domingo, 31 de janeiro de 2021

DE PÉ, CINÉFILOS DA TERRA - 4

Sigo firme em meu auto-imposto objetivo de assistir ao maior número possível de candidatos ao Oscar de melhor filme internacional. O curioso é que, dos 18 que eu vi até agora, só um foi na tela grande, e justamente o brasileiro - fui à sessão de gala de "Babenco" no Theatro Municipal de São Paulo, na Mostra de 2019. Todos os demais chegaram a mim via streaming. Foi o caso de "Jallikattu", o escolhido pela Índia, que está na Amazon Prime Video. Não se trata de um musical de Bollywood. A história parte de um acontecimento prosaico: um búfalo destinado ao abate foge de um açougue, trazendo o caos para uma aldeia no estado de Kerala, no sul do país. Peraí, indiano comendo carne bovina? Acontece que a comunidade é quase toda cristã, e tem até igreja e padre. Não tem é muita noção das coisas. O que seria uma simples captura logo se transforma numa caçada épica, com centenas de homens atrás do animal. Um embate contra a natureza indomável, e também uma lembrança do quanto ainda somos selvagens. Não é nada convencional, mas muito interessante. Inclusive porque os diálogos são no acelerado idioma malayalam, em que todo mundo parece sempre estar gritando.
"Filles de Joie" está em cartaz no My French Film Festival, que vai até dia 15/2 no Spcine Play, no Belas Artes à la Carte e no Supo Mungam Plus. Também pode ser alugado no YouTube, sob o título de "Donas da Alegria". Eita tradução ruinzinha: mais fiel seria "Moças de Vida Alegre", com ironia, porque as três portagonistas são prostitutas de vidas tristes. O indicado pela Bélgica tem um roteiro não-linear, com um mesmo acontecimento sendo retomado a partir de outro ponto de vista, e alterna momentos eletrizantes com outros em que não acontece absolutamente nada. Meu destaque vai para a atriz francesa Noémie Lvovsly, que faz uma puta veterana, casada e com filhos. Mesmo com qualidades, esse aqui vai passar batido pela Academia.
"Beginning" é o mais cabeça dos três e, por conseguinte, também o mais badalado. O longa de estreia de Dea Kolumbeshgavili deveria ter participado do Festival de Cannes de 2020, e ganhou vários outros prêmios desde então. É fácil entender por que: a diretora segue à risca a modinha do momento, com planos longos, câmera parada, diálogos esparsos e trilha sonora (do chileno Nicolas Jaar) só nos créditos finais. Não faz nada meu gênero, mas os enquadramentos são belíssimos e a trama, perturbadora. Um templo de Testemunhas de Jeová é incendiado por extremistas em uma pequena cidade. Enquanto o marido vai se aconselhar com os líderes da Igreja, sua mulher fica sozinha com o filho, e não demora para ser molestada sexualmente pelo policial que deveria investigar o caso. Há muito mais camadas debaixo disso, mas eu confesso que não tive paciência nem curiosidade para descascá-las. O candidato da Geórgia fica em cartaz no MUBI por mais um mês.

sábado, 30 de janeiro de 2021

VOCÊ DEIXOU DE SER BEM-VINDO

Portugal é meu plano B. Minha enteada está morando lá, com o marido e os filhos que me chamam de vovô. Devíamos ter passado o Natal de 2020 em Lisboa com eles, e este ano vamos tentar de novo. Se o Biroliro for reeleito, mudar-nos para o além-mar fica ainda mais tentador. O chato é que a extrema-direita resolveu dar as caras por lá também. Manifestações racistas e homofóbicas vem eclodindo por todo o país. Nas eleições presidenciais da semana passada, o candidato do partido Chega! ficou em terceiro lugar, pouco atrás de uma candidata da esquerda. Mas a sociedade lusitana, que viveu quase meio século sob a ditadura de Salazar, não parece disposta a assistir esse revival com complacência. Lá não tem essa de "escolha difícil". Uma prova disso foi a expulsão de Hélder, um participante do programa "Big Brother - Duplo Impacto", da TVI. Trata-se de uma edição só com ex-participantes do reality, e a emissora já sabia que o rapaz era dado a atrocidades. Mas agora agiu direito. Depois de fazer a saudação nazista e desfilar em passo de ganso, Hélder foi posto para fora pela produção. Não tem liberdadezinha de expressão, não tem brincadeirinha. A extrema-direita não tem graça nem merece espaço. Devíamos fazer o mesmo por aqui.

CAVE SEU PRÓPRIO BURACO

Numa época tão incerta como a nossa, "A Escavação" cai bem. O filme não é quadrado, é cúbico. Um drama britânico de época que tem tudo o que a gente espera do gênero: lindos figurinos, fotografia aconchegante, atores geniais. Os protagonistas são Ralph Fiennes, eixando o ar aristocrático na chapelaria para encarnar um homem do povo, e Carey Mulligan, um pouco jovem demais para fazer uma mulher de 56 anos. A história é baseada num caso real: em 1939, às vésperas da 2a. Guerra Mundial, uma viúva rica contrata um arqueólogo amador para escavar sua propriedade, porque ela tem um "feeling" de que algum tesouro se esconde naquelas terras. Os dois acabam encontrando um barco funerário anglo-saxão do século 6, atraindo as atenções das autoridades e da mídia. O elenco dobra de tamanho na segunda metade do longa, com a chegada de novos personagens. Os de maior destaque são o casal infeliz feito por Lily James, enfeiada de propósito, e Bem Chaplin, e outros dramas correm em paralelo. Nada que faça o espectador explodir em lágrimas, nem experimentar intensas emoções. Sem jamais cavar muito fundo, "A Escavação" é só um episódio especial de "Downton Abbey" com as mãos sujas de terra. mas quem disse que isso é ruim?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

GOVERNO NÃO

Não é maravilhoso que, no vácuo do desgoverno federal, cidadãos e empresas tenham tomado para si a iniciativa de fazer campanhas pela vacinação? Depois de "Tamos Nessa Juntxs" e de "Vacinabutantan", hoje saiu o filminho produzido pelo consórcio de veículos de imprensa. Tem um visual simplérrimo e uma mensagem que deveria ser óbvia: vacine-se assim que puder. Vai ter gado mugindo que não acredita em nada que venha da Globolixo, mas deixa pra lá. Que tomem cloroquina.

WHEN I LOOK BACK UPON MY LIFE

Lembra da AIDS? Aquela doença devastadora que surgiu no início dos anos 80, e para a qual até hoje não existe vacina nem cura? Quer dizer, existe tratamento, e dos mais eficazes. Eu tenho uma dezena de amigos e conhecidos soropositivos, e todos levam a vida normalmente, sem sintomas nem nada. Aliás, faz tempo que não ouço falar de alguém que tenha morrido da "maldita". Em tempos de Covid-19, então, a síndrome da imunodeficiência adquirida foi meio ofuscada. Hoje finalmente se fala de uma vacina na fase final de testes, e o PrEP fez com que muita gente não precise mais passar pelo terror de quase 40 anos atrás. Eu passei. Escapei por milagre. Perdi amigos, peguetes, um semi-namorado e até meu ídolo Freddie Mercury, e não faço a menor questão de reviver aquela época. É por isto que não estou muuuito entusiasmado para ver "It's a Sin". A nova série de Russell T. Davies, criador da seminal "Queer as Folk", foca um grupo de gays e drags britânicos justamente quando o HIV começou a se espalhar. O elenco é fantástico e a música é ótima, mas os dramas sobre a AIDS têm uma característica em comum: sempre acabam mal. Já vi uns trocentos, e vou ter que ver mais este. Ainda não há data de estreia no Brasil, nem sabemos em qual plataforma "It's a Sin" chegará por aqui. Mas lá vamos nós outra vez, ainda que com má vontade. Perder uma série dessas vai ser um pecado.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

BALEIA ENCALHADO

Houve um momento em que a eleição de Baleia Rossi (MDB-SP) para a presidência da Câmara de Deputados parecia favas contadas. Antípodas como o PT e o PSL declararam apoio ao candidato de Rodrigo Maia, e só adolescentes problemáticos como o Novo ou o PSOL preferiram "marcar posição" a aderir a uma frente ampla contra Edaír Biroliro. Mas o poder de barganha do governo federal é sempre muito grande, ainda mais com o Centrão de olho no cargo do General Capachuello. Agora se dão como quase certas as vitórias de Artur Lira na Câmara e Rodrigo Pacheco no Senado, os favoritos do Pau Fino. Se isto acontecer mesmo, podemos dar adeus a qualquer sonho de impeachment. A não ser que o Botafogo se encha de brios e, no último dia de seu mandato, resolva liberar um dos 60 pedidos que hibernam em suas gavetas. Inshallah.

