segunda-feira, 19 de abril de 2021

ESSE CARA É ELE

Já malhei muito o Roberto Carlos aqui no blog, mas hoje eu quero pas//. O Rei faz 80 anos e quem ganha o presente é o Brasil. Já fiz coluna a respeito no F5 e agora solto este post em homenagem, respondendo a uma pergunta que uma amiga fez no Facebook: algum cover de uma música dele ficou melhor que o original? Melhor não sei, mas eu adoro essa interpretação dramática de Hebe Camargo para "Você Não Sabe", no especial "Elas Cantam Roberto Carlos" de 2009. Fora que as joias que a Hebe está usando devem valer mais do que o PIB do Suriname.

LEDA ENGANA

O Gabinete do Ódio costumar usar idiotas úteis para espalhar fake news. Na semana passada, o Edaír ligou para o senador Kajuru, sabendo que a ligação seria gravada e divulgada. Hoje a ex-jornalista Leda Nagle leu num vídeo um e-mail que denuncia um complô para assassinar o Despreparado, organizado por Lula e pelo STF. Nos dois casos, o tiro saiu pela culatra. O Bozo não conseguiu melar a CPI da pandemia, e Leda está sendo ridicularizada nas redes sociais. O que ela talvez não saiba é que há, sim, uma conspiração em andamento contra o Pandemito. Só que não é secreta, tanto que vou contar aqui alguns detalhes. Em 2022, nós vamos votar para apeá-lo do poder. Vai ser pelo voto, limpo e democrático.

CANNETTE

Ontem à noite, naquele vendaval de pensamentos aleatórios logo antes de dormir, um deles se destacou: será que "Annette", o musical do Sparks, vai passar no festival de Cannes? O universo ouviu minha pergunta, pois a resposta chegou logo de manhã. Depois de um ano na prateleira e quase uma década em produção, "Annette" será o filme de abertura de Cannes. O que quer dizer que não irá ganhar nada, porque o filme de abertura sempre sai de mãos vazias. Mas não faz mal. É uma posição de destaque, e a notícia já está repercutindo pelo mundo afora. Hoje também saiu o primeiro trailer, e eu fiquei agradavelmente surpreso. Não só Adam Driver está mais lindo do que nunca com cabelos longos, como o próprio Russell Mael, vocalista do Sparks, aparece cantando. Minha banda favorita ainda em atividade (e a segunda de todos os tempos), de quem eu sou fã desde os 13 anos de idade, finalmente aparece num projeto de altíssimo perfil. Agora posso morrer em paz (mas não vou, relaxa).

domingo, 18 de abril de 2021

REZA MAIS QUE TÁ FRACO

O Pastor José Olímpio, da Assembleia de Deus de Alagoas, tuitou que vai orar para que o "dono" do Paulo Gustavo "o leve para junto de si". Esse cristão de araque apagou logo a postagem, mas nada desaparece na internet. Agora ele será processado por homofobia, mas duvido que dê em alguma coisa. Os minions vão dizer que, se o Hélio Schwartsman pode torcer pela morte do Biroliro, então os falsos cristãos podem rezar para que todos os viados morram, e viva a liberdade de expessão, e ãin estão atacando a liberdade religiosa etc. etc. Meu ponto é outro. Desafio o Pastor José Olímpio e todos esses cristãos de meia-tijela a rezarem bastante para que Deus fulmine os gays, lésbicas, trans, travestis, não-binários, interssexuais, assexuais e todos mais que não se encaixem na heternormatividade. Mas rezem com força, porque nós ganhamos muitos direitos nos últimos anos e não vamos ficar calados esperando pela fúria divina. Rezem com vontade, porque nós estamos por toda parte - inclusive no governo federal, inclusive nas igrejas - e não paramos de nascer. De casais hétero, aliás. Rezem mais que tá fraco.

GREMLIN A BORDO

Sábado está virando nosso dia de ver filme desmiolado. Semana passada nos divertimos com "Esquadrão Trovão"; ontem foi a vez de "Uma Sombra na Nuvem", que ganha pontos extra por ser mesmo bom. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma moça ligada à aeronáutica embarca na última hora em um voo militar da Nova Zelândia para a Samoa. Ela leva uma mala com conteúdo ultrassecreto, que precisa ser protegida a qualquer custo. Os seis homens a bordo tiram sarro e passam cantadas nela, que é relegada a um apertadíssimo compartimento na parte de baixo do avião - um periscópio ao contrário? Uns 30% do longa se passam nesse espaço apertado, com a câmera em close na ótima Chloë Grace Moretz enquanto ela ouve e reage às conversas na parte de cima. Aí, eles são atacados por três caças japoneses, mas não só. Um monstrinho horroroso aparece do nada, querendo devorar todo mundo, e ninguém acha estranho. Chamam até a criatura de gremlin, como se ela pertencesse a uma espécie catalogada. A ação se desloca para o lado de fora da aeronave e depois para dentro, com um momento de tirar o fôlego depois do outro. A  neozelandesa de origem chinesa Roseanne Liang dá um show de câmera e roteiro, e daqui a pouco vai estar dirigindo longas da Marvel. "Uma Sombra na Nuvem" acentuou a saudade que eu sinto das salas de cinema. Ver esse absurdo ao lado de mais gente, rindo e gritando nas horas de susto, me fez muita falta.

sábado, 17 de abril de 2021

AS FRALDAS AINDA ESTÃO SUJAS

Quando a gente acha que o MBL talvez esteja amadurecendo e se tornando um partido responsável - de direita, sim, mas dentro do jogo democrático - eis que Kim Kataguiri, Arthur "Mamãe Falei" do Val e companhia bela provam que ainda fazem jus ao apelido de "fraldas sujas". A invasão de ontem a um hospital em Guarulhos pegou mal pra cacete, e agora os bebês chorões estão postando videozinhos jurando que era só uma "fiscalização surpresa" e que não fizeram mal a uma mosca. Só a si mesmos: atitudes como essa causam na lacrosfera, mas também demonstram que essa molecada ainda não saiu dos cueiros.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

A MULHER ATÔMICA

Já estava mais do que na hora de surgir uma nova cinebiografia de Marie Curie, a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira pessoa a ganhar o prêmio em duas categorias diferentes (física e química). "Radioactive", uma produção da Amazon que, no Brasil, misteriosamente foi parar na Netflix, extrai o máximo de drama possível de uma vida passada quase toda dentro de um laboratório. O filme de Marjane Satrapi, que criou a HQ "Persépolis" e depois dirigiu a animação do mesmo nome, não entra muito a fundo nos meandros do rádio e do polônio, os dois elementos descobertos pela Madame e seu marido Pierre. Mas explora as consequências positivas e negativas da radioatividade, que vão do tratamento contra o câncer à bomba atômica, em vinhetas que se intercalam ao longo da história da cientista. Marie é interpretada por Rosamund Pike como uma mulher durona, de pouco traquejo social e absolutamente devotada ao trabalho - mas que, depois da morte do marido, engata um caso bem público com o melhor amigo dele, casado, escandalizando a Paris do começo do século 20. "Radioactive", que não mereceu título em português, tem primorosa reconstituição de época e ótimas atuações (Anya Taylor-Joy, derrotada por Rosamund no último Globo de Ouro, faz Irène, a filha mais velha do casal). Não chega a ser empolgante, mas é uma aula de história e um lembrete de que a mulherada é capaz de qualquer coisa. Inclusive, de morrer pela ciência.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

ASSANDO O MEIO AMBIENTE

É impossível dizer em qual área o desgoverno do Edaír é mais nocivo. Saúde, educação, relações exteriores, tudo escorre pelo ralo. Nesta semana o pódio é ocupado pelo meio ambiente, e olha que são mais de 3.000 mortos por dia pela Covid. O ministro Ricardo Salles não é só corrupto ou canalha. Também é incompetente, incapaz de perceber para onde o vento sopra. Na reunião de anteontem com os americanos, o imbecil mostrou a charge acima, incompreensível para quem vem de um país onde não existe frango de padaria. se compreendessem, talvez fosse pior: ela diz que o Brasil é chantagista e aproveitador, e que só protegerá a Amazônia se for regiamente bem pago. Hoje Salles conseguiu quefosse demitido o chefe da PF de Manaus que apreendeu uma carga monstruosa de madeira ilegal - justamente no dia em que o líder da familícia mandou uma carta a Joe Biden, prometendo acabar com o desmatamento ilegal. Essa turma não lê jornal e acha que todo mundo é tapado feito eles. Vão terminar todos empalados, assando em fogo lento.

