sábado, 27 de fevereiro de 2021

CASTIGA-ME POR TE TRAÍRES

Eu nunca tinha ouvido falar em Fred Hampton, o líder dos Panteras Negras assassinado pelo FBI em 1969, aos 21 anos de idade. A história de sua morte lembra uma tragédia grega, porque ele foi traído por outro negro: um ladrão de carros que topou se infiltrar e virar informante, para escapar da cadeia. Isso faz com que "Judas e o Messias Negro" não seja um filme agradável de se ver, mas bem importante - ainda mais nesses tempos em que a luta antirracista está na ordem do dia. Daniel Kaluuya interpreta Hampton e concorre a vários prêmios como coadjuvante, embora caiba a dúvida: ele não é o protagonista? Na verdade, o roteiro foca mais Bill O'Neal, o sujeito  vigia seus passos e acaba caindo numa enorme crise de consciência. O racismo estrutural sempre procura dividir os negros, desde os tempos em que portugueses e ingleses semeavam a discórdia entre tribos da África Ocidental para comprar e escravizar os prisioneiros de guerra. A conclusão de "Judas e o Messias Negro" é óbvia: só no dia em que os oprimidos se unirem, e não falo só dos negros, é que as coisas terão alguma chance de melhorar.

A GRANDE ÁRVORE E A MACHADINHA

É difícil classificar "Small Axe". O projeto engloba cinco longas-metragens, todos dirigidos por Steve McQueen ("12 Anos de Escravidão"). Dois desses filmes foram selecionados para o festival de Cannes de 2020, aquele que não aconteceu. A associação de críticos de Los Angeles deu o prêmio de melhor filme do ano ao conjunto da obra. Em outras premiações, "Small Axe" está concorrendo nas categorias de TV, como minissérie. Depois de serem exibidos pela BBC no Reino Unido e chegarem ao catálogo da Amazon nos Estados Unidos, "Small Axe" chega ao Brasil pelo Globoplay, que está disponibilizando um filme por semana. As histórias são independentes entre si, mas têm um importante ponto em comum: são todas baseadas em casos reais de tensão racial no Reino Unido, entre as décadas de 60 e 90. Assisti ao primeiro filme ontem e gostei bastante. Chama-se "Mangrove" no original, o nome de um restaurante no bairro de londrino de Notting Hill, mas em português ficou como "Os Nove do Mangrove" - o que remete a "Os 7 de Chicago", um parente próximo. Os dois longas falam do julgamento de ativistas meio século atrás, acusados injustamente de causar baderna. No caso do Mangrove, a injustiça era flagrante: o local sofria batidas periódicas de policiais racistas, que levavam clientes e funcionários em cana sem acusações formais. Foram tantos raids que, como em Stonewall, o pessoal se revoltou. Fez uma passeata, que descambou para a violência quando os tiras tentaram dispersar, e nove militantes foram presos e julgados. Sem firulas visuais, "Mangrove" vai direto ao ponto e nunca esconde de que lado está. É um sólido filme de tribunal. Agora estou curioso para ver os outros quatro, e ver eles justificam o título da série, tirada de uma canção de Bob Marley. A letra diz "vocês são uma grande árvore, mas nós somos a machadinha". 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

FELIZ PURIM PARA TODO MUNDO

Esta noite termina o Purim, a festa judaica que celebra o fracasso do plano do vizir persa Haman, que queria matar todos os hebreus da Babilônia. Em Israel, é o mais próximo que existe do nosso carnaval, com o povo se fantasiando e beijando muuuito. Para marcar a data este ano, o primeiro ministro Biroliro Natananinaninanayal (é assim que o Biroliro daqui pronuncia) estrelou o comercial acima, ao lado do comediante Chen Mizrachi, para incentivar todo mundo a se vacinar. Repare como esse notório corrupto fica simpático na fita, desmentindo fake news e esclarecendo dúvidas. Bem que o Biroliro daqui poderia imitar seu tão admirado colega, mas a pulsão de morte que existe nele é mais forte. O Bozo prefere agradar à meia dúzia de fanáticos antivaxx que o apoia e depois jogar a culpa pelas mais de 250 mil mortes de Covid-19 (até agora) nas costas de governadores e prefeitos. Cadê Javé numa hora dessas, que ainda não o transformou numa estátua de sal?
ATUALIZAÇÃO: O Bruno Sartori, cada vez mais rápido no gatilho, lançou na manhã deste sábado o deep fake em que o nosso Bozo assume o lugar do palhaço. A versão dublada sai na semana que vem.

A PEC DA IMPUNIDADE

O Brasil vivendo o pior momento da pandemia, com mais de 1.500 mortos por dia, e os nobres deputados preocupados com o quê? Com os próprios rabos, é lógico. Quase dois terços deles votaram pela admissibilidade da PEC da Imunidade, em cujo nome falta um P, quando deveriam estar interessados em imunizar a população contra o coronavírus, salvando vidas e a economia. O projeto não existia até a semana passada, mas se materializou depois que Daniel Silveira foi em cana. Para evitar que o mesmo aconteça com eles, os parlamentares correram a emendar a Constituição, pra que até a Flordelis continue linda, leve e solta. Aí não tem esquerda ou direita: políticos de todas as tendências estão a favor desse descalabro (e, verdade seja dita, políticos de todas as tendências também estão contra). Enquanto isso, Biroliro investe contra as máscaras no dia mais mortal da pandemia, levantando uma questão pertinente: o que ele está tentando esconder?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A PABLLO DO MÉXICO

Cantora drag ou transgênero emplacando sucesso nas paradas não é novidade. Nos anos 70 surgiu Amanda Lear, que está por aí até hoje - só que ela nunca se assumiu trans, preferindo manter o mistééério. A primeira pra valer a romper a bolha das boates e fazer algum sucesso no mainstream foi a israelense Dana International, que venceu o Eurovision de 1998 com a divina "Diva" - uma das primeiras produções do jovem Offer Nissim. Dezesseis anos depois, foi a vez da austríaca Conchita Wurst vencer o mesmo festival e abrir as comportas pras colegas. Em 2017, explodiu aqui no Brasil Pabllo Vittar, hoje requisitadíssima para feats. com nomes internacionais como a nipo-britânica Rina Sawayama. Mas, muito antes da brasileira despontar, Zemmoa já brilhava no México. Ex-doorwoman de boate, ela já tem três álbuns lançados, mas eu só a descobri esta semana por causa do ótimo single "Velocidad". Que vexame. Justo eu que me gabo de conhecer tão bem o pop mexicano, nunca tinha ouvido falar de Zemmoa. Não sei nem como se pronuncia seu nome, mas imagino que seja Zemmoá: trata-se de uma corruptela de "c'est moi", "sou eu" em francês. Então é ela.

A MILÍCIA DOS TRIBUNAIS

A tal da Ordem dos Advogados Conservadores do Brasil existe há mais de um ano, mas só ontem conseguiu virar notícia. O motivo foi a postagem aí do lado, que logo viralizou nas redes sociais. O gado mugiu e aplaudiu com seus casquinhos, mas quem tem parafusos no lugar riu muito e tirou sarro. Quer dizer que agora, além de armar "cidadãos de bem" para ter sua milícia à la Venezuela, o Bozo também conta com uma milícia nos tribunais? O presidente da OAB já avisou que irá investigar essa tentativa de intimidação, um verdadeiro acinte à liberdade de expressão. Que os minions adoram invocar quando um deles vai em cana por defender a ditadura, mas que querem que acabe para o resto da humanidade.

