sábado, 14 de novembro de 2020

SOPHIA PELA FRENTE

Sophia Loren faz parte de uma casta de estrelas de cinema que há décadas não ganha novas integrantes. Atrizes muito mais jovens, como Julia Roberts, Nicole Kidman ou Emma Stone, também têm beleza, glamour, talento, Oscars - mas nenhuma delas chega perto da aura de deusa que esta italiana ainda emite, aos 86 anos de idade. Uma aura tão forte que é perfeitamente visível em "Rosa e Momo", seu primeiro longa em uma década, em que ela aparece propositalmente desgrenhada e mal maquiada. Trata-se de um remake de "Madame Rosa", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1977, e ambos são baseados no romance "A Vida Pela Frente", de Romain Gary - um título poético que a Netflix fez questão de jogar fora no Brasil. La Loren toma para si o papel que foi de Simone Signoret, o de uma ex-prostituta judia que montou uma espécie de orfanato na própria casa, cuidando dos filhos de outras putas e marginalizadas em geral. A ação também foi transferida para a Bari dos dias de hoje, uma cidade do sul da Itália que é a porta de entrada na Europa para milhares de imigrantes africanos. E o garotinho órfão que tem tudo diante de si, que já era muçulmano e se chamava Momo (apelido de Mohammed), agora também é do Senegal. Esse tipo de relação, entre uma criança abandonada e uma mulher mais velha de coração endurecido, já serviu de mote para dezenas de filmes (inclusive "Central do Brasil"), e aqui funciona mais uma vez. Rosa não tem uma jornada muito longa, pois está próxima à linha de chegada e Momo não tem muito o que lhe ensinar, mas ainda é um vulcão ativo, onde amor, raiva e medo correm e se misturam. Sophia não chega a ter uma cena que funcione como um "Oscar clip" para a indicação que ela talvez receba, mas está magnífica como de costume. Sua química é palpável com o menino Ibrahima Gueye - um achado como ator, capaz de transmitir uma tonelada de emoções. A direção de Edoardo Ponti, filho de Sophia, é precisa e econômica, sem uma cena sobrando. Talvez se possa questionar a leoa em computação gráfica que aparece em duas sequências, mas ela é mais que compensada pelo uso de uma música de Elza Soares em uma cena deliciosa. "Rosa e Momo" emociona sem cair na pieguice, e mostra que as verdadeiras deusas do cinema têm brilho à prova do tempo.
   "Io Sì", que toca durante os créditos, é forte candidata ao Oscar de melhor canção. Laura Pausini gravou esta composição da americana Diane Warren em cinco línguas, inclusive num português quase perfeito. Pois é, amici miei: ninguém frequenta impunemente o programa do Serginho Groisman durante tantos anos.

5 comentários:

  1. Esse tipo de atriz acabou, não?

    Beleza, talento, o vestido, um certo mistério... Hoje tudo é mostrado/declarado no Instagram, a brasileira Malu Mader consegue a proeza de não ter, quem mais?

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  2. O Mio Babbino Caro
    Lembro da tarde que saí chapado do Cine Belas Artes depois de assistir esse filme no distante 77 e ficar nesse estado alguns dias. Pretendo reve-lo nesse "remake". E viver essa arte de nos trocar...

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    1. Como seria belo o mundo sem politico filha da puta.

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  3. Só queria deixar registrado que chorei feito uma desgraçada assistindo, e Sophia Loren é um colosso

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  4. O filme é ótimo, Sophia Loren é um espetáculo e a cena em que ela dança com uma mulher trans ao som de Elza Soares é pura felicidade!

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