quinta-feira, 26 de novembro de 2020

COMO RENDE ESSA COROA

Já fiz crítica para a Folha de S. Paulo da quarta temporada de "The Crown", já fiz participação no "Metrópolis" comentando a série da Netflix  e hoje saiu mais uma colaboração minha para o canal Manual do Tempo falando de, adivinha? É o que dá ser testemunha ocular da história e fissurado num pageantry.

GLENDA, A LENDA

Não me lembro de ter visto um filme com Glenda Jackson. A atriz inglesa ganhou dois Oscars no começo dos anos 70, por filmes que eu ainda era pequeno demais para assistir. Depois, engatou uma carreira política e passou anos como member of Parliament, sempre pelo partido Trabalhista. Só voltou a atuar alguns anos atrás, e preferiu o teatro. Ganhou até um Tony, e esta semana levou o Emmy Internacional - desbancando nossa Andréa Beltrão, que concorria com a minissérie "Hebe". Mas Glenda, além de estar fabulosa em "Onde Está Elizabeth?", já alcançou o status de lenda. Esse telefilme produzido pela BBC está disponível no Telecine Play e é quase uma história de detetive. A protagonista é uma mulher com princípios do mal de Alzheimer. Quando sua melhor amiga desaparece sem deixar notícia, ela inicia uma investigação particular, lutando contra a própria memória falha, e acaba literalmente desenterrando um grande segredo do passado. O mais aflitivo é que a narração toma o ponto de vista da idosa: só sabemos o que ela sabe, e olha que ela sabe bem pouco. Mas Glenda Jackson sabe tudo, e agora eu a tenho no currículo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

CARAMBA, QUE PESADELO

Fui procurar o comercial que Maradona estrelou para o Guaraná Antarctica e me surpreendi com a data: foi feito para a Copa de 2006. Tampouco lembrava que Ronaldinho e Kaká também participavam. Imagina a a baba que custou essa brincadeira? Uma criação genial da agência Duda Propaganda, feita antes de Duda Mendonça manchar sua reputação com rinhas de galo e caixa dois. Me deu saudade da época em que a propaganda movimentava verbas imensas e superproduções como esta eram possíveis. Foi só um sonho, e já passou.

LA MANO DE DIÓS

A morte de Diego Maradona aos 60 anos de idade (ele era apenas 10 dias mais jovem do que eu) encerra uma das trajetórias mais acidentadas da história do esporte de todos os tempos. Infelizmente, o caso dele não é raro: só aqui no Brasil, me vêm imediatamente à cabeça as figuras de Garrincha e Sócrates, dois grandes craques que sucumbiram ao alcoolismo. Já a fissura de Maradona era mesmo cocaína, uma droga que quase nunca mata por overdose. O estrago do pó costuma ser a longo prazo. Maradona viveu uns 20 anos de calvário, praticamente toda sua vida depois de deixar os campos. Como espectador bissexto que sou, para mim seu momento mais marcante foi o suposto gol de mão que derrotou a Inglaterra e levou a Argentina à final da Copa de 86. Mas reconheço o imenso talento - e não, ele não era melhor que Pelé, mas, provavelmente, mais interessante e mais divertido. Talvez até risse da confusão que está rolando no Twitter neste exato momento, onde a hashtag Madonna subiu aos trending topics. A garotada desinformada entendeu que quem morreu foi a rainha do pop...

terça-feira, 24 de novembro de 2020

DISCO PANDEMIA

Hoje saíram as indicações ao Grammy. Como faço todo ano, corri para a categoria de canção Dance/Electronica. Sempre tem alguma coisa bacana que eu ainda não conhecia. Este ano, a única música que eu já tinha era "My High" do Disclosure, que nem é a minha favorita do álbum "Energy". É a provável vencedora. A dupla inglesa também emplacou uma indicação a álbum eletrônico, e já ganhou uns Grammys no passado. As demais, ainda estou me acostumando. Me chamou a atenção a pegada vintage das faixas de Jayda G e Kaytranada - um nome que, até eu precisar escrever, sempre li como Katyrananda. Alguém mais?

O BOULOS ESTÁ CRESCENDO

Acordei no meio da noite e lá estava a notícia na tela do meu celular: Bruno Covas está com 55% das intenções de votos válidos e Guilherme Boulos, com 45%. O candidato do PSDB não saiu do lugar, enquanto que o do PSOL está crescendo. Não chega a ser uma surpresa. Com mais tempo na TV, Boulos pode se mostrar melhor, mas Covas não tem muito a acrescentar ao que já disse. Só defender seu vice horroroso, acusado de corrupção e violência doméstica e inimigo declarado da imaginária ideologia de gênero. Uma escolha de Doria para facilitar a coalizão com que ele pretende concorrer em 2022, mas um fardo pesado para o atual prefeito. É maravilhoso que a disputa em São Paulo passe longe do birolirismo, e melhor ainda que uma esquerda pós-Lula esteja se consolidando. Do jeito que a coisa vai, a eleição de domingo será decidida no photochart. Ou não, se esse bolo continuar inflando. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O MIX EM CASA

Estou com excesso de opções de entretenimento. Além de TV aberta, TV paga, Netflix, Amazon Prime Video, Globoplay, Now, Fox Premium, Starzplay e Apple TV +, agora também tenho Disney +. Isto fez com que eu quase me esquecesse do Festival Mix Brasil. Até sábado, eu só tinha visto um único filme, "7 Minutos", que rendeu uma coluna minha no F5. Foi então me toquei de que o Festival Mix Brasil iria terminar no dia seguinte, e taquei a ver o máximo de filmes possíveis. Consegui ver três, todos online. O que mais gostei foi o chileno "Os Fortes" - não por acaso, o único que mostra dois rapazes se pegando. O roteiro não tem pressa em revelar o conflito central. Um cara volta depois de muitos anos para sua cidade natal, no sul do Chile. Em meio a paisagens espetaculares, ele se envolve com um local. E agora? Volta para Santiago, onde está seu trabalho, ou fica na cidadezinha de onde fugiu um dia? O que você faria?
Assim como "Os Fortes", o americano "Shiva Baby" também foi baseado em um curta-metragem. É desse curta o poster aí do lado: o filme é tão recente que ainda não tem cartaz nem trailer. A história parece ter sido criada por um Woody Allen feminino e mais moderno. Uma sugar baby, sustentada por um homem casado, vai a um funeral judaico - o shivá do título - junto com seus pais. Lá, dá de cara não só com seu sugar daddy e família, como também com sua ex-namorada. A ação se passa quase todo nessa único evento social e tem ótimos diálogos e atuações. Também é bem curtinho: são só 77 minutos, Jeová seja louvado. Ah, e atenção, Glee-maníacos: Dianna Agron está no elenco.
"Lingua Franca" foi uma certa decepção. Acho que foi a primeira vez que eu vi um filme escrito, dirigido e estrelado por uma mulhertrans, a filipina Isabel Sandoval. Ela faz uma cuidadora de idosos que está aflita para arranjar um casamento branco e conseguir o green card para ficar nos Estados Unidos. Quando o sujeito que ia se casar com ela dá para trás, a protagonista se engraça com um neto de uma de seus clientes (Lynn Cohen, a Magda de "Sex and the City", que morreu no começo deste ano). E aí, surge a trama mais antiga do gênero: ele não sabe que ela é trans. Esperava mais tanto do longa como da plataforma Innsaei, que trava o tempo todo, mas até que esse foi um bom Mix.

