosas, e vão fazer um strike entre os jovens. Quem sabe assim o pessoal finalmente abre os zóio?

FAMOSOS DAQUI A 15 MINUTOS

"No futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos". A célebre frase de Andy Warhol ganhou um twist alguns anos atrás que combina direitinho com o filme "Fake Famous", da HBO: "Daqui a 15 minutos, todo mundo será famoso". O documentário de Nick Bilton, um jornalista especializado em redes sociais, se propõe a transformar três anônimos em celebridades, no menor tempo possível. Nenhum dos três possui qualquer habilidade muito especial: a única menina do trio quer ser atriz, e os dois caras acham que não precisam fazer nada para merecer fama e fortuna, só serem eles mesmos. Bilton começa a comprar seguidores para eles no Instagram, ao mesmo tempo em que uma equipe produz fotos fake que sugerem uma vida de luxo e ostentação.  Não demora para a experiência começar a dar certo. Em três meses, já chegam "recebidos" e convites para campanhas publicitárias. Mas dois deles acabam desistindo, incomodados com a artificialidade em que mergulharam, e o advento da pandemia cancela as primeiras viagens com tudo pago da remanescente. Mesmo assim, "Fake Famous" é um bom selfie dessa época desmiolada em que vivemos, quando gente sem conteúdo faz sucesso entre gente com menos conteúdo ainda. Um filme instrutivo.

quinta-feira, 4 de março de 2021

BOLZAGUINHA

Chega de frescura e mimimi, até quando vão chorar 
Nossos problemas precisamos enfrentar 
E onde é que o Brasil vai parar 
Já que eu só penso em reeleição 
E entreguei que eu não estou mesmo nem aí 
E quero mais que vocês morram 
E se fodam 
Chega de idiota que a gente vê nas redes sociais 
"Vai comprar vacina, vai comprar" 
Mas não tem vacina pra vender no mundo 
Só se for na casa da tua mãe 
E eu quero mais ser imbrochável 
E que essa morte entre assim 
Como se fosse o oxigênio acabando 
Quero ver a doença na sua cara 
Doendo, rompendo, tomando 
Rasgando seu corpo e pulmão 
Chorando, sofrendo, morrendo 
Urrando, gritando 
Feito louco alucinado e idoso 
Eu quero esse vírus se espalhando 
Nunca mais vou segurar 
Explode covidão

BAJO EL SIGNO DE CAÍN

Um amigo meu perdeu a virgindade para o Miguel Bosé na década de 80, quando o cantor era tido como o homem mais lindo do mundo. Bosé continua guapo até hoje e finalmente saiu do armário, mas de um jeito ruim. Em 2018, ele desfez seu casamento secreto com o escultor Nacho Palau, que durou 26 anos, e os dois brigam na Justiça pela guarda dos quatro filhos que tiveram com mães de aluguel. Pior ainda é ele ser negacionista. Junto com Victoria Abril, Enrique Bunbury, Alaska e outras celebridades espanholas, Miguel Bosé é um dos imbecis que negam a gravidade da pandemia e acham que tudo é uma conspiração para controlar corações e mentes. Ele até já convocou manifestação contra o distanciamento social e o uso de máscaras. O mais patético é que a mãe de Miguel, a atriz Lucía Bosè, MORREU de Covid-19 em março do ano passado. O que é que a gente faz com um sujeito desses? Joga fora os discos e cancela para todo o sempre? Bate na cara dele com um ferro quente?

quarta-feira, 3 de março de 2021

CUBANAKAN, MISTERIOSO PAÍS DEL AMOR

A fofoca é velha, mas só chegou aos meus ouvidos esta semana. Justin Trudeau é filho de Fidel Castro. Isso mesmo. Parece delírio, mas não faltam evidências. O jovem primeiro-ministro do Canadá é, oficialmente, filho de outro primeiro-ministro, o já falecido Pierre Trudeau. Sua mãe, Margaret, é 30 anos mais jovem que seu pai, e tinha fama de doidivanas: na década de 70, ela foi habitué do Studio 54, o templo da disco music e da cocaína em Nova York. O casal também era chegado num swing, coisa que só fiquei sabendo agora, e foi várias vezes a Cuba. Consta que Fidel Castro também curtia uma sacanagem, posto que teria deixado 11 filhos bastardos. Pelo jeito, falta um nesta conta. Os Trudeau estiveram em Havana no começo de 1971, e Justin nasceu no final daquele ano. Repare na foto ao lado como os supostos pai e filho se parecem, e confira aqui a cara de Pierre Trudeau. Não admira que, quando Fidel morreu, Justin Trudeau tenha sido o único líder do Ocidente a prestar uma homenagem sem ressalvas ao ditador.