Meu primeiro impulso foi denunciar a mim mesmo: ei, venham aqui ler o meu blog, eu chamo o líder da orcrim de vocês de Mijair! Aí eu vi a cara dos tais advogados, e mudei de ideia. São um bando de incels que devem ter sofrido muito bullying na escola e, pelo jeito, estão precisando sofrer mais. Não merecem que a gente os leve a sério.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

BIROLIRO CONBÊ

Talvez Karol Conká não tivesse sido escorraçada do BBB 21 com 99,17% dos votos do público se, ao invés de infernizar Lucas Penteado, ela tivesse se recusado a comprar vacinas, ou pressionado a Justiça a pegar leve com seu filho meliante. A rapper é a atual inimiga número 1 do Brasil, porque não sabemos escolher nossos vilões. Gastamos energia e tempo com ela, enquanto o Exército se transforma numa reles milícia: um grupo armado que achaca os cidadãos comuns. Outro vilão da hora, Daniel Silveira, merece mesmo uma punição exemplar, porque são brincadeirinhas como a que ele fez que, se não forem peitadas, ameaçam a democracia. Mas o brucutu acabou nos distraindo de um malvado muito maior: Edaír Biroliro, a pior coisa que aconteceu ao Brasil nos últimos 40 anos. Um sujeito boçal, despreparado para qualquer cargo público e, acima de tudo, além de qualquer ideologia, extraordinariamente incompetente. Foi ele, e não o general Capachuello ou quem quer que seja, que se recusou a comprar vacinas quando elas estavam mais baratas e disponíveis. Agora elas nos faltam, mas a popularidade do Mijair não despenca, e o Centrão cogita apoiá-lo em 2022 para não perder a mamata. Justo o Pandemito, que fingiu ser contra as mamatas e tanta gente acreditou. Tanta gente nem leu seu currículo, a começar pela Faria Lima - que agora se acalma, depois de Paulo Guedes novamente ser "prestigiado", até levar o próximo susto. O Bozo não presta, mas ele só está lá porque muitos brasileiros também não prestam. Essa escumalha que vai a festas clandestinas, faz passeata pela reabertura do comércio e paga anúncio em jornal defendendo a cloroquina, essa gente merece o governo que tem. Eu não, e tantos outros também não. Mas já perdi a esperança de ver o Brasil dar certo. Não enquanto eu estiver vivo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

PIZZA DE LARANJA

Enquanto houver vaga dando sopa no STF, Biroliro vai conseguir o que quiser. O que não falta é procurador-geral da República, ministro da Justiça ou presidente do STJ disposto a tapar o nariz e proteger a familícia, sonhando com a cadeira de Marco Aurélio de Mello. Hoje a quebra do sigilo bancário do Zero-Um foi considerada ilegal neste tribunal, por quatro votos contra um. Isso pode melar toda a investigação das rachadinhas, soltar o Queiroz e pavimentar o caminho para a reeleição do Despreparado. É a tradicional pizza da política brasileira, agora com laranja e chocolate Kopenhagen.

POLO NORTE, TEXAS

Estive em Austin há quase três anos, quando fui visitar o set de filmagem de "Fear the Walking Dead". Era o final do inverno no hemisfério norte, e o tempo na capital do Texas estava agradabilíssimo: céu azul, temperatura amena e só um casaquinho para circular na rua à noite. Nos últimos dias, Austin e quase todo o Texas foram engolidos por um vórtex polar, a mega-frente fria que vem do Ártico e congela tudo em seu caminho. Tem negacionista que acha que isto prova que o aquecimento global não existe, e é por isto que cada vez mais gente prefere o termo "mudança climática". O aquecimento existe, sim, mas ele não quer dizer que o mundo inteiro está ficando mais quente. Está é cada vez mais sujeito a fenômenos climáticos extremos, como os furacões que deram para aparecer no sul do Brasil. Para piorar, milhões de texanos viram suas casas se transformarem em freezers, depois que a energia elétrica foi cortada em vários lugares. Quem continuou tendo luz agora está morrendo infartado. Algumas contas chegam à bagatela de 90 mil dólares, por causa da alta demanda e da baixa oferta. O Texas é um bastião republicano, e desregulamentou e privatizou totalmente o setor elétrico. Eis aí o resultado: na hora em que a população mais precisa, os capitalistas mostram que seus corações sempre estiveram enregelados.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

ONE MORE TIME

Faz sentido uma banda anunciar que está se separando, oito anos depois de seu último álbum e quase cinco depois de seu último feat.? É por isto que, apesar de ter tudo que eles lançaram, eu não vou sentir muita falta do Daft Punk. Só lamento que, na despedida, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Cristo não tenham removido os capacetes e revelado que eles também são Maiara e Maraísa.

EXPLODE PETROBRÁS

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pra ocultar: a Faria Lima caiu no conto do vigário ao acreditar que Edaír Biroliro, que foi corporativista e estatizante a vida inteira, iria implantar as sonhadas reformas liberais. O Despreparado tem uma única ideia na cabeça, que é a reeleição - a única chance que tem para salvar sua familícia da cadeia. Por isto, não tem o menor prurido em rifar lambe-botas como Sara Winter ou Daniel Silveira, ou interferir diretamente no comando da maior empresa do país. Ele só quer que os preços baixem e os caminhoneiros fiquem felizes, e que se exploda o valor de mercado da Petrobrás, a credibilidade da política econômica ou o bolso dos brasileiros. Que talvez até se encha de dinheiro quando as eleições de 2022 estiverem próximas: não duvido nada que o Bozo instaure um auxílio emergencial de 5 mil reais por mês para todo mundo. Será reeleito por aclamação, e depois terá que governar sobre um escombro. Ou fingir que governa, como já faz hoje.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A MÁFIA DO SÉCULO 16

Que prazer raro que foi rever "A Rainha Margot", agora em versão ampliada e restaurada. Gostei ainda mais do que em 1994, quando assisti ao filme duas vezes no cinema. Agora foi na plataforma Belas Artes à la Carte, que vem se provando indispensável para um cinéfilo como eu: de uma semana para cá, vi quatro filmes lá, e só um na Netflix. A joia da coroa foi essa obra-quase-prima, com atores fabulosos, figurinos indicados ao Oscar e sangue, muito sangue. O que mais me chamou em atenção dessa vez foi a quantidade de gente em cena. São todos figurantes reais, e não criados por computador. Tem quase sempre umas 700 pessoas em quadro, se acotovelando, se apunhalando, chafurdando na lama. A imundície das almas se traduz nos cabelos sebosos, e a única pessoa que parece não suar é, evidentemente, Isabelle Adjani. Mesmo chorando aos cântaros como gosta de fazer, ela é eclipsada por dois coadjuvantes. Jean-Hughes Anglade está escorregadio e cheio de camadas como o rei Carlos IX, e Virna Lisi faz uma Catarina de Medici muito mais assustadora do que a Rainha Má da Branca de Neve. Todos os três venceram os Césars de suas respectivas categorias, e Virna ainda faturou o prêmio de interpretação feminina do festival de Cannes. "A Rainha Margot" deveria ser exibido em sala de aula, pois mostra em detalhes horripilantes o que foi a Noite de São Bartolomeu, quando católicos franceses massacraram um bando de protestantes - uma antepassada direta do Casamento Vermelho de "Game of Thrones". Mas o tratamento que o diretor Patrice Chéreau dá a essa história verídica lembra outro clássico do cinema: nada menos que a trilogia "O Poderoso Chefão". A Casa de Valois é uma espécie de família Corleone do século 16, capaz de qualquer coisa para se manter no poder, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo. Quem gosta de filme de máfia precisa ver.

