sábado, 27 de fevereiro de 2021

A GRANDE ÁRVORE E A MACHADINHA

É difícil classificar "Small Axe". O projeto engloba cinco longas-metragens, todos dirigidos por Steve McQueen ("12 Anos de Escravidão"). Dois desses filmes foram selecionados para o festival de Cannes de 2020, aquele que não aconteceu. A associação de críticos de Los Angeles deu o prêmio de melhor filme do ano ao conjunto da obra. Em outras premiações, "Small Axe" está concorrendo nas categorias de TV, como minissérie. Depois de serem exibidos pela BBC no Reino Unido e chegarem ao catálogo da Amazon nos Estados Unidos, "Small Axe" chega ao Brasil pelo Globoplay, que está disponibilizando um filme por semana. As histórias são independentes entre si, mas têm um importante ponto em comum: são todas baseadas em casos reais de tensão racial no Reino Unido, entre as décadas de 60 e 90. Assisti ao primeiro filme ontem e gostei bastante. Chama-se "Mangrove" no original, o nome de um restaurante no bairro de londrino de Notting Hill, mas em português ficou como "Os Nove do Mangrove" - o que remete a "Os 7 de Chicago", um parente próximo. Os dois longas falam do julgamento de ativistas meio século atrás, acusados injustamente de causar baderna. No caso do Mangrove, a injustiça era flagrante: o local sofria batidas periódicas de policiais racistas, que levavam clientes e funcionários em cana sem acusações formais. Foram tantos raids que, como em Stonewall, o pessoal se revoltou. Fez uma passeata, que descambou para a violência quando os tiras tentaram dispersar, e nove militantes foram presos e julgados. Sem firulas visuais, "Mangrove" vai direto ao ponto e nunca esconde de que lado está. É um sólido filme de tribunal. Agora estou curioso para ver os outros quatro, e ver eles justificam o título da série, tirada de uma canção de Bob Marley. A letra diz "vocês são uma grande árvore, mas nós somos a machadinha". 

Um comentário:

  1. O Mio Babbino Caro
    Antes mesmo de chegar ao fim do texto, já me remetia a Stonewall. A dor e a reação do oprimido é universal.
    Como vês não deixei de ler seus textos pelo motivo já expressado outra vezes de admiração.
    Do atrito que nasce o fogo e fogo é o que mais precisamos nesses tempos.

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