O DETECTOR DE VERDADES

De vez em quando, uma celebridade baixa a guarda em público e deixa escapar o que realmente lhe vai pela cabeça, causando enorme prejuízo à própria carreira. Xuxa, por exemplo, vai levar um tempo para superar o episódio em que disse que novos remédios deveriam ser testados em prisioneiros. Ontem foi a vez de Pedro Bial. O jornalista se esqueceu que não estava numa mesa de bar e soltou, em pleno "Manhattan Connection", que só entrevistaria Lula com um detector de mentiras. Não demorou para que a internet lembrasse que Bial já entrevistou Olavo de Carvalho, Damares Alves e o general Heleninho com um sorriso nos lábios, evitando perguntas espinhosas e se fazendo de amiguinho. Lula é hoje a pessoa mais entrevistável do Brasil, porque cada fala dele abala um pouquinho a house of cards do Biroliro. O mínimo que Bial poderia fazer agora era convidar o ex-presidente para seu programa, e ainda tirar sarro de sua declaração infeliz. Se até o tio Rei já conseguiu, ele também consegue.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

TAHAR NA CARA

Por favor, não me odeie, mas eu dei a volta ao mundo aos 17 anos de idade. Minha avó me levou com ela numa excursão em que quase só havia velhas. Em pouco mais de um mês, passamos por dez países. Cinco deles na Ásia: Indonésia, Tailândia, Nepal, Índia e Irã (antes dos aiatolás). Esta viagem de 1978 está me dando uma camada extra de prazer quando eu vejo "O Paraíso e a Serpente", que chegou à Netflix. A minissérie é baseada no caso real de um negociante de pedras preciosas franco-vietnamita, radicado em Bangkok na década de 1970. O cara drogava, roubava e matava mochileiros ocidentais que rodavam pela Ásia. As locações são sensacionais, e eu fico o tempo todo importunando meu marido: "olha o hotel em que eu fiquei! eu também fui a esse templo! comi nesse restaurante!". Claro que não os mesmos lugares onde eu estive, mas a sensação é deliciosa. O deleite é potencializado pela presença de Tahar Rahim, o ator francês de origem árabe que encarna o protagonista. Um assombro: além de bonito e carismático, ele consegue se metamorfosear. É difícil acreditar que o sujeito risonho da série "The Eddy" agora é um serial killer eurasiano que quase não ri. Tahar também acaba de ser indicado ao Globo de Ouro pelo filme "The Mauritanian", ainda inédito por aqui. Falando um inglês perfeito, ele ainda vai longe. Eu vejo um Oscar em seu futuro.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O ÚLTIMO FIM-DE-SEMANA

Eu detesto quando dois filmes bem diferentes compartilham o mesmo título. Ainda mais se forem próximos no tempo, como é o caso dos "A Despedida". Um deles é o meu favorito do ano passado, e seu nome em português é a tradução fiel do original, "The Farewell". O outro chegou agora ao streaming, e seu título em inglês é mesmo difícil de traduzir: "Blackbird", uma canção. Mas "A Despedida" descreve a trama com precisão. A protagonista vivida por Susan Sarandon sofre de uma doença degenerativa, provavelmente ELA, cujos sintomas estão se agravando. Antes de perder os movimentos, ela prefere morrer, e a família inteira está de acordo. Esta discussão aconteceu antes do filme; quando ele começa, filhas e agregados já estão chegando à casa de praia da mãe, para um último fim de semana antes dela tomar uma overdose de fenobarbital. Kate Winslet, em particular, está marcante como a primogênita caretona. Mas claro que esses dias não sairão como o programado: conflitos incubados darão um jeito de eclodir, antes do fim inexorável. Essa objetividade diante da morte é típica dos povos nórdicos, e "A Despedida" não nega as origens: é o remake de um longa dinamarquês. Acho improvável alguém dar uma festinha dessas aqui no Brasil. Fiquei pensando no que eu faria: talvez até convidasse a família, mas não contaria nada para ninguém. É bom quando um filme suscita esse tipo de questionamento.

STRANGERS IN THE DAY

Deus abençoe os serviços de streaming. Graças a eles, hoje temos acesso a filmes e série do mundo inteiro. Também ficou muito mais fácil ver os indicados ao Oscar em categorias como melhor documentário e melhor curta-metragem, que raramente chegavam por aqui. Uma das boas novidades da Netflix esta semana é "Dois Estranhos". O curta ficcional de Trevon Free e Martin Desmond Roe é um dos favoritos à estatueta, e não poderia ser mais da hora. O roteiro se aproveita de um gimmick já manjado, o "dia da marmota", para passar uma mensagem óbvia e, no entanto, cada dia mais urgente: policiais, parem de matar negros. O protagonista é um rapaz que acorda várias vezes para a mesma situação. Ao sair da casa da namorada, ele atrai a atenção de um policial branco, que acaba matando-o sem razão. O cara tenta mudar o desfecho várias vezes, e não consegue. "Dois Estranhos" foi gravado depois da morte de George Floyd, e incorpora não só este crime à trama como dezenas de outros semelhantes, ocorridos nos últimos anos. É uma porrada, válida também para o Brasil. Se vencer, será um dos prêmios mais políticos da Academia na memória recente. E muito justo - sorry, Pedro Almodóvar.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

KAJURU MALANDRO

O senador Jorge Kajuru assinou o requerimento ao STF que pedia a instalação da CPI co combate à pandemia. Portanto, ele é contra o Biroliro, certo? Mas Kajuru também foi super solícito no telefonema que teve com o Bozo no sábado - falou como um aliado do Edaír. Depois ele mesmo divulgou a ligação, provocando mais um desgaste do Pau Fino com o Supremo. Um ato digno de adversário. Hoje, Kajuru pediu o impeachment de Alexandre de Moraes, agindo de forma tão bolsomínia como o juiz Kássio Conká. Afinal, para que time joga o ex-comentarista de futebol? Kajuru tem uma carreira saplicada de polêmicas, e gente que costuma se envovler em escândalos não é boa de estratégia política. Aliás, o mesmo pode ser dito do Despreparado. Os dois estão fazendo um barulhão, mas quem vai sair arranhado desse imbróglio são eles.

RETALHOS TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS

Sashiko é uma técnica japonesa de remendos visíveis. Ela assume que a roupa foi rasgada, e a conserta de um jeito que dá para perceber à distância. O resultado não é a peça como ela saiu da loja, mas algo até mais bonito. Com história e profundamente seu. Minha amiga Marta Matui - que os leitores mais antigos deste blog hão de lembrar por seu ótimo blog, que ela escrevia lá se vão 10 anos - sempre teve muito jeito para qualquer tipo de trabalho manual, e aderiu com entusiasmo ao visible mending. Eu também aderi.

Mandei para ela um jeans, uma bermuda, um kimono e três calças molinhas de ficar em casa, que estavam a caminho do lixo. Nada era exatamente novo, mas todos tinham rasgões absurdos. Dei liberdade total para a Marta e agora tenho tudo de volta, mais interessantes do que antes e com mais alguns anos úteis pela frente. Ela aceita encomendas: é só contatá-la no Instagram pelo perfil @martamatuihandmade.

domingo, 11 de abril de 2021

AS SUPER-GORDAS

Deus sabe como andamos todos precisando de diversão desmiolada. Duas horinhas que sejam de bobagem em estado puro, sem a dona Lourdes acorrentada nem ninguém internado com Covid. Esta necessidade premente fez com que "Esquadrão Trovão" chegasse à Netflix com ares de bote salva-vidas. Uma comédia de ação com duas gordas encarnando super-heroínas? Sim, por favor, mesmo eu não sendo chegado a super-heróis. Mas gosto muito de Melissa McCarthy e Octavia Spencer, e ainda mais de Bobby Cannavale fazendo um político à la Trump. Apesar do filme ter problemas de ritmo, de roteiro e até de direção (planos abertos demais!), ri alto alguma vezes, principalmente com o homem-caranguejo encarnado com garbo por Jason Bateman. A premissa é complicada demais para explicar aqui, e nem mesmo o trailer dá uma noção de tudo que está em jogo. Mas nada disso importa quando há piadas envolvendo manteiga e salsinha.