YA SE ACABÓ

"Patria o Muerte" (pátria ou morte), o hino nacional cubano, ganhou uma versão antípoda: na quarta passada, foi lançada "Patria y Vida", com alguns dos rappers mais famosos da ilha denunciando as misérias de 60 anos de ditadura comunista. "Ãin, mas Cuba tem saúde e educação de graça para todos". Tem, assim como a Holanda, a Dinamarca e a Suécia. E nenhum desses países precisou cortar liberdades individuais ou instituir um regime de partido único para conseguir tudo isso. A galera que defende o castrismo precisa acordar para uma coisa: Cuba é uma ditadura mi-li-tar, onde os figurões do Exército controlam as principais atividades econômicas e levam vidas de nababos, enquanto o povo passa necessidade e não pode se manifestar. Chávez e Maduro copiaram o sistema cubano, e o resultado é que a Venezuela hoje está uma merda generalizada, mas ninguém consegue derrubar os tiranos do poder. E adivinha quem mais está seguindo pelo mesmo caminho?

sábado, 20 de fevereiro de 2021

CUIDADO COM A CUIDADORA

"Eu Me Importo" usa um recurso pouco comum na dramaturgia, mas que rende muito: o filme só tem vilões. Ninguém presta na história da mulher cuja empresa cuida de idosos desamparados, sem parentes responsáveis por perto - e bastante ricos, é claro. Não sei se existe na legislação brasileira essa figura do guardião legal, que tem plenos poderes para internar o pobre velhinho em uma casa de repouso e vender tudo o que ele tem para, supostamente, custear a internação. A inglesa Rosamund Pike deita e rola no papel da empresária inescrupulosa e manipuladora. e mereceu a indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia. Dianne Wiest, como a senhora que parece indefesa mas não é, também está fantástica. A protagonista acha que essa nova cliente é uma mina de ouro, sem desconfiar que a coitadinha tem ligações com a máfia russa. "Eu Me Importo" começa muito bem, em tom de comédia macabra, mas os furos do roteiro não demoram a aparecer. D metade para o fim, vira um thriller de vingança, de malvado contra malvado, e o espectador não sabe por quem torcer. Mas eu me diverti muito, até porque, com mãe idosa em casa, já entrei nesse universo trepidante das cuidadoras. Dou uma voadora se uma delas maltratar minha mami.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

BASCULHO

Daniel Silveira era um Biroliro-wannabe. Tudo em sua trajetória lembra a do Despreparado: a indisciplina frequente enquanto foi PM, as malandragens, a total ausência de ideias construtivas. E, acima de tudo, a verborragia. O brucutu aprendeu rápido que falas e atitudes ultrajantes ganham espaço na mídia e nos corações do gado de extrema-direita. Foi eleito deputado federal depois de rasgar uma placa em homenagem a Marielle Franco, mas nunca exerceu grande atividade parlamentar. Preferia se comportar como um youtuber, gravando vídeos lacradores para puxar o saco do Pau Fino. Achou que nada lhe aconteceria ao xingar o STF num desses vídeos, ou que só seria preso por uma noite e sairia ainda mais bombado. Hoje se debulhou pedindo desculpas, mas não adiantou nada. A Câmara decidiu, por mais de 100 votos a mais do que o necessário, mantê-lo no xadrez. Reinaldo Azevedo torce para que ele não seja cassado antes de ser julgado. Caso contrário, perderia o foro privilegiado, e seu caso cairia para a primeira instância. No Supremo, as chances do troglodita são menores que zero. Daniel Silveira encarna à perfeição a palavra "basculho", que, aqui no Sudeste, aprendemos esta semana como Gil do BBB 21: o puro suco do lixo humano. É assim que se faz: ameaças à democracia precisam ser estranguladas no ninho. E era assim que tinha que ter sido feito há mais de 20 anos, quando um deputado desimportante disse na TV que o presidente FHC merecia ser fuzilado e que o problema da ditadura militar foi ter matado pouco.

THEY ARE AN ANOMALY

Queria escrever sobre o arremedo de Biroliro que é o brucutu do Daniel Silveira, mas prefiro esperar o resultado da votação na Câmara logo mais. Enquanto isso, ocupo a cabeça com coisas boas, como o documentário sobre o Sparks. Minha banda favorita ainda em existência finalmente ganhou um filme só seu, que estreou no festival de Sundance mas não tem data para estrear nem lá fora. É impressionante como os irmãos Mael influenciaram tanta gente e acabaram se tornando cult ao longo dos últimos 50 anos, e a esmagadora maioria da população jamais ouviu falar deles. Talvez seja porque são discretos demais. Sou fã desde os 13 anos de idade, e até hoje não sei se Russell e Ron são casados, têm filhos, namorada/os, cachorros. Só agora descobri que são judeus, lendo as matérias que andam saindo sobre "The Sparks Brothers". Hoje também saiu o sexto ou sétimo vídeo (perdi a conta) do álbum "A Steady Drip Drip": "Left Out in the Cold", tão vagabundo que parece ter sido feito com barbante e cola de farinha de trigo. Não faz mal: eu amo igual.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O RATO EQUIVOCADO

Ratinho é um sujeito muito cordato no trato pessoal. Também é um baita de um profissa. Trabalhamos juntos uma única vez, quando ele fez uma participação especial numa série que eu escrevia. O cara chegou sem conhecer o texto, decorou tudo em instantes, gravou sem errar nada e ainda foi embora cedo, porque tinha que estar no SBT antes das 18 horas para se preparar para seu programa ao vivo. Agora, no campo político, acho Ratinho um tremendo dum equivocado. Não é por ele ser de direita: não existe democracia sem direita e esquerda, que são conceitos ainda não ultrapassados. Mas ele é um equivocado no sentido básico da palavra. Ontem, num programa de rádio, Ratinho defendeu que o Brasil sofresse uma intervenção como teria sofrido Singapura, onde um homem justo teria limpado o país e depois convocado eleições. De fato, eleições acontecem regularmente na cidade-estado asiática, mas nem por isto ela é uma democracia. Na verdade, Singapura é uma ditadura monárquica: o atual primeiro-ministro, Lee Hsien Loong, é filho do tal homem justo que limpou o país, Lee Kuan Yew, hoje ocupando o cargo de "ministro mentor". Quase não há partidos de oposição, e muito menos liberdade de imprensa: jornalistas são perseguidos e condenados até 25 anos de prisão, veja só. Não duvido nada que Ratinho gostaria que o mesmo acontecesse por aqui, provavelmente sob a familícia Biroliro. Pode sonhar à vontade: faremos tudo para que isto jamais aconteça.

