sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O DIA DA CONSCIÊNCIA DO RACISMO

Os roteiristas que escrevem a atual temporada do Brasil são conhecidos pelas ideias absurdas e inverossímeis. Uma ema que bica a mão do presidente que lhe ofereceu cloroquina? Get outta here! Um senador que esconde dinheiro no cu? Vá tomar lá mesmo! Mas, dessa vez, nossa sala de roteiro seguiu na direção contrária. Decidiu abrir o Dia da Consciência Negra com uma notícia óbvia, repetitiva, cuja falta de sutileza só se justifica se o objetivo era fazer com que todo mundo na plateia - inclusive quem não está prestando atenção - entendesse mesmo a mensagem dada: O BRASIL É UM PAÍS RACISTA.

A morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos espancado por dois seguranças de um Carrefour em Porto Alegre, desenha em cores berrantes o racismo estrutural brasileiro. Beto não era suspeito de ter roubado nada, nem de ter essa intenção. Foi um simples entrevero com o caixa que o fez ser arrastado para o subsolo da loja e apanhar até a morte. Não é a primeira vez que isto acontece no Brasil, nem mesmo no Carrefour. Que a empresa arque com todas as consequências, mas também não podemos achar que a culpa é só dela.

Apesar de cada vez mais gente disparar ofensas racistas nas redes sociais, pouquíssimos assumem o racismo na vida real. Acredito que a imensa maioria, na qual me incluo, se sinta mesmo livre de qualquer preconceito. Ouvimos desde pequenos que o Brasil é uma democracia racial. Um paraíso onde todas as etnias convivem pacificamente e onde não há uma única lei que justifique qualquer discriminação - um contraste proposital com os EUA, onde, até a década de 1960, ainda havia estados onde negros e brancos eram proibidos de se casar.

Muitos brancos se ofendem quando se fala em racismo estrutural. Respondem indignados que têm amigos negros, que nunca trataram mal ninguém, que votaram no Boulos e na Erundina. Mas este é o lado mais perverso do racismo estrutural: ele permite que um indivíduo branco não seja racista em seu dia-a-dia, porque seus privilégios já estão mais que garantidos.

Eu, que sempre me gabei de ser uma pessoa super legal, me flagro escrevendo roteiros onde não há um único personagem negro. Ou assistindo a filmes, novelas, comerciais de TV e não me tocando que não há um único negro em cena. Acho que melhorei um pouco, porque finalmente entendi que o racismo estrutural não só existe como me engloba, desde sempre. Este é o primeiro passo, mas faltam tantos que não sei se terei tempo de dar todos nesta vida.


19 comentários:

  1. Sou leitor assíduo desse blog desde os primórdios. Contribuiu de maneira decisiva para que me assumisse gay de maneira mais tranquila. Qual não foi minha surpresa quando comecei a ver e vivenciar situações racistas dentro da própria comunidade gay. Isso eu não imaginava. Sigo.

    Me emocionei com esse post! Quem já sofreu racismo, acho que me entenderia...

    Homofobia e Racismo não são a mesma coisa, eles se acumulam.

    Obrigado, Tony Goes! Em você eu acredito! 😘

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  2. No twitter, o Professor de Direito Marcos Queiroz disse, com propriedade:
    "Desconstrução é o caralho. Racismo se trata de PODER. De definir quem vai morrer e viver. Não muda com representatividade, "recorte", manuais e elevação espiritual branca. Muda com enfrentamento e incômodo. Tem gente muito confortável nesse engenho."

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    1. Bruno, pego tanto no seu pé...

      Gostei do professor!!! 👏🏾👏🏾👏🏾

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    2. Sim, em agosto passado

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  3. Não foi no Carrefour que, um dia desses, um funcionário terceirizado morreu num dos corredores da loja e eles só taparam o corpo e continuaram com a loja aberta como se nada tivesse acontecido?

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  4. Excelente post Tony parabéns!Devemos combater cada vez mais o racismo estrutural,esse que de fato nem percebemos que são racistas e faz a violência contra os negros ser bem maior que contra os brancos,mas penso que pelo fato do Brasil nunca ter tido oficialmente uma segregação racial,apesar de vc nunca ver negros morando nos Jardins, Ipanema,Copacabana,já vi a Preta Gil falar em entrevistas que ela e seu saudoso irmão Pedro eram os únicos negros da escola privada que estudavam na Zona Sul do Rio,penso que essa segregação não oficial fez com que muitos brasileiros combatessem o racismo firmemente,a obra do Gilberto Freyre "Casa Grande e Senzala" ajudou a perpetuar essa falsa democracia racial, precisamos ter uns Panteras Negras aqui,um Black Lives Matter,Malcolm X,Martin Luther King,que veja só era pastor evangélico,nem todo pastor é um reacionário de extrema direita

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  5. O crime ocorrido não teve nada a ver com racismo. O morto era mulato claro. Os assassinos também. Foi apenas uma briga com consequências trágicas.

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    1. Você acha mesmo que se João Alberto fosse branco, ele teria sido espancado daquele jeito?

      Tanto houve racismo que um racistinha de merda como você finge que não entendeu.

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    2. Foi racismo sim,o fato dos assassinatos não serem brancos e sim mestiços só reforça a ideia de racismo estrutural,os próprios mestiços,mulatos,expressão que não gosto de usar pelo fato de uma interpretação afirmar que a origem é de mula,apesar de uma outra interpretação afirmar que essa foi uma incorporação do árabe a língua portuguesa na época moura da Península Ibérica,mulato viria do árabe mullahawad que significa mestiço de árabe com não árabe,a expressão foi adaptada para a mistura dos brancos e negros no Brasil Colonial,mas mesmo os tais mulatos tbm podem se achar brancos e serem racistas ,o Ronaldo Fenômeno já disse que é branco,o Neymar tbm,apesar que o Neymar aprendeu na prática que não é, depois que foi chamado de macaco por um zagueiro rival em um jogo do campeonato francês,aí sim ele finalmente se manifestou contra o racismo

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    3. Briga? O cara foi covardemente espancado! Vc é lixo.

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  6. Um caso de truculência não significa racismo. Devemos evitar se precipitar e fazer julgamentos sem todas as informações. Homicídio não é racismo.

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    1. Me cita aí, seu racista de merda, um único caso de um branco espancado até a morte por seguranças de um supermercado.

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  7. “O dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo desaparece”. Morgan Freeman.

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    1. Não basta ser um racistinha de merda. Também tem que ser desinformado.

      https://quadronegro.blogfolha.uol.com.br/2020/11/20/a-direita-no-brasil-nao-sabe-mas-morgan-freeman-mudou-de-ideia-a-respeito-do-racismo/

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  8. Assista à série Black ish na Amazon. É enlatado americano com família negra. Era o tipo de série que eu deixava rolando como som de fundo enquanto almoçava pois não exigia concentração. Mas depois percebi que ela introduzia boas discussões sobre racismo. Infelizmente, não consigo imaginar, no Brasil, alguma TV fazendo uma série do tipo.

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  9. Hj vi uma reportagem de que o Beto deu o soco primeiro no segurança e tinha 15 passagens pela polícia,mas de qualquer modo foi um excesso sim inspirado no racismo poderiam tê-lo imobilizado e chamado a polícia

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    1. Vai surgir de tudo inclusive que ele matou ele.
      Tem duvidas???
      G-

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  10. E uma das acusações ao João Alberto era de violência doméstica,bater em mulher,mas não justifica ele ter sido morto covardemente,se cometeu delito que pague através da lei,não estamos mais na antiguidade para defender olho por olho,dente por dente

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