A LOUCA DA PADOCA

Os vídeos em que a "advogada internacional" Lidiane Biezok aparece destratando funcionários e clientes de uma padaria em São Paulo viralizaram nas redes sociais durante o fim de semana e foram parar até no "Fantástico". A cena toda é tão patética que a moça parece mesmo acometida por algum transtorno psicológico ou estar sob o efeito de drogas, legais ou não. O mais indicado num caso desses talvez fosse tentar acalmá-la e telefonar para algum parente vir buscá-la. Mas entendo a comoção geral: ninguém mais aguenta ser abusado por uma burguesa branca que arrota superioridade. Lidiane agora pede desculpas e diz ser bipolar, mas também alega que foi "encurralada" e que é a verdadeira vítima. Muito mais digno seria apenas assumir que errou e que toma remédios fortes, sem choramingar que foi "tirada de contexto". O caso, claro, é um contraste absoluto com o assassinato de João Alberto, ocorrido apenas um dia antes. Já pensou se Lidiane fosse negra e tivesse dado seu piti numa loja do Carrefour?

domingo, 22 de novembro de 2020

QUE MANK-ADA

Vou ter que ver "Mank" de novo. Todas as críticas que eu li até agora falam que é o filme do ano, e eu não achei lá essas coisas. Estava tão louco para ver que não esperei estrear na Netflix, daqui a menos de duas semanas. Morri num ingresso de cinema e encarei de máscara a sala quase vazia. Talvez tenha sido este o meu erro. A imagem estava escura demais e o som, muito baixo - detalhes que, em casa, eu regularia num instante. Isso ajudou que eu não fosse tragado pela tela, por mais que seja esplendorosa a fotografia em preto e branco. O novo filme de David Fincher conta a história de Herman Mankiewicz, o roteirista de "Cidadão Kane", e roteiristas não costumam protagonizar boas histórias. Porque quase tudo o que eles fazem é escrever, não exatamente algo excitante de se ver. No caso de Mank, ele também bebe pacas, a ponto de irritar seus poderosos patrões e sabotar a si mesmo. Quem for esperando ver Orson Welles ou mesmo alguma fofoca do making of do "maior filme de todos os tempos" vai sair decepcionado. "Mank" é mais sobre a velha Hollywood como um todo, onde ninguém é inocente e todo mundo tenta tirar vantagem dos demais. Os atores estão fantásticos e ninguém mais que Gary Oldman no papel-título. "Mank" vai receber uma saraivada de indicações ao Oscar e fatalmente levar alguns, e eu não posso continuar fazendo papel de bobo. Vou ter que ver de novo.

sábado, 21 de novembro de 2020

FALAS NEGRAS IMPORTAM

O especial "Falas Negras" já tinha tudo para ser um marco na história da TV brasileira. A ideia de Manuela Dias, autora de "Amor de Mãe", é simples e genial: uma compilação de textos e depoimentos de grandes figuras negras, ao longo de cinco séculos de luta contra o racismo, a escravidão e a injustiça, transformada em monólogos dramáticos nas bocas de alguns dos maiores atores negros do Brasil. E aí, o que já era importante virou urgente. O assassinato de João Alberto Silveira Freitas por dois seguranças de um Carrefour de Porto Alegre transformou  o dia 20 de novembro de 2020 num ponto de inflexão: nada será como antes. Assim, o programa dirigido por Lázaro Ramos se transformou num manifesto político, num grito de revolta, num chamado às armas e numa catarse coletiva.

Senti falta de mais contextualização. Muitos dos vultos retratados são pouco conhecidos. Essas informações constavam dos e-mails que a divulgação da Globo mandou para a imprensa, mas precisavam ter aparecido na TV. Talvez no final, junto com a identificação de cada ator junto ao seu personagem. E que atores, hein? Eu não conhecia a metade. Como pode, tantos talentos enormes ainda serem tão pouco conhecidos? Ah, sim, tem o tal do racismo estrutural. O tom solene do início foi aos poucos dando espaço à mais pura emoção, e foi impossível segurar as lágrimas quando surgiram Silvio Guindane e Tatiana Tibúrcio, como, respectivamente, os pais de João Pedro e Miguel, crianças mortas pela violência e pelo descaso dos brancos. A fabulosa Tatiana, a quem eu nunca tinha visto, também foi a preparadora do elenco, e me deixou arrepiado até agora. "Falas Negras" é um programa para se rever, guardar e discutir. Já entrou para a história, mas só alcançará seus objetivos se também entrar para o dia-a-dia.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O DIA DA CONSCIÊNCIA DO RACISMO

Os roteiristas que escrevem a atual temporada do Brasil são conhecidos pelas ideias absurdas e inverossímeis. Uma ema que bica a mão do presidente que lhe ofereceu cloroquina? Get outta here! Um senador que esconde dinheiro no cu? Vá tomar lá mesmo! Mas, dessa vez, nossa sala de roteiro seguiu na direção contrária. Decidiu abrir o Dia da Consciência Negra com uma notícia óbvia, repetitiva, cuja falta de sutileza só se justifica se o objetivo era fazer com que todo mundo na plateia - inclusive quem não está prestando atenção - entendesse mesmo a mensagem dada: O BRASIL É UM PAÍS RACISTA.

A morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos espancado por dois seguranças de um Carrefour em Porto Alegre, desenha em cores berrantes o racismo estrutural brasileiro. Beto não era suspeito de ter roubado nada, nem de ter essa intenção. Foi um simples entrevero com o caixa que o fez ser arrastado para o subsolo da loja e apanhar até a morte. Não é a primeira vez que isto acontece no Brasil, nem mesmo no Carrefour. Que a empresa arque com todas as consequências, mas também não podemos achar que a culpa é só dela.

Apesar de cada vez mais gente disparar ofensas racistas nas redes sociais, pouquíssimos assumem o racismo na vida real. Acredito que a imensa maioria, na qual me incluo, se sinta mesmo livre de qualquer preconceito. Ouvimos desde pequenos que o Brasil é uma democracia racial. Um paraíso onde todas as etnias convivem pacificamente e onde não há uma única lei que justifique qualquer discriminação - um contraste proposital com os EUA, onde, até a década de 1960, ainda havia estados onde negros e brancos eram proibidos de se casar.

Muitos brancos se ofendem quando se fala em racismo estrutural. Respondem indignados que têm amigos negros, que nunca trataram mal ninguém, que votaram no Boulos e na Erundina. Mas este é o lado mais perverso do racismo estrutural: ele permite que um indivíduo branco não seja racista em seu dia-a-dia, porque seus privilégios já estão mais que garantidos.

Eu, que sempre me gabei de ser uma pessoa super legal, me flagro escrevendo roteiros onde não há um único personagem negro. Ou assistindo a filmes, novelas, comerciais de TV e não me tocando que não há um único negro em cena. Acho que melhorei um pouco, porque finalmente entendi que o racismo estrutural não só existe como me engloba, desde sempre. Este é o primeiro passo, mas faltam tantos que não sei se terei tempo de dar todos nesta vida.


O PAI DA MENTIRA

Marcelo Crivella está determinado a ser escorraçado da Prefeitura do Rio de Janeiro por um número recorde de votos. O bispo da IURD não só reforçou os laços com Biroliro, um reconhecido veneno eleitoral, como anda apelando para toda sorte de mentira e baixaria. Primeiro ele chamou Doria de viado, de maneira totalmente gratuita - só queria agradar aos minions. Ainda pior é o vídeo acima, que também bombou ontem. O PSOL não está apoiando Eduardo Paes, e de onde surgiu o dado de que o partido quer implantar a pedofilia nas escolas? Toda vez que a extrema-direita se vê sem argumentos, o que não é raro, ela apela para a pedofilia, e danem-se as provas. Mas a maré parece estar virando, e esse demônio do Crivella em breve sairá de cena. Só que é preciso manter a vigilância. A Igreja Universal do Reino de Deus ainda não desistiu de seu projeto de poder.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

MINHA PRIMEIRA WEBSÉRIE

Eu já tinha feito comerciais exclusivos para o YouTube, mas ainda não tinha me aventurado no mundo das webséries de branded content. Perdi a virgindade com a campanha de lançamento da loja flagship de O Boticário em São Paulo, apresentada pela Didi Wagner. Os quatro episódios de "Pinheiros na Essência" já estão no Instagram da Didi, no Vimeo e no Facebook. E no meu portfólio, é claro.

TRANS SIM, CIS NÃO

Uma das grandes narrativas que emergiram dessas eleições municipais foi o aumento de vereadorxs travestis e transexuais em todo o país. Em números absolutos, não foi nenhum tsunami. Segundo a Aliança LGBTI, 27 pessoas trans foram eleitas vereadoras, em sete estados brasileiros - entre elas, apenas um homem, Tammy Miranda, em São Paulo. Mas várias tiveram votações expressivas e alcançaram grande visibilidade. A estrela do grupo é, sem dúvida, a professora Duda Salabert (PDT), que sagrou-se como a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte, com mais de 37 mil votos. Duda, além de trans, é lésbica, casada há 13 anos com a mesma mulher e com quem tem uma filha. A campeã das urnas de Aracaju também foi uma mulher trans, Linda Brasil (PSOL). Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) saltou da Bancada Ativista, da Assembleia Legislativa do estado, para o posto de quinta vereadora mais votada. Quase todxs são de partidos de esquerda (uma exceção é Tammy, do direitista PL - lidem com isso). E todas, sem exceção, são corajosas e combativas, com atuações políticas que remontam a anos. Mas é claro que não é só o valor individual que explica esses triunfos todos. Trans e travestis se candidatam há anos, e mesmo nomes mais conhecidos como Léo Áquila e Silvetty Montilla jamais tiveram sucesso nas urnas. Uma parte do Brasil mudou - a mais jovem e antenada, sem dúvida - e está mesmo disposta a eleger políticos que não se encaixam no binarismo.