AGLOMERAÇÃO SEM SUCESSO

Toda vez que morre de Covid-19 algum negacionista da doença, o que resta de caridade cristã em mim vai pras picas. Tenho vontade de sambar na cara do defunto, copo de champagne na mão e "Vou Festejar" no sistema de som. Mas a morte de Ygona Moura, de quem eu nunca tinha ouvido falar até ela ser intubada, me deixou assim-assim. A moça pertencia a quase todas as minorias: mulher, transexual, preta, gorda, portadora de deficiência física, periférica, vítima de bullying até da própria mãe. Era uma das porta-estandartes do movimento body positive na blogosfera brasileira. Também era uma boboca, coitadinha. Suas últimas declarações em vídeo, pouco antes de ser diagnosticada com o novo coronavírus, merecem ser inscritas na porta do Inferno de Dante: "Gente, que noite foi essa. Noite de aglomeração com sucesso. Sai de lá quase 8h da manhã. Aglomerei mesmo e recebi bem pra isso. Hoje, estou aqui pela Tiradentes, estou caçando um baile, quero aglomerar de novo, estava morrendo de saudade de aglomerar". O pior é que a morte precoce de Ygona, aos 22 anos de idade, talvez não sirva para assustar ninguém. Não faltam protestos de donos de bares e restaurantes do Oiapoque ao Chuí, pressionando as autoridades para continuarem abertos. Piores ainda são as festas mais ou menos clandestinas, algumas até com line-up de DJs internacionais. A galera se esquece que cliente morto não paga... O Brasil parece a piada do sapo e do escorpião. Não conseguimos não nos aglomerar. Faz parte da nossa natureza.

Para quem quiser saber mais da tristíssima história de Ygona Moura: https://bit.ly/3iSVQrI (obrigado, Rosana Hermann)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

MOÇA, SEI QUE JÁ NÃO É PURA

É assaz divertido ver como muitos factóides e boutades lançados por Biroliro acabam se voltando contra ele. Um exemplo clássico é o "grande dia!" tuitado quando Jean Wyllys anunciou que se mudaria do Brasil. Agora é o leite condensado, que o Despreparado serviu com pão no café da manhã que ofereceu a John Bolton, então conselheiro de segurança nacional do governo Trump. A internet entrou em polvorosa com a revelação de que o governo federal gastou 15 milhões de reais em "girl milk" em 2020, e muita gente entendeu que era tudo para o palácio da Alvorada. Não é: a quantia engloba todo o Executivo, dos ministérios às Forças Armadas. Mesmo assim, a quantidade assusta, até porque muita gente fez home office no ano passado. Mais inexplicáveis ainda são os gastos com chiclete (!) e alfafa (!!!). Por que é o que os meus impostos precisam custear a alfafa de quem quer que seja? Eles que zurrem.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

COMO ELE É CARA DE PAU

Alguém aí já leu "Pinóquio"? O livro de Carlo Collodi, não alguma adaptação do filme da Disney? Eu li quando era pequeno, e devo estar traumatizado até hoje. O boneco de madeira pega fogo, leva facada, é enforcado. Boa parte dessa violência é transposta para a tela na nova versão de Matteo Garrone. Eu aguardava por este filme há dois anos, desde que entrevistei o diretor em Milão e ele me contou desse projeto. É um alívio dizer que não me decepcionei: "Pinóquio", em cartaz nos cinemas, é nada menos que deslumbrante. A tecnologia finalmente chegou ao ponto em que os delírios do livro ganham forma crível, apoiada por direção de arte,  figurinos, maquiagem e elenco extraordinários. Até Roberto Benigni está sob controle, talvez com remédios de tarja preta.  "Pinóquio" é apenas um cautionary tale, uma fábula para meter medo nos garotos gazeteiros e convencê-los a se comportar e ir à escola. Mas o visual suntuoso leva a gente para um mundo antigo e onírico riquíssimo em camadas e texturas. Ainda bem que eu vi na tela grande.

LA STELLA DELLA SERATA

Alguém sabe me explicar por que o meme "Buonasera Katuxa" voltou com tudo? Quase 10 anos depois do vídeo do tappeto rosso do aniversário de Bambola Star explodir nas redes sociais, eis que Katuxa, Natasha e tutti quanti estão em voga outra vez. De uns dias para cá, pululam novas versões, explicações, reações de italianos e o inveitável remix de Las Bibas from Vizcaya. Talvez seja a nossa carência por glamour e aglomerações, talvez seja porque a graça desse encontro seja mesmo infinita. Só me resta aderir: un bacho, Bambo, muita felichitá.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A HORA DA VERDADE

Já que as boas notícias para valer andam raras, eu me regozijo vendo os babacas se darem mal. Dei pulinhos de alegria quando soube que a enfermeira capixaba que disse que tomou a vacina "só para viajar" foi sumariamente demitida do hospital onde trabalhava. E estou tendo um orgasmo múltiplo por causa do Rudy Giuliani, esse pedaço de homem. O ex-prefeito de Nova York viu sua reputação derreter feito tintura barata de cabelo desde que passou advogado de Donald Trump. Foi um dos arautos da imaginária fraude nas eleições, que culminou com a invasão do Capitólio por malucos da extrema-direita. Agora está levando o troco: mais precisamente, um processo movido pela Dominion Voting, uma das empresas privadas que cuida da segurança nas eleições americanas. O noivo da filha do Borat está sendo acusado de por em dúvida a lisura do processo e  difundir fake news que ligavam a companhia canadense à ditadura de Nicolás Maduro. Se perder, Giuliani vai morrer em 1,3 bilhão de dólares. E asfaltar o caminho para que Trump, Biroliro e outros demagogos paguem caro por suas mentiras.

JOGA PEDRA NA ERUNDA

Luiza Erundina é uma mulher de coragem. A deputada pelo PSOL-SP não está nem aí de ser acusada como a principal responsável pela possível eleição de Artur Lira à presidência da Câmara já no primeiro turno. Ela não representa nem sequer seu próprio partido: cinco dos 10 deputados psolistas preferiam apoiar logo Baleia Rossi, inclusive Marcelo Freixo e Sâmia Bonfim. Mas a Erunda achou que este seria o momento ideal para marcar posição, e foda-se a democracia brasileira. Se Artur Lira vencer mesmo, adeus impeachment e hello segundo mandato do Biroliro. Tudo vai ficar mais fácil para o Despreparado, seus asseclas e seu gado subserviente. Erundina ainda teve o desplante de acusar o PSOL de fisiologismo, pois o partido estaria negociando cargos na mesa-diretora da Câmara em troca do apoio a Rossi. Isso se chama política, e ela sabe muito bem disso. Tanto que não controlou a própria fome por cargos ao deixar o PT, em 1993, para se tornar ministra de Itamar Franco. A ex-prefeita de S. Paulo merece aplausos pela trajetória admirável, mas não é nenhuma santa. Também parece meio burra. Ou vai ver que, a essa altura da vida, ela quer mais é que tudo se exploda.

domingo, 24 de janeiro de 2021

IMORAL DA HISTÓRIA

Pelo trailer, "O Tigre Branco" parece uma história de superação e uma ode ao empreendedorismo. Rapaz indiano de casta baixa se torna motorista de uma família rica, come o pão naan que a deusa Kali amassou, dá a volta por cima e termina como o feliz proprietário de uma empresa bem-sucedida. Só que não é bem assim. No meio há um acidente fatal do qual ele não tem culpa - no entanto, mesmo assim, seus patrões o obrigam a assinar uma confissão, e a troco de nada. Esse evento catalisa toda a revolta que o cara acumula desde a infância, e mais não posso contar. Dirigido pelo americano de origem iraniana Ramin Bahrani, "O Tigre Branco" é a versão frenética de um livro de sucesso, e suas duas horas de duração passam voando. Disponível na Netflix, o filme exibe o contraste brutal entre a miséria de favelas e aldeias e a opulência e crueldade dos magnatas que controlam a política e a economia da Índia. O novato Adarsh Gourav está fenomenal como Balram, o chofer humilde e cara-de-pau, que esconde com um sorrisão no rosto o pote até aqui de mágoa que tem por dentro. O bonitão Rajkummar Rao, que faz seu patrãozinho, é um astro de Bollywood. Sua mulher é Priyanka Chopra, agora também Jonas - cada vez mais roliça mas sempre ótima. Já tem gente comparando "O Tigre Branco" a "Parasita" e, de fato, os dois mexem com vara curta na desigualdade. Mas este longa também é uma espécie à parte. Um animal raro, que transborda energia e desafia nossas expectativas de mensagens edificantes. É uma história imoral.

sábado, 23 de janeiro de 2021

A VACINA ENVOLVENTE QUE MEXE COM A MENTE

Finalmente saiu o tão aguardado remix de "Bum Bum Tam Tam", a/k/a a largada da campanha João Doria-2022. O mais legal do clipe é ver os funcionários descendo até o chão, no que foi, com certeza, o dia mais divertido de suas carreiras. "Vacinabutantan" também é mais uma peça da campanha não-oficial pela vacinação, aquela que o desgoverno Biroliro não quis fazer. Os minions querem continuar sendo  clorokillers.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

EITA CENOURADA MAL DADA

Mário Gomes se encaixa no clichê do bolsominion como, aham, uma cenoura se encaixa no cu. O cara tica todas as caixas: branco, hétero, de meia idade, sem muita cultura e ressentidíssimo. O ressentimento tem sua razão de ser. Em 1977, ele estava em vias de se tornar um grande galã da Globo, quando uma fake news abalou sua carreira para sempre. Por isto mesmo, é fascinante perceber que, tantos anos depois, Mário não aprendeu nada de porra nenhuma. No áudio que mandou a Carlos Vereza, vazado nas redes sociais, ele nem precisa mugir pra gente saber que é gado. Ataca Huck e Doria pelo crime de lesa-majestade, i.e. ameaçar tirar o Bozo da presidência. Mas a cenoura mais grossa sobra para Marcelo Freixo, deputado pelo Rio de Janeiro que, no entanto, teria o poder de acabar com o oxigênio em Manaus. O pior é que tá assim de minion acreditando e dando RT no troço, e se comprometendo também. Freixo já avisou que vai processar o ex-futuro galã. É melhor já ir fritando hamburger, porque a multa será pesada.