sábado, 10 de abril de 2021

O CU-CU BRASILEIRO

Quero declarar todo o meu apoio à eventual candidatura de Danilo Gentili à presidência da República. Já tive três tretas públicas com ele e só o julgo mais preparado para o cargo do que uma única pessoa: o atual ocupante. Mesmo assim, vibrei com a ideia de que ele saia candidato em 2022, embalado pelo MBL. A razão é simples. Danilo pode estar para o Brasil assim como o humorista Slavi Trivonof está para a Bulgária. Famoso por lá por causa de sua marionete Sr. Cu-Cu, Trifonov chegou num surpreendente segundo lugar nas eleições parlamentares de domingo passado, atrapalhando os planos do proto-ditador Boiko Borisov de formar seu próximo governo. Ou, para usar um exemplo mais próximo: o apresentador do SBT pode desempenhar a mesma função de outro palhaço, Arthur "Mamãe Falei" do Val, que atraiu os votos da direita tchaptchura e tirou Celso Russomanno do segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo. É verdade que não faltam exemplos de comediantes que se elegeram como piadas, como Bepe Grillo na Itália, Volodimir Zelensky na Ucrânia ou Donald Trump nos Estados Unidos. Mas duvido muito que Gentili chegue aos 10%, ainda mais num provável páreo contra Lula e um ou dois nomes fortes mais ao centro. O que importa é que ele desidrata o Biroliro. Já pensou? Um segundo turno sem o chefe da familícia?

sexta-feira, 9 de abril de 2021

O PRÍNCIPE COM SORTE

O príncipe Philip teve sorte. Com atendimento médico de ponta disponível 24 horas por dia, o marido da rainha Elizabeth 2a. morreu dois meses antes de completar um século de vida. Também teve uma vida mansa de casado, sem boletos para pagar. Mansa demais, dirão alguns: Philip Mountbatten não só teve que se recolher a um posto inferior ao de sua mulher, como ainda se submeter a uma agenda interminável de viagens e aparições públicas. Mas cumpriu com garbo todas as missões que recebeu. Gerou quatro herdeiros para a Casa de Windsor, ajudou a modernizar a monarquia e alimentou a imprensa com uma torrente interminável de gafes, algumas delas resvalando no racismo. Também não se envolveu em nenhum grande escândalo, o que não pode ser dito de quase ninguém da família real.

DR. MONSTRINHO

Ontem eu estava mais desanimado que o normal, com dificuldade para focar no trabalho. Aos números da pandemia e à incompetência desse desgoverno, somou-se uma tragédia a mais: a morte do menino Henry Borel, espancado pelo padrasto. Claro que já sabíamos que Dr. Jairinho era culpado desde que o crime aconteceu, um mês atrás (perdão por usar este nome respeitoso e fofo ao mesmo tempo, mas é assim que o monstro ficou conhecido). A polícia não enrolou para prendê-lo, como alguns reclamaram nas redes sociais. Fez, na verdade, uma investigação meticulosa, e chegou a provas irrefutáveis. A mais chocante é a conversa por WhatsApp entre a mãe de Henry e a babá. Mesmo sabendo que o garoto estava apanhando, Monique Medeiros não se abalou do shopping onde estava. Pior: não se afastou do namorado, e ainda ficou do lado de Jairinho depois dele ter matado Henry. O vereador Jairo Souza Santos Junior, que por ironia é médico, é mais um caso de infiltração do crime organizado na política carioca. O cara é nada menos do que o herdeiro de um chefão da milícia. Também é, evidentemente, apoiador de primeira hora de Edaír Biroliro - não admira que a ministra Damares Alves, que finge tanto defender as crianças, não tenha dado um pio sobre este caso. Agora tento não torcer que Jairinho seja esquartejado logo em seu primeiro dia na cadeia.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O BAILE DA ILHA LETAL

Sou tonto o suficiente para ter achado que o Biroliro ia levar uma dura no jantar com empresários de ontem, em São Paulo. Os primeiros relatos eram de que ele teria sido "ovacionado"; depois baixaram a bola, dizendo que os aplausos eram protocolares. Mesmo assim, João Doria foi muito criticado, talvez por ser responsável por 90% das vacinas aplicadas no Brasil. O rega-bofe teve comparecimento maior do que o esperado, mas também não é "o PIB brasileiro" que se falou por aí. Tampouco foi uma reconciliação depois da carta assinada por mais de 500 empresários na semana passada, pois muitos dos que lá estavam jamais criticaram o desgoverno. Mas, com tanta gente aglomerada e sem máscara, pode ter sido um evento superspreader, desses em que basta um infectado para contaminar dezenas de pessoas. É o que diz Natália Pasternak em sua coluna de hoje em O Globo, de onde eu roubei o título deste post. Tomara que fiquem todos doentes, antes de tentarem furar a fila com suas vacinas falsas compradas no mercado negro.

O GENITOR EM SEU LABIRINTO

"Meu Pai" é uma obra de arte. O francês Florian Zeller adaptou sua própria peça de teatro com a ajuda do inglês Christopher Hampton, e dirigiu o filme com uma segurança que não se espera de um estreante. Conseguiu captar o desespero do envelhecimento por dois ângulos diferentes, o do próprio velho e o de quem cuida do velho. Aqui não tem essa de melhor idade ou anos dourados: Anthony, o protagonista com o mesmo nome de seu intérprete, sofre de demência senil, e está perdendo a noção da realidade. É quase uma morte em vida. Aliviada pelo conforto material, sem dúvida, mas retratada sem firulas nem raios de esperança. Anthony Hopkins está fenomenal e merece todos os prêmios, mas até agora não levou nenhum. Vem perdendo para Chadwick Boseman, que morreu de verdade. Olivia Colman, com quem eu sempre implico por ter roubado o Oscar de Glenn Close, também está ótima, assim como todo o pequeno elenco. Preste atenção no cenário: não é por acaso que o filme também está indicado ao Oscar melhor design de produção. E quem tiver um idoso sob seus cuidados, como eu tenho (minha mãe mora comigo desde 2016), pode ir se preparando.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

SOFÁGATE

Esta já é uma das imagens de 2021: Ursula van der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, olhando de pé para Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, e Recep Erdogan, proto-ditador da Turquia, que se aboletam em poltronas. Não é nem questão da velha regra de cortesia, que manda um homem sempre ceder o seu lugar para uma mulher. Simplesmente não havia três assentos próximos para a reunião no palácio em Ankara. Não duvido nada que Erdogan, conhecido pelas posições machistas, tenha feito de propósito. Ursula acabou se acomodando num sofá, e seus colegas deveriam ter se mudado para lá também - mas nenhum deles mexeu um músculo. Acho admirável o sangue frio dela. Eu teria ido embora batendo a porta.

terça-feira, 6 de abril de 2021

OS ESCOMBROS DA MONARQUIA

Votei pela volta da monarquia no plebiscito de 1993. Na minha cabeça de então, o Brasil ficaria chiquérrimo com um cara bonito e esclarecido como o D. Joãozinho no trono. Hoje eu não faria mais isto, porque ser monarquista no Brasil virou sinônimo de obscurantismo e retrocesso. É uma galera ligada à TFP e à Opus Dei, que apoia o Biroliro e acha que deus vult todas as barbaridades que eles pregam. Essa cambada agora quer que o Museu Nacional, que pegou fogo em 2018, deixe a ciência pra lá e se transforme num monumento ao império. Só que esse monumento já existe: é o Museu Imperial de Petrópolis, que abriga nossas mixas joias da coroa. É verdade que o Palácio de São Cristóvão foi saqueado e violado pela nascente república, que quis apagar a memória da monarquia o mais rápido possível. Mas a coleção do Museu Nacional foi iniciada pelo próprio D. Pedro II, um amante das artes e da tecnologia. Se perguntassem a ele o que deveria ser feito com sua antiga residência carioca, não tenho dúvidas de qual seria a resposta.