Muitos gays, lésbicas e bissexuais cisgêneros também foram eleitos, mas não estão causando tanto estardalhaço. Em São Paulo, Fernandinho Feriado (Patriotas) se reelegeu com facilidade. No Rio, Mônica Benício (PSOL), a viúva de Marielle Franco, também chegou à Câmara. BH, além de Duda, ainda tem uma lésbica e dois bissexuais cis - um deles, Gabriel Azevedo (Patriotas), foi reeleito com mais votos do que em 2016. Mas também me chamou a atenção a quantidade de bibas cis que deram com os burros n'água. Alguém saberia explicar a razão desse fracasso? Aqui em SP, além de Tiago Pavinatto, William De Lucca e Todd Tomorrow, tampouco Pedro Melo chegou lá. De nada adiantou seu impressionante cabo eleitoral: o sósia do Rodrigo Santoro teve pouco mais do que quatro mil votos. Que é muitíssimo mais, é claro, do que os 42 de Luiz Carlos "Cadê Meu Green" Lima, que concorreu em Guarulhos. Como o rapaz nunca perde a chance de passar vexame em público, está circulando por aí o áudio em que ele promete anular as eleições e destruir o arcabouço democrático brasileiro. Estou rindo e me sentindo culpado, pois parece caso para internação.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

UMA ESCOLHA BÁRBARA

Confesso que eu estava torcendo por "Marighella", um filme que eu ainda nem vi. Mas não ia ser demais ter a biopic de um militante negro da luta armada contra o regime militar representando o Brasil de Biroliro no próximo Oscar? Imagina os faniquitos do Mario Frias! Mesmo assim, fico feliz com a escolha de "Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou", o belíssimo documentário de Barbara Paz sobre seu falecido marido. Vi o filme na Mostra do ano passado, em pleno Theatro Municipal e com a presença da diretora, e estou impactado até hoje. Não acho que teremos muitas chances - documentários raramente têm - mas Babenco era querido em Hollywood, e isto pode ajudar. Agora, já pensou se a Bárbara ganha? Vencedora de um Oscar AND da primeira Casa dos Artistas?

OS MAIS BELOS ANOS DE UMA VIDA

É difícil descrever "Belle Époque", o filme de abertura do Festival Varilux de Cinema Francês, que começa amanhã. Trata-se de mais uma comédia de Nicolas Bedos, que estreou com o õtimo "Monsieur e Madame Adelman" em 2017, e novamente o assunto é um amor através dos tempos. O protagonista é um septuagenário (o ótimo Daniel Auteil) que, expulso de casa pela mulher que não o suporta mais, resolve reviver o momento em que os dois se conheceram, em 1974. Par isto, ele se utiliza dos serviços de uma empresa que constrói cenários realistas e contrata atores para reproduzir em detalhes a época desejada. E então, ele se apaixona pela moça que interpreta sua futura esposa quando jovem - algo meio difícil de acreditar, porque a moça é Doria Tillier, que tem uma beleza normal, e a esposa é ninguém menos que Fanny Ardant, ainda esplendorosa aos 72 anos de idade e tão deusa quanto sempre foi. Fanny levou o César de atriz coadjuvante (apenas o segundo de sua carreira), e o filme ainda faturou os de roteiro original e direção de arte. Também é cheio de pegadinhas, com sequências que parecem reais e logo se revelam encenações. Essa metalinguagem, mais a presença de várias estrelas do cinema francês, me fez lembrar da série "Dix Pour Cent", cuja 4a. temporada já estreou na França. E aí, Nettflix, quando é que esse ano estranho vai ficar mais belo?

terça-feira, 17 de novembro de 2020

OBAMA NAS ALTURAS

Não me lembro de outro ex-presidente americano que tenha dado uma entrevista exclusiva para um programa brasileiro de TV. Claro que Barack Obama está interessado em vender seu livro "Terra Prometida", lançado simultaneamente aqui e nos Estados Unidos. Isto não diminui em nada o prestígio de Pedro Bial, que o recebeu remotamente no "Conversa" desta segunda. Obama parece ainda melhor agora, depois de quatro anos de um alucinado na Casa Branca e dois de outro no Planalto. Sua lucidez e objetividade mostram que nem sempre fomos loucos, e dão esperança de que dias melhores estão chegando. Quando ele fala que um país que reprime suas mulheres está desperdiçando metade de seus recursos, eu vibrei: é exatamente isso o que os reacionários não entendem. Também está causando reboliço no Brasil a passagem do livro que diz que Lula lembrava "um chefão do Tammany Hall", comentada por Bial durante a entrevista. O termo quer dizer político mafioso, e Obama se sai bem explicando que queria descrever a complexidade do ex-presidente brasileiro. Ele próprio não é um sujeito cheio de contradições. Não houve um único escândalo de corrupção durante os oito anos de seu governo, e olha que os republicanos devem ter cavoucado muito. Obama é papo reto. Biden não tem um décimo de seu carisma, mas é um alívio pensar que os dois trabalharam juntos. E palmas pro Bial, que marcou mais um golaço.

A FAMÍLIA PERDE-VOTO

Carla Zambelli nem é a pior minion da Câmara (essa honraria cabe a Bia Kicis). A deputada por São Paulo apoia pautas que seus pares rejeitam, como a liberação da maconha medicinal. Acho até bom que ela apoie o desgoverno Biroliro porque, burra como uma porta, volta e meia a Carlinha entrega, na maior inocência, os malfeitos que se tramam nos bastidores. Nem por isto deixei de me regozijar quando soube que ela não conseguiu eleger o irmão, a cunhada e o pai. Parece que o brasileiro está se tocando e que os sobrenomes que se tornaram marcas registradas não fazem mais o sucesso de antes. Adivinha, por culpa de quem?

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O ENSAIO-GERAL

Biroliro começou sua campanha contra as urnas eletrônicas antes de sua vitória em 2018. Mesmo tendo vencido, ele continuou questionando a lisura do sistema, sem apresentar uma puta prova sequer. Não é só ele. Trump fez a mesma coisa nos EUA, assim que começou a pintar que ele não seria reeleito. O Bebê Laranja não reconheceu a derrota até agora, e duvido que irá reconhecer. Copiando seus cupinchas do norte, o gado brasileiro já está mugindo fraude nas redes sociais. Mas aqui, pelo que tudo indica, quem está por trás de maracutaia são os bolsomijons. O ataque de hackers ao STJ não teve outro objetivo além de descreditar as eleições de ontem. Bia Kicis, Carla Zambelli, Eduardo Bananinha et caterva só estavam esperando a senha para espernear no Twitter. Veja bem: ninguém atacou as urnas em si. Elas não estão conectadas à internet, portanto não têm como ser invadidas. Mas a tropa de choque joga com a ignorância do povo, e continua semeando a discórdia. O que aconteceu ontem foi um ensaio-geral para 2022, quando a cabeça do próprio Mijair estará a prêmio. Eles já estão se preparando, e é bom fazermos o mesmo. Só usam a democracia para chegar lá. Na hora de sair, apelam para mentiras, truques sujos e violência. A história nos ensina que a extrema-direita jamais deixou o poder de boas. 

O HOMEM DESPENCOU

Celso Russomanno cometeu a maior cagada de sua vida. Convidado a ser o vice na chapa de Bruno Covas, decidiu na última hora se candidatar a prefeito. Achou que o apoio explícito do Biroliro o ajudaria a manter a liderança nas pesquisas, onde sempre larga nas disputas eleitorais. Quando começou a despencar, errou de novo: dobrou a presença do Despreparado em sua campanha, e desatou a falar em Deus, pátria e família. Amargou um humilhante quarto lugar, com apenas 10% dos votos válidos - seu pior resultado nas três vezes em que concorreu à Prefeitura de São Paulo. Acredito que Russomanno iria perder de qualquer jeito, mas sua aliança como o Bozo tingiu sua derrota com tons de humilhação. Daqui em diante, deve se ater ao Legislativo, pois confirmou a fama de "cavalo paraguaio". É um baita alívio. SP escapou, mais uma vez, de se tornar um puxadinho da Igreja Universal, e levou para o segundo turno os dois sujeitos mais decentes na disputa, Covas e Boulos. Votei nesse último e pretendo votar novamente, mas não fico triste se o Covas ganhar. O maior defeito do tucano é seu vice, envolvido num escândalo de corrupção, acusado de violência doméstica e inimigo da imaginária ideologia de gênero. Já a vice de Boulos, Luiza Erundina, é a mulher mais íntegra da face da Terra. Mas, atenção: votar no PSOL não quer dizer que eu me bandeei para a esquerda. Também é um voto tático. Eu quero que o PT se enfraqueça ainda mais e perceba que com Lula não dá. Ontem o Brasil fez uma escolha fácil.