A VIÚVA CLOROQUINA

Regina Duarte andava meio na moita. Pudera: a ex-atriz e ex-secretária da Cultura foi humilhada em público por seu ídolo Biroliro, processada por divulgar fake news sobre a falecida Marisa Letícia e punida pela Deusa com uma queda que lhe quebrou três dentes. Só que ela não aprendeu absolutamente nada com isso, pois de fato não é muito inteligente (a prova: como que alguém que estrelou "Malu Mulher" pode declarar que não é feminista?). Ontem Regina postou essa besteirada aí em cima no Instagram. A princípio, só os minions a aplaudiam, mas não demorou para que a publicação virasse notícia. A Viúva Cloroquina é um caso a ser estudado. Sua carreira e sua reputação já estão mortas e enterradas, mas ela ainda faz de questão de matá-las mais um pouquinho e enterrá-las ainda mais fundo.

(o título desse post foi roubartilhado de um tuíte do Renato Terra)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

ELAS BEBEM SIM

Faço hoje minha estreia triunfal em um podcast da Folha de S. Paulo. Mais precisamente, no episódio desta semana do Expresso Ilustrada, que discute a relação das mulheres com a bebida no cinema e na TV. Repito um pouco do que escrevi na minha coluna do dia 13/1 no F5: as sitcoms americanas refletem o avanço da mulherada na sociedade e o que o machismo espera delas. Também esmiuço "Sex and the City", cujas personagens se encharcam de cosmpolitans, e que vai ganhar uma nova temporada em breve. Quem também estiver com saudade de me ver pode acessar o canal Manual do Tempo no YouTube, onde eu falo da engraçadíssima "Faz de Conta que NY É uma Cidade".

TERRIVELMENTE PUXA-SACO

É impossível escolher o pior integrante do desgoverno Biroliro. Ernesto Araújo conseguiu se indispor ao mesmo tempo com a China, a Índia, a Argentina, a Comunidade Europeia e os EUA pós-Trump, uma façanha inédita na diplomacia brasileira. Mas o troféu escorregou de suas mãos, atraído pelo campo gravitacional de André Mendonça. O ministro da Justiça sonha em ser o juiz "terrivelmente evangélico" que o Pau Fino jurou indicar para a vaga de Marco Aurélio de Mello, que sai em julho do STF. Mas sua melhor credencial é mesmo o puxa-saquismo desvairado. Com seu eterno ar de criança fantasiada de adulto para o teatrinho do colégio, Mendonça age como defensor pessoal do Edaír, perseguindo nos tribunais quem ousa criticar seu chefe. A mais recente vítima é o advogado Marcelo Feller, que disse em julho do ano passado, no "Grande Debate" da CNN Brasil, que o Bozo era responsável por pelo menos 10% das mortes por Covid-19 no país. Veja bem: a declaração foi feita há mais de seis meses, e passou batida na época. Por que eriçar os pelos só agora? Porque o cerco começa a se fechar em torno do Despreparado. A ficha finalmente está caindo, e a sociedade brasileira se dando conta de que elegeu um incompetente mau-caráter para o cargo mais alto da nação. Pandemito foi contra as máscaras, contra o distanciamento social, contra a vacinação. Deixou acabar o oxigênio e fez campanha pela inútil cloroquina. Uma hora a conta ia chegar, mas não se depender de André Mendonça. O que o ministro faz é um claro gesto de intimidação, para calar as vozes da oposição antes que elas se tornem altas demais. Talvez seja até recompensado com um assento no Supremo, mas sofrerá o desprezo de seus colegas pelo resto da vida. Menos do Kassio Nunes, é claro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

ELA ESTÁ SUBINDO

Hoje o mundo soltou um suspiro de alívio. Terminou o reinado de terror de Donald Trump, o pior presidente da história dos Estados Unidos. O Bebê Laranja fez uma retirada indigna, faltando à posse de seu sucessor. Mas foi até bom: sua presença nauseabunda iria contaminar o ambiente. A cerimônia em si foi sóbria e emocionante. Não rolou a empolgação dos tempos do Obama, até porque há uma pandemia. Joe Biden fez um belo discurso, Lady Gaga cantou bem e J. Lo estava belíssima toda de branco. Mas todos foram ofuscados pela poeta Amanda Gorman, que tem 22 anos mas aparenta 16. Elegantérrima e eloquente, ela declamou um poema-manifesto que escreveu especialmente para a ocasião, "The Hill We Climb" (A Colina que Subimos). Resultado: ganhou milhares de seguidores das redes sociais e viu seus dois livros publicados chegarem aos primeiros lugares da lista de mais vendidos da Amazon. São jovens como ela que me dão a esperança de que os neofascistas estão com seus dias contados.

WE ARE THE VACINA

Semana passada, um bando de minions lançou um vídeo pregando o abandono das máscaras. O timing não poderia ter sido pior. Na quinta, eclodiu a crise em Manaus, onde pacientes de Covid-19 estão morrendo por falta de oxigênio, e que já se alastra para outras cidades da Amazônia. No domingo, a Anvisa aprovou o uso emergencial de duas vacinas, dando a João Doria uma vitória inquestionável sobre o Biroliro. Ontem, foi divulgado que o Véio da Havan está internado, assim como sua mulher e sua mãe. O cara posou com um cartaz onde se lia "Provem que a prevenção com remédios não funciona!", e ele mesmo provou.

Hoje o gado levou mais uma invertida, e o governo federal viu a sociedade civil assumindo mais uma das obrigações dele. A atriz e diretora Mika Lins e seu marido, o publicitário Sérgio Glasberg, convocaram uma pá de famosos para uma campanha pró-vacinação. As imagens são caseiras, muitas captadas com celular, mas o time de celebridades impressiona. Serão sete vídeos ao todo: neste post, estão os três já lançados até o momento em que escrevo. Civismo à parte, é divertido identificar quem é quem. Alguns não apareciam desde o começo da pandemia, e estão mais magros, mais gordos ou grisalhos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

NÃO MEXE COM AS GUEI

O integralista e instrutor de zumba Eduardo Fauzi, o único dos terroristas que atacaram a sede do Porta dos Fundos que foi identificado pela polícia, está preso na Rússia desde setembro do ano passado. O Brasil já pediu que ele seja repatriado para ser julgado por aqui, mas o covardão pediu asilo político num dos piores países do mundo para se viver. Ele prefere passar um frio do cão sob a semi-ditadura de Vladimir Putin do que, segundo sua defesa, sofrer a "vingança dos gays". Fauzi teme ser morto, pois o sistema penitenciário brasileiro, como todo mundo está careca de saber, foi infiltrado pela Máfia Cor-de-Rosa. É improvável que esse delírio cole. Apesar de sabidamente homofóbica, a Rússia não costuma dar asilo para ninguém. No frigir dos ovos, tudo depende da política. Putin pode querer agradar o Brasil, assim como a Tailândia defenstrou PC Farias em 1992. O problema é que, chegando aqui, Fauzi pode contar com a proteção da polícia, que até hoje não elucidou o atentando ao Porta dos Fundos.

