segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A GLORIA É UMA SÓ

Quando se divide o papel do protagonista entre vários atores, costuma-se dizer que cada um deles representa uma faceta do biografado. Isso aconteceu, por exemplo, nos musicais brasileiros em homenagem a Elza Soares e Elizeth Cardoso. No caso desta última, a forçada de barra era evidente: a Divina foi uma artista inovadora e excepcional, mas nunca multifacetada. Esse cacoete se repete agora no filme "As Vidas de Gloria", que pode ser alugado nas boas plataformas do ramo. A jornalista Gloria Steinem, uma das figuras mais importantes da história do feminismo, é vivida por quatro atrizes diferentes, cada uma de uma faixa etária (duas delas são vencedoras do Oscar: Julianne Moore e Alicia Vikander). O título original em inglês. "The Glorias", também se refere a uma suposta multiplicidade. Acontece que Gloria Steinem é uma só. Sempre foi, desde pequenininha, e o roteiro abrangente, que cobre da infância à velhice, deixa isso claríssimo. Ela amadureceu, claro, como qualquer pessoa inteligente, mas mantém a coerência desde a mais tenra idade. Por causa de sua beleza e seu interesse pelos homens, Gloria Steinem ajudou muito a quebrar o estereótipo da feminista feia e sapatão, e sua lucidez e articulação foram cruciais para o avanço da causa nos anos 70. O longa de Julie Taymor faz jus a tudo isso, mas, apesar das duas horas e meia de duração, não penetra muito fundo na psiquê dessa mulher-monumento. Quem quiser saber mais sobre Gloria deve ver também a ótima minissérie "Mrs. America", que conta muito mais detalhes da saga da revista "Ms.", fundada por ela. De qualquer maneira, é sintomático que o feminismo militante de 50 anos atrás volte à mídia. É mais uma reação ao reacionarismo machista que nos assola.

2 comentários:

  1. O Mio Babbino Caro
    Me lembrou "I'm not there" aonde seis atores interpretam Dylan inclusive Cate Blanchett.

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  2. Gostaria que o Afeganistão tivesse paz pra fazer o hippie trail, vivemos realmente uma época de merda! De monitoramento de redes anti sociais os anos 60/70 sem dúvida foram menos sombrios

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