CENSO E INSENSIBILIDADE

Não vai haver recenseamento este ano, assim como não houve no ano passado nem haverá enquanto Biroliro estiver no Planalto. Para quê, não é mesmo? O Minto não quer saber nada sobre o país que ele finge que governa, e tem raiva de quem sabe. Porque dados confiáveis pedem políticas realistas, não o delírio neofascista que emana da familícia. O censo pode apontar, por exemplo, que o número de evangélicos não está crescendo tão rápido como as igrejas propagam - a última pesquisa, de 2010, mostrou que a IURD perdeu um quarto de seus fiéis na primeira década deste século. Também pode revelar o verdadeiro número de casais homoafetivos do país (da última vez, eu fiz questão de declarar que sou casado com outro homem, para entrar nas estatísticas). Nada disso interessa ao Pau Fino, pois são aspectos da realidade. Ele prefere governar para seu gado, que está mais preocupado com fantasias como o comunismo ou a ideologia de gênero. O que me consola é que a próxima geração de minions será educada por homeschooling. Ninguém vai saber ler nem escrever.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

ORGULHO E DESRESPEITO

Não se passa um ano sem que saia pelo menos uma nova adaptação para o cinema ou a TV de um livro de Jane Austen. A obra dessa inglesa morta há mais de 200 anos já inspirou até novela no Brasil, "Orgulho e Paixão", e ainda ganhou variantes com zumbis e mostros marinhos nos últimos anos. A fome por suas histórias é tão grande que nem "Sanditon", um volume que ela deixou inacabado, escapou. A minissérie do mesmo nome que acaba de chegar ao Globoplay queima todos os 11 capítulos originais logo no primeiro episódio. Dali em diante, o roteirista Andrew Davies, um dos mais importantes do Reino Unido, leva adiante a trama de uma maneira totalmente contemporânea. A heroína espevitada torna-se uma proto-feminista; uma rica herdeira birracial levanta a bola do preconceito; rapazes espadaúdos aparecem tomando banho de mar completamente nus. A Sanditon do título é uma cidade à beira-mar que um empresário meio irresponsável quer transformar num resort de luxo, para uma clientela aristocrática. É interessante ver a moderna indústria do turismo surgir no começo do século 19, mas a série está mais focada nas escapadas amorosas e maquinações desonestas dos personagens. Pena que "Sanditon" tenha dado o azar de estrear no Brasil depois de "Bridgerton", que deu uma bela chacoalhada no gênero de época. Perto desse fenômeno, o remix de Jane Austen não passa de um divertissement comportado e esquecível.

A VOZ EM CORES

Pedro Almodóvar não quer que seus filmes estreiem diretamente no streaming. Ele diz, com razão, que cinema é para ser visto na tela grande - mas também ignora que seguimos em pandemia, com muitas salas ainda fechadas pelo mundo afora. Seu mais recente trabalho, "A Voz Humana", estreia oficialmente no Brasil nesta segunda-feira, num festival no Rio de Janeiro. Mas algum gaiato disponibilizou o curta na íntegra no YouTube, na sexta passada. Quando eu descobri no domingo, corri para ver, antes que caísse - e agora já era. Caiu mesmo. 

Baseado em um monólogo escrito por Jean Cocteau que Almodóvar já citou em alguns de seus longas, "A Voz Humana" também é a primeira incursão do diretor em língua inglesa - ou quase, pois há algumas falas em espanhol. Em cena, praticamente apenas Tilda Swinton e um cachorro, ambos perfeitos. A atriz exibe uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto, no papel de uma mulher que tem uma DR por telefone com ex que a abandonou. As cores berrantes são tipicamente almodovarianas, assim como a artificialidade assumida. A câmera não se furta em mostrar que o apartamento da protagonista é um cenário montado em estúdio. É um belo curta, de impacto estético e visual, e pode ser um aquecimento para Almodóvar se arriscar num longa em inglês. Mas é um abacaxi comercial. Como exibi-lo no cinema? Como atração principal, ou antes de outro filme? Quanto cobrar? É mais fácil liberar logo para o streaming, e bem mais democrático.

domingo, 4 de abril de 2021

LA REINE DES PUTES

Em francês, geralmente se usa a palavra "madame" seguida pelo sobrenome da senhora em questão. Se for pelo prenome, aí já viu: trata-se de uma puta. A mais famosa de todas, Madame Claude, autoproclamado "reine des putes", publicou um livro de memórias na década de 1970 que causou um certo escândalo, ao revelar os nomes de alguns dos clientes VIPs de seus bordéis de luxo em Paris. Sua história também rendeu um filme de Just Jaeckin, o mesmo diretor de "Emmanuelle". Mais de 40 anos depois, essa personagem icônica ressurge na Netflix, num longa que ganhou no Brasil o título desnecessário de "Os Segredos de Madame Claude." Dessa vez, a história é contada de um ponto de vista feminino, o da cineasta Sylvie Verheyde, e as cenas de sexo não são mais para excitar, mas para deixar claro que aquelas garotas estão em horário de trabalho. A trama deslancha muito bem, com a chegada de uma, digamos, estagiária ambiciosa, oriunda da aristocracia. A relação entre patroa e empregada é interessante, mas não é desenvolvida a contento. Aí, do meio para o final, o ritmo ralenta, e o final deixa várias pontas soltas. Mas deu para perceber o que a diretora quis contar. Claude soube triunfar dentro de um sistema machista jogando pelas regras deste mesmo sistema. Chegou a emprestar suas garotas para o serviço secreto francês, que as usava como iscas para prender e até matar desafetos. Só que este mesmo sistema a descartou, quando ela não se mostrou mais útil.

JESUS LHE CHAMA

Kássio Nunes Marques ainda não entendeu que, uma vez dentro do STF, ele não precisa mais puxar o saco do Biroliro. Agora ele só consegue tirá-o de lá se der o tão sonhado autogolpe. O que o caçula dos ministros fez ontem foi nada menos do que uma reles provocação: Kássio Conká decidiu sozinho acatar o pedido de uma vaga associação de igrejas evangélicas que chegou à corte no final do ano passado. Justo no Sábado de Aleluia, para não dar tempo do plenário refutá-lo. A decisão é injusta, mal-ajambrada e contrária ao consenso do próprio tribunal, e não deve ser obedecida. Faz muito bem Alexandre Kalil, o prefeito de Belo Horizonte, dizer que por lá igrejas e templos continuarão fechados neste domingo de Páscoa. Só espero que essa recusa não sirva de gatilho para a guerra pseudo-religiosa por que torce a familícia, com fiéis se engalfinhando com policiais pelo direito de se aglomerar e morrer de covid. Ninguém precisa disso para atender ao chamado de Jesus.

sábado, 3 de abril de 2021

AJUDA DOS UNIVERSITÁRIOS

Eu sinto MUITA alfição quando assisto ao "Show do Milhão". Cultivado como sou, muitas vezes eu sei a resposta certa, e aquela embromação do apresentador - "você tem certeza? esta é sua resposta final?" - me dá nos nervos. Mas este suspense é o segredo do sucesso do formato, que surgiu em 2001 no Reino Unido como "Who Wants to Be a Millionaire" e foi vendido para dezenas de países. O que eu nunca soube é que, logo no ano da estreia, o programa original passou por uma situação que até hoje não foi bem esclarecida. Um casal de participantes teria montado um esquema para colar as respostas certas, bem na frente das câmeras e do auditório. Este é o assunto da ótima minissérie "Quiz", que chegou no Globoplay. Mini mesmo: são só três episódios de uma hora, praticamente um longa-metragem. A direção é de Stephen Frears e o elenco tem um monte de caras conhecidas de outras séries, como o capachildo de "Sucession" ou a irmã da "Fleabag". E o roteiro esmerado deixa a gente na dúvida: afinal, houve fraude ou não houve? Nem com ajuda dos universitários a gente sabe a resposta.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

ENFERMARIA BRASIL

Essa história da vacina falsa em Minas Gerais é puro suco de Brasil concentrado. Uma quadrilha de empresários espertalhões achou estava furando a fila gostosamente. Os nababos pagaram 600 reais por cada dose do que pensavam ser o imunizante da Pfizer. Reuniram-se num estacionamento a céu aberto, alheios aos vizinhos que filmaram tudo. No final descobriram que tomaram soro caseiro, ministrado por uma mulher que nem enfermeira é. Pena que a mesma internet que está rindo dessa patuscada também discuta a conveniência da iniciativa privada comprar vacinas para seus funcionário. Amigos e pessoas que eu admiro entraram nessa canoa furada. Talvez não saibam que o Brasil é o ÚNICO país do mundo onde rola esse debate. Nem nos Estados Unidos, que não têm sistema público de saúde, se fala nisso. O simples fato de muita gente boa considerar a questão é um sinal de como a ideologia colonial, escravagista, está entranhada na nossa psiquê. "Ãin, mas assim se dá um alívio ao SUS, com menos gente na fila". Não, bebê, não faz nem cosquinha. Mas cria-se uma ala VIP de vacinados, enquanto o populacho se espreme no transporte público e morre sem UTI nem oxigênio. E, se alguma das grandes farmacêuticas topar (por enquanto elas só vendem para governos), o preço das vacinas pode disparar. Mas não estamos nem aí. A desigualdade está impressa em 3D no DNA brasileiro. Achamos normal, achamos justo, tentamos racionalizar. É só por isto que ainda somos um país subdesenvolvido. Não é por falta de recursos naturais ou de investimentos. É por causa da nossa mentalidade mesmo.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O REI E O PRESIDENTE

Não era primeiro de abril: Lula foi mesmo entrevistado por Reinaldo Azevedo. Galera à esquerda e à direita não acreditou que os dois iriam se encontrar, ainda que por videochamada, e o Tio Rei foi xingado por todos os lados. Mas a entrevista correu tranquila, com visível respeito mútuo e até algumas piadinhas. O ex-presidente não fez nenhuma revelação bombástica, mas tampouco descartou uma aliança com o centro (não o Centrão) para 2022. Para mim, a grande notícia foi o tom civilizado do papo. Reinaldo surpreendeu muitos petistas ao dizer que Lula foi condenado sem provas e ao criticar Sergio Moro. Pois é, pessoal: dá para ser de direita e, mesmo assim, respeitar a democracia e o devido processo legal. Se esse tipo de diálogo entre opostos continuar rolando, sem mágoas nem cobranças, o Biroliro está ferrado.