CAPITÃO CLOROQUINA: ULTIMATO

Há um Deus - ou, pelo menos, há justiça poética. O Véio da Havan foi internado com Covid-19. Hoje é daqueles dias em que a gente tem que ficar repetindo "om mani padme hum", para não cair na tentação de comemorar mais um negacionista que sucumbe ao cornavírus. A sra. Véia e a Véia-mãe também baixaram hospital, esta em estado grave. Para elas desejo pronta recuperação, mas não consigo sentir o mesmo pelo Capitão Cloroquina. Luciano Hang é o mais ridículo dos empresários que apoiam o Pau Fino, do terno verde-e-amarelo à tentativa de vender arroz e feijão para que as Lojas Havan fossem consideradas essenciais e escapassem do lockdown. Ele também é um ardente defensor do imaginário "tratamento precoce", que está ficando mais órfão a cada hora que passa. Ontem o General Capachuello jurou durante uma coletiva que sempre defendeu o atendimento precoce, apesar dos vídeos e documentos que provam o contrário. O Gugu do Mal acha que todo mundo é burro e só ele é esperto. Hoje o Carluxo deu para apagar da conta do papi todas as menções à cloroquina. Ou seja: os birolistas estão com medo, pois sacaram que os ventos enfim estão mudando.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

UMA DUPLA EM TRANSIÇÃO

Em dezembro passado, a dupla sertaneja Pedro Motta e Henrique lançou "Lili" nas plataformas de streaming. A letra da canção repete o enredo que, até pouco tempo, parecia o único possível quando a protagonista é transexual. Um cara se interessa por ela, os dois vão para o motel, tcharam! Supreeesaaa. De pronto, muita gente denunciou, e não demorou para que Spotify, Deezer e Apple Music excluíssem a música. Aí a dupla teve uma reação inesperada. Ao invés de choramingar pela falta de liberdade de expressão, Pedro Motta e Henrique gravaram não só uma nova letra, como também um clipe em que um deles aparece aos beijos com a trans Alyce Gomes. Cinismo em estado puro, dirão alguns; os caras só aproveitaram a mídia que tiveram, sem mudar de ideia no coração. Pois nada disso importa. O legal é que agora surgiu um hino para os T-lovers, e uma das maiores validações da transexualidade feitas pelo establishment no Brasil, fora das novelas da Globo. Compare com a versão original, que não pode ser embedada mas ainda sobrevive no YouTube: até "um travesti" virou "uma travesti". 

domingo, 17 de janeiro de 2021

OS QUATRO GIGANTES

Historicamente, aqui no Brasil, filmes com protagonistas negros, dirigidos por negros e com temáticas que tenham a ver com a questão racial costumam ir mal nas bilheterias. As comédias de Tyler Perry, um sucesso estrondoso nos EUA, quase nunca chegam por aqui. Quero só ver se "One Night in Miami", um dos destaques dessa temporada do Oscar, vai ter alguma repercussão. O longa de estreia na direção da atriz Regina King é baseado num caso real, e acaba de estrear na Amazon Prime Video. No dia 25 de fevereiro de 1964, quatro gigantes da cultura afro-americana se encontraram em Miami. Só um deles é bastante conhecido pelos brasileiros: Muhammad Ali, que até então ainda se chamava Cassius Clay. Dois outros morreriam pouco tempo depois. O cantor e compositor Sam Cooke foi alvejado numa escaramuça com a dona de um motel, no final daquele ano, e o ativista Malcolm X levaria 16 tiros de seus correligionários na Nação do Islã, organização de onde ele tentava sair, no ano seguinte. Só o ex-jogador de futebol americano Jim Brown, que depois engatou carreira no cinema, continua entre nós. Ele não conta o que os quatro discutiram naquela noite, mas tampouco desmentiu a peça de teatro que serviu de base ao roteiro de "Uma Noite em Miami". Essa origem teatral é nítida na longa sequência central do filme, que é uma espécie de D.R. à quatre. Os destaques vão para o britânico Kingsley Ben-Adir, da série "High Fidelity", e Leslie Odom Jr., que pode ser visto no "Hamilton" da Disney +. Eles fazem, respectivamente, Malcolm X e Sam Cooke, e seus embates sobre a politização (ou não) de uma celebridade ainda soam atuais. Mesmo assim, o filme não chega a empolgar. Mas merece ser visto pelas atuações, pela importância histórica e pelas inevitáveis indicações ao Oscar que irá receber.

UMA FACADA BEM DADA

Vê se aprende, Adélio Bispo. Não adianta matar o Bozo fisicamente. Isso só criaria um mártir. Tem que expor o despreparo do Despreparado, sua pulsão de morte, seu desprezo pela vida. Hoje, o governador  João Doria apunhalou Biroliro em seu ponto mais fraco: a incompetência. E de um jeito que está sendo impossível para a minionzada distorcer a narrativa. "Ãin, golpe de marketing". Doria tem todo o direito de se refestelar sobre esta conquista: ele trabalhou, correu atrás e não gastou um tostão de dinheiro federal. Já o Mijair faz marketing vazio (e perigoso) quando vai comer pastel na feira e provoca aglomeração. "A vacinação foi ilegal, a aprovação da Anvisa tinha que ser publicada antes no Diário Oficial". Nananina: a enfermeira Mônica Calazans foi uma das voluntárias que participaram dos testes da Coronavac no Brasil. Ela tomou o placebo, portanto tinha o direito de tomar agora a dose correta. A mulher foi muitíssimo bem escolhida. Além de profissional da saúde, negra, de origem humilde, obesa, diabética e hipertensa, ela ainda é super articulada, dessas que caíram no caldeirão do media training quando pequenas. O marketing implacável de Doria também já vacinou a primeira indígena, uma enfermeira, e amanhã vai enviar 50 mil doses para - adivinha? - Manaus. Enquanto isso, o general Capachuello gaguejou na coletiva, e o Pau Fino ninguém sabe, ninguém viu. Hoje é um dia histórico. Dia D de Doria, hora H de Hospital das Clínicas. De humilhar o gado. Hoje começou a cair o desgoverno Edaír Biroliro.

FINAL DE CAMPEONATO

Eu não sabia, mas as reuniões da diretoria da Anvisa são transmitidas ao vivo há mais de 10 anos. Precisou surgir uma pandemia e uma guerra política pela primazia da vacina para que a deste domingo, que está em andamento no momento em que escrevo este post, para que o país inteiro se interessasse. Parece uma final da Libertadores com time brasileiro. O debate vai levar cinco horas, e temo pelo resultado. Porque todos os cinco diretores foram indicados por Biroliro para seus cargos. E o Pau Fino, como sabemos, jamais se furtou a tentar interferir nos órgãos sob seu comando. Deixemos de lado o imunizante da Oxford/AstraZeneca. Mesmo que ele seja aprovado, não começará a ser aplicado tão cedo aqui no Brasil, e não há nenhum obstáculo político para sua aprovação. A "vachina do Doria" é outra história. Depois do fiasco do avião que iria à Índia, agora o desgoverno quer confiscar todas as seis milhões de doses já em posse do Instituto Butantan, para dar ao Pandemito a chance de aparecer na foto da primeira vacinação brasileira. Isso pode facilitar sua aprovação. Por outro lado, não duvido nada que a Coronavac seja reprovada - ou, mais provável, que tenha sua aprovação adiada em mais alguns dias ou semanas. Tudo para dar tempo das vacinas da Serum chegarem ao Brasil. É asqueroso que um assunto tão grave, que envolve a vida de milhões de pessoas, tenha se tornado um cavalo de batalha para o Biroliro e o general Capachuello. Mas não é surpresa: afinal, essa dupla dinâmica deixou acabar o oxigênio do Amazonas, apesar dos inúmeros avisos, e continua apregoando o imaginário "tratamento precoce", o novo nome do gado para a cloroquina. Deus ilumine os cinco diretores da Anvisa, Deus proteja todos nós. Por que não há mais ninguém para nos proteger.

ATUALIZAÇÃO: Eu estava enganado, felizmente. Toda a apresentação dos argumentos foi corretíssima, e ambas as vacinas foram aprovadas por unanimidade. Só não foram votos estritamente técnicos porque um dos diretores,Alex Campos, ainda esfregou a cara do Pandemito no cascalho, lembrando que não existe medicação comprovada contra a Covid-19 e criticando a incúria do desgoverno. Bem feito!

sábado, 16 de janeiro de 2021

WE ARE THE GADO

...we are the minions... Quis a Deusa que Bia Kicis e sua gangue de negacionistas criminosos divulgassem o vídeo de "Brasil Vencendo a Covid-19" na mesma semana em que o oxigênio acabou em Manaus e bebês prematuros estão sendo despachados às pressas para outros estados da federação. O clipe acima, que conta até com a participação da juíza que ensina a tomar sorvete para não usar máscara, é de virar o estômago, é de chamar o Juca, é de dar engulhos. É um dos pontos mais baixos da história da humanidade. O pior é que tem até médico participando dessa suruba de ignorância e má-fé. Pena que cada um deles não seja identificado por nome, RG e CPF, porque isso facilitaria quando esse desgoverno incompetente finalmente cair, para irem todos direto ao paredão de fuzilamento. Talvez morram antes, de Covid-19.

ATUALIZAÇÃO: Bia Kicis apagou o vídeo de sua página no YouTube, pois está tendo problemas na Justiça por estimular que as pessoas nano usem máscaras em público. No entanto, gênio que só ela e a Carla Zambelli, esqueceu de apagá-lo no Facebook, onde ele ainda pode ser visto.