À ESPERA DE UM MILAGRE

Quando chamado na chincha, Edaír Biroliro já respondeu várias vezes que não faz milagre. No entanto, sua trajetória é marcada pela busca constante de soluções milagrosas, dessas que não requerem muito esforço nem inteligência. O Despreparado chegou a garimpar ouro em Serra Pelada, na esperança de ficar rico do dia para a noite, e sempre procurou por tesouros escondidos ao longo de sua pífia carreira como parlamentar. A estratégia é simples: "vou colar minha imagem a uma substância milagrosa, e os tontos dos meus eleitores vão me canonizar ainda mais".  As bolas da vez já foram o grafeno, o nióbio e a "pílula do câncer", todos de eficácia duvidosa. Quanto à cloroquina, restam cada vez menos dúvidas: ao invés de curar, o medicamento tem agravado o estado de pacientes com Covid-19. Agora o Pau Fino tirou do bolso um spray antiviral que está sendo desenvolvido em Israel, e despachou para lá uma comitiva de 10 pessoas encabeçada por Ernesto Araújo. A esperança é a mesma: se o troço funcionar, Mijair vai mandar o Exército fabricar milhões de frascos, e torcer para que a pandemia seja extinta do Brasil graças às suas ordens. Tem tanta chance de dar certo como deram suas outras apostas. Agora, vacina que é bom, necas.

terça-feira, 2 de março de 2021

A FANTÁSTICA CASA DE CHOCOLATE

A familícia Biroliro passou décadas contratando e demitindo e recontratando funcionários-fantasmas sem que ninguém relcamasse de nada. Também construíriam um monumental patrimônio imobiliário à custa das rachadinhas, e ninguém deu um pio; ao contrário, foram sempre reeleitos com votações expressivas. Agora chegaram ao cume do poder, mas agem como se ainda estivessem em Rio das Pedras. Continuam praticando falcatruas sem escondê-las muito bem, como uma criança que enfia a cabeça atrás da cortina e acha que ficou invisível. Não sei se é desfaçatez ou só burrice em estado bruto a compra de uma mansão em Brasília pelo Zero-Um, uma semana depois depois dele ser praticamente inocentado pelo STJ. O senador entendeu que agora está livre para fazer o que lhe der na telha, como se fosse filho de Saddam Hussein? A notícia caiu super mal, ainda mais numa semana com tantos brasileiros morrendo de fome e de Covid-19. Porque o salário bruto do cara é alto, 25 paus por mês, mas insuficiente para pagar, pelos próximos 30 anos, prestações mensais de 16 mil reais. Flavinho primeiro jurou que estava usando os lucros de sua fabulosa loja de chocolates num shopping carioca - se fosse tão boa assim, ele não teria se desfeito dela. Depois veio com o papinho de que vendeu um outro imóvel para conseguir dar a entrada - o que é mentira, pois não há registro dessa venda. Enquanto isso, os minions estão mudos nas redes sociais. Já pensou no escarcéu se fosse o Lulinha comprando uma casa dessas?

MUITAS COLINAS PARA SUBIR

A militância exagerada é ruim. Que o diga a Lumena, que deve ser eliminada logo mais à noite do BBB 21. O caso da baiana mostrou como, na vida real e no reality show, a ênfase excessiva nas pautas identitárias acaba fazendo mal, tanto para a minoria em questão como para o próprio militante. Talvez o Brasil, tão duro de entender que está rolando uma pandemia, aprenda essa lição. Lá fora, nem sinal. Na Holanda, a poeta não-binária Marieke Lucas Rijneveld desistiu de traduzir os poemas da americana Amanda Gorman, que escreveu e leu "A Colina que Subimos" na posse de Joe Biden. Marieke foi alvo de uma campanha de ódio do bem nas redes sociais, depois que a jornalista e ativista negra Janice Deul a denunciou como incapaz de traduzir as obras de uma escritora negra pelo simples fato de ser... branca. Acho que Marieke fez mal em desistir - ela tinha mais é que peitar os militontos - mas não faço ideia da pressão a que foi submetida. O precedente é gravíssimo, porque, se um branco não pode traduzir um negro, daqui a pouco tampouco poderá lê-lo. Talvez não demore o dia em que eu serei proibido de ler um livro de Conceição Evaristo ou ver um filme de Spike Lee. Pois que tentem: essa briga, eu quero comprar.