Quem despencou também, é óbvio, foi o Mijair. Além de afundar Russomanno na capital paulista, o Despreparado colecionou derrotas do Oiapoque ao Chuí. No Rio, viu o Zero-Três perder um terço de seus eleitores e sua ex-mulher Rogéria receber pífios dois mil votos. Em Angra dos Reis, a Wal do Açaí foi a 84a. mais votada. Dos 44 candidatos a vereador que o Pandemito apoiou, 33 já estão fora da disputa. Nas capitais, só dois ou três de seus apaniguados chegaram ao segundo turno, e menos ainda têm chances de vencer. Assim como nos EUA, a má gestão da pandemia e o destrambelhamento verbal também cobraram seu preço nas urnas. Coronaro perdeu sua aura de invencibilidade. Mas será que vai aprender alguma coisa? Dããã, é claro que não. Ele já está cantando uma vitória inexistente, atacando as urnas eletrônicas e, nos bastidores, atiçando o Gabinete do Ódio a pisar no acelerador. Que acelere. Tem mais paredes logo adiante.

domingo, 15 de novembro de 2020

A FAMÍLIA BUSCA-PÓ

Claro que eu náo aguentei esperar pelo dia 24, quando o filme estreia na Netflix, e fui ao cinema ver "Era Uma Vez Um Sonho". A causa desta ansiedade tem nome e sobrenome: Glenn Close, minha atriz favorita em língua inglesa, e ela não decepciona. Está quase irreconhecível como Mamaw, a avó casca grossa que só usa camiseta e calça comprida, fuma sem parar e fala palavrão na frente dos netos. É uma espécie de versão mais atual da vovó da "Família Buscapé", uma das séries que marcaram a minha infância. As duas matriarcas caipiras vêm da mesma região, os empobrecidos Apalaches, onde qualquer perrengue sempre foi resolvido a bala. Hoje aquilo lá é o coração da Trumplândia, e as coisas estão ainda piores com a circulação de drogas pesadas. São elas que derrubam a filha junkie feita por Amy Adams, formidável como sempre, mas a direção de Ron Howard é careta ao cubo. Um pouco mais de secura no tratamento aumentaria a carga emocional. Menos trilha sonora, menos locução em off, menos cenas telegrafadas. "Era Uma Vez Um Sonho" (como eu odeio esse título) é um bom filme, mas seria devastador nas mãos de um cineasta menos convencional. Essa debilidade faz com que Close nem seja mais a favorita ao Oscar de coadjuvante, ô dó. Mas claro que eu vou ver de novo no conforto de meu lar.  Agora falta pouco para o dia 24.

sábado, 14 de novembro de 2020

GAY TEM QUE VOTAR EM GAY

E aí, você já sabe em quem vai votar para vereador? Eu prometi que ia soltar um post apresentando alguns candidatos, e cá estou cumprindo a promessa. Um pouco em cima da hora, é verdade, e restrito apenas à cidade de São Paulo. Peguei um frila grande nos últimos dias, Deus seja louvado, e não tive tempo para me dedicar a uma pesquisa mais profunda. Mas apresento aqui três candidatos, todos gays assumidos e todos com propostas interessantes, bem diferentes entre si. Acho MESMO que gay tem que votar em gay, assim como preto tem que votar em preto e assim por diante. É importante ressaltar que nenhum deles faz da viadagem sua única bandeira, então não me vem com a desculpa de que "ah, não vou votar num cara tão limitado e nhenhenhé". Escolha o seu, ou procure mais.

Sou amigo do Tiago Pavinatto desde 2008, e acompanhei de perto seu despertar para a política. Ele tem ideias ótimas a granel, que merecem ser implantadas. Também anda com gente  de que eu não gosto, como o Mamãe Falei (são do mesmo partido, o Patriotas) e o Fernandinho Feriado, mas é mais consistente do que os dois juntos. Se você busca uma bicha de direita mas que hoje já execra o Biroliro, eis aqui seu candidato. Fora que ele é divertidíssimo.

William De Lucca, que me entrevistou em 2018 para o Brasil 247, milita no PT e ficou conhecido ao denunciar a homofobia no futebol (é palmeirense roxo). Quem é de esquerda e acha que Lula é inocente tem nele uma opção.
Todd Tomorrow é o único dos três que eu não conheço pessoalmente, mas nos seguimos um ao outro no Twitter. Votei nele em 2016, quando ele estava no PSOL. Este ano Todd mudou de partido - está no PDT de Ciro Gomes - e, além das boas propostas, agora também ostenta um feito e tanto no currículo: junto com a filha do Olavo, foi ele quem achou o Fabrício Queiroz. Em qual deles eu vou votar? Nananina. não vou revelar. Só digo que, por mim, todos os três mereciam ser eleitos.


ATUALIZAÇÃO: Olha o meu proverbial pé frio aí, gente! NENHUM dos três candidatos se elegeu. De Lucca teve 6.315 votos e ficou em 132o. lugar. Pavinatto, 3.296 votos, 222o. lugar. Todd (ele não usou o Tomorrow na urna), 1.720 votos, 356o. lugar. Parece que este post foi o beijo da morte...

SOPHIA PELA FRENTE

Sophia Loren faz parte de uma casta de estrelas de cinema que há décadas não ganha novas integrantes. Atrizes muito mais jovens, como Julia Roberts, Nicole Kidman ou Emma Stone, também têm beleza, glamour, talento, Oscars - mas nenhuma delas chega perto da aura de deusa que esta italiana ainda emite, aos 86 anos de idade. Uma aura tão forte que é perfeitamente visível em "Rosa e Momo", seu primeiro longa em uma década, em que ela aparece propositalmente desgrenhada e mal maquiada. Trata-se de um remake de "Madame Rosa", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1977, e ambos são baseados no romance "A Vida Pela Frente", de Romain Gary - um título poético que a Netflix fez questão de jogar fora no Brasil. La Loren toma para si o papel que foi de Simone Signoret, o de uma ex-prostituta judia que montou uma espécie de orfanato na própria casa, cuidando dos filhos de outras putas e marginalizadas em geral. A ação também foi transferida para a Bari dos dias de hoje, uma cidade do sul da Itália que é a porta de entrada na Europa para milhares de imigrantes africanos. E o garotinho órfão que tem tudo diante de si, que já era muçulmano e se chamava Momo (apelido de Mohammed), agora também é do Senegal. Esse tipo de relação, entre uma criança abandonada e uma mulher mais velha de coração endurecido, já serviu de mote para dezenas de filmes (inclusive "Central do Brasil"), e aqui funciona mais uma vez. Rosa não tem uma jornada muito longa, pois está próxima à linha de chegada e Momo não tem muito o que lhe ensinar, mas ainda é um vulcão ativo, onde amor, raiva e medo correm e se misturam. Sophia não chega a ter uma cena que funcione como um "Oscar clip" para a indicação que ela talvez receba, mas está magnífica como de costume. Sua química é palpável com o menino Ibrahima Gueye - um achado como ator, capaz de transmitir uma tonelada de emoções. A direção de Edoardo Ponti, filho de Sophia, é precisa e econômica, sem uma cena sobrando. Talvez se possa questionar a leoa em computação gráfica que aparece em duas sequências, mas ela é mais que compensada pelo uso de uma música de Elza Soares em uma cena deliciosa. "Rosa e Momo" emociona sem cair na pieguice, e mostra que as verdadeiras deusas do cinema têm brilho à prova do tempo.
   "Io Sì", que toca durante os créditos, é forte candidata ao Oscar de melhor canção. Laura Pausini gravou esta composição da americana Diane Warren em cinco línguas, inclusive num português quase perfeito. Pois é, amici miei: ninguém frequenta impunemente o programa do Serginho Groisman durante tantos anos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O MACARON DA RAINHA

Depois de uma longa e tenebrosa quarentena, finalmente voltei a colaborar com o programa "Metrópolis", da TV Cultura. Minha rentrée teve pompa e circunstância, porque a série sobre qual eu falei foi "The Crown", cuja quarta temporada chega neste domingo à Netflix. Aliás, eu já vi, e saiu crítica minha na Folha online.
 