A FESTA DO ESTICA E PUXA

O Canal Brasil exibiu na semana passada "Amor Estranho Amor", pela primeira vez na televisão. O filme de Walter Hugo Khouri sumiu de circulação por mais de 30 anos, por causa das cenas eróticas de Xuxa com um garoto de 12 anos. A ex-Rainha dos Baixinhos pagava cerca de R$ 350 mil por ano aos produtores, para que sua estreia no cinema como atriz não saísse em DVD ou passasse em lugar nenhum. Em 2018, ela mudou de ideia, e esse estranho artefato da nossa cultura pôde voltar à tona. Ontem eu finalmente vi o filme, que desprezei quando estreou em 1982 (sim, eu já era maior de idade naquela época, podia ter assistido no cinema). Então agora posso dizer: é uma bosta. Walter Hugo Khouri sempre foi um corpo estranho entre os cineastas brasileiros. O que ele fazia eram pornochanchadas sem nenhum humor e muita, muita pretensão. Eram fantasias eróticas de homem velho, e "Amor Estranho Amor" deixa isto evidente. Na trama, um garoto catarinense de 12 anos é deixado por sua avó numa mansão em São Paulo (a locação é o glorioso Palacete Jafet, no Ipiranga). O lugar na verdade é um bordel de luxo, e a mãe do menino, feita por Vera Fischer, é a puta mais cobiçada de todas. As profissionais ficam em polvorosa com a chegada do moleque, e muitas tentam tirar uma casquinha. Quem consegue mesmo é Xuxa, então com 19 anos, zero pudor e um nariz que não sobreviveu à história. O filme seria um escândalo gigantesco se fosse lançado nos dias de hoje, pois o menino é apalpado, molestado e praticamente currado num gang bang. Sem falar numa cena constrangedora que insinua incesto com a própria mãe... Khouri filma tudo isso sem pressa, com planos arrastados, muitas trocas de olhares supostamente significativos e uma trilha sonora minimalista, datada e irritante. Vera está bem, mas Tarcísio Meira explode em canastrice. Verdade que os diálogos toscos não ajudam, nem a dublagem feita pelos próprios atores, uma praga de que o cinema nacional levou tempo para se livrar. Já a Xuxinha está toda serelepe, mostrando a desenvoltura em frente às câmeras e o tom brincalhão que a tornariam milionária poucos anos depois. Ainda tem a boazuda da Matilde Mastrangi, ostentando um corpo sensacional e o único nu frontal escancarado de todo o longa, e um monte de coadjuvantes que entram mudos e saem calados, como Rubens Ewald Filho. "Amor Estranho Amor" é produto de uma época de transição, da ditadura para a democracia. Muito do Brasil de então está lá: o gosto pela sacanagem, o machismo estrutural e uma boa dose de transgressão. Hoje os cinemas que exibissem este manual de pedofilia seriam incinerados, mas o nosso DNA mental não mudou tanto assim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

BELO EXEMPLO

Só no Brasil que alguém com a ficha policial do Belo continua a ter carreira. Passei os olhos na página dele na Wikipedia, e lá estão as "controvérsias" em que ele se meteu ao longo de mais de 20 anos: quebras de contrato, quatro anos em cana por envolvimento com o tráfico de droga, estelionato, calote na proprietária da mansão que alugou em São Paulo. Todos esses crimes já deveriam tê-lo transformado numa persona non gratissima, mas Belo ainda é capaz de arrastar multidões para seus shows. Como a que se aglomerou em uma escola pública no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na madrugada de sexta para sábado passados. Não havia sequer autorização oficial para que o espaço fosse utilizado, só do traficante que controla a região. Hoje Belo foi preso, e sua futura viúva Gracyanne Barbosa foi choramingar nas redes sociais que "estão perseguindo quem trabalha". Não, só estão perseguindo quem comete crimes, e fazer show sem autorização durante a pandemia se encaixa na definição. Só gostaria que também fossem em cana os responsáveis, dos dois lados do balcão, pela festa interrompida pela polícia no Jockey Club carioca, assim como todos os promoters e DJs das muitas baladas clandestinas que pipocaram neste carnaval. Em fúria, saí do grupo de bichas fervidas que eu frequentava no WhatsApp, pois as malucas compartilhavam flyers como se não houvesse amanhã. Para elas não há mesmo.

ARMINHA CONTRA SI MESMO

A noite de terça foi feliz para o Brasil. Nego Di foi eliminado do""BBB 21" com 98,76% dos votos. Num dos intervalos do programa, Rodrigo Bocardi anunciou a prisão do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ). O ex-PM disputa com Bia Kicis o título de pior parlamentar do país, e no momento está ganhando. O vídeo de quase 20 que ele divulgou ontem, pregando a prisão e até a morte de ministros do STF, foi só a cereja do bolo. Esse brucutu ganhou notoriedade ao rasgar uma placa em homenagem a Marielle Franco, na campanha eleitoral de 2018. Como bem disse o Reinaldo Azevedo, isto é um sinal inequívoco de solidariedade aos assassinos da vereadora. Em pouco mais de dois anos de mandato, Silveira só se preocupou em causar entre sua base,  provocando escaramuças inúteis e sendo até expulso de um avião por se recusar a usar máscara. Hoje a Câmara deve decidir se ele continuará preso, e eu aposto que o troglodita poderá dormir em sua caverna logo mais à noite. Mas, no mínimo, fica o aviso: as instituições não estão tão letárgicas assim, nem a sociedade tão apática. Intolerantes não serão tolerados.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

PAU NA MÁQUINA

"A Máquina do Ódio" é um livro obrigatório. Ele desvenda, de maneira clara e acessível, a maneira como os regimes autoritários (e não só os de extrema-direita) usam a internet para moer reputações e minar instituições. E ainda traz o relato pessoal de alguém que denunciou esse mecanismo e depois foi visada por ele: a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Especialista na cobertura de guerras e epidemias pelo mundo afora, Patrícia publicou no final de 2018 uma reportagem que revelava um esquema de mensagens pró-Bozo pelo WhatsApp, bancada por empresários como o Véio da Havan. Àquela altura o Despreparado já estava eleito, mas mesmo assim seus asseclas se voltaram contra a repórter. Ela recebeu ameaças, xingamentos e até a acusação de propor trocar sexo por informações, feita por uma fonte que primeiro a procurou e depois mudou de ideia. Hoje estamos bem mais cientes do perigo das fake news veiculadas pelas redes sociais, e as próprias empresas estão melhorando seus controles e expulsando figuras como Donald Trump. A extrema-direita, além disso, agora tem um inimigo poderoso: a realidade. Muitos já perceberam que esses demagogos não sabem governar, só falar merda. Os americanos já deram um jeito. Nossa vez vai chegar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

COMO LIDAR COM UMA CRIANÇA VIADA?

Com amor, é claro, mas para muita gente não é fácil amar um garoto que gosta de se vestir de princesa. O personagem-título de "Palmer" acaba conseguindo. Ele é um ex-presidiário que, ao voltar para a casa da avó, se afeiçoa ao filho de uma maluca que mora num trailer. Um dia a maluca desaparece, e o moleque sobra para eles cuidarem. Aí a avó morre... Justin Timberlake, que anda sumido da música, tem aqui seu melhor papel dramático, e contracena mais uma vez com a ótima Juno Temple, que fez sua namorada no fraco "Roda Gigante" de Woody Allen. O pequeno Ryder Allen também é perfeito, com sua carinha de senhora de meia-idade. Mas o filme em si, se acerta na mensagem de aceitação, peca pela caretice da execução e pelo excesso de felizes coincidências no roteiro. Mesmo assim, fica com o mérito de tocar num assunto delicado. Criança viada nunca é fácil.

EL TURCO

Eu tinha horror a Carlos Menem. Não foi à primeira vista: quando ele assumiu a presidência da Argentina, em 1989, parecia alguém capaz de consertar a bagunça do governo de Raúl Alfonsín. De fato, El Turco acabou com a hiperinflação que devorava o país, e garantiu anos de crescimento estável para a economia. Mas as bases da reconstrução eram frágeis, e tudo desmoronou assim que ele deixou o poder. Mais grave ainda eram a corrupção endêmica e os negócios escusos que marcaram sua década no poder. Ah, e o pior de tudo: o silêncio cúmplice, para não dizer envolvimento, nos atentados contra a embaixada de Israel e a Associação Mutual Israelita Argentina, que sacudiram Buenos Aires em 1992 e 1994. Menem, que era muçulmano, ainda deixou que a Arábia Saudita construísse na capital uma enorme mesquita wahabbita, o ramo mais radical do Islã.