PRIMEIRO DE ABRIL

Temos um presidente de mentirinha, que não governa nem para seus adoradores mais fanáticos. Biroliro não faz absolutamente nada pelo bem dos brasileiros. Suas palavras e atitudes visam apenas a manutenção do próprio poder. Só que esse poder é bem menor do que ele sonha. Nesta semana, quis enquadrar as Forças Armadas, e acabou sendo enquadrado por elas. Teve que aceitar no comando do Exército um general que defende a ciência, e que já foi muito criticado na gadosfera. Também percebeu que não tem o apoio dos militares da ativa para dar um autogolpe. Tudo o que ele consegue fazer é continuar mentindo, como fez ontem ao criticar o distanciamento social - e logo depois de participar de uma reunião do comitê que ele mesmo convocou para combater a Covid-19. O Minto finge que vai maneirar, mas é o mesmo Pinóquio de sempre. Seria engraçado se não fosse trágico.

quarta-feira, 31 de março de 2021

ESPERO TER SIDO CLARO

Já falei do golpe de 1964 algumas vezes aqui no blog. Já contei como vivi aquele dia 31, quase seis décadas atrás, quando eu tinha apenas três aninhos de idade. Também falei como foi crescer durante o regime militar, cantando hino no pátio da escola e tendo aula de OSPB. Dois anos atrás, quando seu desgoverno engatinhava, Biroliro mandou os quartéis celebrarem a data, pela primeira vez desde a redemocratização. Hoje o Brasil vive a ameaça de um autogolpe e um prenúncio de anarquia nas Forças Armadas. Mesmo com mais de 3.000 mortos por dia, preços em disparada e o Zero-Um comprando uma mansão de seis milhões, tem cretinos no Twitter - inclusive políticos e militares - festejando a nefasta efeméride. Desta vez eu perdi a paciência. Não vou ficar contemporizando. Soltei o tuíte acima logo nas primeiras horas desta madrugada. Não contente, respondi com ele a um post acintoso do general Mourão. Então, já viu: if I'm not back again this time tomorrow...

terça-feira, 30 de março de 2021

SE A VIDA TE DER LIMÕES

O dramaturgo, ator e ilustrador João Hannuch me mandou seu novo em livro em quadrinhos, "Limonada". Não sei se é autobiográfico, mas muito guei vai se identificar com a história. No dia em que completa 30 anos, o protagonista Beto recebe todos seus ex-namorados, que não foram convidados para a festa. Um por um, eles lembram o aniversariante de como começou o romance entre eles, e como terminou - invariavelmente, Beto levou um pé na bunda. Eu tenho o dobro da idade do rapaz, mas passei por algumas situações semelhantes. Sempre queria casar, mas a recíproca nunca era verdadeira (até que um dia foi). Imagino que a garotada de hoje queira ainda menos compromisso, dada a facilidade dos aplicativos de pegação. "Limonada" é triste e divertido ao mesmo tempo, igual à vida de muitos de nós. E já que estamos no vale, aqui vai outra dica cultural para as bibas: quem tiver o Scruff instalado pode conferir até amanhã, 31 de março, a mostra Curta Woof, que reúne oito filminhos recentes de diretores brasileiros, todos com temática LGBT+. A curadoria é do André Fischer, o criador do festival Mix Brasil. De filme gay, ele entende.

DOR DE COTOVELO

Biroliro é um sujeito rancoroso. Guardou em silêncio durante anos a mágoa de ter sido esnobado por Sergio Moro em 2017, só para choramingá-la no discurso incongruente que fez depois do ex-juiz se demitir do ministério da Justiça. Agora quer demitir o general Edson Pujol, basicamente porque o atual comandante do Exército o cumprimentou com o cotovelo em uma solenidade no ano passado, cumprindo protocolos de segurança. O Genocida se sentiu humilhado em público, e agora quer alguém submisso a seu sonho golpista na chefia das tropas. O remelexo nos ministérios ocorrido ontem é típico da barafunda mental do Despreparado: finge agradar ao Centrão, ao mesmo tempo em que finge para a gadosfera ser mais poderoso do que é. Que ele está tentando criar condições para um autogolpe, não resta a menor dúvida. Mas, como diz um meme que circula nas redes sociais: este será o primeiro golpe de estado sem o apoio das FFAA, do empresariado, da imprensa, da maior parte da população e de qualquer grande potência estrangeira.

segunda-feira, 29 de março de 2021

GADO SURTADO

Que segunda-feirazinha, hein? A queda do Arnesto é um alívio, claro, mas provavelmente temporário - nada indica que virá um chanceler razoável no lugar dele. Mas a demissão do Fernando Azevedo da pasta da Defesa me deixou assustado. Sabemos que Biroliro trama um golpe desde sempre, e pode ser que ele ache que chegou a hora. Para não ficar refém do Centrão e ter que botar gente competente nos ministérios, o Despreparado deve estar querendo por o pau (fino) na mesa e mostrar quem manda. Duvido muito que ele consiga, ainda mais agora. Três mil mortos por dia e a economia em queda livre não dão cancha para nenhum golpista. Mesmo assim, não duvido que ele tente, e que alguns malucos insuflem a violência pelo país. Ontem tivemos um episódio patético em Salvador, com um PM surtado ameaçando quem estivesse por perto - inclusive os trabalhadores que a gadosfera muge que ele tentava defender. O Brasil deve ser o único país onde se lamenta nas redes a eliminação de um terrorista doméstico. Esses alucinados podem se assanhar ainda mais quando o Bozo perder em 2022. Mas, novamente, quero crer que terão o mesmo destino do sniper baiano: serão abatidos sumariamente.

SAMBA DO ERNESTO

Num desgoverno liderado por um covarde, não é de admirar que falte caráter entre seus ministros. O Capachuello caiu esperneando, se dizendo vítima de esquemas de corrupção. Agora é a vez de Ernesto Araújo, de longe o pior chanceler da história do Brasil. Ao perceber que seus dias à frente do Itamaraty estão contados, o pior chanceler da história do Brasil inventou uma narrativa para tentar mascarar sua infinita incompetência, pelo menos para o gado mais fanatizado. Acusou Katia Abreu e praticamente todo o Senado de estarem vendidos aos chineses da Huawei. Um coice que deve acelerar ainda mais sua queda, junto com a do Sorocabannon. Claro que sua saída não significa que nossas relações exteriores voltarão ao eixo: Biroliro ainda não substitui nenhum ministro por alguém melhor do que seu antecessor. Assim como na Saúde e na Educação, deve vir outra cavalgadura por aí, e o Brasil vai continuar sambando miudinho.

domingo, 28 de março de 2021

FESTIM DIABÓLICO

A música de "Montero (Call Me By Your Name") não é grande coisa, mas o clipe é infernal. Num mundo onde histéricos veem o diabo em tudo, é revigorante que um cantor apareça dando a bunda para o próprio Satanás. E vai além: no final, Lil Nas X arranca os chifres do Coisa Ruim e coroa a si próprio como o novo Rei das Trevas. Chupa, crentalhada! 

