segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A MOSTRA EM CASA - 3

Bati um recorde negativo. Assisti a apenas 13 filmes na Mostra de SP, quando costumo ver pelo menos uns 20 todo ano. Dois fatores influíram. O primeiro foi que sé me deu febre de festival na segunda semana, quando consegui entrar no Mostra Play pela minha TV. O segundo foi a seleção de filmes. Não tinha nenhum que estivesse descabelado para ver, e gostei para valer de só três:o documentário "Welcome to Chechnya", o iraniano "Não Há Mal Algum" e o português "Mosquito". Este último é o "1917" luso, até porque a ação se passa em... 1917. Um soldado de Portugal enviado a Moçambique, então ainda colônia, se perde do batalhão, e faz uma viagem iniciática ao cruzar o país africano. Ele cruza com feras, com um colega alemão tão desgarrado quanto ele, com uma aldeia onde só há mulheres e com mosquitos que lhe transmitem malária. No fundo, ele também é um mosquito: um pequeno intruso mal-vindo, capaz de provocar um grande estrago. A direção de Joâo Nuno Pinto é fenomenal, com ângulos inusitados, planos belíssimos e uma trilha eletrônica (!) que só irrompe em momentos-chave. Quem perdeu ainda tem esperanças. "Mosquito" é uma coprodução com o Brasil, e deve estrear (algum dia) nos nossos cinemas. Quando isso finalmente acontecer, irei ver de novo.  
"Luxor" é quase um episódio desse programas de viagem do GNT, com um fiapo de história unindo as belas paisagens egípcias. Uma médica inglesa que trabalha na guerra civil da Síria parte de férias para o Egito, onde viveu parte da infância e da juventude. A ONG para a qual a moça trabalha deve pagar muito bem, porque ela se hospeda no caríssimo hotel Winter Palace, o Copa de Luxor. Nesta cidade ao sul do Egito, onde se encontram alguns dos templos mais espetaculares do mundo, ela revê um antigo namorado local, e fica naquele chove-não-molha. Como no deserto chove pouco, o espectador sai sequinho desse filme.
   
E já que estamos às margens do Nilo, vamos subir o rio até suas nascentes, no coração da África. "Nossa Senhora do Nilo" se passa num colégio católico para as filhas da elite de Ruanda. A trama se passa em 1973 e prenuncia o massacre da etnia tutsi por seus rivais da etnia hutu, que chocou o mundo em 1994. O curioso é que, para meus olhos destreinados, os hutus e os tutsi são idênticos em tudo, tanto na cultura como na aparência física. O diretor afegão Atiq Rahimi mostra como os europeus incentivaram inimizades inexistentes em suas colônias, com consequências trágicas. Seu longa me levou para uma realidade que eu desconhecia, mas não chegou a me empolgar.
  
O fogo baixo também deixa morno "Mães de Aluguel", o filme de Naomi Kawase que irá representar o Japão no próximo Oscar. Apesar de durar quase duas horas e meia, o filme não chega a ser arrastado. Ele simplesmente não tem pressa em contar sua história, que nem é das mais incendiárias. Um casal adota uma criança através de uma agência; anos depois, aparece uma moça dizendo que é a mãe biológica do garoto. Kawase enfia flashbacks sem claquete no meio de sua narrativa, e às vezes foi difícil entender o que aconteceu antes do quê. O resultado é bonitinho, mas não muito memorável.

Um comentário:

  1. Amo tanto o Tony, gente!!!

    Que post gostoso de ler, né!?! Em qualquer outro lugar, vc tem que pagar para ler uma crítica dessa.

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