Carlitos tentou voltar à Casa Rosada usando o truque consagrado por Juan Domingo Perón: casou-se com a ex-Miss Universo e apresentadora de TV Cecilia Bolocco, confiante de que os argentinos não se importariam dela ser chilena. Não deu certo. Desistiu depois do primeiro turno, quando ficou claro que perderia para Néstor Kirchner no segundo round. Foi preso e processado algumas vezes, mas morreu como senador pela província de La Rioja. Agora deve estar no Jahannam, o inferno islâmico.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

BABY, HÁ QUANTO TEMPO

Gal Costa foi lançando aos poucos os 10 duetos que compõem "Nenhuma Dor", desde novembro do ano passado. Também fui ouvindo aos poucos e gostando mais de uns do que de outros. Mesmo já conhecendo todas as faixas, escutar todas em sequência me levou ao chão, agora que o álbum completo finalmente saiu. Que composições maravilhosas, que arranjos delicados, que ideia ótima chamar apenas cantores da nova geração para dividir os vocais com ela. O repertório só tem clássicos da carreira de Gal, e o mais recente, "Meu Bem, Meu Mal", já tem 40 anos - foi lançado em 1981, no disco "Fantasia". Mas não sou eu quem vai cobrar coisas mais contemporâneas. Gal sempre se arriscou a gravar gente nova, e é dela o mais ousado álbum eletrônico brasileiro até hoje, "Recanto", de 2011. Então, deixa a baiana comemorar seus 75 anos remexendo no baú, e refrescando essas joias com rapazes que poderiam ser seus filhos. A voz de Gal não é mais um cristal nas notas mais altas, porque ninguém está ficando mais jovem, mas seu fraseado e seu bom gosto continuam intactos. Todas as faixas são boas, mas duas são obras-primas: "Juventude Transviada", com Seu Jorge, e "Baby", com Tim Bernardes, dois timbres que combinaram perfeitamente com a talvez melhor das nossas cantoras. Ainda tem dois estrangeiros muito ligados à MPB, o português António Zambujo e o uruguaio Jorge Drexler. Junto com a avassaladora live de Maria Bethânia na noite deste sábado, "Nenhuma Dor" é um inequívoco sinal de vida da cultura brasileira em tempos de escuridão. Ainda vivemos na melhor cidade da América do Sul.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

CEGO PARA AS CORES

Eu devia ter una 12 anos de idade quando li "David Copperfield", e não me lembro direito da trama. O que ficou na minha memória foram os nomes de alguns personagens, como Pegotty ou Uriah Heep. Se eu conhecesse melhor o romance de Charles Dickens, teria aproveitado mais o filme "A História Pessoal de David Copperfield", disponível para compra ou aluguel nas boas plataformas do ramo. O roteirista e diretor Armando Ianucci, criador da série "Veep", condensou o catatau de 600 páginas em duas horas, encolhendo vários dos muitos subplots. Mas eu fiquei fascinado pelo filme por outra razão: Ianucci fez "color blind casting", como o que rolou na série "Bridgerton" da Netflix. Essa prática comum nos palcos de Londres está entrando com força no cinema e na TV, e consiste apenas na escolha do melhor ator disponível para o papel em questão, sem que a cor da pele dele importe. Veja bem, physique du rôle ainda importa;  um personagem bonitão terá que ser encarnado por um ator bonitão, um gordo por um gordo, e assim por diante. Mas cor da pele, raça, etnia, ancestralidade? Puh-leaze. O espectador desacostumado estranha num primeiro momento, mas o talento dos atores escolhidos é tão grande que a gente logo se esquece. O próprio Copperfiled é vivido por Dev Patel, que tem pais indianos. O caso mais fascinante é o de Mrs. Steerforth, uma aristocrata esnobe e arrogante. Ela caiu para uma atriz negra, a nigeriana Nikki Amuka-Bird, que nasceu para fazer aristocratas esnobes e arrogantes. Também tem um chinês que é pai de uma parda, e o filme só ganha com isso. porque os dois são ótimos. Atuar é isso, galera: ser quem você não é. Quero que todos os filmes e peças sejam color-blind, e não porque eu defenda a inclusão e a representatividade (eu defendo, mas não é por isto). É porque eu quero - aliás, eu exijo -  ver o melhor ator em ação, period, e não tô nem aí para a cor da pele dele.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O ANO DO GADO?

Justo o que a gente precisava: hoje começa o ano do Boi de Metal no calendário chinês. Nem me preocupei em checar as previsões para os próximos meses, porque elas nunca acertam nada. Mas fiquei encafifado. Um ano benéfico para os bovinos? Quando estamos cercados por eles no governo, nas redes sociais e nas nossas próprias famílias? Ainda bem que 2022 é o ano do Tigre. As vaquinhas vão ser todas devoradas.

PINGANDO LEITE

É incrível a inabilidade política de João Doria. Mesmo surfando alto na onda da Coronavac, o governador de São Paulo não consegue unir nem o PSDB em torno de sua candidatura à presidência da República. Surgiu, inclusive, um rival intramuros: o gaúcho Eduardo Leite, o mais belo dos governadores. Ainda na metade de seu primeiro mandato, o guapo era visto como um nome para o futuro, que pelo jeito ele pretende antecipar. Leite é bem menos conhecido nacionalmente do que Doria, mas isto pode até ser uma vantagem. Ele não tem jeito de almofadinha, nem polêmicas como a farinata no currículo. Admitiu que votou no Bozo no segundo turno de 2018 para barrar o PT, mas não fez campanha à la Bolsodoria para agora se dizer arrependido. Ao que consta, está sanando as finanças do Rio Grande do Sul - algum leitor dos pampas me corrija, se for o caso? De qualquer modo, Eduardo Leite é articulado e fotogênico, além de ter cara de novidade. Sua eventual candidatura em 2022 pode ser apenas para torná-lo mais famoso e lançá-lo para valer em 2026 (se houver eleição em 2026), mas no Brasil tudo é possível. Sim, ele vai ser alvo de mil piadinhas e insinuações, porque nasceu em Pelotas e continua solteiro. Mas já pensou, um Leite condensado bem na fuça do Biroliro?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

ESCLEROSE MILITAR

A transição da ditadura militar para a normalidade democrática levou mais de uma década no Brasil. O processo começou por volta de 1977, quando o governo Geisel enquadrou Sylvio Frota e enfraqueceu a ala mais radical das FFAA. Aí veio a abertura, a anistia, a volta dos exilados políticos, as eleições para governador de 1982 e, durante o governo Figueiredo, a liberação de inúmeras obras censuradas. O processo só terminou em 1988, com a promulgação na nova constituição, já no governo Sarney. Esse ritmo em câmera lenta garantiu que os milicos conseguissem um monte de privilégios, e nenhum deles foi julgado pelos muitos crimes cometidos pelo regime. Essa leniência deixou que a mentalidade golpista sobrevivesse, especialmente no Exército. Até hoje os generais se acham as pessoas mais probas e preparadas do país, capazes de governar melhor do que qualquer civil (né, Capachuello?). Hoje saiu o livro "General Vilas Bôas - Conversas com o Comandante", de Celso Castro, em que o ex-líder do Exército admite, na maior cara-de-pau, que cogitou dar um golpe de estado em 2018, caso Lula não fosse condenado. Claro que todo mundo já sabia das intenções golpistas, mas ouvir Villas-Bôas se jactar de sua truculência e ignorância, sem temer represálias, é de virar o estômago. Ainda mais porque ele incitou seus pares a aderir ao miliciano que se tornou o pior presidente da nossa história. O general vive hoje uma tragédia particular, com o corpo devastado pela esclerose múltipla. De forma macabra, sua decadência física é a materialização de sua ideologia: apodrecida e ultrapassada, mas ainda viva.