Aproveitei minha lendária camisa de macarons para gravar mais um vídeo para o canal Manual do Tempo no YouTube, onde eu também dou dicas de séries. As contempladas da vez têm sabor oriental: "Um rapaz Adequado", na Netflix (mais sobre ela aqui, na minha coluna no F5), e "Teerã", da qual também falei no F5. Pois é, meus assuntos são sempre os mesmos (e a camisa, uma só).

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRESTA DO INTERIOR

A princípio, Biroliro não iria se envolver nas eleições municipais. Sem estar afiliado a nenhum partido, o Despreparado poderia preservar sua fama de imbatível e dar mais atenção ao verdadeiros problemas nacionaHAHAHAHA. Mas aí o Crivella implorou por apoio no Rio, Russomanno resolveu se candidatar em São Paulo e até o Carluxo quis ajuda do papi para se reeleger como o vereador mais inerte do Brasil. Sem outras questões graves para resolver, Boçalnaro se enfiou por uma fresta na legislação e está fazendo lives diárias, pedindo votos para apaniguados. Mas Crivella e Russomanno, em queda livre nas pesquisas, não estão sendo contemplados. Bozo prefere focar o Zero-Dois e uma miríade de desconhecidos do interior. Se esses zé-manés se elegerem, Edaír vai cantar vitória e manter a narrativa da invencibilidade. Ei, Trump, aprende como se faz.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

JANE BOND

Há anos que se fala em transformar James Bond em uma mulher. Sharon Stone chegou a ser cogitada para o papel. Também se pensou em fazê-lo negro (Idris Elba liderou as apostas) ou mesmo gay (Rupert Everett, quando ele dava mais caldo do que hoje). Agora sabemos que 007 será uma mulher negra, Noni, vivida pela atriz Lashana Lynch. A personagem será introduzida no próximo filme, "Sem Tempo para Morrer^, e depois estrelará seu próprio longa, quando Daniel Craig já tiver tirado o time de campo. A notícia fez com que meia internet reclamasse, mas não é para tanto. Lashana será a agente 007, mas não Jane Bond. Já  é meio sacrílego dar o número mágico para alguém que não se encaixe na criação de Ian Fleming, mas Noni será outra coisa. Empoderará uma geração de meninas, representará as mulheres pretas, etc. etc. Beleza, acho ótimo. Também é bom que não seja James Bond, uma fantasia sobre o macho perfeito - elegante, letal, pegador e com a autoestima nas alturas. Nessas horas, eu sou purista. Para mim, inclusive, Bond deve ser sempre moreno, e o atual é louro.

UM PRESIDENTE MARICAS

Não tem erro. Toda vez que o cerco se fecha ao redor de um de seus pimpolhos, Mijair Biroliro apela para a ignorância, na vã tentativa de desviar a atenção. Ontem o Despreparado soltou que a morte de um voluntário nos testes da Coronavac era "mais uma" que ele ganhava, ameaçou os EUA de Biden com "pólvora" e ainda chamou o Brasil de "um país de maricas", pois teríamos medinho de contrair o coronavírus. Nada disso ofusca o fato de que o Zero-Um agora está sendo formalmente acusado de embolsar dinheiro público. É um reles ladrãozinho - como, aliás, toda o resto da familícia. Mas vale destacar, mais uma vez, a obsessão de Boçalnaro pela homossexualidade masculina. Edaír não perde a oportunidade de tocar no assunto, sinal de que a viadagem ocupa um espaço privilegiado em sua cabeça. Será ele uma bichona enrustida, como tanta gente desconfia? Teria inveja do Carluxo, que canalizou sua sexualidade dúbia para uma poesia obscura de má qualidade? O Brasil, que fique bem claro, só teria a lucrar se fosse mais maricas. Maricas costumam ter bom gosto para tudo, além de um refinado senso de humor. Exibem competência nas mais diversas áreas e não fazem arminha com as mãos: preferem matar a alfinetadas. Mas Biroliro é maricas no sentido em que ele usa a palavra: o mau. É covarde, de índole frágil, incapaz de encarar os problemas de frente. Prefere se esconder numa nuvem cor-de-rosa de autoengano e fingir que é macho. Não tem culhão para ser viado.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

TRIO PARADA DURA

A esquerda teve um princípio de faniquito quando soube que Moro, Huck e Doria estão combinando de se juntar para dar um pau no Biroliro. "Ãin, com o Moro jamé, ele é malvado, ele é de extrema-direita". Não, não é, apesar de ter sido ministro do Bozo, a maior cagada de uma vida cheia delas. Fora que nenhum dos três convidou qualquer sigla à esquerda para entrar para a turma. Por enquanto, a ideia é formar uma coalizão de direita e centro-direita, par esvaziar o apoio ao Mijaír. Duas bandeiras que ajudaram a eleger o Despreparado, eles já levaram embora: o combate à corrupção e o ideário neoliberal. A ideia é deixar o líder da familícia falando apenas com o gado lunático, que não dá 10% da população. Mas quem seria o candidato desse pacto? Doria não vai abrir mão, mas, na minha humilde opinião de cientista político de orelhada, quem teria mais chances de seduzir o Brasil seria Eduardo Leite. o guapo governador gaúcho, que ainda não tem um passado que o condene. Enfim: a esquerda tinha mais é que torcer para que esse conluio dê certo, até porque será mais fácil derrotá-lo nas urnas do que a um populista sem caráter e sem escrúpulos. E também seguir o exemplo e formar sua própria frente ampla, talvez com Ciro na cabeça da chapa e Haddad de vice. Sem protagonismo de Lula, pelamor: veja os casos bem-sucedidos da Bolívia e da Argentina, onde as velhas lideranças ficaram na moita para que seus partidos voltassem ao poder.

A RAINHA DO CASTELO

Com apenas uma década de atraso, finalmente estou vendo "Borgen", a série dinamarquesa que pavimentou o caminho para "House of Cards" e outros dramas no bastidores da política. Não é tão eletrizante como eu esperava, mas é muito, muito boa. O que mais choca um espectador brasileiro é o fato de corrupção e incompetência, presentes em diferentes graus em todos os governos brasileiros, não serem grandes problemas lá na Dinamarca - e mesmo assim, assunto não falta. "Borgen" é como os íntimos chamam o palácio de Christiansborg, em Copenhague, que serve de sede para os três poderes e ainda tem salões e uma capela de uso exclusivo da monarquia. É lá que reina a primeira-ministra Birgitte Nyborg, papel que deu projeção internacional à sua intérprete: a maravilhosa Sidse Babbett Knudsen, que desde então tem filmado muito em inglês e francês. Sidse tem uma presença luminosa e se encaixa perfeitamente na categoria de mulheres mais velhas cuja beleza deve ser venerada (está com quase 52 anos). Outro ator que se deu bem por causa de "Borgen" foi Pilou (um sensacional apelido de Phillip) Asbaek, que depois fez o Euron Greyjoy de "Game of Thrones" E vem mais por aí: depois de um hiato de 10 anos, uma 4a. temporada foi anunciada para 2022.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

DE VOLTA AO VALE

Odeio quando uma diva beesha resolve fazer um álbum de rock ou country music. Lady Gaga quase afundou sua carreira com "Joanne" (que nem era ruim), de 2016, e Kylie Minogue seguiu pelo mesmo caminho com "Golden", de 2018. Neste sombrio 2020, as duas se redimiram. Gaga soltou "Chromatica", seu melhor trabalho desde "The Fame Monster", e agora Kylie - que nunca teve muita imaginação na hora de batizar seus discos - vem de "Disco". As faixas cumprem o que o título promete: são dançantes à moda antiga, dos anos 70, com letras escapistas e refrões pegajososos. Pena que a minha favorita, "I Love It", ainda não tenha clipe. De qualquer forma, o ano em que não pudemos ir à boate se revelou ótimo para a dance music. Além de Kylie e Gaga, também Jessie Ware, Sophie Ellis-Bextor e Dua Lipa lançaram ótimos trabalhos no gênero. Estamos trancados em casa, mas o vale continua fervendo.
 

