segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A MOSTRA EM CASA - 1

Consegui entrar pelo Fire Stick no site MostraPlay, o streaming da Mostra de Cinema de São Paulo. O resultado é que eu vi na TV quatro filmes neste fim de semana, e verei outros tantos até o final do evento. Mas, como sói acontecer, nem todos foram bons. A seguir, algumas rápidas resenhas dos que eu já vi:
  
Proibido em seu Irã natal, "Não Há Mal Algum" venceu o festival de Berlim, e digo que mereceu mesmo sem ter visto os concorrentes. É um trabalho belíssimo no conteúdo e na forma, e uma crítica contundente - ainda que indireta - à brutalidade da república islâmica. O longa de Mohammad Rasoulof na verdade é composto por quatro curtas-metragens, que encaram a pena de morte a partir de um ponto de vista inusitado: o dos carrascos. As mini-tramas abordam desde a banalidade do mal até graves crises de consciência, e são filmadas de maneira elegante, sem artifícios. Alguns atores tem cara de brasileiro, o que serve para nos aproximar daquela realidade tão distante. Ainda tem ingressos: corra, vai te fazer algum bem.
  
"Stardust" tinha pinta de ser o "Bohemian Rhapsody" de David Bowie. Só que se trata de uma biografia não-autorizada, o que significa que não tem NENHUMA música composta por seu biografado. Para piorar, o roteiro não aproveita essa liberdade para contar nada muito ousado ou inédito sobre Bowie. Toda a trama se passa em apenas  um ano, 1971, quando o cantor já tinha emplacado um hit, "Space Oddity", mas ainda estava longe de ser famoso. Ele então embarca numa tour pelos EUA para promover o álbum "The Man Who Sold the World", mas não consegue fazer um único show porque não tem visto de trabalho. O Bowie de "Stardust" é um palerma. Não sabe nada da vida prática e fica rindo feito bobo diante de qualquer problema. Há um subplot sobre a loucura do irmão, que influenciou muito a obra bowiana ("a lad insane"), e um pouco sobre a relação com Angie, a primeira mulher. Mas o filme acaba justamente quando nasce Ziggy Stardust, a persona que catapultou David Bowie ao estrelato. Uma escolha inexplicável, que resultou numa patacoada indigna de um dos maiores nomes da música pop de todos os tempos.
 
Eu nunca tinha visto um filme de Tsai Ming-Liang antes de "Dias". Não sabia que esse diretor malaio de origem chinesa gosta de compor tableaux, com a câmera parada sobre uma cena onde, muitas vezes, não acontece quase nada. Isso faz com que este longa rodado em Bangkok seja até prático para ser visto em casa. A gente olha para a tela, confere o celular, vai até a cozinha e, quando volta, o tableau ainda não mudou. Tudo gira em torno do encontro entre um homem mais velho e um garoto de programa. Há uma cena de sexo sem nu frontal mas com um orgasmo que parece bastante real, e um clima lírico envolvente. Só não sei se eu teria adorado ou achado um saco se tivesse visto "Dias" no cinema. 
"O Charlatão", escolhido pela República Tcheca para disputar uma vaga no próximo Oscar, tem tudo para ficar entre os finalistas. A Academia vem demnstrando uma quedinha por filmes do leste europeu, ainda mais se a ação se passar na Sgeunda Guerra Mundial. Além disso, a diretora Agnieszka Holland já foi indicada outras vezes e trabalha com frequência em Hollywood. o roteiro dramatiza a história real de um curandeiro especializado em ervas, que tratou e curou milhares de pessoas sem jamais ter se formado em medicina. Mas ele acaba caindo em desgraça com o governo comunista, talvez por sua mal-disfarçada viadagem. Muito bem filmado mas sem maiores ousadias, é cinemão do bom, apesar do final insatisfatório.

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