CENTRAL DO FAROESTE

Uma pessoa amargurada se vê, de uma hora para a outra e a contragosto, obrigada a cuidar de uma criança em situação de desamparo. As duas então iniciam uma jornada, passam por mil e uma peripécias e acabam forjando um elo duradouro. O amargurado vira doce e o pirralho encontra um lar. Esse plot básico vai de "Gloria", filme de John Cassavettes com Gena Rowlands, até "Central do Brasil", passando por "Kolya", o longa tcheco que venceu o Oscar em 1997. Agora ele ganha sabor de faroeste no ótimo "Relatos do Mundo", que deveria ter estreado nos cinemas mas chegou por aqui diretamente na Netflix. Tom Hanks faz um ex-combatente da Guerra Civil americana que percorre o interior do Texas em 1870 como uma espécie de rádio ambulante. Ele cobra dez cents por pessoa para ler notícias de jornais em sessões quase tão concorridas como se o circo tivesse chegado à cidade. Nessas perambulações ele encontra uma menina branca vestida de índia, que só fala o idioma da tribo Kiowa. Os pais da menina foram mortos pelos nativos, ela foi criada por eles, eles também foram mortos e ela estava sendo levada por um negro para seus tios no sul do estado. Aí o negro foi enforcado por brancos... Enfim. Não falta violência no périplo da dupla improvisada, causada por humanos ou pela própria natureza. As paisagens majestosas sem dúvida ficariam mais belas na tela grande de um cinema, mas é um raro que um longa desse quilate dê sopa no streaming (não se trata de uma produção da Netflix). A alemãzinha Helena Zengel, que já tinha dado um show em "System Crasher", agora faz um papel quase oposto: antes ela era uma pequena desequilibrada mental que só se comunicava aos gritos, agora é uma traumatizada taciturna que tem medo de tudo. Está indicada ao Globo de Ouro e ao prêmio do SAG, e talvez emplaque no Oscar também. O diretor Paul Greengrass, famoso pelo ritmo frenético de filmes como "United 93" e a franquia "Bourne", não tem pressa em desenrolar este épico intimista, mas jamais cai na modorra. "Relatos do Mundo" é uma obra clássica, sem grandes surpresas nem defeitos. Uma ótima pedida para assistir junto com seu pai, se ele ainda estiver por aí.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

NA TELA DA TV, NO MEIO DESSE POVO

A concessão da TV Globo vence em outubro de 2022, e o Pau Fino ameaça não renová-la desde que chegou ao Planalto. Semana passada, inclusive, ele desembarcou no aeroporto de Cascavel empunhando um cartaz totalmente compatível com a dignidade de um presidente da República. Acontece que, no Brasil, TV nenhuma sai do ar com apenas uma canetada. A não-renovação teria que passar pelo Congresso, e o que não falta por lá é parlamentar que também é dono de uma repetidora da maior emissora do país. O problema é que, depois da eleição de Arthur Lira para o comando da Câmara, está claro que a maioria dos nossos políticos não está nem aí para nada. Se for para garantir mais verbas e poder, eles cassam até as próprias mães. Só que 2022 também é ano eleitoral. Biroliro vai se arriscar a acabar com o canal de maior audiência, que exibe os programas e novelas mais queridos pela população? Vai seguir o exemplo de Hugo Chávez, na Venezuela, e de Viktor Orbán, na Hungria, que também calaram estações de rádio e TV que os desagradavam? Agora talvez não, mas com certeza num eventual segundo mandato. Por via das dúvidas, a Globo está investindo pesado no Globoplay. Tirá-la da internet, que não é uma concessão pública, vai ser muito mais difícil.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

QUINZE A ZERO

Eu estava otimista, ainda mais porque as shortlists deste ano foram ampliadas de 10 para 15 títulos. E também, claro, porque "Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou" é mesmo muito bom. Mas o réquiem de Bárbara Paz ficou de fora dos dois páreos em que estava escrito no Oscar, melhor documentário e melhor filme internacional. Não foi uma grande surpresa. O longa não aparecia em nenhuma das previsões dos sites especializados, e parece não ter causado nenhuma impressão entre os críticos americanos. Talvez tenha sido pela falta de uma campanha mais rica e organizada. O governo brasileiro não deu nenhum tostão, e Bárbara teve que recorrer a um crowdfunding para arrecadar fundos. Pode ser também porque Hector Babenco foi uma grande figura da cultura brasileira até sua morte em 2016, mas seu último filme a ter algum impacto nos EUA foi "Brincando nos Campos do Senhor", de 1991 - e foi um baita fracasso de bilheteria. 

Não foi só "Babenco" que não entrou. O curta em animação "Umbrella" tampouco foi lembrado pela Academia, assim como nenhum outro dos nossos documentários. Ainda resta a esperança de que "Bacurau" seja indicado a melhor roteiro original (essa categoria não tem shortlist), mas ela é ínfima. Se bem que não temos do que nos envergonhar: muitíssimos outros países também bateram na trave, como a Alemanha, a Suécia, a Espanha, a Índia, a China, o Japão, o Canadá e a Argentina.

O shortlist em si é bem consistente. Este ano não houve os três selecionados por uma comissão especial. Todos os 15 passaram pelo crivo dos famosos velhinhos. Por isto, temia-se que bobagens sentimentalóides como o turco "Milagre na Cela 7" acabassem se classificando, mas isto não aconteceu. Verdade que alguns candidatos mais ousados, como "Beginning", da Geórgia, ou "Vitalina Varela", de Portugal, não passaram nem perto. Mas nenhum dos 15 pré-escolhidos envergonha a Academia, como já aconteceu tantas vezes. Vamos a eles:

Bósnia Herzegovina Quo Vadis, Aida?

Chile O Agente Secreto

Costa do Marfim Noite de Reis

Dinamarca Druk: Mais uma Rodada

França Nós Duas

Guatemala La Llorona 

Hong Kong Better Days

Irã Filhos do Sol

México Ya No Estoy Aquí

Noruega Esperança

República Tcheca Charlatan 

Romênia Coletivo

Rússia Queridos Camaradas

Taiwan A Sun

Tunísia O Homem que Vendeu Sua Pele


Já vi o do Chile, que está no Globoplay, o da República Tcheca, que passou na Mostra de SP, e os do México e de Taiwan, que estão na Netflix. Achei que entraria pelo menos mais um africano na lista - o mais cotado era o de Lesoto. Mas, de modo geral, a seleção está até representativa. Só sete dos 15 são europeus, menos da metade, e só isso já é um milagre. Agora começam as apostas sobre os prováveis cinco indicados, que só serão anunciados no dia 15 de março.

ENTREI PARA O CLUBE

Uma amiga me convidou para o Clubhouse, e eu aceitei. A rede social só de áudios existe desde abril passado, mas virou modinha agora depois de uma entrevista do Elon Musk. Já estou seguindo e sendo seguido por algumas pessoas, mas ainda não entendi como aquilo funciona. Entrei numa das salas, e parecia que as vozes da minha cabeça finalmente se libertaram. Ah, e não adianta me pedir invite. Por enquanto só ganhei um, e já passei adiante.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

DISCUSSÃO LEGÍTIMA

A Globo deve interferir no BBB 21 se o comportamento dos participantes for inaceitável? O reality é um reflexo fiel da sociedade brasileira? Bissexualidade é coisa de viado? Não há uma resposta simples para nenhuma dessas perguntas, mas isto não me impediu de discuti-las com a Ana Ribeiro e o Dimitri Sales na edição desta segunda-feira do programa "Legítimo", voltado a pautas LGBT, no canal TV Democracia do YouTube. Nossa conversa foi transmitida ao vivo ao meio-dia, mas quem perdeu não precisa chorar: está tudo registrado no vídeo acima. Alguém aí tem uma hora e 15 minutos sobrando?

WHAT IS A WEEKND?