A MOSTRA EM CASA - 3

Bati um recorde negativo. Assisti a apenas 13 filmes na Mostra de SP, quando costumo ver pelo menos uns 20 todo ano. Dois fatores influíram. O primeiro foi que sé me deu febre de festival na segunda semana, quando consegui entrar no Mostra Play pela minha TV. O segundo foi a seleção de filmes. Não tinha nenhum que estivesse descabelado para ver, e gostei para valer de só três:o documentário "Welcome to Chechnya", o iraniano "Não Há Mal Algum" e o português "Mosquito". Este último é o "1917" luso, até porque a ação se passa em... 1917. Um soldado de Portugal enviado a Moçambique, então ainda colônia, se perde do batalhão, e faz uma viagem iniciática ao cruzar o país africano. Ele cruza com feras, com um colega alemão tão desgarrado quanto ele, com uma aldeia onde só há mulheres e com mosquitos que lhe transmitem malária. No fundo, ele também é um mosquito: um pequeno intruso mal-vindo, capaz de provocar um grande estrago. A direção de Joâo Nuno Pinto é fenomenal, com ângulos inusitados, planos belíssimos e uma trilha eletrônica (!) que só irrompe em momentos-chave. Quem perdeu ainda tem esperanças. "Mosquito" é uma coprodução com o Brasil, e deve estrear (algum dia) nos nossos cinemas. Quando isso finalmente acontecer, irei ver de novo.  
"Luxor" é quase um episódio desse programas de viagem do GNT, com um fiapo de história unindo as belas paisagens egípcias. Uma médica inglesa que trabalha na guerra civil da Síria parte de férias para o Egito, onde viveu parte da infância e da juventude. A ONG para a qual a moça trabalha deve pagar muito bem, porque ela se hospeda no caríssimo hotel Winter Palace, o Copa de Luxor. Nesta cidade ao sul do Egito, onde se encontram alguns dos templos mais espetaculares do mundo, ela revê um antigo namorado local, e fica naquele chove-não-molha. Como no deserto chove pouco, o espectador sai sequinho desse filme.
   
E já que estamos às margens do Nilo, vamos subir o rio até suas nascentes, no coração da África. "Nossa Senhora do Nilo" se passa num colégio católico para as filhas da elite de Ruanda. A trama se passa em 1973 e prenuncia o massacre da etnia tutsi por seus rivais da etnia hutu, que chocou o mundo em 1994. O curioso é que, para meus olhos destreinados, os hutus e os tutsi são idênticos em tudo, tanto na cultura como na aparência física. O diretor afegão Atiq Rahimi mostra como os europeus incentivaram inimizades inexistentes em suas colônias, com consequências trágicas. Seu longa me levou para uma realidade que eu desconhecia, mas não chegou a me empolgar.
  
O fogo baixo também deixa morno "Mães de Aluguel", o filme de Naomi Kawase que irá representar o Japão no próximo Oscar. Apesar de durar quase duas horas e meia, o filme não chega a ser arrastado. Ele simplesmente não tem pressa em contar sua história, que nem é das mais incendiárias. Um casal adota uma criança através de uma agência; anos depois, aparece uma moça dizendo que é a mãe biológica do garoto. Kawase enfia flashbacks sem claquete no meio de sua narrativa, e às vezes foi difícil entender o que aconteceu antes do quê. O resultado é bonitinho, mas não muito memorável.

domingo, 8 de novembro de 2020

MADURAS, NO PONTO

Eu acho Kamala Harris uma bela mulher. Não só no sentido de sua história de vida, de filha de imigrantes que chega à vice-presidência do país mais poderoso da Terra e do exemplo que ela está dando a toda uma geração de meninas. Acho bonita mesmo, ainda que ela não se encaixe em nenhum padrãozinho. Bonita pacas, e não apesar dela ter 56 anos de idade: porque ela tem 56 anos de idade. De uns tempos para cá, me vi admirando mulheres que continuam bonitas depois da meia-idade. Na verdade, ficam mais bonitas. Acabei de ver a minissérie "Um Rapaz Adequado" na Netflix (solto ppst nos próximos dias) e me flagrei babando pela atriz indiana Tabu, esplendorosa aos 50 anos. Aqui no Brasil, acho que Glória Pires, Lília Cabral e Patrícia Pillar estão mais belas agora do que quando era mocinhas. E o que dizer de Anouk Aimée, que bate um bolão aos 86? Todas elas são mulheres vividas, que trazem no rosto os sinais de suas inteligências. Acho muito mais interessantes do que qualquer menina de 15 anos que saltou do ônibus direto para a passarela da Fashion Week. Nada contra as plásticas, mas também não precisa exagerar feito a Nicole Kidman. Estou virando hétero? Provavelmente não, porque os héteros costumam preferir as novinhas. Mas estou ficando velho também, e percebendo que a beleza se manifesta de muitas formas.

sábado, 7 de novembro de 2020

GOTTA LEAVE YOU ALL BEHIND...

...and face the truth, só que não. Alertado por seus assessores de que a vitória de Joe Biden seria confirmada hoje pela Associated Press, Donald Trump se mandou. Deixou o entorno da Casa Branca entregue ao carnaval dos manifestantes e foi jogar golfe, como se pudesse pensar em outra coisa. A estratégia de acusar os democratas de fraude só colou entre fanáticos como o Bananinha, e ele caminha para uma humilhante via-crúcis até o dia 20 de janeiro, quando certamente quebrará a tradição e não estará na posse de seu sucessor. O Bebê Laranja é obeso, mas seu caráter é pequenininho. Não é surpresa nenhuma que ele aja na derrota sem um pingo de dignidade, até porque é isso o que sua base espera dele. Outro dia eu escrevo um post discutindo seu futuro político. Hoje é dia de encher a cara, dançar o baile da favela e chutar cachorro morto.

(o vídeo acima é do final do ano passado e nem inclui o Biden entre os desafetos do Trump, mas funciona bem para o dia de hoje. Vamos aproveitar para tirar sarro agora, porque o Bebê sairá de cena em breve)

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A MOSTRA EM CASA - 2

Tentei me refugiar do imbróglio das eleições americanas nos filmes da Mostra. Nem sempre eram bons, infelizmente, como é o caso de "Shirley". O que no trailer parece uma comédia intelectualizada e perversa, na prática é uma variante de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf": um casal de escritores e professores universitários recebe um casal idem mais jovem, e as faíscas voam. Elisabeth Moss está fantástica como o esperado no papel-título, mas ainda é pouco.
Mais interessante é "Minha Irmã", representante da Suíça no próximo Oscar. A trama foca na relação entre um casal de gêmeos. Ela tenta cuidar dele, que está com câncer terminal. os atores estão todos ótimos e há uma cena em que o doente surta durante um salto de pára-quedas que é de arrepiar as sobrancelhas.
"Aranha" foi o indicado do Chile para o Oscar deste ano. É uma co-produção com o Brasil, o que agrante vários conterrâneos nossos na ficha técnia e Caio Blat no elenco. Mas quem brilha mesmo é a atriz argentina Mercedes Morán. Ela faz uma ex-miss que lidera uma organização terrorista de extrema-direita, cujo logotipo lembra a aranha do título. O grupo promove atentados desde o golpe que derrubou Salvador Allende em 1973, e agora se volta contra os imigrantes haitianos que estão se instalando por lá. Uma sequência eletrizante logo no início mostra um carro perseguindo um ladrão de bolsas pelas ruas de Santiago. Mais um bm dfilme de Andres wood, diretor de "Violeta Foi para o Céu". 
O tenso "Exílio" é o escolhido por Kosovo para cavar uma vaga no Oscar. O protagonista é um imigrante kosovar na Alemanha que acha que está sofrendo um bullying violentíssimo por causa de sua origem. No trabalho, ele não é chamado para reuniões e se sente esnobado por todos; em casa, ratos mortos vêm aparecendo em sua caixa de correio. Pode ser paranoia da cabeça dele, pode não ser. Fotografado em tons de verde e amarelo, o filme é claustrofóbico, mas seu desfecho não compensa o suspense construído ao longo de duas horas.

MAS PARA QUÊ TANTO DINHEIRO?