sábado, 27 de março de 2021

GARRAFA CHEIA EU NÃO QUERO VER SOBRAR

Semana passada eu tive o prazer de constatar que um dos filmes mais hypados da temporada corresponde ao hype: "Bela Vingança" é mesmo tudo aquilo que andam dizendo. Já com "Druk - Mais uma Rodada", não é bem assim. O favorito ao Oscar de melhor filme internacional aborda o consumo de álcool de maneira original, sem cair no moralismo barato ou na tragédia anunciada. "Trainspotting", 25 anos atrás, teve a coragem de mostrar o prazer proporcionado pela heroína. "Druk" vai além: o longa de Thomas Vinterberg defende que uma pessoa ligeiramente embriagada se torna mais corajosa, mais criativa e mais brilhante. Um grupo de quatro professores entediados decide testar empiricamente a tese de um médico norueguês: o corpo humano teria um déficit de 0,05% de álcool, que precisa ser preenchido o tempo todo. Aí eles passam a tomar goles de vodca antes das aulas, e os resultados são sensacionais. Os alunos de história se empolgam, os de música começam a cantar feito anjos, um garotinho que sofria bullying dos colegas se torna o artilheiro do time de futebol. Mas é claro que os quatro não sabem onde parar e todos sofrem consequências, de graus variáveis. No final, "Druk" (algo como bebedeira em dinamarquês) deixa um aftertaste agradável na boca, mas não chega a ser uma obra-prima da coquetelaria cinematográfica.

sexta-feira, 26 de março de 2021

DORIAVAC

Enquanto o Edaír tirava sarro dos 300.000 mortos, promovia aglomerações sem máscara e se recusava a comprar vacinas, João Doria foi à luta, e acaba de marcar seu terceiro gol no combate à pandemia. O governador de São Paulo tem um milhão de defeitos, mas não dá para não reconhecer que, sem ele, a vacinação no Brasil estaria ainda mais atrasada do que está, pois 91% das doses aplicadas por aqui são da Coronovac. O Instituto Butantan também está desenvolvendo um remédio contra a doença, em fase muito mais adiantada do que o spray que o Biroliro quis buscar em Israel. Ontem à noite foi anunciada a Butanvac, que já está em teste em alguns países e pode começar a ser aplicada em julho. A notícia explodiu como uma bomba do Riocentro no colo do Coronaro, coroando uma semana horribilis para o suposto presidente da República. O Minto fez um pronunciamento recheado de mentiras na terça, ouviu uma claríssima ameaça de impeachment vinda de Arthur Lira na quarta e está sendo pressionado a se livrar de seus queridos Ernesto Araújo e Filipe Martins. É bem feito. Passou mais de um ano negando a gravidade dos fatos, e agora toma no rabo mais uma vez. Uma dose bem doída da Doriavac.

FREE BRITNEY, BITCH

Este blog estreou em 2007, o mesmo ano em que Britney Spears começou a derreter em público. A cantora raspou a cabeça, atacou paparazzi com um guarda-chuva e fez uma apresentação desastrosa nos VMAs. A imprensa caiu matando, inclusive em uma novidade da época: os blogs especializados em falar mal de celebridades, como o do Perez Hilton, nos EUA, e o finado Te Dou Um Dado?, aqui no Brasil. Britney virou um saco de pancadas e ganhou apelidos como Neyde e Nonô (esse eu nunca entendi por quê). E eu faço um mea culpa: embarquei contente na onda, tirando sarro da maluca que, no fundo, só queria a guarda dos filhos. Agora vejo como agimos mal depois de assistir ao documentário "Framing Britney Spears", disponível no Globoplay. A moça deu o azar de despontar para a fama justamente quando a internet estava se expandindo, na virada do milênio. Era literalmente uma criança, e não teve pais ou empresários que a protegessem dos abutres. O filme escancara o sexismo que ela sofreu desde pequena, com entrevistadores perguntando sobre seus namorados, seus seios ou se ela ainda era virgem. O "tipping point" parece ter sido o namoro com Justin Timberlake. Sentindo-se traído, o cantor gravou músicas contra a ex e emplacou a narrativa de que ela não prestava. Hoje ele se arrepende e pede perdão, e eu também. Britney Spears é um talento extraordinário: basta ver suas performances ainda garotinha, que ofuscariam todos os concorrentes do The Voice Kids. É cruel que ela siga há anos na moita. Não lança um álbum completo desde 2017, e parece estar esperando que seu pai finalmente perca o controle sobre sua vida e sua carreira para sair da toca. Já passa da hora dessa mulher de 39 anos ser dona do próprio nariz. Por isto, eu endosso: free Britney Spears, bitch. Ontem. Já deu.

quinta-feira, 25 de março de 2021

BALADA DE GISBERTA

O assassinato de Gisberta Salce Junior abalou Portugal de um modo que nenhuma das centenas de mortes de travestis e transexuais que ocorrem no Brasil todos os anos consegue nos abalar. Ocorrido em 2006, o crime já rendeu filmes, peças de teatro, uma música de Pedro Abrunhosa eternizada por Maria Bethânia e agora um livro que é uma porrada. Porque o narrador de "Pão de Açúcar", de Afonso Reis Cabral, é ninguém menos do que um dos meninos que espancou nossa conterrânea até a morte, ao longo de vários dias. Gisberta é achada por ele em uma barraca improvisada, dentro do esqueleto de uma obra inacabada - o supermercado do título. Carcomida pela AIDS e pela tuberculose, ela não consegue mais fazer shows nem programas, e parece ter chegado ao ponto mais baixo possível. Só que ainda não. O moleque e seus amigos passam a visitá-la diariamente. Levam comida, como se fosse para um bichinho ferido. Ouvem e contam histórias. O narrador está fascinado por aquele "homem com mamas", e chega a ter ereções quando pensa nele. Até que o segredo se espalha, outros garotos se juntam ao grupo original e passam a bater em Gisberta, por maldade e diversão. A prosa de Reis Cabral não é das mais fáceis de navegar: além das construções de frase tipicamente lusas e dos termos que não se usam no Brasil, o texto também sofre de uma certa afetação, incompatível com a cabecinha de um puto de apenas 12 anos. Mas "Pão de Açúcar" é um mergulho na alma masculina em formação, de alguém que pode ser provedor e violento ao mesmo tempo e com a mesma pessoa. Um livro belo em seu horror. Por falar em beleza, o autor também não é de se jogar fora.

WP, VAI TOMAR NO C*, OK?

Não, Filipe Martins não é um supremacista branco. É algo ainda pior: um cínico oportunista, que não hesitaria em implantar as ideias dessa cambada se isto lhe garantisse mais poder. Por enquanto, ele só dá adeusinho, como fez Donald Trump ao se referir aos Proud Boys ou Allan dos Santos ao tomar um copo de leite. Antigamente, esses acenos ao radicais eram mais discretos. Tanto que foram apelidados pela imprensa americana de "apito para cachorro", porque só os iniciados seriam capazes de percebê-los. Mas agora são feitos de maneira escancarada, visando a lacração: "olha, mano, que irado, o cara fazendo o gesto do White Power bem atrás do presidente do Senado, kkkk". O senador Randolfe Rodrigo achou que Martins estava mandando todo mundo tomar no cu e reclamou na hora, pedindo que o assessor do Despreparado fosse retirado do plenário. O "judeu, porém cristão" se fez de sonso, alegando que estava só "ajeitando a lapela do terno". Pois eu retruco usando todos os sentidos do gesto obsceno numa só frase: ei, supremacista branco, vá se foder, tá OK?

ADENDO: muito interessante este fio do jornalista Daniel Pinheiro no Twitter. Ele explica como Filipe Martins teria "se sacrificado", pondo em risco o próprio cargo, para distrair a atenção da mídia da desastrosa sabatina de Ernesto Araújo no Senado. Prensado pelos senadores, o chanceler foi às lágrimas... Isso mesmo: mais uma cortina de fumaça.

quarta-feira, 24 de março de 2021

BÉÉÉÉÉ

Talvez eu não fosse ver "Cabras da Peste" no cinema. Não é o meu tipo de filme, por mais que eu saiba de sua relevância como artefato cultural brasileiro etc. etc. Mas como estreou direto na Netflix e eu não tinha mais o que fazer, assisti e gostei muito. Edmilson Filho já é um dos grandes nomes do humor nacional, e honra a tradição do Ceará como celeiro de comediantes. Além disso, tem boa química com Matheus Nachtergaele. Os dois interpretam tiras de temperamentos opostos obrigados a trabalhar juntos para resolver um caso, um dos setups mais batidos de todos os tempos, mas ainda pouco aproveitado no Brasil. O resultado é simpático e competente, com sequências de ação bem rodadas e várias piadas boas. É muito legal quando a qualidade não é sacrificada em nome do apelo popular.