E aí, gostou do show do The Weeknd durante o intervalo do SuperBowl? Eu gostei, mas não adorei. Talvez porque eu não adore o The Weeknd. Tenho todos os discos e acho uma sacanagem ele ter sido ignorado pelo Grammy deste ano, mas nunca esteve entre os meus favoritos. Mesmo assim, show do SuperBowl é um caso à parte. É a oportunidade para o showbiz americano ostentar suas últimas inovações tecnológicas, e tem sempre um ou dois momentos de cair o queixo. Nesse quesito, o cantor canadense não desapontou. Agora, ano que vem podia ser de novo uma diva beesha, né não? Mas quem? Miley Cyrus? Dua Lipa? Katuxa Love?

domingo, 7 de fevereiro de 2021

ENTRE OS SACIS E AS FADAS

Toda vez que estreia uma série brasileira na Netflix, eu fico meio agoniado. Será que mais uma boa ideia será estragada por uma execução sofrível? Será que o orçamento vai dar para cenários e figurinos decentes, sem falar nos efeitos especiais? Será que o elenco vai estar cheio de atores sofríveis, como costuma acontecer nas produções fora da Globo? É com alívio que eu constato que "Cidade Invisível" escapou de todas essas armadilhas. A ideia de Carlos Saldanha não é boa, é ótima: nada menos que as entidades do folclore brasileiro interagindo com o mundo moderno, uma espécie de "Brazilian Gods". Mais conhecido como o diretor de animações como "Rio" e "A Era do Gelo", Saldanha se deu bem em sua primeira investida com atores de carne e osso. O que não quer dizer que "Cidade Invisível" seja perfeita. Há uma barrigona entre os episódios 2 e 4, quando não acontece muita coisa. As entidades em si também demoram em se manifestar. A gente quer ver logo o Saci, a Iara, o Curupira e, principalmente, a Alessandra Negrini como a Cuca (spoiler: ela não se parece com um jacaré). Mas do quinto em diante o ritmo engrena, culminando com um ótimo capítulo final. Marco Pigossi, mais lindo do que nunca, finalmente encontra um protagonista à sua altura. Mas a performance mais impressionante é a de Fábio Lago como o Curupira, que literalmente pega fogo. Eu ia me borrar de medo de "Cidade Invisível" se eu tivesse 10 anos. Como tenho bem mais, aplaudo, e quero que chegue logo a segunda temporada.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

DR EM PB

É preciso estar interessado em todas as atrizes cotadas ao Oscar para encarar "Malcolm & Marie" numa boa. Ou então, ser muito fã de Zendaya. Eu só me encaixo no primeiro caso. Acho a estrela de "Euphoria", uma série que não me pegou, competente e carismática, mas não me rendi a ela. Admito que ela está bem no filme que acabou de estrear na Netflix, cuja proposta é, digamos, desafiadora: uma longa DR entre um casal de pessoas desagradáveis. Ele é um cineasta inseguro, que consegue ver maldade e racismo até nas críticas mais positivas. Ela, ressentida por ele ter filmado a história dela, uma ex-junkie, e não tê-la chamado para o papel principal. Toda a ação se passa depois da noite da estreia, quando os dois voltam para casa. Ela prepara um mac and cheese e toneladas de ressentimento vem à tona, porque ele se esqueceu de agradecê-la no discurso à plateia. Há momentos muito bons, mas dava para cortar bastante coisa. O diretor Sam Levinson, que também criou "Euphoria", realizou este filme em preto-e-branco durante a pandemia, que felizmente não é mencionada. Eu garanto que estão rolando tretas mais divertidas no "BBB 21".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A VACINA DO CENTRÃO

Biroliro finalmente percebeu que o povo quer vacina. Mas ele não pode simplesmente aderir à "vachina do João Doria", ou mesmo à da AstraZeneca, depois de meses minando a credibilidade dos imunizantes e defendendo remédios inúteis contra o coronavírus. Na live dessa quinta, o Pau Fino já começou a mudar a narrativa. Disse que, se não funcionou, pelo menos a cloroquina "não matou ninguém", o que é duvidoso - quanta gente não deve ter perdido a vida por causa do imaginário "tratamento precoce"? Depois, disse ao presidente da Anvisa que iria assistir ele se vacinar. Enquanto isso, corre por fora a ofensiva do Centrão para que a vacina russa seja logo aprovada no Brasil. O lobista é ninguém menos que o ex-deputado Rogério Rosso, o sucessor dos sonhos de Eduardo Cunha na presidência da Câmara. E há dinheiro grosso em jogo, pois a Sputnik V seria produzida aqui pela farmacêutica privada União Química. Com isso, o Pandemito poderá ter uma vacina para chamar de sua. Vai colar? Entre o gado vai, claro. Essa turma não ligou para a saída do Moro, a prisão do Queiroz, as rachadinhas. Mas o mais triste é perceber como não só o Centrão, como toda a direita dita "civilizada", já aderiu à reeleição do Bozo. A frente ampla já era. O segundo turno de 2022 periga repetir a polarização de 2018. Para isso não temos vacina.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

TERÇA PRESA

O Allan dos Santos não tem a maior cara de quem tem mau hálito? Nunca cheguei perto do rei dos bolsominions e nem pretendo chegar, e agora ele talvez fique ainda mais longe da minha bolha. O YouTube finalmente tirou o canal "Terça Livre" do ar, depois de duas advertências. Nem o canal-reserva que o cara-de-cavalo abriu conseguiu sobreviver. Allan continua livre para pastar e vomitar fake news no Twitter e no Instagram, mas perdeu sua maior tribuna. Infelizmente, é óbvio que não vai demorar para esse facínora se reorganizar e voltar a defender que masturbação mata neurônios. Aposto que ele já se masturbou muito.

VOZES D'ÁFRICA

Fora necessárias 14 indicações aos Goya, o Oscar da Espanha, para que eu finalmente me animasse a ver "Adú", que há meses está dando sopa na Netflix. O filme entrelaça três histórias diferentes ambientadas na África, mas só uma é realmente interessante: a do personagem-título, um menino de uns oito anos que sai de sua aldeia no interior dos Camarões com sua irmã mais velha, dispostos a chegar na Europa. A odisseia do garoto através de diferentes países, sem um tostão no bolso, é de prender a respiração. Uma outra história foca num espanhol que tem uma ONG pela preservação dos elefantes, mas o maior problema dele é mesmo com a filha maluquete. Por fim, no enclave espanhol de Melilla, ao norte do Marrocos, um guarda da fronteira se envolve em uma escaramuça que termina com um emigrante morto. Esses dois subplots, que focam o público interno da Espanha, poderiam ser removidos sem grande prejuízo, mas também servem de pretexto para que o filme amplie seu leque de locações - nem todas bonitas, já vou avisando. "Adú" escapa do sentimentalismo barato do turco "Milagre na Cela 7" e dá nome e rosto ao drama da emigração, que foi ofuscado pela pandemia. Vale a pena assistir, para chorar um pouco e aprender um pouco do mundo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

ISSO OS GLOBOS NÃO MOSTRAM

Com mais de um mês de atraso, hoje começou para valer a temporada de prêmios de cinema. As indicações ao Globo de Ouro foram lidas, sem muito entusiasmo porque em Los Angeles eram 5h30 da manhã, por Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson. A novidade óbvia do ano é que a Netflix virou o player mais importante do mercado, superando todos os estúdios e todos os canais de TV em número de indicações. Mas também há várias surpresinhas na lista, algumas desagradáveis. Meryl Streep, uma das eternas favoritas da Hollywood Foreign Press Association, estava cotada para ser indicada duas vezes na categoria de melhor atriz em comédia, por "Festa de Formatura" e "Let Them All Talk". Saiu de mãos abanando, enquanto seu colega James Corden foi lembrado - talvez por falta de outros candidatos. "Hamilton", a versão para a TV do famoso musical da Broadway, filmada durante uma das performances da peça, emplacou indicações como cinema. Um absurdo, mesmo nesses tempos em que as telas todas se confundem. Já "I May Destroy You" e Micaela Coel ficaram de fora, e vários produtos protagonizados por negros foram pior do que o esperado - será a HFPA racista? A cerimônia de premiação acontece no dia 28, o último domingo de fevereiro, e será comandada mais uma vez por Tina Fey e Amy Poehler. Só que cada uma estará de um lado diferente dos EUA, num evento que deve ser presencial e virtual ao mesmo tempo. Mais estranho do que isso, só os Globes de Ouro.

