quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

CENTRAL DO FAROESTE

Uma pessoa amargurada se vê, de uma hora para a outra e a contragosto, obrigada a cuidar de uma criança em situação de desamparo. As duas então iniciam uma jornada, passam por mil e uma peripécias e acabam forjando um elo duradouro. O amargurado vira doce e o pirralho encontra um lar. Esse plot básico vai de "Gloria", filme de John Cassavettes com Gena Rowlands, até "Central do Brasil", passando por "Kolya", o longa tcheco que venceu o Oscar em 1997. Agora ele ganha sabor de faroeste no ótimo "Relatos do Mundo", que deveria ter estreado nos cinemas mas chegou por aqui diretamente na Netflix. Tom Hanks faz um ex-combatente da Guerra Civil americana que percorre o interior do Texas em 1870 como uma espécie de rádio ambulante. Ele cobra dez cents por pessoa para ler notícias de jornais em sessões quase tão concorridas como se o circo tivesse chegado à cidade. Nessas perambulações ele encontra uma menina branca vestida de índia, que só fala o idioma da tribo Kiowa. Os pais da menina foram mortos pelos nativos, ela foi criada por eles, eles também foram mortos e ela estava sendo levada por um negro para seus tios no sul do estado. Aí o negro foi enforcado por brancos... Enfim. Não falta violência no périplo da dupla improvisada, causada por humanos ou pela própria natureza. As paisagens majestosas sem dúvida ficariam mais belas na tela grande de um cinema, mas é um raro que um longa desse quilate dê sopa no streaming (não se trata de uma produção da Netflix). A alemãzinha Helena Zengel, que já tinha dado um show em "System Crasher", agora faz um papel quase oposto: antes ela era uma pequena desequilibrada mental que só se comunicava aos gritos, agora é uma traumatizada taciturna que tem medo de tudo. Está indicada ao Globo de Ouro e ao prêmio do SAG, e talvez emplaque no Oscar também. O diretor Paul Greengrass, famoso pelo ritmo frenético de filmes como "United 93" e a franquia "Bourne", não tem pressa em desenrolar este épico intimista, mas jamais cai na modorra. "Relatos do Mundo" é uma obra clássica, sem grandes surpresas nem defeitos. Uma ótima pedida para assistir junto com seu pai, se ele ainda estiver por aí.

2 comentários:

  1. vou ver então, o cartaz tem uma cara de bomba...

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  2. Assisti recentemente a um filme que segue essa estrutura de plot, envolvendo uma criança queer, chamado Palmer, feito pela Apple TV.
    Interessante ver que essa estrutura se repete tanto.

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