Em maio de 2018, a produtora O2 me chamou para um trabalho que eu nunca havia feito antes: escrever o roteiro de um documentário. O assunto  de "12 Moedas" nem era muito da minha alçada - a história do dinheiro no Brasil - mas o diretor Renato Rossi, com quem eu rodei alguns comerciais de pasta de dente, achou que eu traria um toque de humor para o projeto. Durante dois meses, tivemos reuniões com historiadores e economistas, e eu usei muito da minha memória dos tempos de hiperinflação. As filmagens aconteceram em agosto, e eu tive o prazer de conhecer pessoalmente FHC, o melhor presidente do Brasil in my lifetime. Seguiram-se muitos meses de montagem, porque o roteiro é só o pontapé inicial: um documentário nasce para valer na ilha de edição. Nossa grande preocupação ao longo de todo o projeto era que o filme não ficasse chato, deixando um tema meio árido acessível para uma garotada que só conheceu o real. Eu também tinha um medo enorme de cometer algum erro épico, confundindo datas ou explicando mal o que é curso forçado. "12 Moedas" ficou pronto no começo do ano e hoje finalmente vem à luz, no canal HBO Mundi, às oito horas da noite. Será reprisado várias vezes e também estará disponível na plataforma HBO GO. Já estou cantarolando mentalmente a música dos créditos finais, uma sugestão minha: "Saco de Feijão", na voz de Beth Carvalho. "De que me serve um saco cheio de dinheiro / Pra comprar um quilo de feijão..."

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

UM CASO DE BOTÂNICA

Era assim que alguns socialites dos anos 70 se referiam ao assassinato de Ângela Diniz por Doca Street. Segundo a moral cafajeste da época, um parasita havia matado uma trepadeira. Eu conheço o Doca desde pequeno: ele é primo da minha mãe e eu o chamava de tio. Tinha 16 anos quando o crime aconteceu e, contaminado pela minha família, torci pela absolvição. Mais tarde me dei conta do meu equívoco, e ultimamente tenho mergulhado nos detalhes fornecidos pelo ótimo podcast "Praia dos Ossos". Em oito episódios, o escândalo que abalou o Brasil é reconstituído pelas vozes de muitos de seus participantes e testemunhas. O efeito é mais potente que dessas séries da Netflix, e merecia virar filme. A triste conclusão é que, como Mariana Ferrer nos demonstrou, 1976 ainda não acabou.

CONSTANTEMENTE DEMITIDO

Rodrigo Constantino já ameaçou me processar. Não lembro exatamente quando ou por quê: só sei que ele se ofendeu com um post aqui no blog onde eu o acusava de homofobia, e me mandou uma mensagem super fofa. Na época ele escrevia na Veja, de onde foi despedido algum tempo depois. Nesta semana, já são duas as demissões. Constantino foi desligado ontem da rádio Jovem Pan. Hoje perdeu seu posto de comentarista do grupo Record, onde estava desde julho. Agora, na mídia tradicional, ele mantém apenas uma coluna na Gazeta do Povo, um jornal do Paraná escancaradamente reacionário. A causa dessas demissões foi a opinião que ele proferiu ontem sobre o caso Mari Ferrer, que eu nem preciso reproduzir aqui - todo mundo já viu. Muitos também já devem ter visto o desabafo de Laura, filha de Constantino, que soltou um vídeo onde o defende e o critica ao mesmo tempo. Ele agora se aterá ao seu blog e ao seu canal no YouTube, onde ganhou muitos seguidores de ontem para hoje (infelizmente, costuma ser assim quando alguém expele falas machistas, racistas ou homofóbicas). Mas o que me chama mais a atenção nesse bafafá é o fato de tanto a Jovem Pan quanto a Record terem mandado Constantino passear. A rádio é um notório bastião da direita, a ponto de ostentar o singelo apelido de "Jovem Klan". E a emissora dos bispos é a mais ardente defensora do desgoverno Biroliro, fã confesso de Constantino. O que as fez mudar de ideia? O defenestrado culpa as redes sociais e o medinho dos patrocinadores, mas há algo mais aí. É a famosa presença das mulheres em todas as esferas da vida contemporânea, inclusive nas redações. Outro dia, quase houve um motim na Globo depois que Caio Ribeiro passou pano para Robinho. Os machos tradicionais estão com uma dificuldade imensa para entender que o mundo mudou e que não dá mais para repetir as barbaridades que eles aprenderam com seus pais. Constantino acaba de sentir isso na pele (e no bolso), mas será que vai aprender alguma coisa? Duvido muitíssimo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

MEU PROVERBIAL PÉ FRIO

Bem que me avisaram para eu conter meu entusiasmo. Quem costuma me ler sabe que eu não devo torcer abertamente por ninguém, porque sou o Mick Jagger da blogosfera gay. Meus pés enregelados sempre atraem má sorte para os meus favoritos, e não falharam nesta noite de contagem de votos nos EUA. A vitória acachapante de Joe Biden não se materializou. O candidato democrata perdeu a Flórida por causa dos cubanos e venezuelanos de Miami, que acreditaram que ele é comunista. Vários estados onde ele liderava por margens estreitas acabaram caindo na conta do Trump, que teve um desempenho mais vigoroso do que se esperava. Mas os estados que ainda faltam neste momento - Nevada, Arizona, Michigan, Wisconsin, Pensilvânia e Carolina do Norte - tendem ao Biden, que não precisa levar todos para vencer no Colégio Eleitoral. O saco é que talvez só saibamos na sexta-feira. Enquanto isso, o Bebê Alaranjado já começou sua campanha para que os votos ainda não contabilizdos sejam simplesmente descartados, o que não tem respaldo em nenhuma lei americana. Ainda acho que o Biden vai ganhar - mas é melhor eu ficar quietinho.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

NÃO EXISTE ESTUPRO CULPOSO

Santa Catarina disparou nos últimos dias na disputa pelo título de estado mais retrógrado do Brasil. Não bastasse uma governadora que passa pano para o nazismo e o ataque à equipe da Globo na praia do Campeche, em Floripa, agora SC pode se envergonhar de ser o lugar onde nasceu a expressâo "estupro culposo". Essa figura inexistente do Direito brasileiro foi inventada por Thiago Carriço, o PROMOTOR, não o advogado de defesa, do julgamento de André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a youtuber Mariana Ferrer. Já o defensor do réu, Cláudio  Gastão da Rosa Filho - que tem Olavo de Carvalho e Sara Winter em sua fina clientela - humilhou a vítima e levou-a às lágrimas. Um comportamento que já era inaceitável 50 anos atrás, o que dirá agora. E o juiz Rudson Marcos não só não interferiu como aceitou os argumentos, inocentando o estuprador. O lado bom dessa história tenebrosa é que uma onda de indignação se levantou nas redes sociais. Mari Ferrer provavelmente terá advogados melhores e gratuitos, e até Gilmar Mendes já manifestou seu espanto com tamanha arbitrariedade. É importante divulgar os nomes de todos os homens envolvidos, para que eles sofram todas as consequências de seus atos. Os tempos mudaram, até mesmo em Santa Catarina. 

ATUALIZAÇÃO: A expressão "estupro culposo" foi criada pelo site The Intercept Brasil. Não foi dita pelo promotor Thiago Carriço, nem consta da sentença emitida pelo juiz Rudson Marcos. MAS o promotor disse, sim, que não houve dolo por parte de André de Camargo Aranha - o que, sim, equivale a dizer que o estupro foi culposo, não doloso. E nada disso altera o fato de que o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho usou os termos mais baixos para desqualificar Mariana Ferrer, que implorou em vão por respeito. Agora ele diz que suas palavras foram tiradas de contexto, mas o vídeo acima não deixa qualquer margem de dúvida.

O ALARANJADO EM SEU LABIRINTO

O mundo inteiro está com a respiração suspensa. Todas as atenções estão voltadas para Donald Trump. Como o Bebê Alaranjado reagirá à sua iminente derrota nas urnas? É muitíssimo improvável que ele alcance os 270 votos necessários para vencer no Colégio Eleitoral (vitória no voto popular, então, nem pensar). Mas o próprio já avisou que tentará de tudo para melar a eleição. Nossa melhor esperança é que Biden ganhe a Flórida de forma incontestável. O estado é um dos primeiros a contar todos os seus votos, e deve anunciar o resultado logo após o fechamento das urnas. Se a diferença for razoável, Trump já era. Também é bom prestar atenção na Geórgia e na Carolina do Norte, dois estados que costumavam ser vermelhos e agora perigam azular. Todos os três ganharão "needles" no site do New York Times: um gadget que parece um velocímetro, com uma agulha que aponta qual a tendência do eleitorado. Tomara que não seja uma noite de sofrimento como foi em 2016. Mas, e depois, o que pode acontecer?

- O pior cenário possível é um repeteco ampliado de 2000. Biden vence em um estado-chave por pouquíssimos votos a mais e a disputa se arrasta até a Suprema Corte, com a recém-empossada juíza Amy Coney Barret dando a vitória final para a República de Gilead. Duvido que isso de fato aconteça, mas não é impossível.