BEM QUE SE KICIS

Eu tentei nao entrar em depressão depois do resultado das eleições para as presidências da Câmara e do Senado. Repeti para mim mesmo o que boa parte da imprensa vem dizendo por aí: Biroliro teve uma vitória de Pirro, pois agora seu destino está nas mãos do Centrão. Ganhou um apoio que nem sequer foi vendido, e sim alugado - a um preço que é revisado para cima todo mês. Mas o deputado Arthur Lira já dá mostras de que é um Eduardo Cunha redivivo, sem pudor de fazer canalhices. Primeiro tentou tirar toda a oposição da Mesa Diretora, numa manobra que poderia ser questionada no STF. Depois voltou atrás e entrou em acordo, mas aprontou uma pior ainda: indicou Bia Kicis para o comando da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a mais importante de todas. A deputada pelo PSL do Distrito Federal disputa com o brucutu Daniel Silveira, aquele que rasgou a placa da Marielle, o título de pior parlamentar do Brasil. É uma extremista ignorante e arrogante, que se jacta de ter trabalhado aos 12 anos fazendo brigadeiro para pagar suas aulas de tênis, e que já clamou por intervenção militar na tribuna do Congresso. Também é a rainha das fake news e do negacionismo. Lira quis certamente agradar os minions mais irracionais, para talvez ir contra eles em outras áreas. Mas a simples existência de Bia Kicis já é um perigo para o país. À frente da CCJ, é um achincalhe e uma desgraça.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

VOCÊ NÃO SOUBE MIANMAR

Os militares tomaram o poder na Birmânia em 1962, supostamente para proteger o país da ameaça comunista que rondava os vizinhos Vietnã, Laos e Camboja. Ao longo dos 50 anos seguintes, mudaram o nome do país para Mianmar, mudaram a capital de Rangum para Naypiydaw e se infiltraram em todas as áreas da atividade econômica, como sói acontecer nas ditaduras. Foi só em 2011 que os milicos largaram o osso, mas não muito. Deixaram que a popular Aung San Sou Kyi, ganhadora do Nobel da Paz em 1991, se tornasse a líder de fato da nação, mas preservaram um monte de privilégios para si mesmos - inclusive 25% dos assentos no Congresso. Mesmo assim, não gostaram do resultado das eleições de 2020, e ontem deram um golpe de estado. Hoje o Brasil soltou uma nota diplomática que não usa a palavra "golpe", nem cita os muitos presos políticos. Pode ser só cautela, para não comprar uma briga à toa. Mas pode ser também um reflexo do que se passa na cabecinha podre de Ernesto Araújo. Não duvido nada que o nosso tresloucado chanceler ache que tudo bem as Forças Armadas rasgarem a Constituição quando as urnas lhes desagradam. Um trailer de 2022?

O CENTRÃO VAI VIRAR MAR

É inacreditável a incapacidade do Brasil de andar para a frente. Depois de 21 anos de ditadura militar, Nova República, um impeachment, Plano Real, mensalão, jornadas de junho, Lava-Jato, outro impeachment, "nova política" e a eleição de um celerado para a presidência da República, tudo continua como dantes. Com o Centrão, o nome atual dos suspeitos de sempre, firmemente no poder, cuidando de seus interesses comezinhos e dane-se todo o resto. Também é de cair o queixo que um presidente que saiu atordoado das eleições de novembro passado e cuja popularidade cai feito um meteoro tenha conseguido eleger seus candidatos para as duas casas do Congresso. O que não quer dizer, ainda bem, que agora o Biroliro conseguirá aprovar toda sua agenda delirante. Os integrantes do Centrão não são nem fiéis uns aos outros, e o preço por cada apoio daqui para a frente será sempre um pouco mais caro. Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que assumiu o Senado, me parece mais razoável que Artur Lira (PP-AL), que carrega processos por peculato e até por violência doméstica. O mais grave não é se os dois colocarão na pauta temas como o liberou-geral das armas ou a proibição do aborto em todos os casos, mas a pulverização da coalizão de centro-direita que poderia vencer o Bozo em 2022. Com adversários de peso só na esquerda, ele tem o caminho para a reeleição bastante facilitado. O Centrão vai virar mar e o Brasil virar sertão. Aliás, já virou.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

BOTAFOGO REBAIXADO

Rodrigo Maia deixa hoje a presidência da Câmara derrotado, humilhado e sem boas perspectivas a curto prazo. Virou um deputado da segunda divisão, como o time de seu coração e que também atravessa uma má fase. Crente de que o STF deixaria que ele permanecesse no posto mesmo depois de quatro ano e meio, em conflito aberto com a Constituição, o Botafogo não teve tempo de preparar direito sua sucessão, nem conseguiu juntar apoio político. Convenceu o PT a votar em Baleia Rossi, mas não seu próprio partido. O DEM se bandeou quase todo para o colo do Biroliro, capitaneado pelo ACMzinho - que mostra ter o mesmo apreço por ditaduras de seu finado avô. Maia ainda tinha não uma, mas 56 balas de prata no revólver. Foi aconselhado a liberar todos os pedidos de impeachment que repousam em sua gaveta, e passou os últimos dias na ameaça. Talvez nenhum fosse adiante, mas dariam um trabalho desgraçado para serem refutados, um a um, e desmascarariam os verdadeiros sustentáculos desse desgoverno. Só que, na última hora, Nhonho confirmou sua cara de bundão, e deixou mais de meia nação indignada. Não sei nem se consegue se reeleger no ano que vem. Se é que haverá eleição no ano que vem, é claro.

A GLORIA É UMA SÓ

Quando se divide o papel do protagonista entre vários atores, costuma-se dizer que cada um deles representa uma faceta do biografado. Isso aconteceu, por exemplo, nos musicais brasileiros em homenagem a Elza Soares e Elizeth Cardoso. No caso desta última, a forçada de barra era evidente: a Divina foi uma artista inovadora e excepcional, mas nunca multifacetada. Esse cacoete se repete agora no filme "As Vidas de Gloria", que pode ser alugado nas boas plataformas do ramo. A jornalista Gloria Steinem, uma das figuras mais importantes da história do feminismo, é vivida por quatro atrizes diferentes, cada uma de uma faixa etária (duas delas são vencedoras do Oscar: Julianne Moore e Alicia Vikander). O título original em inglês. "The Glorias", também se refere a uma suposta multiplicidade. Acontece que Gloria Steinem é uma só. Sempre foi, desde pequenininha, e o roteiro abrangente, que cobre da infância à velhice, deixa isso claríssimo. Ela amadureceu, claro, como qualquer pessoa inteligente, mas mantém a coerência desde a mais tenra idade. Por causa de sua beleza e seu interesse pelos homens, Gloria Steinem ajudou muito a quebrar o estereótipo da feminista feia e sapatão, e sua lucidez e articulação foram cruciais para o avanço da causa nos anos 70. O longa de Julie Taymor faz jus a tudo isso, mas, apesar das duas horas e meia de duração, não penetra muito fundo na psiquê dessa mulher-monumento. Quem quiser saber mais sobre Gloria deve ver também a ótima minissérie "Mrs. America", que conta muito mais detalhes da saga da revista "Ms.", fundada por ela. De qualquer maneira, é sintomático que o feminismo militante de 50 anos atrás volte à mídia. É mais uma reação ao reacionarismo machista que nos assola.