segunda-feira, 2 de novembro de 2020

DÁ O PÉ, LOURO

Os brasileiros temos uma relação complicada com a morte. Somos emotivos demais, e qualquer coisa que não seja um elogio explícito ao falecido é vista como ofensa por muita gente. É o que está acontecendo com a minha coluna de ontem no F5, em que eu fiz uma análise do fenômeno Louro José. Em nenhum momento eu questionei o talento do Tom Veiga. O texto nem era sobre ele, de quem o público sempre soube muito pouco. Também disse que o Louro era divertido e trazia leveza para o programa de Ana Maria Braga, falando coisas que ela não poderia dizer. Mas muitos internautas se fixaram na chamada, que menciona a infantilização da TV aberta brasileira, e partiram para cima de mim. Curioso é que a própria Ana Maria conta que o Louro foi criado para atrair as crianças... Fantoches existem na TV desde os primórdios, mas são raros os voltados para o público adulto (houve programas satíricos na Grã-Bretanha e na Argentina, por exemplo, em que políticos e celebridades eram representados por bonecos). Um papagaio falante ao lado de uma senhora tem algo de infantil, sim, mas talvez essa garotada não perceba porque não tem referência do que existia antes (eu cito a TV Mulher na matéria, que tinha uma pegada inegavelmente adulta). E aí, rola um efeito de manada. Alguém acha ruim, me xinga, e centenas de outros se sentem autorizados a me xingar também. A imensa maioria, sem nem ter lido o texto. O grosso da pancadaria rolou (e ainda está rolando) no Twitter, mas também teve quem entrasse no meu Facebook, no meu Instagram e aqui no meu blog. Sem falar do meliante que me mandou 10 vezes por SMS um suposto código para alterar a senha da minha conta no Twitter, na vã esperança de hackeá-la. Agora tenho uma ideia melhor do que o Zeca Camargo passou por causa daquele texto sobre a reação da mídia à morte de Cristiano Araújo, que, enquanto vivo, estava longe de ser um cantor conhecido em todo o Brasil. Enfim: Tom Veiga era um gênio e sua interação com Ana Maria, incrível. Sua morte precoce é de uma tristeza sem fim. Dito isto, eu não retiro uma palavra do que escrevi na coluna.

29 comentários:

  1. Hoje em dia, as pessoas precisam urgentemente de um alvo para despejar suas frustrações e raiva. Infelizmente, vc acabou sendo ele. Aguenta aí que daqui a pouco isso passa.

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    1. Tem razão. Tudo frustração acumulada... O que pode ser bastante perigoso. Enfim, não podemos controlar ninguém, e que bom por isso. Mas, acima de tudo, é necessário e transformador ter clareza sobre o porquê disso acontecer

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    2. O texto não tinha nada depreciativo contra o Louro José.
      Mas o timing foi péssimo.
      Em meio a uma morte súbita, que causa dor e espanto, ficou parecendo uma reportagem oportunista da Folha de São Paulo, com um imenso clickbait no título.

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    3. Uma das minhas funções é ser clickbait: atrair leitores para o F5. Cumpro essa tarefa com galhardia.

      Mas não foi pensando nisso que escrevi aquela chamada. Acho MESMO que o Louro José é um sintoma de infantilização. A própria Ana Maria contou que ele foi criado para atrair crianças para o programa, não entendo porque tanta celeuma.

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    4. O momento foi de mal gosto.

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  2. Que inveja da senhora, nova bruxa má da internet. Eu tb queria ser tão poderosa a ponto de fazer várias pessoas deixarem de viver a sua vida para me dar atenção (mesmo que negativa).

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  3. Adoro quase tudo que vc escreve. Seus textos são sempre muitos claros, não tem muitas entrelinhas, o que está escrito é o que é, e esse texto não foi diferente; muito bem escrito e não há inverdades ali, nem ataques a memória do ator. Mas como o texto faz críticas a uma postura da tv, do qual o ator era um expoente, as pessoas tomas as dores, e talvez esse tenha sido seu erro. Se o texto tivesse sido publicado uma semana antes estaria tudo ok. Infelizmente nossa população não sabe mesmo interpretar um texto, mas vc, que sabe muito bem disso, poderia ter tomado um outro caminho. Esse tipo de sensibilidade tb é importante ter. Normal, ninguém acerta o tempo todo.

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  4. "...o espectador da TV aberta de hoje é bem menos sofisticado que o de 30 ou 40 anos atrás." se os gen-x desconstruíram o conceito de mulher, família, etc; os millennials mataram o que sempre entendemos por "adulthood".

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  5. Essa agressão descabida é uma comprovação da infantilidade da sociedade brasileira, o que esperar de uma sociedade que institucionalizou a "expressão" mi-mi-mi como forma de contrargumento?

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  6. O dia inteiro falando na TV da morte do intérprete de um boneco de borracha de um papagaio. Nem sabia o nome do cara. Lamento pela família, amigos e colegas. Mas é pouco muito, nénão?

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  7. Eu sempre fui O fanfarrão da Internet até a instituição dessa rede de cancelamento. Hoje minha participação é zero.
    Tenho percebido que de uns anos pra cá vc mesmo tem entrado nessa mesma onda. Se esquecendo que o que a gente acha é uma verdade nossa, não absoluta.
    Louro e Ana Maria fazem parte de uma época mais animada e esperançosa do país, além de estarmos no dia de finados. Hoje muitos se lembram dos queridos que partiram.
    Fazer crítica de TV nesse momento ... Demais né ?!

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    1. A Folha me pediu uma análise do Louro José. Eu fiz.