WANDARFUL

Já faz uma década que a Marvel se tornou a força mais titânica do cinema mundial. Desde que foi comprada pela Disney, os filmes da produtora costumam fazer um bilhão de dólares nas bilheterias, e os fãs mais aguerridos vão para a fila fantasiados, dispostos a virar a noite ao relento. Todo o planeta está dominado! Todo? Não. Um irredutível brasileiro ainda resiste aos filmes de super-herói, que ele só assiste quando se tornam fenômenos culturais incontornáveis como "Pantera Negra". Os executivos da Disney devem ter percebido a minha existência, e traçaram uma estratégia implacável para me seduzir. "WandaVision", a primeira série original da Marvel para a plataforma Disney +, parece ter sido calibrada tendo em mente um único espectador: euzinho. A primeira temporada vai desapontar os fãs hardcore do gênero, porque escapa de todos os clichês. É, na verdade, uma gozação-homenagem à história da televisão. Os dois primeiros episódios são em preto-e-branco, e satirizam, cada um deles, uma sitcom seminal: "I Love Lucy", dos anos 1950, e "A Feiticeira", dos 1960. Cenários, trilhas sonoras e até créditos de abertura são reproduzidos com fidelidade. Sem falar no ritmo dos atores e no camera blocking, típicos daquela época. Desnecessário dizer que eu a-do-rei. Mas tive que ir à Wikipedia para entender que a Feiticeira Escarlate, que já foi dos X-Men, criou uma realidade alternativa para viver seu casamento com Vision, um andróide criado no filme dos Vingadores de 2015. Whatever: o que importa é que "WandaVision" é um dos programas mais sofisticados e divertidos de 2021, com atuações primorosas, direção de arte impecável e roteiro à prova de bala.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

ELE SÓ PENSA... NAQUILO

Não basta um presidente poltrão, cujo pseudo-guru vomita imundícies nas redes sociais. O filho Zero-Dois, segundo vereador mais votado do Rio de Janeiro mesmo faltando a quase todas as sessões, também é do mesmo baixo calão do pai e sua entourage de milicianos. Para tirar sarro do panelaço marcado para as 20h30 desta sexta, Carluxo achou que seria excelente ideia postar o vídeo acima no Twitter. Impressionante como ele não percebe que o tiro sai pela culatra, ou que o fiofó a ser penetrado por este pinto de borracha é o dele mesmo - vai ver que é isso mesmo o que ele quer. Consumidor de remédios controlados por ser bipolar, o líder do Gabinete do Ódio também precisava de um controle mais rígido, porque esse tuíte não é digno do filho de um presidente da República. De resto, ele deu ótimas ideias para o protesto de logo mais. Vamos dar uma lustrada nos nossos dildos e consolos, porque é hoje que as panelas de todo o Brasil vão levar uma surra de pica.

O CAOS DE MANAUS


Enquanto muitos pacientes de Covid-19 estão sufocando em Manaus por falta de oxigênio, no resto do Brasil muita gente está berrando a plenos pulmões. Desde o início do desgoverno Biroliro, eu jamais tinha visto tamanha indignação nas redes sociais, e olha que nunca faltou reclamação. A grita é tamanha que já estão até pedindo que o Rodrigo Maia, ou seu sucessor, coloque em discussão no plenário um dos quase 60 pedidos de impeachment que repousam em suas gavetas. Mesmo com escassas chances de aprovação, esse debate irá desmascarar em frente às câmeras os deputados que ainda apoiam o Pau Fino, gerando imagens preciosas para a campanha eleitoral de 2022. 

O desastre de Manaus tem vários culpados, do governador Wilson Lima, que cedeu à pressão contra o lockdown, à própria população que foi às ruas reclamar do fechamento do comércio. Mas o epicentro desse show de incompetência, para variar, é o buraco negro que ocupa a Planalto, Edaír Pandemito, o pior presidente de todos os tempos. O cara ainda tem a audácia de dizer que Manaus está maus porque não usaram cloroquina, em mais uma tentativa épica de tirar o cu da reta. Enquanto isso, o general Capachuello, o Gugu do Mal, atrasa em um dia o voo que iria à Índia buscar dois milhões de vacinas, para ADESIVAR a aeronave - e agora surgiu a notícia de que a Índia, nossa suposta aliada, não vai nos vender vacina nenhuma. Já a Venezuela, nossa suposta inimiga, se prontificou a facilitar o transporte do oxigênio fabricado lá pela White Martins. E o Whindersson lidera uma campanha de artistas para levar oxigênio para o Amazonas, mostrando que a classe artística só é mamadora na cabeça dos bolsomijons. Na vida real, vemos youtubers e comediantes assumindo funções que seriam do Estado, enquanto criminosos como Bia Kicis e Osmar Terra correm para apagar os tuítes em que celebravam o "levante" dos manauaras. Agora muitos não se levantarão mais, porque estão morrendo sem ar. Mas o resto do país precisa fazer alguma coisa. A mais importante é derrubar o Genocida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DELÍRIO EM TEMPO INTEGRAL

A variante nacional das ideologias de extrema-direita que floresceram na década de 1930 foi a mais ridícula de todas. Os seguidores de Plínio Salgado gostavam de camisas verdes e gritar "anauê", e foram apelidados de galinhas verdes pelos comunistas depois de fugirem de um embate na Praça da Sé, em São Paulo. Mas o integralismo não tinha nada de fofo. Seu objetivo era criar uma sociedade "integral", sem divisões internas nem dissidências. Todo mundo submetido ao mesmo líder e vivendo a mesma vida. Até as bandeiras dos estados seriam proibidas, pois a nação era uma só. Esse delírio coletivo é contado no livro de Pedro Doria, "Fascismo à Brasileira", que termina com um capítulo fazendo a ligação entre o integralismo e o Biroliro. Há muito mais semelhanças do que diferenças entre ambos, mas o nosso momento histórico é bem outro. Faltam os facilitadores que permitiram que o fascismo nacional se espalhasse rapidamente, e falta lustro intelectual a todos os membros da familícia. O integralismo foi esmagado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, mas sobreviveu nos subterrâneos e hoje dá as caras até no atentado à sede do Porta dos Fundos. O que me consola é lembrar que os fascistas costumam terminar pendurados pelos pés em praça pública.

BIROLIRO PELAS ORELHAS

O podcast "Praia dos Ossos", da Rádio Novelo, deixou nos meus ouvidos aquele gostinho de quero mais. Minha crise de abstinência durou pouco, porque a mesma produtora é responsável por outra série imperdível: "Retrato Narrado", que se propõe a ser uma biografia sonora. Na primeira temporada, o contemplado é o Biroliro, e é simplesmente estarrecedor escutar a reconstituição do caminho que levou esse energúmeno até o Planalto. O minucioso trabalho de pesquisa visita Eldorado do Sul, a cidade no Vale do Ribeira onde o Despreparado passou a infância e a adolescência, e entrevista alguns de seus amigos e parentes. Depois vai à Academia das Agulhas Negras, à famosa entrevista à revista Veja em que o próprio Pau Fino revelou seu plano maléfico de explodir a adutora de Guandu, e culmina com um episódio inteirinho dedicado aos filhos. Sabia que Dudu Bananinha, que tanto quis ser embaixador em Washington, nunca ouviu falar de Henry Kissinger, a figura mais importante da diplomacia americana na segunda metade do século 20? "Retrato Narrado" não tem nada de neutro, e deixa bem claro o espanto com a eleição de uma pessoa tão escancaradamente mentirosa e mau-caráter para o mais alto cargo da nação. Ainda não ouvi o episódio-bônus, sobre a obra de Olavo de Caravalho, mas já imagino o que me vem por aí. Estou esperando uma notícia boa, tipo a vacinação começar logo, para criar coragem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

UNITY AND HEALING

Nesta quarta, Donald Trump sofreu impeachment pela segunda vez. Como nos EUA se considera um presidente impichado quando a proposta é aprovada pela Câmara, sem passar pelo Senado, o Bebê Laranja agora ostenta o título de ser o único presidente impichado duas vezes, ou bi-impichado. Faltando menos de uma semana para ele deixar a Casa Branca, o que se quer não é removê-lo do cargo, mas sim cassar-lhe os direitos políticos. Isto pode ser feito mesmo depois que Joe Biden assumir, e agora se fala que a votação definitiva no Senado só ocorrerá daqui a alguns meses. A ideia é que a fervura baixe um pouco, mas os democratas não vão ceder aos apelos de alguns republicanos por "unity and healing" (união e cura). O que esses caras pedem, na verdade, é uma gigantesca passada de pano. Que os muitos crimes de Trump sejam esquecidos, em nome da unidade nacional. Tá boua? Uma semana atrás, tresloucados armaram uma forca em frente ao Capitólio, e cinco pessoas morreram no choque com a polícia. Nunca houve um presidente derrotado nas urnas que não reconhecesse a vitória de seu rival, e muito menos um que incitasse uma horda de vândalos para melar o resultado. Untiy and healing, my ass: Trump merece arcar com todas as consequências de seus atos, inclusive uma possível prisão. Estamos sofrendo agora, aqui no Brasil, as consequências da burrada que foi anistiar os milicos no final da ditadura.