QUE MENTIRA QUE LOROTA BOA

Biroliro ainda segue a cartilha de Steve Bannon - "governe apenas para os seus fanáticos" - mesmo depois dessa estratégia ter se mostrado furada com a derrota de Donald Trump. O Genocida costuma falar o que sua plateia bovina espera dele, e não passa a menor convicção quando é obrigado a dizer outra coisa. O pronunciamento de ontem foi curto, constrangedor e nada convincente. Pandemito estava visivelmente desconfortável, tendo que ler (mal) no teleprompter palavras como "solidarizo-me com todos aqueles que tiveram perdas em suas famílias". O Despreparado também acha que todo mundo é burro feito os minions e que ninguém se lembra de expressões como "gripezinha" ou "país de maricas". O resultado é que já estão circulando vários vídeos como o acima, produzido pela Folha, ressaltando as mentiras e lorotas que o Bozo tentou nos empurrar ontem - justamente o dia em que o Brasil registrou, pela primeira vez, mais de 3.000 mortes pelo coronavírus. Talvez nem precisássemos desmentir o Minto tão depressa. Na live desta quinta, ele mesmo irá contra tudo o que disse na noite de  terça.

terça-feira, 23 de março de 2021

KÁSSIO CONKÁ

Kássio Nunes Marques finalmente disse a que veio. O mais novo vilão ministro do STF pediu vistas há duas semanas, para se consultar com seus superiores. Deveria ele confirmar a suspeição de Sergio Moro, abrindo a porteira para que toda a Lava-Jato seja melada? Isso é de total interesse do Centrão, que mantém o Biroliro como refém. Ou livraria a cara do ex-juiz, deixando Lula inelegível? Isso é de total interesse do Pau Fino, que levou o medíocre Kássio à mais alta corte do país. Este último falou mais alto, claro. Mas Lula acabou sendo salvo (por enquanto) por Carmen Lúcia. A ministra perdeu a chance de mudar o rumo da história do Brasil alguns anos atrás, quando livrou a cara de Aécio Neves. Hoje teve a chance de novo, e não a desperdiçou.

AÊ PESSOAL DA CANHOTA

Biroliro é uma ratazana, e está acuado. E o que fazem as ratazanas quando estão acuadas? Arreganham os dentes. Tentam meter medo. É isto o que o Despreparado vem fazendo nos últimos dias, ao constatar que sua popularidade só despenca. Até mesmo os peso-pesados do PIB brasileiro estão se voltando contra ele, como se viu na tardia "carta dos banqueiros e empresários". Mas, ao invés de tomar tento na vida, o Pau Fino voltou a falar em medidas duras, estado de defesa e "meu exército", causando desconforto na cúpula das Forças Armadas. Também mandou seu capachildo André Mendonça encher o saco do Ciro Gomes e de quem mais se atrever a falar mal de seu desgoverno, num evidente sinal de fraqueza. Outro sintoma de que as coisas vão mal para ele é o vídeo acima: desde quando que um político querido pelo povo precisa que uma milícia uniformizada faça vagas ameaças em vídeo? Um dos sustentáculos da ditadura venezuelana são esses grupos paramilitares, e o Bozo quer copiar a ideia. Mas claro que não vai ser uma meia-dúzia de gatos pingados fazendo cara feia e falando português errado que vai assustar o pessoal da canhota, i.e. 75% dos brasileiros. O máximo que esses brucutus vão conseguir é uma homenagem da Irmãos Dotados, que bem que poderia produzir um vídeo de orgia inspirado neles.

segunda-feira, 22 de março de 2021

A POTOCA MILENAR

A notícia é velha de dois dias, mas eu não resisto a comentá-la. Roberto Jefferson mostrou, pela enésima vez, que sua escrotidão não tem limites. O ex-deputado e cacique do PTB é a prova viva de que os minions não estão nem aí para o combate à corrupção. Caso estivessem, não dariam cartaz para um corrupto confesso, que foi para a cadeia por seus crimes. Mas Jefferson é espertalhão, e sabe que qualquer bobagem já serve para excitar o gado. Só que agora deu uma escorregada que pode lhe custar caro. Por causa do post ao lado, publicado no Instagram, Bob Jeff está sendo processado pela Conib, a Confederação Israelita no Brasil. Ainda não entendi o objetivo do cara: denunciar um imaginário esquema de tráfico de órgãos de crianças, talvez? De qualquer forma, ele deveria ter feito sua lição de casa. Baal não era um deus adorado pelos judeus, mas sim pelos fenícios, os vizinhos do norte, que viviam no que hoje é o Líbano. E que também fundaram Cartago, a cidade do norte da África que ameaçou o poderio nascente de Roma no século 1 a. C. Foram os romanos que espalharam uma das primeiras fake news registradas pela história. Para angariar apoio popular contra os cartagineses, inventaram que seus inimigos sacrificavam criancinhas a Baal. Não há o menor registro documental ou arqueológico de tal prática, mas a potoca colou.

ELA CUMPRE O QUE PROMETE

Uma amiga que morou anos nos Estados Unidos trouxe sua assinatura do iTunes americano para cá, com acesso a muitos filmes que ainda não estão disponíveis no Brasili. Ontem ela alugou "Bela Vingança", e me convidou para ver junto. Aceitei, com aquela pontinha de suspeita: será que um dos filmes mais hypados da temporada justifica todo o hype? É com alívio que digo que sim. A estreia de Emerald Fennell como diretora de longa-metragem é uma porrada no estômago, e também o sinal definitivo que temos mais um grande talento a todo vapor. A moça também é roteirista (foi a showrunner da segunda temporada de "Killing Eve", a melhor de todas) e atriz (faz a Camilla Parker-Bowles na terceira temporada de "The Crown"). Agora está indicada a dois Oscars, direção e roteiro original, e deve levar este último. Carey Mulligan também é a favorita para melhor atriz, com justiça. Depois de uma década sem um papel que chamasse novamente a atenção da Academia (ela foi indicada uma única vez, em 2009, por "An Education"), essa inglesa de 35 anos está fabulosa como uma mulher que resolve se vingar de todo o sexo masculino. "Bela Vingança" começa com ela se fingindo de bêbada para flagrar os abusadores, todos com cara de bonzinho, mas vai muito além disso. O tom de comédia predomina, até que o final dramático puxa o tapete debaixo do espectador. Assista acompanhado, pois vocês vão ter muito assunto. Essa jovem mulher cumpre tudo o que promete.

domingo, 21 de março de 2021

ONDE FOI QUE ERRAMOS


Queria falar de coisas mais amenas, mas não consigo. Então deixa eu voltar ao assunto: a mágoa da esquerda com quem criticou os governos de Lula e Dilma. Foram essas críticas, segundo a militância, que pavimentaram o caminho para a eleição do Biroliro. Os queixumes esquerdistas deixam implícito que os governos do PT foram impecáveis. Que não houve desvios bilionários da Petrobras, ou que a "nova matriz econômica" não produziu desemprego e inflação - foi tudo ilusão de ótica. Ou, se houve mesmo tudo isto, a imprensa deveria ter fechado os olhos, em nome do bem maior que são a inclusão social e a redução da desigualdade. Toda essa argumentação é furada, claro. Imprensa é diferente de assessoria de imprensa. Imprensa tem que incomodar. Tem que questionar os poderosos, o tempo todo.

Mas um grande erro foi cometido, sim, e não só pelos jornalistas que apontaram o dedo para o PT. Muita gente simplesmente não percebeu o apoio que uma grande parte dos brasileiros dá às ideias retrógradas e violentas do Edaír. Lembro do "Roda Viva" a que o então candidato compareceu em 2018, e a bancada de entrevistadores só queria saber de cobrar suas posições machistas, homofóbicas e racistas. O cara nadou de braçada. Riu  muito, confirmou tudo e viu seus números subirem. Ninguém questionou sua capacidade como administrador. Ninguém perguntou qual seria seu plano de governo. 

Houve um solitário momento em que algo do gênero aconteceu naquela malfadada campanha eleitoral. Foi no único debate a que o Pandemito compareceu, um pouco antes da facada. Marina Silva, com sua voz fininha e seu corpo magérrimo, encurralou o capitão, acusando-o de promover a mortandade de inocentes com sua ideologia armamentista. "Nós somos mães!", bradava ela. Acuado, o Bozo se encolheu todo e só conseguia responder "e conhecereis a verdade, e ela vos libertará", feito um boneco falante enguiçado.