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  8. O Mio Babbino Caro
    Acredito que essas reações estão dentro do atual quadro de estupidez Nacional onde uma crítica não é vista como um exercício de interpretação, entendimento, avaliação mas como uma ofensa. Aquilo que em muitos casos é mostrar, questionar o leitor, argumentar. Porem isso atualmente se tornou uma ofensa para essas pessoas em seus castelos de arrogância aonde aquilo que não entendem, não concordam por preguiça intelectual ou limitação é respondido de forma violenta e agressiva.

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  9. Eu, AINDA, não li a matéria. Vi a chamada e cheguei até aqui. E será outra experiência ler o seu artigo, depois dessa publicação aqui. Mas de antemão, já deixo o registro de parabéns por seu sacrifício em defesa da empresa, COATUMAZ, dessa tática de chamadas canalhas. E sobre isso você não diz uma linha. Fica aí o questionamento.

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    1. A chamada do F5 é minha, não da Folha. Não há "tática contumaz" nenhuma, meu caro.

      A Ilustrada mudou o título da matéria para a publicação no impresso, por uma questão de espaço. E adivinha: tirou o "infantilização da TV aberta" da chamada (mas não do texto)

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  10. Você está coberto de razão, mas quando eu li a chamada da sua coluna no F5 eu já tinha 100% de certeza de que o resultado seria esse. Não é possível que você não pudesse imaginar. Tem a maior cara de que foi intencional, e talvez isso tenha sido captado por parte do público.

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    1. Não, não imaginava. Fico surpreso de tanta gente achar que uma mulher de 70 anos interagindo com um boneco não tem nada de infantil.

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    2. O caso é parecido com o daquele cantor sertanejo que ninguém conhecia, lembra? Acho até que foi o Zeca quem escreveu a respeito e se enrolou todo depois. Claro que o papagaio era infantil, que o programa é patético e tudo mais... mas não era a hora de falar essas coisas. Mesmo sendo junto e correto, o texto feriu uma sensibilidade cultural. Só isso.

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    3. Pra vocês verem que até aqui no blog tem gente que comenta sem ter lido o post.

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    4. Li o seu texto no F5 e não vi nada demais, nada de ofensivo...Acho que atualmente as pessoas procuram qualquer pretexto pra arranjar treta na internet, virou o passatempo dos medíocres e frustrados, ofender estranhos, principalmente se esse estranho é mais bem-sucedido que ele. E sim, parece que o nível de tudo só desce a ladeira...

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  11. Pelo contexto,dele estar em depressão por ter se divorciado há um mês,ele já tinha esse histórico e como ontem os noticiários não divulgavam a causa da morte,pensei que ele teria cometido suicídio,mas hj foi divulgado que a causa da morte foi um AVC,lamento muito,sim o personagem tinha um ar infantilizado sim,foi criado para atrair o público infantil,eu nunca acompanhei o programa ´´Mais Você,até pq nesse horário eu sempre estou trabalhando,mas sempre o achei talentoso ainda mais pq o Tom Veiga nunca teve nenhuma formação teatral,trabalhava nos bastidores do programa ´´Note e Anote´´ no tempo que a Ana Maria ainda estava na Record e pelo seu bom humor e carisma com os colegas foi o escolhido para dar vida ao Louro José

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  12. Não cito esse caso específico, pois nem vi a chamada, mas o UOL e Folha têm forçado a barra na criação de baits. Quando a gente vai ler nos deparamos com todo tipo de decepção.

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  13. O Brasil é um País de analfabetos funcionais!!!

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  14. seu texto do louro josé até que está ok, dífícil mesmo foi ler o texto que você (sendo um grande roteirista) dizia não gostar da obra de Chesperito, o maior roteirista de comédia latinoamericano que inventou o melhor personagem de comédia (chaves). Tanto que até hoje não acredito que aquela era sua opinião de verdade, acho que foi um pouco de inveja, dor de cotovelo pelo seu colega de profissão.

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    1. Vixe!
      Não bastasse toda merda rolando ainda lá vem a bixa desenterrar defunto em pleno finados.
      G-

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  15. Tony... primeiro essa "brasileiros temos/somos" não. Os brasileiros lidam com a morte como podem. Pessoalmente acho essa coisa meio catarse (chorar alto, se descabelar) bem mais saudável do que a alternativa francesa de reter as emoções ao máximo e depois se entupir de antidepressivos. Enfim, cada cultura tem uma forma de lidar com vida e morte.

    Segundo... desculpa, o teu artigo foi "tony deaf". (:D) O titulo foi pesado considerando-se o contexto (pandemia, morte inesperada, fim de um personagem com o qual o publico tinha uma relação) e incitava uma reação do leitor. Incitou a mim, que moro a 10 000km faz quase uma década e pensei automaticamente "Hmm Zeca Camargo e aquele cantor sertanejo cafona"! A tua analise é pertinente, mas ela teria tido a mesma recepção se tivesse sido publicada duas semanas atras? Ou em dois meses? Voilà.

    Querido, não da para bancar o Houellebecq e não esperar a reação qui va avec. Pensa no prazer que você terá daqui a alguns meses de falar "Ah finalmente você entendeu o que eu quis falar". :)

    Coragem,
    Fer.

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  16. Carla Vilhena precisando apelar pra jogar pra platéia e falar mal de Tony pra ser notícia é a atualização definitiva do “morreu ou tá na Record”: estar na CNN Brasil.

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  17. A triste verdade é que esta geração atual é mais ignorante e infantilizada. Nos anos 70 e 80 tínhamos a TV Globinho com a Paula Saldanha falando de ECOLOGIA. E a TV Mulher falando de política e orgasmo as 11h da manhã!!! Hoje temos uma idosa que falava com um papagaio de espuma e uma jornalista (Fátima Bernardes) falando nada...sobre nada!!!

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