FAMÍLIA PÓS-MODERNA

Depois de décadas em que quase só havia filmes sobre a saída do armário, agora estão se tornando mais comuns os que mostram gays de meia idade. Um exemplo recente é novo do italiano de origem turca Ferzan Ozpetek, que tem toda uma filmografia dedicada à viadagem. "A Deusa da Fortuna" não entrou em cartaz nos cinemas brasileiros, mas está passando direto no canal HBO Mundi - consulte a sua operadora. Vale a pena ver, apesar do roteiro algo previsível. Um casal de homens junto há uns 20 anos mantém um relacionamento aberto, mas as coisas começam a sair do controle. Um deles não se furta em transar com um convidado durante uma festa em sua própria casa, e o marido percebe. Este, por outro lado, tem um caso fixo há dois anos, o que faz o caldo entornar. Mas eis que surge um complicador: a melhor amiga deles está muito doente, e precisa de alguém que cuide das crianças. O final óbvio é amaciado por vários diálogos inteligentes e um palazzo na Sicília onde Sophia Loren gravou um comercial. A atriz Jasmine Trinca venceu o David Di Donatello, o Oscar da Itália, mas meu leitorado vai gostar mesmo é de Edoardo Leo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NEGÓCIO DA ARGENTINA

Pouco mais de um ano atrás, Mijair Biroliro cometeu um dos atos mais irresponsáveis de sua despreparada presidência. O Pau Fino divulgou em seu perfil no Twitter a notícia de que a Honda, a L'Oréal (que obviamente ele grafou errado) e a MWM estavam deixando a Argentina pelo Brasil. Pena que nada disso fosse verdade. Como que um presidente da República solta uma dessas? Ou ele é mal assessorado, ou é mal intencionado - opa, na verdade as duas alternativas são verdadeiras. Ontem chegou o troco. A Ford anunciou que sai do Brasil, mas continua na Argentina e no Uruguai. A culpa não é só do Pandemito, mas o mérito pelas fake news de 2019 também não eram. Agora ele está, para variar, tecendo uma narrativa que o exima de qualquer responsabilidade pela perda de mais de cinco mil empregos. Enquanto isso, Paulo Guedes sonda a chinesa Chery para assumir as fábricas a serem fechadas. Sim, chinesa...

CANTEIRO DE OBRAS

Quem entrou hoje cedo aqui no meu blog deve ter estranhado. O layout estava completamente diferente. Eu tentei aplicar o template Dynamic Views do Blogger, mas não deu muito certo. Ele permite que o querido leitor escolha o formato da visualização: revista, mosaico, snapshot, flipcard, o escambau. Só que a letra é pequenininha e imutável. Eu colocava 300px, o troço voltava automaticamente para 100px. O pessoal que hoje reclama do texto em branco sobre fundo preto ia reclamar do tamanho ilegível, com toda razão. Aí resolvi voltar para o template anterior, mas cometi um erro crasso. Não salvei as minhas alterações personalizadas. Agora estou lutando para que os títulos dos posts recuperem o tamanho maior e a cor verde, mas não estou conseguindo. Pelo menos o tamanho da fonte cresceu. Sim, quero mudar o layout, já são mais de 10 anos com essa mesma cara, mas o Blogger não ajuda. Preciso contratar um webdesigner para criar um template só meu, deslumbrante e exclusivo. Quem pode me indicar alguém que não me custe os olhos da cara?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

CHATO PACARRETE

Não entendo como "Pacarrete" ganhou oito prêmios no Festival de Gramado de 2019. Trata-se de um filme chato sobre uma mulher chata, e só o fato de quem produz cultura no Brasil se sentir perseguido na conjuntura atual pode explicar tamanha hipnose coletiva. Pacarrete é uma bailarina aposentada que vive em Russas, no interior do Ceará, como se estivesse em Paris. Veste-se na moda da década de 1920, que ela não viveu, e insiste em dançar "A Morte do Cisne" na festa dos 200 anos da cidade. Só que ela não quer levar cultura para as massas, porque não se interessa por ninguém além de si mesma. É apenas uma figura egoísta, que exige aplausos para um talento que não tem mais, sem um pingo de generosidade. Quando ela adota um cachorro de rua, logo o coloca num berço de bebê, de onde o coitadinho não consegue sair. Para piorar, Marcélia Cartaxo tem uma interpretação teatral, no auge da afetação e da estridência, deixando a personagem francamente insuportável. Fuja, aos grand jetées.

A SAÍDA HONROSA

Na esteira da invasão do Capitólio, quase todas as redes sociais - incluindo o PornHub - finalmente baniram Donald Trump. Não por uma genuína preocupação com a segurança de ninguém, mas por medo. Medo de serem processadas por permitirem a incitação à violência e medo de serem desmembradas pelo governo Biden. Claro que o futuro ex-presidente já deveria ter sido banido há muito tempo, mas a questão é complexa e gerou um debate intenso nos últimos dias, na imprensa e na internet. Faz sentido banir Trump e deixar ditadores como Nicolás Maduro ou o aiatolá Khamenei? No Brasil, os acólitos da extrema-direita ficaram chateadíssimos e mudaram seus avatares para a fotinha do Bebê Laranja, numa imitação ridícula da campanha ˜Je Suis Charlie˜. Também mostraram, mais uma vez, que não estão nem aí com a liberdade de expressão alheia, só a própria. Uma curta coluna de Ruy Castro, publicada no domingo pela Folha,  sugeriu que Trump seguisse o exemplo de Getúlio Vargas e se suicidasse. Ruy tem um ponto: Getúlio talvez fosse lembrado hoje como o tirano que quase se aliou ao Eixo e que mandou Olga Benário para a câmara de gás, ou como o populista reeleito que se afundou no mar de lama. Mas o tiro no coração salvou sua reputação (e, segundo alguns historiadores, adiou em 10 anos o golpe militar). O suicídio seria a saída mais honrosa possível para Trump, e Ruy Castro estende a sugestão ao Biroliro. Como os minions acham que só o Bozo pode desejar a morte de alguém, mas ninguém pode desejar a morte dele, a grita foi geral. André Mendonça, o capacho da Justiça, já mandou investigar o articulista, assim como investigou Hélio Schwartsman e não deu em nada. Tanto melindre, obviamente, é desnecessário, pois tanto Trump como o Pau Fino não irão se matar. Ambos carecem da coragem e da dignidade necessárias para tanto.

domingo, 10 de janeiro de 2021

HER TOO

"A Assistente", que acaba de estrear na Amazon Prime Video, não é um filme fácil de ser visto. A trama toda se passa em um único dia, e parece ser contada em tempo real. Começa com a jovem Jane chegando ainda de madrugada ao escritório onde trabalha. Enquanto ainda não tem ninguém por lá, ela faz faxina, tira xerox e deixa tudo pronto para o dia que vai começar. Aos poucos, o espectador percebe que não se trata de uma firma de contabilidade. Uma mulher lindíssima espera na recepção para falar com o chefe. Uma outra é levada para um hotel, onde o chefe irá encontrá-la. O chefe nunca aparece, mas é alguém tipo Harvey Weinstein, o poderoso agente que acabou sendo acusado de assédio sexual por dezenas de atrizes. Incomodada com o que vê, a assistente vai falar com o chefe do RH. Só que ela é quase invisível, e também o alvo de dezenas de micro-agressões por parte de seus colegas ao longo desse dia interminável. Julia Garner, que já ganhou dois Emmys de melhor coadjuvante pela série "Ozark", navega com precisão cirúrgica nesse papel difícil, que só lhe dá uma cena para mostrar do que é capaz. Escrito e dirigido por uma mulher, Kitty Green, "A Assistente" é um retrato árduo do machismo estrutural. Não tem nada de escapista, mas merece ser assistido.

A TERCEIRA MÁSCARA DO TEATRO

Foi estranho e revigorante voltar ao teatro presencial depois de 10 meses. A peça com que fizemos nossa rentrée foi "Para Duas", em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, até 1o. de fevereiro. No palco, duas atrizes excepcionais fazem mãe e filha, que se reencontram para um tenso almoço depois de décadas de estranhamento: Chris Couto e Karin Rodrigues. Além da semelhança física que torna o parentesco crível, elas têm aquele talento eletrizante que é preciso ser apreciado ao vivo - nenhuma transmissão por Zoom consegue captar direito. Na plateia, pessoas salpicadas pelas poltronas, com muito espaço entre uma e outra, dando aquela sensação de casa vazia. E todas, sem exceção, de máscara. A tragédia e a comédia agora têm, pelo menos por enquanto, uma terceira colega.