Àquela altura, muita gente já sabia quem era o Mijaír. Ele nunca enganou a quem prestou o mínimo de atenção. O que não sabíamos, e eu me incluo nesses, era a capilaridade de suas ideias. Para mim, o sujeito era um extremista que nunca passaria de 20% dos votos. Jamais conseguiria vencer uma eleição majoritária, só proporcionais. Um político de nicho. Mas, de uma hora para a outra, descobrimos que ele tinha fãs em todos os segmentos da sociedade. Foi com horror que descobrimos bolsominions infiltrados entre colegas de escola, amigos de longa data, parentes próximos e queridos. Alguns ainda disfarçavam, dizendo que o problema maior era o PT. Outros, nem isso. Assumiam com todas as letras que gostavam mesmo do ideário asqueroso, de perseguição às minorias, de supressão de liberdades, da volta da ditadura.

Boa parte dessa galera continua gostando do Despreparado, mesmo com quase três mil mortos por Covid-19 todos os dias. Mesmo sem ele ter feito nada de positivo em mais de dois anos de governo. Ou seja: não são as ações dele que os seduzem, são as palavras e atitudes. Essa turma mantém a popularidade do Pau Fino entre 25 e 30%, a depender da pesquisa consultada, e estarrece os observadores. Como é que pode? Como que o Brasil pode ter um núcleo duro tão assim ruim? Como é que não sabíamos disso até outro dia?

Eu não sabia mesmo, e não consigo descrever o tamanho da decepção com meu país. Não verei esse lugar dar jeito - não durante a minha vida. Penso, a médio prazo, em me mudar para Portugal, ou sei lá para onde ainda viceje a civilização. Se o Genocida for reeleito, é porque o Brasil quis assim. E porque ambos se merecem.

sábado, 20 de março de 2021

FALTA DE PONTARIA

A reação mais curiosa à já histórica coluna da Mariliz Pereira Jorge publicada na quinta pela Folha não veio do gado. Esses mugiram, é claro, mas isto já era esperado. O que me surpreendeu - e não deveria, porque não foi a primeira vez - foi gente de esquerda atacando a Mariliz, porque ela já foi muito crítica ao PT. Isto, segundo eles, não a credenciaria a criticar também o Bozo, mesmo ela não tendo votado nele. Cheguei a brigar com um amigo no Facebook, pois ele estava alertando seus seguidores a não compartilharem o texto da Mariliz ("vocês não sabem quem ela é" - só que é ele quem não sabe). 

Outra que sofreu um ataque despropositado por esses dias foi a Vera Magalhães, que na mesma quinta falou no Jornal da Cultura que o colapso da saúde era tão grande que já estava faltando leito em hospital particular. Um desclassificado se deu ao trabalho de editar essa fala de maneira que a Vera soasse como uma elitista empedernida, horrorizada com a pandemia porque agora ela atingiu a elite. Isso tem nome e sobrenome: fake news.  É distorcer a realidade para ela se adequar não à sua ideologia, mas às suas idiossincrasias. Esses dois exemplos singelos mostram a mágoa de caboclo que ainda transborda nos corações de muitos petistas (mas, veja bem, não no do Lula). A galera exige um teste de pureza que só tem paralelo na histeria dos minions, que vetam uma potencial ministra da Saúde só porque ela atendeu a Dilma. Alguns falam até em responsabilizar (vulgo julgar e prender) jornalistas que apoiaram a Lava-Jato, como se a ditadura do proletariado já estivesse instalada. Mas o inimigo de verdade é bem outro, como sabemos, e ele conta com a nossa desunião. O que precisamos entender é que agora não se trata mais de esquerda versus direita, mas de democracia versus ditadura. Depois a gente volta a brigar entre si.

sexta-feira, 19 de março de 2021

СЕЖТЮУ

Alguém aí lembra de "Pa' Bailar", o tema de abertura da novela "A Favorita"? A faixa mais conhecida do conglomerado Bajofondo, liderado pelo genial Gustavo Santolalla, já ganhou letra algumas vezes, sempre com melodias diferentes, nas vozes da mexicana Julieta Venega e do argentino Santullo. Agora ressurge com essa inusitada variante de inspiraração russa, cantada pela uruguaia Natalia Oreiro. É o meu hit desta 3.785ª fase de confinamento. Nem por isto ando cabisbaixo. Como diz o título deste post, grafado no alfabeto cirílico: sextou.

LAÇOS DE FAMILÍCIA

Muita gente está atribuindo ao Felipe Neto a autoria do vídeo "Bolso Família", que começou a viralizar na tarde de ontem. Na verdade, ninguém sabe quem está por trás dessa pequena obra-prima, que lembra o "Bolsocaro" no tom e na execução. São ambos geniais: linguagem concisa, mensagem destruidora e curta duração, para consumir poucos dados quando forem executados. O fato é que a familícia está com muitos flancos abertos ao mesmo tempo. A pandemia está fora de controle, a inflação vai voltando com tudo e os escândalos de corrupção se acumulam. Biroliro tanto vem sentindo os golpes que ontem leu em voz alta alguns dos epítetos da épica coluna da Mariliz. Tadinho, não é mesmo? Justo ele, que nunca xingou ninguém e sempre tratou todo mundo com a maior gentileza. Agora só falta um DJ transformar o magoado discurso presidencial em remix para as pistas.

quinta-feira, 18 de março de 2021

O CHORO É LIVRE

Nunca gostei do Major Olímpio, mas pelo menos ele teve a decência de se afastar do Biroliro quando ficou claro que o Pequi Roído é o chefe de um orcrim. Por isto, não vou tripudiar de sua morte, apesar de ele ter se arriscado inutilmente. O senador por São Paulo esteve na infame manifestação contra o lockdown convocada pela demagoga prefeita de Bauru e pelo Véio da Havan - um sujeito para quem nem a morte da mãe pela Covid serviu para torná-lo menos negacionista. É inacreditável como tem gente que ainda não acredita no coronavírus, mesmo com quase três mil mortos pelo dia e o colapso absoluto do sistema de saúde. Mas, como mal disse a Maju Coutinho, o choro é livre. A apresentadora do JN foi mal interpretada e continua na mira dos minions, mesmo depois de ter pedido desculpas no programa de hoje. Só que ela tem razão. Ninguém gosta de lockdown, mas ele é a única coisa que pode nos salvar neste momento. A escolha é simples: chorar de raiva por ter que ficar em casa, ou chorar por um ente querido.

PEQUI ROÍDO

Felipe Neto está livre da perseguição insana do Carluxo, pelo menos até o próximo round. A familícia tem razão em temer o maior influenciador digital do Brasil, com 41 milhões de seguidores, mas talvez não devesse xuxá-lo com vara curta. O rapaz já revidou, formando a Cala a Boca Já Morreu, uma frente de advogados para defender de graça quem sofrer acusações parecidas. Talvez eles já possam entrar em ação no caso do sociólogo Tiago Costa, que está sendo investigado pela PF por causa dos já famosos outdoors do "pequi roído", erguidos em Palmas no ano passado. É sempre bom lembrar que a investigação corre a mando de André Mendonça, o ministro da Justiça que age como leão-de-chácara dos Biroliro. Bom, pelo menos por enquanto tá liberado chamar o Pequi Roído de genocida. E de todos esses outros nomes elencados pela épica coluna de minha amiga Mariliz Pereira Jorge desta quinta-feira.

quarta-feira, 17 de março de 2021

ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM

A elite carioca sempre teve medo do dia em que o morro desceria em peso para o asfalto. Este temor não se restringe ao Rio de Janeiro: por toda a América Latina, sempre pairou a ameaça de uma revolta popular, desorganizada e violenta. O filme mexicano "Nuevo Orden", disponível na Amazon Prime Video, imagina como ela se daria. Um casamento elegante na Cidade do México é interrompido pela chegada dos pobres. Na primeira vez, é um ex-empregado que vem implorar por dinheiro para a cirurgia que sua mulher precisa. Na segunda, são manifestantes armados, que esbofeteiam os convidados e saqueiam os pertences dos anfitriões. E aí a coisa degringola, com a instalação de um regime de terror e uma conclusão chocante, mas não surpreendente. "Nuevo Orden" peca pelo fato de assumir o ponto de vista dos grã-finos, sem dar muita voz aos trabalhadores. Como não dá para torcer pelos ricos, o impacto fica aquém do de "Parasita", "Coringa" ou "Bacurau", filmes que abordaram a questão da desigualdade com mais inteligência e sutileza. Mesmo assim, vale a pena ser visto, até porque dura menos de uma hora e meia. Ainda tem o bônus da presença de Darío Yazbek, meio-irmão mais novo de Gael García Bernal.