- Haverá violência? Também duvido, mas é bom ficar esperto. A extrema direita, quando sente o cheiro da derrota, SEMPRE apela para a pancadaria. Mas acredito que, se houver, serão episódios isolados. E pegarão mal para o Trump.

- Mais intrigante é o que pode acontecer depois da derrota. Se perder, Trump ainda terá quase três meses na Casa Branca. Poderá tentar fazer muita merda para atrapalhar o governo Biden - algo, alíás, que é de praxe quando os republicanos perdem. Também suspeito de uma possibilidade que não havia me ocorrido antes de ler um artigo a respeito: Trump renuncia, para que o presidente interino Mike Pence o perdoe por antecipação e ele escape da avalanche de processos que vem aí (parece que ele não pode perdoar a si mesmo).

- E ainda há o imponderável. O bebezão sempre saiu do script, sempre falou sem medir consequências, sempre pensou apenas em si mesmo e em sua família (lembra alguém?). Criou para si mesmo uma persona de eterno vitorioso, que se dá bem em qualquer situação. Ele queria ter deixado o hospital usando uma camiseta do Superman, como se tivesse se curado da Covid sozinho... Mas uma derrota fragorosa e incontestável pode causar um curto-circuito nesse robô sinistro, e mudar o destino da humanidade como num filme de monstro. Pipoca já!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A MOSTRA EM CASA - 1

Consegui entrar pelo Fire Stick no site MostraPlay, o streaming da Mostra de Cinema de São Paulo. O resultado é que eu vi na TV quatro filmes neste fim de semana, e verei outros tantos até o final do evento. Mas, como sói acontecer, nem todos foram bons. A seguir, algumas rápidas resenhas dos que eu já vi:
  
Proibido em seu Irã natal, "Não Há Mal Algum" venceu o festival de Berlim, e digo que mereceu mesmo sem ter visto os concorrentes. É um trabalho belíssimo no conteúdo e na forma, e uma crítica contundente - ainda que indireta - à brutalidade da república islâmica. O longa de Mohammad Rasoulof na verdade é composto por quatro curtas-metragens, que encaram a pena de morte a partir de um ponto de vista inusitado: o dos carrascos. As mini-tramas abordam desde a banalidade do mal até graves crises de consciência, e são filmadas de maneira elegante, sem artifícios. Alguns atores tem cara de brasileiro, o que serve para nos aproximar daquela realidade tão distante. Ainda tem ingressos: corra, vai te fazer algum bem.
  
"Stardust" tinha pinta de ser o "Bohemian Rhapsody" de David Bowie. Só que se trata de uma biografia não-autorizada, o que significa que não tem NENHUMA música composta por seu biografado. Para piorar, o roteiro não aproveita essa liberdade para contar nada muito ousado ou inédito sobre Bowie. Toda a trama se passa em apenas  um ano, 1971, quando o cantor já tinha emplacado um hit, "Space Oddity", mas ainda estava longe de ser famoso. Ele então embarca numa tour pelos EUA para promover o álbum "The Man Who Sold the World", mas não consegue fazer um único show porque não tem visto de trabalho. O Bowie de "Stardust" é um palerma. Não sabe nada da vida prática e fica rindo feito bobo diante de qualquer problema. Há um subplot sobre a loucura do irmão, que influenciou muito a obra bowiana ("a lad insane"), e um pouco sobre a relação com Angie, a primeira mulher. Mas o filme acaba justamente quando nasce Ziggy Stardust, a persona que catapultou David Bowie ao estrelato. Uma escolha inexplicável, que resultou numa patacoada indigna de um dos maiores nomes da música pop de todos os tempos.
 
Eu nunca tinha visto um filme de Tsai Ming-Liang antes de "Dias". Não sabia que esse diretor malaio de origem chinesa gosta de compor tableaux, com a câmera parada sobre uma cena onde, muitas vezes, não acontece quase nada. Isso faz com que este longa rodado em Bangkok seja até prático para ser visto em casa. A gente olha para a tela, confere o celular, vai até a cozinha e, quando volta, o tableau ainda não mudou. Tudo gira em torno do encontro entre um homem mais velho e um garoto de programa. Há uma cena de sexo sem nu frontal mas com um orgasmo que parece bastante real, e um clima lírico envolvente. Só não sei se eu teria adorado ou achado um saco se tivesse visto "Dias" no cinema. 
"O Charlatão", escolhido pela República Tcheca para disputar uma vaga no próximo Oscar, tem tudo para ficar entre os finalistas. A Academia vem demnstrando uma quedinha por filmes do leste europeu, ainda mais se a ação se passar na Sgeunda Guerra Mundial. Além disso, a diretora Agnieszka Holland já foi indicada outras vezes e trabalha com frequência em Hollywood. o roteiro dramatiza a história real de um curandeiro especializado em ervas, que tratou e curou milhares de pessoas sem jamais ter se formado em medicina. Mas ele acaba caindo em desgraça com o governo comunista, talvez por sua mal-disfarçada viadagem. Muito bem filmado mas sem maiores ousadias, é cinemão do bom, apesar do final insatisfatório.

DÁ O PÉ, LOURO

Os brasileiros temos uma relação complicada com a morte. Somos emotivos demais, e qualquer coisa que não seja um elogio explícito ao falecido é vista como ofensa por muita gente. É o que está acontecendo com a minha coluna de ontem no F5, em que eu fiz uma análise do fenômeno Louro José. Em nenhum momento eu questionei o talento do Tom Veiga. O texto nem era sobre ele, de quem o público sempre soube muito pouco. Também disse que o Louro era divertido e trazia leveza para o programa de Ana Maria Braga, falando coisas que ela não poderia dizer. Mas muitos internautas se fixaram na chamada, que menciona a infantilização da TV aberta brasileira, e partiram para cima de mim. Curioso é que a própria Ana Maria conta que o Louro foi criado para atrair as crianças... Fantoches existem na TV desde os primórdios, mas são raros os voltados para o público adulto (houve programas satíricos na Grã-Bretanha e na Argentina, por exemplo, em que políticos e celebridades eram representados por bonecos). Um papagaio falante ao lado de uma senhora tem algo de infantil, sim, mas talvez essa garotada não perceba porque não tem referência do que existia antes (eu cito a TV Mulher na matéria, que tinha uma pegada inegavelmente adulta). E aí, rola um efeito de manada. Alguém acha ruim, me xinga, e centenas de outros se sentem autorizados a me xingar também. A imensa maioria, sem nem ter lido o texto. O grosso da pancadaria rolou (e ainda está rolando) no Twitter, mas também teve quem entrasse no meu Facebook, no meu Instagram e aqui no meu blog. Sem falar do meliante que me mandou 10 vezes por SMS um suposto código para alterar a senha da minha conta no Twitter, na vã esperança de hackeá-la. Agora tenho uma ideia melhor do que o Zeca Camargo passou por causa daquele texto sobre a reação da mídia à morte de Cristiano Araújo, que, enquanto vivo, estava longe de ser um cantor conhecido em todo o Brasil. Enfim: Tom Veiga era um gênio e sua interação com Ana Maria, incrível. Sua morte precoce é de uma tristeza sem fim. Dito isto, eu não retiro uma palavra do que escrevi na coluna.

domingo, 1 de novembro de 2020

O FILME-PALÍNDROMO

"Tenet" era para ter ido o grande blockbuster do verão americano. Aí veio a pandemia, os cinemas fecharam e o filme foi sendo sucessivamente adiado. Essa demora toda fez com que a expectativa, que é sempre alta para Christopher Nolan, crescesse ao ponto da decepção ser inevitável. E ela veio. "Tenet" é uma bobagem colossal, com efeitos espetaculares e um roteiro mais confuso do que a cabeça do Trump depois da derrota. Nolan, que torceu o tempo e a percepção que temos dele em "A Origem" e "Interestelar", agora inventou que, no futuro, objetos poderão ter sua "entropia invertida", e o tempo correrá ao contrário para eles. Esse conceito quase abstrato é aplicado numa trama de dificílima compreensão, que mistura um traficante de armas russo, uma bilionária indiana, um depósito de obras de arte em um aeroporto nórdico e um atentado à Ópera de Kiev. O protagonista nem nome tem, e por isto a escolha de um ator sem carisma feito John David Washington (filho do Denzel) talvez tenha sido adequada. Salva-se minha adorada Elizabeth Debicki, vestida em modelitos que fazem que ela pareça ter cinco metros de altura. A soma de tantos elementos sem liga resulta num gigantesco WTF. O espectador não se envolve, o que faz com que "Tenet" equivalha ao palíndromo de seu título: parece bacana, mas não serve para nada.