sábado, 9 de janeiro de 2021

LOOSHO E UMIDIFICAÇÂO


Cheguei à blogosfera em 2007, e parecia que eu tinha entrado em um mundo novo e divertidíssimo. Eu não só escrevia este blog como também lia dezenas de outros, todos de gays sem papas nas línguas:  Introspective, Carioca Virtual, Que Pressão É Essa?, Te Dou um Dado?, RH do Inferno, Uomini, a lista é imensa. Conheci vários desses autores pessoalmente, e sou amigo de muitos até hoje. Naquela época também estavam na moda as personagens fictícias, como a Lindinalva, faxineira das boates, ou a Cleycianne, a crente do rabo quente. Sem falar, é claro, na que talvez tenha sido a mais influente de todas: Katylene Beezmarcky, traveschty de Xerém, criadora de expressões como "beesha" (que eu adotei), "traça ou repassa", "vomitadinha" e "umidifcação do dia", entre tantas outras. Seu blog Papel Pobre tirava sarro sem dó de famosos e adjacências, e lançava apelidos como Chatolina Dickerman, Bola Preta Gil e, o mais emblemático de todos, Neyde, para Britney Spears. Katylene foi "outed" por Dri Spacca sem razão nem porquê, e o Papel Pobre saiu do ar de uma hora para a outra. Mas ela logo ressurgiu em seu próprio site, e não demorou para que Daniel Carvalho assumisse com tranquilidade sua identidade não mais secreta. Tampouco tardou para a beesha ganhar programa próprio na MTV, em 2010, e o próprio Daniel fez uma rápida passagem pelo programa "Muito Mais", da Band, comandado por Adriane Galisteu, como comentarista de celebridades. Ontem ele passou para valer. Depois de uma longa internação em um hospital carioca, Daniel nos deixou, por insuficiência renal. Ele tinha apenas 32 anos, o que significa que tinha só 19 quando sua alter ego explodiu na internet. Hoje Katylene talvez fosse atacada pelas trans ativistas: afinal, ela era só a máscara de um homem branco cisgênero e blábláblá. Mas Katy também se tornou um símbolo da época em que as redes sociais eram quase que só pura zoação, antes que os influenciadores digitais nos infernizassem com suas monetizações e, principalmente, antes que a extrema-direita aprendesse a mexer no computador. Hoje estamos polarizados no mundo real e no virtual, mas temos a obrigação de levar adiante o legado bagaceiro da traveca mais babadeira de todos os tempos. Como ela mesma avisa em seu perfil no Twitter, "oi, miga! eu nunca morro".

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O REI DA NOITE

O F5 publicou ontem uma matéria com os monólogos de abertura dos quatro principais talk shows noturnos da TV americana exibidos no dia 6 de janeiro, quando o Capitólio foi invadido por uma turba insana de extremistas de direita. Excepcionalmente, todos os programas foram transmitidos ao vivo, porque não daria tempo para gravar e editar os anfitriões improvisando em cima dos textos escritos no calor da hora. Só hoje eu tive tempo de assistir aos quatro, e foi ótimo ver esses concorrentes ferozes discorrendo sobre o mesmo assunto, no mesmíssimo dia. Dois deles podem ir diretamente para o lixo: Jimmy Fallon, que fez um mini-discurso choramingas sem a menor graça, e James Corden, a bicha hétero, que se perde sem tampouco fazer rir. E dois deles mais do que justificam os salários astronômicos que . Jimmy Kimmel dá nome aos bois, faz piadas cruéis com Eric Trump e jamais perde o foco. E Stephen Colbert se sai ainda melhor - fazendo o mesmo, mas com uma indignação tão furiosa que dá para cortar com faca. Agora já sei quem eu veria todas as noites se eu morassse nos EUA.

UMA MULHER INTEIRA

Já vou avisando: "Pieces of a Woman" não é para qualquer um. Muita gente vai se horrorizar com a longa sequência inicial do filme, que estreou ontem na Netflix: um excruciante parto caseiro, que termina com a morte do bebê. A atriz britânica Vanessa Kirby, até agora mais conhecida pelo papel da jovem princesa Margaret nas duas primeiras temporadas de "The Crown", transmite toda a dor física e emocional de sua personagem, um tour de force capturado num único take de quase 25 minutos pelo diretor húngaro Kornél Mundruczó. Daí em diante, o ritmo se torna um pouco irregular, alternando momentos de luto e contemplação com cenas explosivas, que certamente levarão Vanessa à sua primeira indicação ao Oscar. Mas eu achei o título enganoso. A protagonista se mantém inteira depois dessa enorme tragédia pessoal, enquanto todo mundo ao seu redor - principalmente as duas pessoas mais próximas, o marido (Shia La Beouf, excelente, apesar da fama de abusador no vida real) e a mãe (Ellen Burstyn, também ótima, mas, aos 88 anos, velha demais para o papel) - entram em parafuso, fazendo exigências descabidas justamente quando ela está mais frágil. O final também soa falso, mas serve para aliviar a barra pesada que veio antes. De qualquer forma, veja se você tiver coragem. Até porque "Pieces of a Woman" sinaliza a chegada de mais um nome ao panteão das grandes estrelas do cinema.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

VIVA A VACHINA

É um alívio saber que a Coronavac teve 78% de eficácia nos testes feitos no Brasil, e 100% na prevenção de casos graves de Covid-19. João Doria apostou seu capital político na vacina chinesa, e poderia ter ficado tão mal quanto o Biroliro se ela não funcionasse, ou atrasasse como a Oxford-AstraZeneca. Mas os deuses da democracia andam trabalhando dobrado nesses dias, e agora parece mesmo que a "vachina" começará a ser aplicada no dia 25 de janeiro. Não que eu torça pelo Doria, veja bem: não votei nele nas duas oportunidades que tive, e ainda acho que ele é almofadinha sem coração. Mas é inegável que o cara trabalhou, foi atrás e agora colhe os frutos, o que é 1.000% mais do que o Pau Fino fez durante a pandemia. Já sei de gente que pensa em vir a São Paulo só para se vacinar (não vai ser preciso mostrar comprovante de residência), e eu mesmo devo tomar a primeira dose no dia 8 de março, inshallah. Agora o Capachuello entrou no mode desespero e está falando em começar a vacinação no dia 20, e não duvido que ele consiga uma dose de qualquer uma só para o Mijaír tirar foto ao lado da primeira pessoa vacinada no Brasil. Quanto aos bolsominions, acho lindo que eles se recusem a se vacinar e insistam na cloroquina. É assim que funciona a seleção natural.

IT'S FUN TO STAY AT THE YMCA

Nunca, nem nos meus sonhos mais viados, jamais me passou pela cabeça que um dia o Congresso americano seria invadido pelo Village People. Pois foi mais ou menos isto o que aconteceu ontem: um grupo de saltimbancos, sem nenhum peso político, entrou no prédio do Capitólio com a anuência da polícia, roubou alguns papéis e souvenirs e posou para fotos de um ridículo atroz. O mais palhaço de todos é Jake Angeli, um ator do Arizona que também usa o singelo pseudônimo de QAnon Shaman. Ao contrário do que a imprensa brasileira vem dizendo, ele não estava fantasiado de viking: seu headgear de búfalo é um traje nativo-americano, não me pergunte de qual tribo. Também era do QAnon a mulher que morreu baleada, e com isso esses malucos acabam de ganhar seu primeiro mártir. Mas o que de fato interessa é que o circo do 6 de janeiro também pode ter sido o funeral da carreira política de Donald Trump. Ele queria dar uma demonstração de força e manter o partido Republicano sob seu jugo, mas exagerou na dose e agora pode simplesmente ser deposto por seu gabinete, que invocaria a agora célebre 25a. emenda. O Alaranjado será obrigado a fundar seu próprio partido, o que é dificílimo no sistema de lá. Isto, se não for para a cadeia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A DONA DA PORRA TODA

Um amigo americano que mora em Nova York se abalou até a Georgia e, em plena pandemia, foi fazer campanha pelo voto antecipado nos candidatos democratas ao Senado. Foi graças a gente como ele que o estado, antes um bastião dos Republicanos, não só elegeu um presidente como também dois senadores Democratas - um deles, negro. Mas a maior responsável por essa virada histórica foi Stacey Abrams, candidata a governadora derrotada em 2018 e depois cotada para vice do Biden. Essa advogada formada em Yale liderou, por anos a fio, um movimento para que cada vez mais negros se registrassem para votar, e ainda lutou para que as muitas barreiras a eles fossem superadas. Acabou se tornando um nome-chave para a política americana, tanto no presente como no futuro. 

A vitória de Jon Ossoff, projetada pela Associated Press na tarde de hoje, está passando batida em meio ao caos que Donald Trump inflamou no Capitólio, mas é o final feliz das eleições de 2020. O Congresso todo foi para as mãos dos Democratas, e Joe Biden poderá passar a legislação que bem entender. Com mais essa derrota, o Bebê Laranja não só sai humilhado da Casa Branca, como ainda leva a pecha de ter arrastado todo o partido Republicano com ele. A tentativa fracassada de golpe queimou o que restava de seu capital político, e duvido muito que ele consiga se candidatar em 2024 - até porque o partido Republicano está cheio de gente querendo concorrer à Presidência. Sem falar que, agora, a probabilidade de Trump e sua família irem presos aumentou muito...

É GOLPE MESMO

Hoje é daqueles dias de cantarolar o comecinho de "Bohemian Rhapsody" (Is this the real life? / Is this just fantasy...) Nunca imaginei ver a CNN americana estampar uma manchete como esta: "Trump vai falar a apoiadores em desesperada tentativa de golpe". A mais antiga democracia em funcionamento no mundo nunca passou por um golpe de estado, e realizou transições pacíficas de poder mesmo durante guerras ou crises econômicas. Mas o Bebê Laranja vem se revelando muito mais do que um rufião vindo do mundo dos reality shows. Ele quer mesmo é se tornar um ditador como Erdogan ou Maduro, e dane-se todo o resto. O Capitólio acabou se ser invadido em Washington, por uma manada de incels que há meses vem sendo insuflada pelo derrotado nas urnas. Não vai dar em nada, porque a maioria democrata no Congresso e os republicanos decentes nas duas casas vão respeitar a vontade do povo. Mas é um precedente gravíssimo, que pode ter desdobramentos funestos nos próximos anos. Ainda mais triste é ver bolsominion no Twitter expelindo que só Trump defende o Ocidente, num trailer apavorante do que vem aí nas nossas eleições de 2022.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"EU NÃO CONSIGO FAZER NADA"

Com Trump escorraçado da Casa Branca, o Brasil pretende assumir a liderança informal dos países governados pela extrema-direita. Um bloco poderosíssimo, que inclui potências como a Hungria, a Polônia e as Filipinas. Só que o Pau Fino carece de algo que quase todos seus colegas autoritários têm: alguma competência para governar. Apesar da repressão à democracia, as economias estão crescendo sob Orbán, Duda e Duterte. Já o Mijair acredita que o Brasil "está quebrado" (mentira) e "não consigo fazer nada" (verdade). Este é um ponto fraquíssimo do suposto mito, que a oposição nunca explorou para valer: a incompetência. O cara não sabe nada, não quer saber e não delega a quem saberia. O resultado está aí. Não temos vacinas, não temos agulhas, não temos seringas, e os testes que tínhamos saíram do prazo de validade. Desse jeito, Biroliro só lidera os minions cegos que estão morrendo porque não usaram máscara. Pelo menos, não conseguem ver o novo penteado.

O CALO DOS COMUNISTAS

"Polícia acaba com festa na casa de Elba Ramalho em Trancoso". Por causa desta manchete dúbia, a cantora paraibana virou a inimiga pública no. 1 do Brasil durante algumas horas, na semana passada. Depois dela ser muito atacada nas redes sociais, ficou claro que a festa não era dela, só a casa. Elba alugou o imóvel para um sujeito que achou que um rega-bofe para 700 pessoas iria passar despercebido, ainda mais naquela aldeia que é Trancoso. Para provar que não tinha nada a ver com aquilo, a artista - que está mesmo por lá, mas hospedada num hotel - postou fotos onde aparece rezando na igrejinha do Quadrado, e afirmou que vai processar o inquilino por danos morais. Mas a imagem de preocupada com o distanciamento social durou pouco. O ator Tuca Andrada postou fotos em que Elba aparece sem máscara em outra festa, e o tempo fechou de vez entre os dois. Hoje começou a circular o vídeo acima, de uma live que aconteceu em data indeterminada. Elba de fato é católica devota, mas isto não é desculpa para as besteiras colossais que ela diz. E não, não é "opinião" achar que a pandemia foi criada pelos comunistas para acabar com os cristãos. É ignorância, é desinformação, é burrice mesmo. Podemos cancelar a Elba sem dó.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MINHA PEQUENA EVE

Ganhei um stick e finalmente consigo ver na TV todas as plataformas de streaming que eu assino. Como eu não gosto de assistir séries na tela do computador, estou tirando o atraso. Depois de colocar no currículo "Modern Love", da Amazon Prime Video, chegou a vez de "Killing Eve" no Globoplay. Para quem ainda não sabe, trata-se da jogo de gato e rato entre uma assassina profissional e a agente do serviço secreto britânica encarregada de capturá-la, que logo descamba para a paixonite. Estou adorando, porque tem tudo o que eu gosto: personagens complexos, atores fantásticos, locações luxuosas por toda a Europa e roteiros cheio de sacadinhas, assinados por uma uma equipe encabeçada por Phoebe Waller-Bridge. A canadense Sandra Oh encanta com seu jeitão quase grosseiro de tão direto, e a inglesa Jodie Comer seduz com infinitas intenções. É tudo impecável até a metade da segunda temporada, quando as duas se juntam para capturar uma outra assassina e resolver um caso escabroso - achei que estavam forçando a amizade. Acabei de começar a terceira, a última até o momento, e torcendo para que a minha querida Camille Cottin entre logo. A estrela de "Dix pour Cent" (e também de "Mouche", a versão francesa de "Fleabag") participa de três episódios.

NÁO FAZ MAROLA

Imagine se um presidente da República ia se atirar no mar e nadar em direção à praia sem ter 100% de certeza que seria bem recebido. O aparato de segurança merecia ser demitido em massa se não checasse as condições do lugar, ainda mais quando tem que proteger um alvo em potencial que já foi vítima de um atentado. Tudo isto corrobora a impressão de que os rolés do Biroliro na Praia Grande não tiveram nada de "espontâneos". Já surgiram relatos que, no mergulho de sexta, não havia aglomeração nenhuma naquele ponto específico do mar. De repente, surgiram dezenas de homens que se jogaram n'água e ficaram esperando por alguma coisa. De fato, é facílimo convocar uma manada de gado disposta a se molhar pelos grupos do WhatsApp. Hoje o Edaír repetiu a brincadeira, mas sem mergulhar - deve ter ficado magoado com os memes que o compararam a um cocozão caindo na privada. Ele pode até achar que essas patacoadas reforçam a imagem de "homem do povo", e há quem acredite mesmo nisso. Mas tem cada vez mais gente que preferia um presidente que gostasse de trabalhar.

domingo, 3 de janeiro de 2021

PIOR QUE WATERGATE

Em 1973, foram descobertos grampos na sede do partido Democrata no edifício Watergate, em Washington. Os republicanos estavam espionando seus rivais. Richard Nixon havia acabado de vencer as eleições de 1972 pelo chamado "landslide", derrotando George McGovern em quase todos os estados, mas a reação popular foi imediata. A popularidade do presidente despencou e o escândalo teve inúmeros desdobramentos, levando à queda de vários integrantes do governo. Em agosto de 1974, para não sofrer impeachment, Nixon renunciou. Foi perdoado um ano depois por seu sucessor Gerald Ford, mas jamais se livrou da pecha de desonesto. Seus maiores feitos - o fim da Guerra do Vietnã e a reaproximação com a China - foram eclipsados para sempre pelo escândalo. 

As causas de Watergate parecem pueris para os dias de hoje. Espionar um partido que havia acabado de tomar uma tunda histórica nas urnas? Só isso? Francamente, temos mais o que fazer. Na conjuntura atual, nem mesmo o que Donald Trump vem fazendo em seus últimos dias na Casa Branca provoca muito espanto. Talvez porque ele só tenha mais 16 dias no cargo, ninguém está muito preocupado. Mas não resta mais dúvida: o que o Bebê Laranja está tentando é nada menos do que um golpe de estado, algo inédito na história dos Estados Unidos. O telefonema em que ele pede ao secretário de Estado da Geórgia que "ache" 11.779 votos, divulgado hoje pelo jornal Washington Post, é chocante e esperado ao mesmo tempo. Todo mundo sempre desconfiou que Trump seria capaz de uma coisa dessas. Agora temos a prova em áudio, em toda sua glória. 

O próprio Trump está reagindo no Twitter como se não tivesse feito nada de mais. Pelo seu tom na gravação, dá para desconfiar que ele mesmo começou a acreditar na potoca de que as eleições foram fraudadas. Também suspeito que foi o próprio secretário Brad Raffensperger quem vazou tudo: a voz dele está mais alta e clara no áudio, dando a entender que a gravação foi feita do seu lado da linha. É reconfortante saber que ainda existem republicanos dispostos a desobedecer ao rufião que tomou de assalto o partido. Estão mais preocupados com seus próprios futuros políticos do que em agradar a um populista fracassado.

Muito se tem especulado sobre o que Trump vai fazer depois que sair da presidência. O Bebezão adoraria criar seu próprio canal de notícias, mas para isto seria preciso um dinheiro que ele não tem e investidores dispostos a patrocinar um bandido confesso. Além do mais, sua narrativa de invencibilidade foi quebrada. Apesar das muitas falências e de ser muito menos rico do que se gaba, Donald Trump conseguiu forjar a imagem de um eterno ganhador. Alguém que se sai bem em qualquer situação e que reduz seus adversários a pó de traque. Uma grande parte dos americanos ainda acredita nisso, mas a tendência é que ela encolha - ainda mais se Joe Biden controlar a pandemia e expandir o Obamacare.

Tudo isto serve de trailer para o que vai acontecer no Brasil daqui a menos de dois anos. Biroliro vem falando em fraude há tempos e minando a confiança na urna eletrônica, mas no fundo ele não quer a volta do papel. Só com o voto eletrônico ele conseguirá manter a narrativa espúria que já começou. Tampouco duvido que tente um golpe militar tradicional, algo que Trump também arriscou - para levar um não das FFAA americanas, muito mais comprometidas com a democracia do que as nossas. Mas aqui os milicos estão adorando os empregos públicos para os quais não têm o menor preparo, porque ganham muito mais do que na caserna. Edaír também vai tentar mobilizar as polícias para o seu lado, o que é ainda mais apavorante. Cabe à sociedade dar um basta nesse aventureiro de baixo calão. Só que as nossas instituições não são sólidas como as dos EUA, que têm quase 250 anos de funcionamento. Vamos ver quem grita mais alto.